Louças de família

Eliane Marques · Capítulo 6 de 14

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Louças de família

Capítulo VI

 

Oi Boa tarde. Agora eu estou em casa mais eu pozei com ela essa noite ela passou mal deu 2 convulsões nela e a glicose estáva muito alta e muito agitada.

 

Difícil estar em casa, porque difícil erguê-la para quem acostumou a vida amontoada em barracões nos fundos das charqueadas ou, quando muito, no quartinho da empregada, junto com as sobras ou, ainda, como agregada na propriedade de alguma senhora, situação conhecida das chamadas negras-dadas, estrangeiras demais para o interior da casa, familiares demais para seu lado de fora.

Minhavó comprou o terreno da avenida com nome de almirante ajudada por Mãe Joaninha. Já falei que ela ganhava um bom dinheiro costurando para mulheres ricas da cidade com nome de santa. O terreno deveria ser bem maior do que foi. Acontece que um vizinho cercou parte dele se aproveitando da demora de minhavó em ocupá-lo.

No intuito de evitar con ito, ou por não saber lidar com ele, minhavó deixou por isso mesmo. Sentia culpa por possuir algo de seu que não o próprio corpo – já uma grande conquista para quem atravessou o oceano feito objeto ou mercadoria de outros. De forma diversa de quem a antecedeu, possuía corpo e pedaço de terra resto do que beltrano ou sicrano não reclamou como seu.

As tábuas para erguer as paredes da casa vieram aos poucos, à medida que o preço coubesse no bolso do vestido de minhavó. Uma tábua cinco tábuas dez duas pregos parafusos depois a madeira para o piso. Depois o carpinteiro viúvo com a lha para criar. E o que mais fosse necessário. Tudo empilhado no terreno desacercado.

De fato, pareciam sem dona as coisas para a construção, tanto que um dia minhavó chegou ao terreno e o material e os instrumentos de trabalho adquiridos aos bocados haviam desaparecido. Sobrava um prego para contar a história. Para quem nunca teve nada, foi fácil perder o pouco que teve. Cansaço montado em suas costas, minhavó usava a palavra desacorçoada, uma vontade de cair de joelhos e gritar para sempre. Mas não podia car desacorçoada, tinha de viver, tocar a vida qual se toca uma manada de vacas. Não sei com que forças começou de novo. Minhavó aprendeu com Dona Nida um modo de evitar que lhe roubassem. Um combinado de trecos de sofrimento para impedir que um ladrão casse no mesmo lugar ao se ver re etido nele.

uma sandália de salto quebrado que tivesse pisado na merda de vacas e de gente

um pente de dentes largos, tipo garfo, que houvesse penteado cabelo enredado (a dor nunca sai dele)

cinco palhas de uma vassoura de palha que tivesse varrido a cozinha onde uma mulher fez feijão e o banheiro onde uma criança mijou

um trapo imundo rasgado de um tecido muito usado nas lidas da casa do tamanho de uma camisa de homem

o prego que sobrava para contar a história

Com barbantes branco e encarnado, o combinado foi amarrado ao tronco de um cinamomo que, de frente para a avenida do almirante, dava a sombra de sua copa à casa que ainda não estava.

Uma noite, quando minhavó foi visitar o terreno, viu um homem ziguezagueando wérewère, com algumas tábuas debaixo do braço direito. Minhancestra reconheceu as tábuas como pertencentes à obra pois no extremo de uma delas se grudava um caracol. Sem que ela precisasse iniciar o que não sabia – um con ito –, o ladrão caiu num buraco, pouco maior que um grilo, sobre o qual se assentou o fundamento da casa.

Desde então minhavó levantou joelhos e paredes. Nunca mais coisas desapareceram, pelo menos aí. O fato de não haver mais ladrões não signi cou o

m das perdas.

Talvez por isso seja tão difícil ouvir minhanalista com nome de ana quando diz que preciso abrir mão de alguma coisa, renunciar a alguma coisa. Descendo de muitas perdas. Uma delas vem do avômeu. Ele morava com sua família na cidade com nome de estrela. Conheci um dos seus irmãos, francisco; nunca o pensei como tioavômeu; era casado com uma mulher branca que tinha uma lha branca que tinha uma lha branca. Certa vez a segunda mulher branca da linhagem discutiu com o expaimeu em razão do modo como ele nos tratava, mais como suas escravizadas do que como lhas. O expaimeu também fora um branco para mim; e eu, para ele, apenas uma negrinha.

Fiz um desvio. Retorno ao avômeu boaventura, mas isso não signi ca que antes ele já não estivesse aqui.

Toda a sua família trabalhava num negócio próprio voltado ao feitio de colchões de palha. Os trabalhadores (isso os inclui) descobriram que não precisavam mais dormir diretamente contra as palhas espalhadas no chão puro. O dinheiro das vendas – e até iam bem – se guardava debaixo de um colchão de solteiro que servia de cofre. Acho que nessa época pessoas enegrecidas não abriam contas em banco ou não havia bancos nos locais em que viviam ou, se havia, elas (nós) não se viam autorizadas a cruzar suas portas de madeira de mogno majestosas. Dinheiro custou a ingressar em nosso dicionário. Pelo que aconteceu, também acho que a casa do avômeu não dispunha de cofres embutidos em paredes ou em lugares secretos tal qual se vê nos lmes. Ficava tudo à vista como nossos corpos um dia estiveram.

Houve um incêndio. Os colchões do comércio foram queimados. E também todo o dinheiro. Por isso, o avômeu resolveu tentar outra vida que não de palha. Mudou-se sozinho para a cidade com nome de santa, a pé. Lá pelas tantas, conheceu minhavó Anagilda, que já tinha lhas mortas E a e Evinha e sobrevivas Firmina e Malvina. O pai delas se perdera na cachaça, vocês sabem.

Me impressiona muito que o boaventura, bom partido, pois trabalhador e não borracho cujo único ou principal trabalho é beber, tivesse se casado com minhavó, lavadeira mãe de quatro lhas. Acho que isso do avômeu se transmitiu para minhas mãe e tias numa espécie de conforto ou comodismo que lhes permitiu suportar um pouco mais a vida ao lado de seus maridos. Se eu fosse minhamãe, tinha posto a porta abaixo com um chute de pé esquerdo. Mas iria para onde? Ao abrigo de quem?

Levantadas as paredes da casa da avenida com nome de almirante, Mãe Joaninha e, bem depois, outra irmã da minhavó, que chamávamos de tia China, seu nome mesmo era Adelina, foram morar lá com minhavó e avômeu. Não sei se aí foram felizes.

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