Louças de família

Eliane Marques · Capítulo 2 de 14

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Louças de família

Capítulo II

 

Bom dia Quero solicitar a ajuda para realizarmos a cirurgia da Mãe Eluma, na cidade com nome de santa o que ela tem não é realizado tal procedimento, ela tem uma obstrução entre o fígado e o Pâncreas que faz a bílis liberar o líquido para o corpo, diante dos muitos dias que ela se encontra com está situação e sua idade, há necessidade de fazer já na quinta-feira na cidade com nome de senhora, mas de forma particular. Valor e R$ 8.000,00 E um pacote de internação, cirurgia e anestesia, preciso de ajuda para pagar R$ 4,000,00 pois o outros a patroa dela estará dando, vou colocar minha conta e quem deseja me ajudar para pagarmos o restante deposite e confirme o valor depositado. Dia da cirurgia dia 09/01/20

 

Consultei a wikipédia. Lá diz que, originalmente, em latim, o órgão doente da minhatia se denominava iecur. À época, não sei qual nem exatamente onde – suponho que idade média –, o animal cujo iecur fosse destinado ao estômago das gentes do continente da mulher que amou (ou foi estuprada por) um boi da cara branca era antes bem cevado com go. Ao iecur cevado se acrescentava a palavra ficatum e se dizia iecur ficatum, designação da qual deriva o nome do órgão nas línguas romances (português e galego fígado, asturo-leonês fégadu, castelhano hígado, francês foie).

O órgão secreta a bile ou o fel, conforme eu não aprendi nas aulas de ciências. Tia Eluma costumava dizer de bebidas ou comidas mal preparadas isso é pior que fel ou isso aqui é um fel. Do seu modo de falar, encaretando o rosto que ainda estava na idade média da vida, eu presumia que fel fosse veneno. Agora aprendi que não é bem assim, fel apenas o outro nome da bile. Contudo, bem ao nal da vida, fel acabou sendo mesmo o sinônimo do veneno que se esparramou pela miudeza de seu corpo.

A pessoa que pede dinheiro é o pastor richard. A Mãe Eluma será levada para um hospital na cidade com nome de senhora, porque, na cidade com nome de ana, onde ela sobrevive, não há leitos ou equipamentos adequados no nosocômio. Adoro a palavra nosocômio, pensei que fosse sinônima de hospício, mas me equivoquei. Cada uma escolhe seus próprios equívocos, disse minhanalista. Cada um escolhe seus próprios sinônimos, digo eu.

Conheci essa palavra quando enlouqueceu o zé. Muito jovem pele clara cabelo de um cacheado miúdo nem alto nem magro nem gordo nem baixo nem preto nem branco boa gente trabalhador estudante jogávamos vôlei na calçada da casa da minhavó. zé era um dos irmãos da minhamadrinha, mãe do bom pastor que me escreve. Morava com ela e padrinhomeu numa peça nos fundos da casa deles que, por sua vez, foi construída ao lado da de minhavó.

O zé, desejoso de subir na vida, não queria que as pretendentes descobrissem sua morada na casinha anexa à da minhavó, uma casa de madeira verde-musgo com uma única janela frontal verde-bandeira, onde ele morava com uma “dona de casa”, um tipógrafo e seus três lhos. Quando seus interesses amorosos despontavam na outra quadra da rua com nome de enforcado, ele corria para se sentar no muro da casa do betinho, lho do seu betão, bem mais bonita. O zé

cava lá, em posição de dono, se sendo, por um momento, lho do casal branco

daquela linda casa de alvenaria. Casa de alvenaria gorda.

Até hoje eu não sabia bem o que signi cava uma casa de alvenaria, então fui procurar no amansaburro digital. Amansa burro é nome grosseiro, como eram grosseiros os doces de batata-doce que minhavó fazia. Fiquei com medo de usar tal grosseria neste texto, mas, como se trata de uma verdade verdadeira, melhor não a esconder da leitora. Nos meus tempos de escola, usava-se a expressão para designar qualquer dicionário. Nos meus tempos de hoje, voltando ao amansa digital, soube que uma construção de alvenaria pode ser comparada a um corpo de alguém ou ao modo de ser de alguém. Por exemplo, alvenaria insossa se diz da construção com pedras justapostas sem argamassa. Alvenaria gorda se diz daquela cuja argamassa é rica em cal. Alvenaria magra aquela feita com pouca cal ou com pouco cimento.

O zé era sem sal sem açúcar que nem uma casa de alvenaria insossa.

Um dia ele amanheceu como se feito de alvenaria gorda oh clara, morena lengua del río Troumasse, calentado y emboscado por el sol, con lavanderas y hojas

viejas y vientos que ocultaron sus viejas canciones en archivos de bambú 13 . Disseram que ele havia enlouquecido.

Não sei que tipo de loucuras fazia senão oh, mar, que dejas tus aldeas de barro cuarteado y hojas de zinc, tu coro de maíz barbado en trágicas milpas, tus hijos como negras rocas de petrificados orígenes. Só que disseram que ele estava louco.

A palavra com que o designavam já me dava medo. Eu tentava passar bem longe dele para evitar que me pegasse ah, mon enfance! Asfixiada bajo las nubes de algodón de la enfermedad, envuelta con los sinuosos aromas del incensario, sepultada con campanas, bañadas en alcohol de lima y flores amarillas. E eu passava gorda de medo do outro lado da rua.

Depois de meses que contemplaba ríos como sierpes retorciéndose en el cielorraso, ele foi recolhido das ruas feito um cão raivoso e levado para um hospital psiquiátrico na capital. Eu já nem estava mais na cidade com nome de liberdade quando do seu retorno liberto da suposta loucura, mas não do apelido de “zé louco”.

Sempre tive medo da loucura, de me debater as xiada debaixo de suas nuvens de algodão. Sempre temi essa doença que não se sabe onde, essa doença que não exige um órgão em que se depositar a culpa, essa doença cujo órgão culpado não pode se arrancar com uma faca como se arranca a laranja podre de uma árvore. Uma loucura como a do zé, uma loucura como a do expaimeu cuyas canoas de rajada calabaza guardan las muertas esperanzas de las larvas.

Não, minhatia não estava wérewère, ela não seria levada para um hospício. Ela seria levada para um hospital na cidade com nome de senhora. E, feito cabaças que guardam as esperanças das larvas, parece que, para o deslocamento ao novo nosocômio, ela contou com a ajuda da patroa- lha-herdeira, que se dispôs a doar a metade do dinheiro de que sua doméstica precisava para estancar o vazamento da bile. É provável que tal ato tenha se feito acompanhar de uma frase comum aos que exploram o trabalho e a vida das outras vou lhes ensinar a pescar e não lhes dar todo o peixe. Espero que minhatia e os no seu entorno não tenham pronunciado a odiosa frase que coroa a ação desses educadores, mas ela é tão boa.

Ela é tão boa eu ouvia da Alesọ e da minhavó paterna e, às vezes, daquele que foi meu pai. Qualquer aparente fuga da rotina de exploração por parte de patrões e patroas, os parentemeus próximos consideravam a extrema bondade, elevando-os à santidade. Por certo, tal caridade não passava da devolução da milésima parte de alguma migalha de um todo do qual antes seus patrões haviam abocanhado.

 

Amo aimé césaire, porém não me é possível, como foi a ele, me preservar de todo ódio. Impossível não fazer de mim essa mulher de ódio, para quem apenas devo ter ódio. Apesar desse sentimento condenado pelos bons cristãos e pela boa etiqueta, que sempre têm elogios para as mulheres negras de fala algodoada, também não é por nenhum amor tirânico que arranco do meu corpo estas memórias.

Tendo lido o manuscrito do que espero seja um livro, alguém me aconselhou ser menos direta, usar mais metáforas ao confessar o amoródio que serpenteia na sola de meu sapato de salto. Contudo – e infelizmente –, tenho que me valer de um excesso de concessivas. Contudo, dispenso dias sem danos nos meus espinhos de porco-espinho. Preciso expor o peso dos quatrocentos anos de insulto de paciência de esforços herculanos para apenas querer viver um pouco. Nisso também me aparento a césaire.

Contudo, no momento, decidi dispensar a leitora do convívio com esse sentimento. Ficará encoberto. Oferecerei a outra face, não a minha, mas a de um irmão de minhabuela que desgostava, palavra mais palatável, dessa gente “tão boa e tão caridosa” tanto quanto eu desgosto.

 

Respiração pausada, quase de cinco em cinco minutos, olhos inchados pelo sangue dos bois, sangue que ele bebia feito cachaça em taças de latão, pupilas que pareciam querer avançar sobre as louças, o irmão da vovó havia abandonado tempranamente a cidade com nome de santa. De pequeno se internara lá pelas bandas do país do rio dos pássaros pintados, levado por um fazendeiro ricaço a quem prestava pequenos serviços de morte em troca de inhapa. Diziam que ele mesmo vendera sua morte em troca não sei bem de quê. Na vida guapa vivendo de inhapa quis voltar aos pagos para se vingar, na vida guapa vivendo de inhapa quis voltar aos pagos para remoçar, disse a boca que o chamava junguzu, embora seu nome de batismo fosse gontijo.

Avental de estopa faixa na cintura e já num gole de canha para espantar o calor, avental de estopa faixa na cintura e já num gole de pura para espantar o calor, ele parecia ter a cabeça grande desa xada do pescoço. Falava horrores com sua língua grande e, enquanto falava mal das gentes endinheiradas, um vapor quente saía com força do seu nariz. Eles cortam da gente, eu corto deles; eles tosam da gente, eu toso deles, ia por aí ruminando junguzu, com seu martelo de ferro, como também se chamava a tesoura do esquilador.

junguzu, o esquilador, comia o que o lixo lhe dava, mas estava sempre com fome. Minhavó receava as artimanhas de sua negrura, semelhantes ao velo tosando a martelo que quase o envelheceu. Enganava todo mundo de quem podia subtrair dinheiro grande. Quando criança, Anastácia o amarrava a uma

gueira na frente da casa para que ele não ganhasse a rua. Mas aí mesmo, na

lábia, enganava os passantes, ganhando favores.

Minhavó não o entendia, assim como vocês não devem o estar entendendo. Minhavó não o entendeu quando ele envidou os pagos numa só parada, 33 de espada, mas perdeu de mão. Não é que junguzu desejasse sair da plena penúria. Seu desejo era mesmo o de enterrar gente rica na mais nobre pobreza. Disso, não fazia nenhum segredo. junguzu se nomeava o coveiro da riqueza.

Retornado à cidade com nome de santa, em vez de se hospedar num colchão em um canto da casa da vovó, resolveu se agregar a um estancieiro a m de lhe prestar serviços na criação de ovelhas-ideal. Além disso, junguzu cuidaria das outras propriedades do tal dom guarisco – a mulher e os lhos.

Quando era tempo de tosquia e o dia já amanhecia com outro sabor, com avental de estopa faixa na cintura e já num gole de canha para espantar o calor, junguzu reunia a peonada, alguns de pelo já curtido. Os esquiladores os tosadores, com seus braços rijos do compasso das tesouradas no velo do animal, iam se passando a canha e abrindo os ouvidos para ouvir o irmão da minhavó.

Cansado de tudo isso, depois de uns meses servindo o paraíso de larvas, como ele dizia, aproveitou uma madrugada de lua minguante para armar o mosquedo. Durante o sono coletivo, se levantou de mansinho com os pés enchinelados,

ngiu que ia aos fundos da casa apenas esvaziar a bexiga, pois que não há serviço

bem-feito com ela cheia. Desafogado, num tufo de mato seco colocou duas ou três brasas, depois pôs o tufo numa folha de palmeira. Aproximou-se de uma das janelas do quarto do senhor e sua senhora. Seu melhor braço abriu a janela e jogou para dentro do cômodo a folha de palmeira. As chamas se espalharam e atingiram toda a propriedade.

junguzu gritava que estava perdendo todo seu dinheiro no incêndio, assegurava que o havia depositado dentro de uma talha cuja guarda entregara ao dono da casa e das gentes. Para os muitos curiosos que chegavam atraídos pelo fogo, ele repetia e repetia a história, quase um pesadelo que arrepiava o couro curtido do esquilador. Apontava as tesouras de esquila como se fossem seu dedo indicador para o nariz do estancieiro e insinuava que ele pagaria bem caro pela perda do dinheiro. Tudo se queimou. Sobraram cinzas. Mas junguzu continuava reclamando seu dinheiro. Quem vendeu tesouras na ilusão povoeira, volte pra fronteira para se encontrar. Quem vendeu tesouras na ilusão povoeira, volte pra fronteira para se encontrar. E junguzu se encontrou.

Como alguém que não quer se encrencar com quem tem mortes entalhadas no rosto, guarisco entregou o valor reclamado com empréstimos de estancieiros da região. junguzu não cou rico, mas guarisco cou sem ter onde cavar sua tumba, perguntando para a própria vida pronde foi a lida que ele conheceu,

perguntando para a própria vida pronde foi a lida que ele conheceu. 14

 

Se acham que sou rancorosa como junguzu, saibam que Ioiô deixava parte do seu mísero salário com essa gente dona de campos de gado de indústrias dona de gente hoje ontem. Não me perguntem por que motivo ela fazia isso e, pior, por que eles aceitavam car com parte do dinheiro dela todo nal de mês. Talvez fossem dela mesma os quatro mil doados para a prorrogação de sua vida. Ainda que não fossem, outros muitos milhares nunca entregues a ela, com certeza, o eram.

Minhanalista com nome de ana me assinalou que tia Eluma talvez não pudesse manter o dinheiro em suas mãos próprias. O dinheiro as queimava. Para ela, sobreviver era servir. Sobreviver era pensar que teria uma poupança nas mãos de gente branca que saberia agir para evitar a queima do dinheiro, uma gente que saberia mantê-lo cativo. Tia Eluma, assim como o zé, tinha lá sua loucura. E eu tenho cá a minha.

O problema é que não apenas os brancos estavam ou estão nesse lugar de quem se apropria; se o fosse, talvez menos difícil resistir. Tudo se torna mais grave quando os próprios semelhantes na negridão exercem a tirania.

O expaimeu exercia essa tirania comigo. Ou eu me submetia à tirania dele. Ou seria uma loucura familiar? Eu não sabia como me desviar do soco. Mesmo tendo dinheiro su ciente para viver, ele fazia com que eu lhe mandasse, todos os meses, boa parte do meu salário. Isso durou quase trinta anos. Ele tinha, inclusive, um cartão de crédito como meu dependente. O expaimeu fazia a mesma coisa com Alesọ, que tinha de entregar a ele parte do seu dinheiro de empregada doméstica e depois de comerciária; e com minhirmã, forçada a dividir com ele o seu salário de professora. Eu soube mais tarde que ele gastava o dinheiro explorando a prostituição de outras mulheres.

Sua violência conosco diminuía quando lhe dávamos o dinheiro a que ele achava que tinha direito por nos ter “criado”. Passados dois ou três dias, sua costumeira tirania retornava com ainda mais força. O dinheiro acalmava o monstro como a injeção de certa fórmula química tranquiliza um louco. Contudo, em troca da paz, nós perdíamos a possibilidade de construir um espaço próprio de segurança que não fosse o labirinto construído pelo rei minos.

Quando criança ou até adolescente, o minotauro me mandava comprar garrafas de cachaça num armazém que cava quase lá no limite da cidade vizinha com nome de general. Eu ia buscar parte do veneno que estava nos matando. Levava uma bolsa para escondê-lo dos vizinhos. Se havia dinheiro, era velho barreiro; se não, qualquer cachaça servia.

Curioso é que o nome do touro de minos até rima com o nome da fera que eu alimentava e da qual ainda não estou totalmente liberta. Às vezes, eu tinha vontade de furar seu fígado cheio de cachaça com uma faca de cozinha. A qualquer pessoa que ameaçasse nos trazer socorro ou conforto ele emprestava a alcunha de monstro, tia Eluma uma dessas socorristas. Depois, acho que ela cansou das tentativas de entrar no labirinto sem o o de ariadne.

Iecur ficatum. O primeiro e único marido dela, o pai do tokô, também tinha algum problema no fígado, dizem que derivado da cachaça. Não o conheci. Não deu tempo. Ele foi assassinado por alguém num baile. Lhe furaram o fígado com uma adaga no dia em que o tokô nasceu. Não falarei mal do morto. Apenas tenho uma dúvida: ele estaria no baile comemorando o nascimento do lho? Mas havia rumores de que o lho não era dele, e sim de um sujeito chamado crânio, que minhatia, muito nova de idade, conhecera na saída da mid-century.

Na função de pai do tokô cou o avômeu boaventura. Com o pano de prato sobre um dos ombros, secava a louça arrastando os pés no chão cimentado da cozinha. Baixo gordinho amarelo. Não deixava tia Eluma corrigir ou ralhar com o lho postiço, que não escutou mais ninguém depois que ele se foi.

Vocês dirão que sou maria vai com as outras, que sofro com todo mundo. É verdade, sofro. Minhanalista diz que quero ocupar todos os lugares, da tia, do primo, da sobrinha, do que sofre, do que é sofrido, que quero ser a mais infeliz, a mais sofredora e também a mais pobre ou a mais rica.

Não importa, eu sofria muito com o tokô. Tia Eluma o chamava de quinho ou kinhô. kinhô não tinha riqueza não tinha fazenda não tinha arroio não tinha pro ssão não tinha pai não tinha lho nem ciência nem religião não tinha roupas para lavar nem casa para limpar vagabundeava sem paradeiro pela cidade com nome de ana sempre com as melhores roupas os melhores sapatos o melhor perfume gostava de se gabar de ser admitido nos clubes dos brancuricos da cidade com nome de santa desenhava muito bem muito inteligente esperto quase malandro. Todo esse melhor comprado com o dinheiro da serventia de sua mãe como doméstica na casa dos brancos. Desde que me sei de mim, lembro-me dele já jovem adulto, considerado o tempo do relógio de ouro que ele utilizava no pulso.

No natal, tokô perambulava sozinho por várias casas, inclusive pela minha, digo, do expaimeu, na época, o pai. O expaimeu não gostava dele, o que nenhuma novidade, pois desgostava de todo o mundo conhecido. Já vem esse vagabundo! Alesọ cava sem saber onde meter as mãos. Então oferecia doce ou salgado para a visita. Ela, nunca ruim ou agressiva com ninguém, ainda menos com o lho de sua irmã, cava entre a cruz e a caldeirinha. Terminada a refeição, tokô saía não sei para onde em busca de não sei o quê e nós cávamos sob a guerra armada pelo pai assassino da gente de seu povo sem jamais sofrer da culpa que fez de Ogum um orixá.

Essa pessoa talhada ao meio com o machado que minhavó escondia num canto da cozinha, tokô, o garoto cortado que tinha de ceder sua mãe para uma família branca rica repleta de lhas loiras lindas em troca de uma prosperidade postiça que ele aparentava gosto em ostentar. Se entende por que aspirava brancura.

Lembro-me do nome dessas que foram as meninas da família que minhatia servia. Hoje são socialites na crise da meia-idade; enquanto minhatia, uma morta velha com as contas impagas. Uma, luísa, chamada de zuzu; outra, mais velha, adelaide, laide, com certeza; a do meio, lala, acho que úrsula; e a temporã, que não conheci, cila, priscila. Elas formavam o centro da vida da tia Eluma lá no casarão mid-century. Minhatia serviu a mãe da mãe delas, depois serviu a mãe e o pai delas. No nal da vida, continuou servindo uma delas, a que cou na cidade com nome de santa. Louça da família, tia Eluma passou de uma geração a outra.

Eu me sentia meio tokô, também cortada, a pretinha destinatária dos brinquedos gastos, aquela que não podia ter apelidos charmosos – zuzu laide lala cila – nomes que se encontrariam num elenco de novela da tevê globo. Eu era menos um nome que morria de inveja por não ser bonita nem rica, en m, por não ser branca, por não poder chamar minhatia de Ioiô, como elas faziam. Ioiô, um nome reservado à família branca.

Tia Eluma usava esses disfarces de Ioiô ou de Mãe Eluma conforme a força das circunstâncias do território onde deveria servir. Seu nome cambiava como o camaleão, mas a servidão era constante. Para ela, o mundo se mantinha pantanoso e cheio de água, um lugar inóspito em que apenas se servia os outros. Para ela, não existia terreno onde pisar; Orixanlá acabara de depositar a terra da concha; a pomba e a galinha de cinco dedos haviam ciscado para espalhá-la. Porém, minhatia, o camaleão enviado por Olorum para veri car se a terra estava

rme e seca, não retornava ao Orum com uma resposta positiva, cada vez mais

adotava a forma do mundo pantanoso onde estava perdida.

Não sei por que acho que essa gente branca deveria pagar a morte de minhatia, essa gente que ela pariu ou viu nascer e ajudou a criar. Essa gente de quem recebeu o nome-camaleão de Ioiô. Agora já não pode mais servir essa gente, lavar suas roupas sujas e limpar seus banheiros de mármore carrara. A morte lavou seu negrume. Terão que arrumar outra que se dobre a seus gostos de apelidos dissílabos.

 

No natal e no ano-novo, meia-noite terminava seu expediente. Ia para casa, na subida do grêmio, a pé e rápida. Talvez ainda desse tempo para ver o reveion da globo na tv a válvula. Na bolsa, trazia os restos de ceia da brancura caridosa.

Desculpem. Não sei escrever aqueles textos em que tudo parece ordinário, em que tudo parece nascido das escolhas que a pessoa fez na vida. Não sei escrever textos em que a raiva não desponte. Não consigo fazer de conta que esse defeito em mim não existe. Agora, se a raiva era dela ou deles, não sei. Também não sei se a tenho que dividir em dois lados, como os cômodos da casa da vovó, ou mantê-la íntegra como raiva, apenas raiva, uma palavra sólida e rastejante, um bicho-carpinteiro sobre as cascas do corpo.

Quem me pede ajuda na abertura do capítulo é primomeu. Ele realizará o derradeiro ato de mandar cortar a luz da casa de sua Mãe Eluma. Mandar cortar a luz corresponde a mandar apagar o fogo que minhavó tinha a missão de manter aceso. Engraçado. O avômeu fora empregado da companhia estadual de energia elétrica na cidade com nome de liberdade. Trabalhava como eletricista. Depois que morreu, minhavó e suas lhas mantiveram acesas as luzes da casa. Depois que minhavó morreu, minhatia manteve acesas as luzes da casa. Com sua partida, não sobrou quem se animasse a isso. Talvez, como em Ruanda, acender e manter o fogo seja um serviço exclusivo das mulheres.

Em determinado momento, enchi o saco de livros escritos por gente branca, que fazia de sua vidinha enfadonha a melhor e única matéria para um poema ou romance. Cansei desse narcisismo em que um texto apenas ecoa outro. Peguei verdadeiro horror. Comecei a ler escritoras negras. Conheci Scholastique Mukasonga, cuja fotogra a comigo é capa do meu celular. Mukasonga, lha de Stefania, protegida por Stefania, conta que sua mãe era a guardiã do fogo que, no centro do inzu, nunca deveria se apagar. Se acaso apagasse, Stefania teria de buscá-lo nas vizinhas. Num tufo de mato seco, ela colocaria a brasa e, então, guardaria tudo numa folha de bananeira até chegar ao inzu. A mulher que andasse muito nas vizinhas buscando fogo seria vista como péssima dona de casa. Stefania se negava a usar fósforos, levados para Ruanda pelos padres brancos junto com males piores.

Em sua casa, minhavó também era guardiã do fogo. Ela se negava a usar o fogão a gás comprado a muitas prestações por tia Eluma. Preferia o fogo verdadeiro das brasas de lenha se espalhando pela chapa do fogão e aquecendo toda a cozinha como se sempre primavera.

Não havendo mulher que mantenha viva a ilusão do fogo, esse primomeu, um bom pastor da igreja dos comensais da mesa de deus, mandará cortá-lo como se corta a raiz de um pecado. Num texto de cujo título não me recordo (e agora estou com preguiça de procurá-lo), freud conta que o homem primeiro tinha a mania de apagar o fogo com o jato de sua urina. Primomeu fará isso.

Quando criança, eu, pouco mais velha, o ensinava a fórmula de báskara o teorema de pitágoras e bobagens semelhantes. Ele sonhava com muitas coisas que agora condena. Sonhos que se quebraram como um prato partido ao meio. Pastor richard, assim hoje é conhecido, mas ricardo o nome constante de sua certidão de nascimento. Ele ainda chama minhatia de Mãe Eluma; às vezes, a chamava de Didum. Didum ajudou em sua criação, embora não fosse sua mãe biológica. Era mãe do pablo, um menino meio loirinho. Isso deu muita dor de cabeça e muita briga com o tokô, o lho mais velho, bem mais preto e bem mais sofrido.

Não sei em que época e nem por que um homem quase loiro magro nem alto nem baixo cabelo ralo vesgo foi morar na casa da minhavó. Tia Eluma teve um

lho com ele, o pablo. O tal homem sumiu em direção à nova capitania. É difícil

dizer de modo seco e rápido, mas foi assim. Quando vimos, ela já estava com a criança na barriga. Houve amor romance apenas sexo? Quem sabe?

A pele escura bem escura do rosto dos braços das pernas do tokô estava recoberta por quadradinhos irregulares brancos, como se ali riscados com a ponta a nada de um giz. Lembrava mais a pele de um peixe com a doença dos pontos brancos de algodão. Soube que ele teve uma única namorada, branca como os pontos de algodão de sua pele.

O garoto cortado morreu com mais os menos cinquenta anos, ainda na casa de sua mãe ainda sustentado por ela ainda batendo nela no cubículo desjanelado em que ambos dormiam ainda sendo por ela chamado de kinhô. Parece que um botijão de gás de cozinha caiu sobre ele, esmagando seus órgãos internos, especialmente o fígado. Foi hospitalizado, mas, como disseram, antes de o botijão machucá-lo, seu corpo já havia sido consumido pela cocaína, sua mãe branca. A mãe negra servia, mas não o su ciente para a demanda de suas narinas.

Alesọ sofreu muito com a morte dele. Foi um dia de muito frio. A geada cobria os pastos da cidade com nome de santa. Nunca me perguntei se ele foi feliz, não estive na sua despedida, mas não me importo com isso. Me importo, sim, se a mãe dele, tia Eluma, foi feliz, ao menos em algum momento e lugar que não fosse na mid-century ou no céu de irene.

 

13 Partes de poemas de Derek Walcott.↩

14 As referências desta parte da narrativa são da música tradicional do Rio Grande do Sul chamada

“Esquilador”, de Telmo de Lima Freitas.↩

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