Louças de família

Eliane Marques · Capítulo 1 de 14

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Louças de família

Capítulo I

 

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I

 

Bom dia estou vendo com alguns familiares para me ajudarem pagar o velório da Mãe Eluma ficou em 2,770,00 eu entreguei 1450,00 E ficou 1320,00 para junho dia 08, o pablo e a Meine vão ajudar, pois tenho a água dela e luz que eu vou desligar e mais uma conta de roupa que ela fez em janeiro com uma irmã da igreja as roupas falta 256,00 pois eram 7 de 64,00 está faltando 4, luz e 46,00 + água metade dela, metade Maria Antônia RS 167,00, Se for possível me ajudar toda ajuda é bem vinda.

 

Sobrou isto de sua morte. As contas impagas. Luzágua blusas calçassaias camisetas jesus também te ama compradas a prazo de uma irmã da igreja, tão pobre quanto convicta da superioridade carola. Coisas pequenas tão enormes para aquelas que as suportam, para as que caram com o dever de pagar, de manter limpo seu retrato. Conta de celular? Não sei, acho que não usava.

O legado dessas contas me dói feito sapato de salto no bico apertado. Dele não posso abrir mão, como não posso renunciar ao medo de um nal supostamente pequeno, supostamente mesquinho, num hospital onde tudo falta numa cidadezinha que não se decide entre nome de santa nome de ana ou de liberdade. Temo que a vida me seja cortada com faca de cabo de prata, que a morte cara de vaca, capa vermelha espartilho vermelho, olhe para mim pelo espelho e me meta sua língua cor de melancia. Temo que a vida me seja cortada mesmo sem faca. Fim pequeno de uma vida que pereceu pequena. Tudo isso eu temo.

Mas foi assim como agora penso?

Posso pensar minhatia pelo que de mim eu temo?

Não estive em seus últimos dias. Ela não esteve nem no começo nem na metade dos meus. Recebi um aviso – E com tristesa que estou te avisando que a Tia faleceu a gora as 22h. A sensação de que fui ausência funciona no modelo de

máquina de cortar ossos. Ou de fazer guisado para acoutar1 lenta e simetricamente o sentido de culpa. Ou de vergonha. Sei disso, pero paciência. Nenhuma autoridade jurídica ou eclesiástica disse que ela deveria ter estado comigo em tais momentos ou que eu deveria ter me sentado à cabeceira de ferro de sua cama de enferma, pernas cruzadas saltos quebrados de bico no, no ato do corte disso tudo que foi tanta miudeza.

Transmiti ao portador da má notícia meu pesar.

Foi-se sem dor para o descanso eterno, graças a deus – me disse ele.

Para quem a azáfama doméstica sob o mando delicado das louças foi tão eterna quanto o céu, ainda receio que minhatia tenha de ser autorizada a transpor seus portões de ouro branco por um homem translúcido que manobra bem a frase-farsa de que ela está dispensada de pedir licença. Entra, Eluma, apesar de nem tão boa e nem sempre de bom humor, tu não precisa pedir licença.

Acho que, para onde se crê ter emigrado sua alma, existe quarto desjanelado, banheirinho, também desjanelado, e elevador titubeante entre os andares, apenas para as domésticas celestes que servem deus e anjinhos e santos, preparando-lhes cremes e sopinhas e doces de pelotas com os quais suas bocas de lobo se lambuzam – quindim bem-casado ninho camafeu papo de anjo olho de sogra pastel de santa clara trouxas de amêndoas fatia de braga queijadinha broinha de coco beijinho de coco panelinha de coco – todos transformados em cocô. Para as gentes dos céus não existe pecado da gula. Nem do dinheiro. Minhatia, a cozinheira a doceira mão e mando da cozinha. Minhatia, também a faxineira a lavadeira a limpadeira mão e mando da lavagem secagem lavagem secagem, e de novo a eternidade inteira. É provável que, com suas vozes sussurradas de doçura, as santas, intermediárias entre deus e as serventas, exijam cuidado com a limpeza da louçaria portuguesa.

Centenas de vezes fui ao casarão onde aqui, no mundo dos vivos, minhatia servia. Ia cumprir mandado da abuela. Eu geralmente carregava recados urgentes dela – da morte de um parente – ou ia recolher restos de coisas que os patrões de minhatia não mais queriam e, para desentulhar os armários de suas comodidades mid-century modern, doavam-nas para as casinhas enegrecidas, como se fossem o crânio de um morto que desqueriam ter o trabalho de enterrar. Há pouco, num desses programas de decoração com os quais gosto de me torturar sonhando com casa que jamais terei, descobri que o estilo do casarão mid-century leva esse o mid-century. Telhado horizontal painéis de vidros grandes imensas áreas de lazer com espaço para piscinas, formas orgânicas que valorizam a iluminação e a paisagem natural, tudisso tudinho para os donos donas e doninhas.

Aos meus olhos a casa não passava de uma casca de noz da grande boca do mundo no fundo da qual eu gostaria de me aconchegar. Enugbarijo tentou dormir em casa, mas a casa era pequena; Enugbarijo deitou-se na varanda, a varanda era pequena; Enugbarijo deitou-se na casca de uma noz, aí por fim pôde

estender seus membros.2 Na época, eu ouvia falar mal de Enugbarijo, de modo que a frase casca de noz deve ser contemporânea deste escrito e encobridora de pensamento contrário que hoje eu teria vergonha de revelar. Minhanalista diz que toda a lembrança encobre outra cena, por certo vergonhosa; ela diz que a lembrança funciona em nós qual roupa barata e gasta, qual vestidinho de tecido de chita estampado por orzinhas amarelentas desnomeadas que cobrem um corpo constrangido de suas vindouras tetas opíparas.

A mid-century não ostentava tetas opíparas. Ela ocupava toda a esquina no centro da cidade com nome de santa, bem na fronteira seca com a cidade que carrega nome de general, ao norte do país do rio dos pássaros pintados. Eu atravessava seu longo jardim de entrada furiosa com minhavó que me havia feito caminhar até lá num calor de fogão a lenha. Ou num frio de picolé de limão. Quase sempre eu achatava sob o dedão do pé esquerdo a tentação de arrancar jasmins e de levá-los comigo. Vovó costumava pôr ramos dessa flor da terra dentro dum copo de água em cima da mesa de luz que ladeava sua cama de viúva. À noite, o perfume assombrava o quarto. Eu tinha a impressão de que morreria sufocada.

Há falsos jasmins. Vovó gostava mesmo do jasmim não venenoso, com folhas ovais brilhantes e cinco ou seis pétalas, nascido de um arbusto espesso. Esse o jasmim verdadeiro, nascido de gesto de amor da senhora dos jardins. Ela removeu da lama os vestidos das estrelas e os transformou em pequenas ores perfumadas, chamadas de estrelas da terra. Estou numa época em que não mais sei se gesto se escreve com gê ou jota, por isso me perdoe, leitora, se o erro passou pelo revisor.

A história é mais ou menos assim. A mãe das estrelas, lá no seu palácio de nuvens, arrumava das lhas as roupas douradas, feitas por uma nobre costureira – a senhora dos jardins. As pequenas estrelas achavam a roupa ou muito apertada ou muito grande, ou muito lantejoulada ou muito opaca; uma queria a roupa com miçangas, outra com búzios da cor da água. A mãe das estrelas estava atordoada com a malcriação quando seu marido, furioso com o tratamento que as lhas destinavam a ela, jogou todas as roupas da discórdia na terra enlameada. Então, com pena, a senhora dos jardins interveio e fez jasmins dos vestidos de lama.

A senhora dos jardins jamais interveio nas malcriações que tia Eluma, chamada de Ioiô por seus brancos, tinha de suportar deles. Apesar de sempre crianças, ainda que tivessem cento e dois anos, nem eram tão estrelas quanto se pensavam nem tão perfumados quanto seus jasmins. Estavam mais para lentilhas cruas do que para lantejoulas.

Eu ia levando vocês à casa deles e peguei um desvio na lama da história contada por minhavó. Retorno, então, sem me desculpar pelo barro que se prende ao fundo dos meus pés.

Atravessado o jardim, eu parava em frente ao portão. A frase me lembra música de cantor muito apreciado pelas vizinhas da minhavó; certas frases e certas pessoas andam por aí como se tivessem donos. Em frente ao portão, me ajeitava um pouco. Passava cuspe na ponta dos dedos indicador e médio da mão direita. Levava os dedos assim umedecidos no cabelo para acalmar sua falta de mansidão.

Quase um lme de terror, minhas idas à mid.

Tia Eluma temia que seus brancos me vissem.

Eu temia ser vista pelos brancos de tia Eluma.

Pronta, cuidando para não imprimir força, cuidando para que fosse de mansinho, eu apertava a campainha redonda que cava dentro da boca de um cão de mais ou menos metro e meio. O cão guardava a mid e sua saída. Eu o temia mais do que temia os brancos seus donos, embora o cão também fosse branco e dono. Guardado meu medo no meio das tranças, minhatia aparecia de esguelha, também de mansinho, mantendo o corpo miúdo no titubeio entre sair e entrar, de forma que metade dele casse para o lado de dentro da mansão e a outra metade para o lado de fora.

Falávamos rápido. Parecíamos duas wérewère planejando fazer caquinhos das louças de dom joão vi. No início da madrugada, quando a dona o dono e as doninhas estivessem na tranquilidade de seus lençóis de linho branco, eu e minhatia invadiríamos a mid feito duas guerrilheiras tupamaras. Porém, enquanto as tupamaras de raiz assaltavam bancos, clubes de armas e grandes comércios para distribuírem o produto saqueado aos pobres do país do rio dos pássaros pintados, nós, que já tínhamos sido saqueadas, Yaa Nana Asantewaa ludibriada, e não tínhamos mais para distribuir além do corpo fragmentado, rodaríamos e rodaríamos com os braços em posição de asas em voo, no sentido horário sentido anti-horário sentido horário com mais força até carmos tontas e batermos as mãos fechadas em todos os armários aparadouros mesas do casarão. Os golpes levariam ao chão anaquéis com pimenteiras taças de vinho travessas sopeiras jogos de xícaras para café da manhã jarros chineses jogos de pratos redondos de porcelana branca encaroçada decorada com esmaltes nas cores habituais da família rosa. Concluído o serviço dos pratos, faríamos as esquálidas bailarinas que adornavam as estantes espatifarem suas caras bobas no chão de quartzo. No nal da madrugada, nossos pés descalços pisariam os cacos de todas as louças tombadas. O cão que guardava a saída, também espatifado.

A senhora tinha orgulho de anunciar aos quatro ventos que adquirira as louças numa viagem que zera à cidade de açúcar, no centro do país das maravilhas. Ela não se cansava de dizer que comprara, em leilão, um dos mais belos jogos de louças de jantar da história da humanidade. As peças faziam parte do serviço dos pavões, coleção real de altíssima qualidade feita em porcelana de pasta dura, confeccionada no país do imperador qianlong, sob a encomenda do continente da mulher que amou (ou foi estuprada por) um boi da cara branca. Comercializado pela companhia das índias ocidentais, junto com as gentes amontoadas nos porões de seus navios, o serviço dos pavões chegou às terras dos antepassados da senhora. A companhia comercializava as gentes e parte dos serviços que a elas seriam atribuídos. Uma dupla competência. Uma verdadeira realeza. O então príncipe regente trouxera consigo as peças para o que ainda não constituía o país das maravilhas quando da fuga de sua família do continente da mulher que amou (ou foi estuprada por) um boi da cara branca.

As louças, leitora, não equivalem a cadeiras mesas relógios de parede anéis baldes de água fria esfregões de aço frigideiras panelas de arroz queimado ou outras coisas que moram em nós como extensões de mãos ou pés ou bocas ou pescoços ou dedões dos pés, sem que nos demos conta de que tão somente retrato de nosso corpo desmontado. As louças são os ossos que sustentam a verticalidade do esqueleto. Se uma delas for quebrada ou lascada, o esqueleto se desmontará.

Minhatia odiava manter dentro de casa qualquer louça quebrada, pouco ou totalmente. Se houvesse prato lascado cristal trincado, atirava imediatamente na boca do lixo. Salvas do destino canibalero, apenas as peças vindas da mid-century – enquanto doava seus cacos para minhatia, a madame presenteava suas pares das casas de família, a quem pretendia impressionar, com louçaria da marca roy al, tradição da realeza da dinamarca, de quem a rmava descender diretamente pela linha paterna.

As peças das quais tia Eluma era donatária se guardavam num armário antigo de madeira de lei que guarnecia a cozinha da minhavó. Eu o queria para mim, amante de suas portas de madeira, majestosas e envernizadas, dos espelhos em cada uma delas, das prateleiras que sustentavam os pratos. O guarda-louça, como dizia a abuela, gozava de uma enormidade que eu queria alcançar. Depois da sua morte, não sei o que foi feito dele. Seu corpo desapareceu feito gente assassinada cujo cadáver se esconde. Não pude nem lhe sofrer o luto. Talvez tenha virado lenha.

Eu gostava de remexer o lixo para salvar louças que tia Eluma abandonava. Cheguei a montar um armário com elas no pátio, perto da amoreira. Tijolos e pedaços de madeira branca que rolavam ao redor da casa. Cuspe lodo cocô seco. Estava pronta a argamassa. Montei duas prateleiras. Aí depositei um a um os corpos resgatados. Tinha minha própria coleção serviço de pavões. Quando tia Eluma viu, num supetão, mandou aos céus os pavões, agora virados abutres. Dava azar manter louças quebradas. No entanto, minhabuela guardava no armário rosa-antigo, com forro de compensado, no comedor, restos de pratos xícaras copos que, caídos da concha de suas mãos lavadeiras, se espatifavam no chão vermelho acimentado da cozinha. Maneira muito sua de manter a querela com tia Eluma.

Mesmo contra sua vontade, minhabuela, grávida, tinha de acudir aos toques dos orixás. Só a terreira parecia acalmar tia Eluma, que se agitava em seu ventre. A abuela deixava o lavado no arroio e ia a pé, seguindo com a pupila esquerda um joão-de-barro que sempre passava dando voltas até virar memória na distância. Então ouvia novamente o toque de um tambor, uma voz ordenadora saindo de entre o couro e a madeira. Ela sabia o que ordenava o toque, mas se sentia em pecado, pois já era uma mulher de cristo.

Tia Eluma nasceu preta e se criou preta batuqueira. No entanto, morreu como mulher branca da igreja dos comensais da mesa de deus, mas não totalmente. Quando do seu desligamento da terreira, Mãe Blanca se negou a lavar ou mandar lavar as obrigações dela. Nem com água pura nem com sabão de coco; nada – e de nenhuma forma – seria lavado.

Anos depois do corte de sua relação com os orixás, quando foi batizada na igreja dos comensais, o pastor disse que a água do batismo levaria lavaria limparia qualquer serviço feito anteriormente. Respondeu joão a todos, dizendo: eu, na verdade, batizo-vos com água, mas eis que vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das alparcas; esse vos batizará com espírito santo e com fogo; lucas capítulo três versículo dezesseis. Minhatia, tão descon ada quanto eu, primeiro cou com sérias dúvidas sobre a palavra alparcas; talvez fosse o mesmo que alpargatas, mas não sabia. Depois cou com seríssimas dúvidas sobre a tal puri cação, a tão grande humildade de joão, o fogo e o santo espírito. Contudo preferiu manter silêncio para não despertar a ira de seu novo senhor.

Por isso, não sei se a entristeceu seu féretro não ter sido ninado como se nina um bebê, não sei se a entristeceu desouvir a batida chocha do tambor, desouvir os axexês da capela do cemitério à cova, não sei se a entristeceu suas imagens de orixás não terem sido respeitosamente quebradas, suas guias não terem sido respeitosamente estouradas, não sei se a entristeceu nada ter sido aposto debaixo do seu travesseiro de cadáver, nem búzios nem mel. Os lenços brancos que em sua despedida abanariam o que houvesse de mal caram sobre a mesa de jantar da mid-century, sujos com a gordura da boca dos patrões.

Patrão patroa negro branco preta negra retinta serventa são palavras esvaziadas cujo sentido é dado pela sujeita, no caso, por mim, pois nada estaria pronto salvo o almoço do senhor e da senhora. Salvo quanto ao almoço, devo ter ouvido isso de minhanalista, o que não signi ca que ela tenha dito – o que os ouvidos ouvem nem sempre a boca diz, ainda mais se estiver cheia de comida. Os porcos fome-fome-fome sabem mais disso do que eu.

Não quero invadir o terreno reservado à analista ou rechaçar a interpretação, mas não inventei os sentidos correntes de negro e de branco e nem gozo da brancura das porcelanas para me bene ciar disso que está aí bem antes e bem sentado. Talvez seja assim para os brancos, mas de quem sofre a negridão se exige a fórmula de outra frase que ainda não sei qual será. Talvez o soubesse o crânio do cavalheiro completo que minhatia conheceu e que ela mesma enterrou.

 

Se qualquer uma de vocês pisar o dedão do pé, direito ou esquerdo, em qualquer cômodo do interior de qualquer das casas de família, nunca mais sairá; hoje vocês não sabem o que isso significa, mas, se não me ouvirem, saberão. Foi o que sentenciou o oráculo de não existe água em que matamos um rio para minhadinastia.

 

Séculos mais tarde, num dia que renunciou à prorrogação das horas, qualquer das ancestras seguia distraidamente a tripa grossa de um rio, roçava seus pés nas águas frescas, recolhia os seixos rolados e os guardava, segundo o tipo, em bolsas de pano de estopa. Eram nove, de tamanhos variados. Nove, tingidas na cor do urucum. Numa bolsa, topázio; ágata cornalina em outra; jaspe numa outra bolsa; quartzo, apenas se fosse rosa, os demais devolvidos para a água. Esmeralda. É essa a mesma água que qualquer água; é essa a mesma água que quer me seduzir. Cantava. Ela também carregava uma bolsa especial, bordada com búzios pelas anciãs do mercado, para as pedras mais antigas, que sabia serem as mais redondas, pois rolavam e se atritavam com outras havia muito tempo. O granito seria destinado às fazedoras de esculturas; a granada vermelha e a sa ra, presentes para os dedos anelares de suas mães. O diamante caria guardado até que minhancestra pudesse criar destino melhor para ele.

É essa a mesma água que qualquer água; é essa a mesma água que quer me seduzir. Minhancestra caminhava tomada pela wanran wanran wanran omirosa dos seixos. De repente, vento forte, soprado da água para a terra, expulsou-a do rio, empurrando-a pela cintura através de porta majestosa de madeira de mogno a terreno lodoso onde sombras de vozes a esperavam. Eram sete. Com cantigas para boi dormir, zeram-na pisar com o dedão do pé esquerdo o cômodo embarrado cuja parede direita estampava brasão de prata com a inscrição casa de família.

 

Boi da cara branca pega essa menina que tem medo...

Boi

Boi

 

Minhancestra chegara aonde luz apodrecia.

Lá, a madrugada se esquecera de cortar as horas.

 

O que passa sob meus pés?

Parece que não há mais rio. Apenas lama.

Parece que o rio foge feito olho que não quer saber.

Parece que estremece o olho que quer ver.

Mãe, tu, que és lâmpada, faz com que o rio regresse.

Faz com que sua água me sustente.

 

Assim pedia minhancestra até suas pernas terem forças para iniciarem diálogo veloz. Contudo, a porta de saída estava guardada pelo cão tricéfalo; seu único rabo e a parte superior das três cabeças pareciam serpentes na forma de chicotes. Ou chicotes na forma de serpentes. Seu pelo, muito liso. Os olhos de um azul turmalinado.

quérberos da silva, o nome do cão que quase abocanhou por inteiro minhancestra. Para evitá-lo, ela teve de retornar ao interior da casa de família onde alguma sombra de paz recém-lavada já ajuntara e se apossara de suas pedras. As pedras paridas dos soluços do rio.

Nunca mais minhancestra saiu.

Nunca mais foi vista, nem mesmo sob a luz da chuva.

Isso o que suponho ter ouvido do que me contaram.

Suponho também que o lugar reservado para minhatia murmurar comigo na mansão mid-century fosse próximo à entrada do quartinho das empregadas. Um sítio na penumbra, de fato, sem porta de saída, apenas de entrada, guardada pela estátua do cão marmorizado.

Ah, ia esquecendo do detalhe, minhatia usava uniforme. Soou meio estranho esse Ah, ia esquecendo do detalhe. Parece um falso esquecimento. Concorda comigo, leitora? Talvez o estranho seja não o esquecimento, mas a necessidade do uniforme, uma roupinha que, em vez de deixar tudo uniforme, redobrava a hierarquia entre quem manda vestir e quem se veste do mandado. Embora nenhuma empregada do casarão precisasse de uniforme para se distinguir dos patrões, minhatia usava vestido azul na altura dos joelhos, de corte seco e reto, dividido verticalmente por botões redondos de um azul mais escuro do que o do tecido, e lenço branco cobrindo sua cabeça pequena. Com a roupa feita sob medida para quaisquer corpos de criadagem, a tia cava parecida com a bandeira do país do rio dos pássaros pintados, o sol seu rosto amarelo. Eu acreditava que ela fosse um pavilhão ncado em território inimigo. Pero no, a bandeira do país do rio dos pássaros pintados ali hasteada era apenas Ioiô. Um tênis vagabundo quase sem solado, de um branco semelhante ao do lenço, se destinava a seu pisar mansinho no interior da mid-century.

Acho que, realizada a profecia, parentaminhas, as que não se incluíam na categoria de serviçal em sentido estrito, despossuíam autorização – o chamado passe – para pisar os pés de barro no solo dos casarões, ainda que apenas nos seus pátios internos. Durante os quase dez anos em que atravessei o jardim da mid para levar recados da vovó a minhatia, o limite para meu corpo foi o do portão de entrada. Talvez por tolerância da senhora, a rua não tenha sido a fronteira entre Eluma e Ioiô, entre mim e os brancos aos quais ela servia. Talvez essa fronteira tenha sido minha sorte.

 

Se essa rua se essa rua fosse minha

Eu mandava eu mandava ladrilhar

Com pedrinhas com pedrinhas de diamante

 

Quase como no lme norte-americano de 1946, gilde era o nome da senhora da mid-century, patroa de minhatia, dona de quérberos da silva. Devia ser uma mulher fatal, pelo menos aos olhos enlouçados de suas criadas. Não me lembro de ter visto o lme, mas me lembro de ouvir minhatia dizer que gilde se gabava dos antepassados. De nenhuma forma e nunca a alta dama se enrubescia da procedência de suas pedras preciosas.

Incompleta qual xícara de alça quebrada, mas tão metida quanto faca de cabo de madrepérola numa bainha encouraçada, um dia quase noite depois de terminado o servício interminável na mid de gilde, minhatia resolveu seguir o

cavalheiro completo.3

A roupa faz o homem, dizia minhavó enquanto manobrava sua vassoura de palha para empurrar do pátio para a panela de ferro os corpos das andorinhas mortas perdidas da rota. Deve ser em razão desse dito que o cavalheiro completo vestia terno azul-cobalto, fechado com dois botões de madeira nobre. Às pupilas direita e esquerda de minhatia, parecia roupa cara. Com certeza não teria sido adquirida nas lojas dos turcos do centro da cidade com nome de santa, onde, naquele tempo, ela comprava as várias parcelas de suas blusas calçassaias camisetas. Aproveito para avisar ao revisor que, sim, são “as várias parcelas” de suas roupas, e não “em várias parcelas”.

O cavalheiro completo se assemelhava ao patrão, marido da patroa de minhatia. Havia meses ela usava sua pupila esquerda para observá-lo passar pela calçada paralela ao casarão, repleto quase transbordante de sua completude. Na quebrada da rua, ele desaparecia num passe dado pela noite. Teria sido engolido por algum bueiro? Caíra num poço?

A completude do cavalheiro completo inquietava minhatia. Na completude apenas dele, parecia altíssimo cabelo preto muito preto liso. Diferentemente dela, que tinha apenas mãos e joelhos, todas as partes do corpo do cavalheiro completo estavam completas.

Enquanto minhatia o seguia pelas ruas, ele ralhava com ela para que voltasse ao lugar de onde tinha saído. Mas sua seguidora estava acostumada a fazer ouvidos moucos com o ralhar de gente que não fosse da mid-century. Além disso, desconhecia o que ele queria dizer com tal frase. Feito a bacia de porcelana que havia no quarto da abuela, ela não sabia de que m de mundo havia saído. O completo cavalheiro, então, se cansou de gastar em vão a garganta e permitiu que Eluma o acompanhasse.

Caminharam muito até saírem do centro da cidade e se internarem na campanha, onde, num terreno de mato e pedras, pastavam uns porcos que gritavam fome-fome-fome. Pelo menos essa a frase ouvida por minhatia. Pode até ser que estivessem gritando outra coisa, mas os ouvidos são moldados à imagem e à serventia do corpo.

 

Parada 22

Continuaram caminhando pelo chão de mato e pedras e pedras e mato e porcos até que o cavalheiro completo que minhatia acompanhava arrancou fora de si seu pé esquerdo. Leitora, que tranquila, ele não arrancou o pé esquerdo de minhatia, mas o dele mesmo, que, na verdade, nem dele era. O pé pertencia a outro e, nesse momento solene, ele o devolvia para quem lhe tinha alugado. Com a devolução do pé esquerdo, bem metido numa bota de couro de cano alto, o cavalheiro completo também fez o pagamento do respectivo inquilinato, equivalente a um salário mínimo de hoje, bem mais do que minhatia ganhava para servir aos seus brancos mais de doze horas por dia.

 

Parada 24

Andaram mais um pouco em linha reta. O cheiro de macela subia aos narizes das gentes e dos porcos. O cavalheiro completo continuava completo, embora manco, como se carregasse chaga na canela. As ores da macela se pegavam no azul-cobalto da barra de suas calças numa espécie de coroa que prefere a terra à cabeça.

Próximos a uma clareira, os caminhantes de quatro e de duas pernas pararam.

E, então, os de duas pernas zeram das pedras seus bancos.

E os de duas pernas carnearam uma ovelha-ideal que dava sopa pelo mato.

E zeram churrasco, os de duas pernas.

E, em sua completude, o cavalheiro completo fazia questão de tomar a frente no serviço de churrasqueiro.

E, para evitar a má digestão, tia Eluma tomava a frente na fazedura do chá de macela.

E os de duas e os de quatro pernas comeram até carem pesados.

E sobrou um pedaço da ovelha carneada.

O que eu não entendo é o motivo pelo qual carnearam a ovelha-ideal e garantiram a vida dos porcos, que, por sinal, me parecem muito chatos em sua fome incurável. Mas não pretendo cortá-los da história; daria muito trabalho reescrever tudo e eu tenho pressa. Melhor seria que eles tivessem sido carneados pelas gentes de duas pernas para a feitura de linguiça. E me perdoem as veganas e as vegetarianas, não estou pregando a morte dos animais, mas dizendo que, ao menos, nos parecemos aos porcos, esses que fuçam o lodo e depois são pendurados nas âncoras dos matadouros.

Parada 28

O completo cavalheiro entregou ao proprietário, junto com o pagamento do aluguel, o pé direito com que até então pisara. Número quarenta e três ou quarenta e quatro, o pé vinha socado num sapato preto de couro. Minhatia nem se apavorou ao ver o cavalheiro completo rastejando, estava bem mais preocupada em se livrar dos pega-pegas e das urtigas urticantes. Para ela, que se pensava tão incompleta, mesmo sem os pés, o cavalheiro completo continuava completo.

 

Parada 31

A caminhada prosseguia sempre em linha reta. Tia Eluma desgalhou uma pitangueira e espantou com a vara os porcos que continuavam os seguindo aos gritos de fome- fome-fome. Logo em seguida, chegaram à estância onde o cavalheiro completo alugara o peito a barriga as costelas a cintura. Novamente ele os arrancou de si e devolveu ao dono com o respectivo pagamento. Agora não mais rastejava; pulava, a ponto de Eluma lhe dizer que se aquietasse um pouco, que não carregava nenhum bicho-carpinteiro no corpo. Ocorreu a ela que as costelas do cavalheiro completo não pertenciam a ele nem a adão e muito menos a deus, que se mancomunara com o tal primeiro homem na invenção da história da costela.

 

Parada 33

Minhatia ordenhou uma vaca-holandesa das centenas que pastavam numa estância. Compartilhou o leite fresco com o cavalheiro completo, que ainda podia segurar o caneco, e com os porcos. Nesse campo, o sem nenhuma perna havia alugado os dois braços fortes que, com a ajuda de tia Eluma, arrancou de si, pagou e devolveu ao proprietário.

 

Parada 37

Continuaram caminhando, saltando, pelo rincão de matos e pedras e porcos até alcançarem a estância onde o cavalheiro completo alugara o pescoço. Ali havia muita carqueja e, antes de dar uma mão para o cavalheiro completo arrancar o pescoço – ele não tinha mais os membros superiores –, tia Eluma fez e tomou muito chá dessa erva. A abuela dizia que a carqueja cicatrizava feridas.

O cavalheiro completo estava reduzido ao cheiro da carqueja e à completude da cabeça que sabia de outro.

 

Parada 39

Chegado ao campo onde deveria devolver a carne e a pele que forravam sua cabeça, incluídos os olhos, ele pediu a tia Eluma que as entregasse ao proprietário, juntamente com o dinheiro. Ele, cavalheiro completo, já não podia mais nada. Estava virado apenas num crânio.

 

Parada 51

Na última parada, tia Eluma cavou com as mãos o buraco na terra que seria a última morada do cavalheiro completo. Nenhuma surpresa. Ele tinha o corpo desmontado feito um conjunto de louças retiradas do armário.

 

No percurso de retorno à sua casa, minhatia aceitou de bom grado a companhia dos porcos gritões. Quem me emprestará cabeça pés coração dois braços para esta longa viagem de retorno? E depois quem me emprestará mãos lenços todas as vasilhas do mundo quando tantas lágrimas velhas me deem a

salobra bem-vinda?4 Ela retornava, cantando esse samba, apesar de achar que as lágrimas velhas lhe eram completamente estranhas.

Estranho foi tia Eluma recolher de cada estância, junto a cada alugador, os pedaços do corpo que o cavalheiro completo havia devolvido e pago. Ela procedeu ao feitio de quem recolhe caquinhos de louças. Não pagou em dinheiro a devolutiva, prometeu sorte e amor a cada um dos estancieiros. Retornada ao buraco onde o crânio repousava, montou o corpo como se organiza um armário.

Quase no m da madrugada, encontrou a rua do enforcado onde morava com sua mãe, minhabuela Anagilda. As duas cercaram os porcos no pátio, longe do arame de roupas, comeram mais uns pedaços do assado de carne de ovelha e o sono as envolveu. Os porcos continuaram gritando fome-fome-fome. Tia Eluma passou a entender que a fome era da natureza da porquidão deles.

 

Malte de cevada lúpulo levedura, 2 a 6% de extrato residual 2 a 6% de etanol 0,35 a 0,50% de dióxido de carbono e 90 a 95% de água. Os valores variam. Contudo, essa a fórmula da frase que tia Eluma talvez tenha encontrado para estender sua vida além do mármore da mid.

Ela bebia. Bebia muito, minhatia Eluma. Tomava tanta cerveja que se mijava nas bermudas de domingo agachada num cantinho da sala ou da cozinha, coluna vertebral pedindo apoio das paredes. Madrinha Lilite a levantava do chão de cimento pintado de vermelho como se levantasse um bebê. Dava-lhe banho de água morna na bacia grande de alumínio e colocava um ramo de arruda atrás de sua orelha direita. Todo esse rito era acompanhado de murmúrios velozes. A arruda servia para que todo o azar casse às costas de minhatia, para que todos os males da vida dela fossem espanados como ela mesma espanava o pó das coisas na casa dos outros.

Depois, minhamadrinha a deitava na cama de solteira do seu quarto sem janelas e, em busca de outros afazeres, a abandonava aí. Quero dizer que a madrinha, que não era apenas minha, deitava a tia, que era de todos, no quarto mesmo da tia. Ouvi dizer que um quarto, para ser considerado quarto, precisa ter uma janela, ao menos. Se assim é, nem sei que nome tem o cômodo em que minhatia era deitada para se curar da borracheira. A palavra borracheira não é o feminino de borracheiro. Trata-se apenas de forma mulherista de escapar de alguma realidade impossível de ser vivida o tempo inteiro em completa sobriedade.

Não sei quanto transcorreu entre a consubstanciação da cerveja em bíblia, entre a consubstanciação da tia que dobrava a rótula dos joelhos para fazer xixi na sala ou na cozinha na que dobrava a patela dos joelhos no chão das igrejas que ela mesma limpava para louvar o bom pastor. Sei apenas que o milagre se deu. Mas me equivoco aqui, pois os ossos e a carne de minhatia foram arrebanhados por um pastor protestante da igreja dos comensais da mesa de deus. Das aulas de história no colégio de freiras onde cursei o ensino médio, a professora – baixinha de uns olhos azuis que eu queria e de família rica que eu também queria – explicava que o protestantismo substituiu a doutrina da consubstanciação pelo conceito de união sacramental. Durante a consagração, a substância do corpo e do sangue de cristo se uniria à substância do pão e do vinho. Permaneceriam juntos, feito unha e dedo, após a consagração e unicamente durante o sacramento. Essa parecia ser a relação entre minhatia e seus patrões num sacramento que jamais ndava.

Interessantemente, o palavrão sagrado consubstanciação também é empanação. Tal palavra certamente fala mais do que a outra que acabei de mencionar. O corpossangue empretecido de minhatia passou a vida inteira empanando, quero dizer, embebendo no ovo batido e cobrindo com farinha de trigo a carne nobre ( lé mignon ou alcatra) para fazer bifes à milanesa, o prato preferido da família servida por ela. Sinto agora o cheiro de ovo e tenho vontade de vomitá-lo. Ovo podre está fedendo ovo podre está fedendo...

A tia também empanava de outros modos; era mais múltipla no processo do que o próprio. Ela empanava passando o pano no chão da mid-century passando o pano nos móveis passando o pano nas louças passando o pano nas paredes passando o pano no que escutava e devia manter no seu o cial sepulcro. Pano seco. Pano com sabão. Pano com água sanitária. Pano com lustra-móveis. Pano com cera. Pano com anil. O único elemento relativamente variável no seu processo de empanação era o pano. Caprichosa como ninguém, se valia de muitos, um para cada cômodo do casarão, um para cada bunda de criança. Imagina, limpar uma bundinha branquinha com o pano com que se limpou a latrina e ainda utilizar o desinfetante industrial, o mesmo que a senhora comprou na promoção e que queimava a garganta, os olhos e as mãos de quem o usava.

A carne a ser consubstanciada em lé vinha da própria estância da família, administrada por seu dono, senhor joquinha, como minhatia a ele se referia de forma carinhosa. Nunca lhe vi a cara nem as botas, mas creio que sua barrigona era bem empanturrada. E seus pés, tenho certeza, nunca se mostravam, protegidos por botas de aço. Esse homem, um total ministério. Eu pretendia escrever mistério, mas saiu ministério, o que dá no mesmo quanto ao culto à divindade. E não era apenas uma fazenda, e sim o quádruplo.

No início de sua carreira de gente enriquecida, o estancieiro criava, melhor, mandava seus peões criarem cavalos-crioulos ovelhas da raça ideal e bovinos da raça jersey. Depois, ele incluiu bovinos da raça holandesa para a produção leiteira. Tornou-se um dos maiores produtores de leite da região onde se situava a cidade com nome de santa. Quando de sua morte, provocada por um ataque cardíaco, as seis mulheres da família, suas lhas e esposa, receberam enorme herança. Tia Eluma era considerada da família, mas não para ns de pagamento pelo tempo que despendeu para que seu joquinha se dedicasse ao enriquecimento. Assim como os cavalos-crioulos bois-jersey vacas-holandesas ovelhas-ideal – o revisor teima em pluralizar o ideal depois de ovelhas –, minhatia tinha raça e não conviria que tivesse patrimônio. Permanecendo no lugar imóvel da serviçal, continuaria a ovelha ideal entre as ovelhas ideais, supostamente sem tempo e sem história que não a de seus joelhos dobrados.

Falando em joelhos dobrados, domingo passado assisti novamente a e o vento levou. Vi tia Eluma em Mammy, me vi em minhatia. As teóricas dizem que há diferença. Para mim, há muita semelhança. Me impressiona que brancos sulistas tenham sido senhores de escravizados empresários nobres farsantes bons bem-vestidos maus indiferentes esfarrapados estupradores ricos pobres que tenham tido lhos que esses tenham morrido que alguns tenham sobrevivido que as mulheres brancas tenham sido damas senhoras trabalhadoras empresárias prostitutas assassinas que tenham casado enviuvado abortado tido lhos; me impressiona que alguns tenham ganhado e outros perdido a guerra civil e que Mammy, durante esse tempo todo, tenha sido sempre a mesma solitária escravizada no vício do serviço. O que mudou na sua vida antes e depois da guerra foi apenas o cabelo, algodoando-se por debaixo do turbante negro, e a anágua, avermelhando-se por debaixo das saias negras, presente do branco mais descolado do pedaço, o capitão mordomo.

Se tia Eluma não precisava da permissão de san pedro para transpor as portas do céu, Mammy também não; bastaria a anágua de tafetá vermelho, presente do rhett, tão dura que caria em pé, tão farfalhante que deus pensaria ter sido feita

de asas de anjos.5 Até a terra vermelha de tara mudou. Mammy não. A mesma no servício. Até as geadas nos campos da cidade com nome de santa mudaram. Tia Eluma não. A mesma no servício de puxar as tas dos corpetes vermelhos das sinhazinhas pré-millenials.

Cometi um erro (outro). Geralmente pessoas como eu não podem contar com nenhum erro a seu favor; os nossos erros são sempre contra. Sob forte determinação de scarlett o’hara, eu gostaria de ter dito cometi um erro, em português, com a mesma sonoridade com que se diz a frase em inglês e ainda com sotaque sulista, I’ve made a mistake. Talvez eu pudesse escrever eu errei um erro quando disse que, no início de sua carreira de gente enriquecida, o estancieiro criava tais e tais animais de raça. Na verdade, eu não errei um erro, foi pura mentira mesmo, que não sei como se diz em inglês. A carreira de gente enriquecida dele obviamente começou com seus antepassados escravizadores de gente a quem se atribuiu uma raça.

Minhaprima Xuela diria que o pai do estancieiro foi um homem inglês que desembarcou do navio pelas próprias pernas, tropeçando de bêbado no rastro da miséria que deixara em seu encalço, almejando cumprir um destino de senhor, enquanto o povo de minhatia – e vejam a diferença entre homem e povo na boca de minhaprima – tinha sido retirado do navio como parte de uma horda, a mente esvaziada de tudo que não fosse sofridão, a cara o retrato da cara ao seu lado da cara ao seu lado da cara ao seu lado da cara ao seu lado, todos sem cara,

descarados.6

Bom, volto, porque não sei se estou errando novamente ou mentindo pela primeira vez. É possível que os antepassados do estancieiro não tenham sido escravizadores, mas imigrantes sérios e trabalhadores que chegaram ao país das maravilhas no século dezenove ou mesmo no século vinte para substituir o trabalho dos negros de merda. Essa gente séria e trabalhadora e limpa como a branca de neve, chegando ao país das maravilhas com suas malinhas e relicários e o sonho de construir um lugar somente seu, recebeu lotes de terra arado juntas de bois sementes o perdão da dívida colona ou ressarcimento em módicas condições enquanto os antepassadomeus de minhatia receberam bota na bunda alcunha de vagabundos e portas cerradas, salvo se fosse uma portinhola pela qual passariam para logo deitarem o lombo na limpeza do chão das senhoras.

Certamente sou a retinta-ressentida que recolheu uma concha seca de caracol que rolava pelo quintal da abuela e a ajeitou no armário de louças improvisado com paus e tijolos. Deve ser por isso que me recomendaram análise. Deve ser por isso que sou alérgica ao leite e seus derivados. Eles me causam um inchaço tal na bexiga que não consigo fazer xixi. Sonhei uma vez que eu a tinha fatiado com a faca de cozinha. A alergia deve ser punição por eu ter falado que minhatia se mijava nas calças ou por ter inventado que seus patrões descendiam de escravizadores.

Minhamadrinha, aquela que recolhia tia Eluma do chão como se recolhe a concha de caracol e se utiliza para enfeite de mesa, leva o peso do nome da primeira mulher do mundo segundo escrituras cortadas da bíblia. Ela leva o nome daquela que teria se rebelado contra o domínio de adão e, por isso, veio a ser substituída por eva. Minhamadrinha, essa mulher, não aguentando o peso de seu nome, passou a ser uma das ovelhas-ideal do rebanho da igreja dos comensais da mesa de deus.

Quando eu disser ao ímpio: certamente morrerás; e tu não o avisares nem falares para avisar o ímpio acerca do seu mau caminho, para salvar a sua vida, aquele ímpio morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue, da tua mão o requererei; ezequiel capítulo três versículo dezoito. O senhor deus disse que a alma que pecar, essa morrerá; ezequiel capítulo dezoito versículo vinte. Por isso, os seus servos têm saído pelo mundo anunciando a sua palavra de redenção por intermédio do seu filho jesus; aqueles que rejeitam o cálice da salvação morrerão eternamente, mas os que têm anunciado as boas novas em obediência terão a vida eterna, como servos bons e fiéis ao seu senhor. Esse foi o primeiro sermão que minhamadrinha ouviu na igreja dos comensais. Desde então se sentiu no dever de levar a boa nova à sua família, para que deus não requeresse o sangue dos ímpios de sua mão esquerda.

Tudo aconteceu quando um primomeu, lho dela, se acidentou em exercício do exército. Machucou a rótula do joelho direito, justamente o instrumento de genu exão. Os médicos não ofereciam solução que tranquilizasse minhamadrinha, até que um pastor lhe trouxe a esperança de cura ao lho e a certeza de mal-estar ao padrinhomeu, que não gostou do assédio espiritual, pero suportou, emburrado.

A madrinha Lilite escreveu carta de propósitos a deus, pedindo que os maus espíritos abandonassem seu lho. Um envelope contendo R$ 650,00, que conseguiu emprestado, um pouco com cada parenta; um pouco com tia Eluma, outro pouco com Alesọ, um tantinho com tia Malvina, outro com Carmen. A carta de propósitos foi acompanhada pelo envelope com dinheiro. No dia da fogueira santa, a carta foi queimada. O envelope com dinheiro, não.

Junto com a rótula do joelho do primomeu, minhamadrinha levou para a igreja suas lhas e genros, padrinhomeu e, por m, tia Eluma, embora eu não tenha certeza de que a ordem das conversões tenha sido essa. Todos caram curados para dobrarem livremente os joelhos amolados. A conversão familiar total aconteceu bem depois da morte da mãe de minhamadrinha, ialorixá lá na cidade com nome de santa. Não sei muito sobre ela; esqueci seu nome, suas feições; lembro-me apenas dos dedos cheios de anéis, do farfalhar de suas saias rodadas brancas e do turbante azul sobre sua cabeça redonda. Sua memória foi para a mesma fogueira santa em que minhamadrinha queimou a carta de propósitos a deus.

Sim, tia Eluma entrou para essa igreja dos comensais cujo saguão abrigou seu corpo. Trocou a alegria arti cial da cerveja pelo vício verdadeiro da bíblia, mas a exploração como doméstica, e mais, permaneceu a mesma.

Minhatia chegou pisando de mansinho, com seu sapato branco, no chão de mármore do templo, numa sexta-feira, dia da sessão de descarrego. Sentou-se ao lado de minhamadrinha, que ouvia embasbacada o sermão do pastor. Naquela época havia muitos pastores Nègres, vindos da cidade com o nome do cruci cado para a cidade com nome de santa. Muitas pessoas têm sido vítimas de uma maldição proferida. Toda palavra é acompanhada de um espírito, então, se a pessoa não tem defesa espiritual e ouve uma palavra negativa, o mal irá agir na vida dela. Talvez, hoje, você tenha visto na sua vida o cumprimento de algo que alguém lhe falou anos atrás, na hora você não acreditou, mas hoje você vê que o que aquela pessoa falou está se cumprindo. Vamos, jesus cristo quebrará essa maldição. Escreva agora num pedaço de papel a praga que rogaram na sua vida. Você vai colocar esse papel sobre o altar e, por meio da fé, vamos quebrar essa praga que está na sua vida.

Tia Eluma forçava a memória para se lembrar de pragas que lhe tivessem sido rogadas. Lembrava que a tinham mandado à merda, mas não sabia se isso era praga. Lembrava que a tinham mandado tomar no cu, mas não sabia se isso era praga. Ela apenas se lembrava de pragas que rogara contra outras pessoas, como que o diabo te carregue, tomara que tu morra seca, tomara que tua mãe morra seca e preta, que esse dinheiro te traga desgraça, que tu e tua família nunca tenham sossego na vida. No fundo ela pensava que alguém, num passado distante, lhe rogara a praga de ter de cuidar dos brancos do seu nascimento à morte deles. Contudo, como deus se apresentava branco, ela achava que aquele pensamento já a punha em estado de pecado. Resolveu depositar o papel em branco sobre o altar, que o pastor interpretasse segundo indicasse o espírito santo, amém.

Enquanto o pastor orava para que deus, com seu chicote, expulsasse os demônios dos corpos dos éis, os obreiros caminhavam entre os bancos, com seus aventais brancos, amparando aqueles que manifestassem presença maligna. Objetos e roupas eram levados para o altar como representação dos bloqueios espirituais dos crentes. Uma mulher loira de vestido de festa também foi carregada para o altar, demônios se manifestando no corpo dela desde o nascimento. Ela mesma seria fruto da traição da mãe com um homem que não aquele que a registrou como lha. O espírito maligno ainda confessou que iria matá-la de fome, que já tinha soprado nos ouvidos dela palavras de suicídio. O espírito maligno a chamava de vagabunda. O espírito maligno a chamava de prostituta.

Enquanto o mal fazia con ssões ao microfone, o pastor pressionava o corpo possuído para o chão sob as ordens saia dessa vida agora, eu te repreendo, eu te desamarro. Após, com a permissão do espírito santo, ele tocou a cabeça loira de tintura da crente e a libertou. Arroz com charque foi oferecido à recém-liberta, pois por três meses tomara apenas água da torneira e suco de uva de caixinha. Comendo, provou que estava limpa dos espíritos malignos. Instada pelo pastor a relatar seu infortúnio, declarou, com a boca cheia, que um pai de santo zera trabalho a seu pedido e que desde então andava endemoniada.

Tia Eluma descon ou que o descarrego no templo dos comensais da mesa de deus fosse na verdade uma sessão de batuque, com lhos em transe, com lhas tomadas por orixás, com o pastor exercendo a função de autoridade civilizatória. Chegou a concluir que o corpo da mulher loira havia sido tomado e que o pastor, reconhecendo isso, utilizara a energia da divindade para puri car os crentes. O pastor vinha do batuque, o pastor fora um iniciado que agora utilizava o conhecimento de matriz africana que auferira e fazia de conta que se tratava de outra coisa. Tia Eluma soube de tudo isso, mas silenciou e assentiu. Ela também silenciou quando, ao limpar uma das salas do templo, viu o nariz do pastor metido num pó branco que não era talco de alfazema.

O padrinhomeu irmão dela, aquele que cou emburrado com o assédio espiritual do pastor, tinha sido integrante de conjunto musical, ritmista e mestre de bateria de escola de samba. Ele pertencia à Aí vem a Marinha, escola mais tradicional da cidade com nome de ana. Azul e branco suas cores. Depois, com outros sambistas, fundou a Cantinho da Saudade. Alguns ensaios ocorriam na rua de paralelepípedos onde se situava a casa da abuela. Eu participava deles ao lado da madrinha Lilite, sem o consentimento do expaimeu para quem minha presença ali, no meio daquele monte de borrachos e vagabundos, seria uma vergonha. Se me visse, certamente ele me rogaria praga.

Com a boa-nova dos evangelhos, unida a qualquer dor que o ritmo de seus hinos aplacou e que a mão sobre a pele do repinique talvez tivesse acentuado, o samba foi excomungado da vida de padrinhomeu. Des lar numa escola de samba; um fazer coletivo em que durante mais ou menos uma hora muitos produziam o mesmo som; onde todos tocavam bem o mínimo, do início ao m, para produzir algo diferente da cotidianidade. Ouvi isso num podcast. Para minhavó, a graça, de deus, estava numa lufada de vento no rosto; para padrinhomeu, numa comunidade em harmonia no entorno dos tambores. O nome Cantinho da Saudade, prenúncio de tudisso que se foi. E o vento levou e nunca mais trouxe. No lugar, a paga do dízimo, a oferta de mais dinheiro para o alcance de propósitos divinizados.

 

Minhanalista quer saber de mim quem são hoje os feitores quer saber onde

zeram morada o senhor a sinhá a sinhazinha quer saber onde o patrão a patroa

o pastor os donos dos jasmins quer saber se não os incorporei no quartinho dos fundos nos anaquéis do meu armário das louças. Ela diz que posso falar de todas as mulheres da família, mas todas são meus ossos no sustém de quaisquer tiranias. Quem dera toda essa gente estivesse socada num cantinho da saudade. Não, esse monte de gente ainda vive comigo na claroscuridão dos dias.

E seus corpos sem cara me pesam como se costurados nos panos de um vestido amarelo com cheiro de banha de cozinha, a mesma que eu passava em meus cabelos de Mammy. Faço tudo, ou quase, com muita di culdade, estou sem forças. Gostaria de ter poderes para invocar Nanny (atenção, não quero invocar Mammy, mas Nanny), aquela que venceu várias vezes os bakras nas lutas pela libertação da Jamaica, só que já não sei ou nunca soube quais as palavras para pedir o seu socorro às minhas lutas intestinas. Não é falta de vitamina D nem tristeza – tristeza passa –, porém a sensação de ruína já está comigo há tempos. Ossadas me achatam e me impedem a caminhada dentro da própria casa, se arrastam nos babados de meu vestido surrado. Não tenho onde pisar os pés.

Me falta rio. Me falta arroio. Me falta água.

Minhas sandálias vão, jogadas às costas. Além da invasão do corpo por um vírus coroado, temo a presença desses inquilinos e seus pésmãos de mando.

No entanto, não quero todos os rostos de todas essas mulheres; não quero no meu sangue os restos delas, quero o assombro do repouso e então dormir uma noite inteira. Embora os espelhos sejam seumeus ovários, quero garras de cuandu para sair do ventre comendo amoras azedas.

 

Uma vez tive os pés queimados.

Na casa de um cômodo onde o expaimeu me inquilinava, havia fogareiro de ferro forjado, sua parte inferior uma garganta quadrada onde remexíamos as brasas de carvão, sua parte superior a grande boca do mundo que quanto mais comia mais fome sentia. Bem pequena, me aconchegava em seu entorno. Um dia fui atiçar o fogo para aumentar sua quentura no rosto, mas ele virou as brasas contra mim. O expaimeu correu desesperado comigo nos braços para o hospital com nome de santa impor minha sobrevivência neste mundo.

Eu achava que o fogareiro quisesse as brasas, mas sua bocarra queria comer meus pés. E eu seria manca, com o aguilhão dos pés tortos e inchados, teria de abandonar a cidade com nome de ana, fugando do expaimeu, e mesmo assim seria uma criminosa, uma parricida, e então poderia acreditar que o inchaço, sem cura, dos pés, não vinha dos tornozelos acorrentados de minhabisavó.

O senhor expaimeu tinha os pés enferidados. De senhor ele exigia ser tratado.

As feridas vinham de uma insolação. Ele, tiomeu e um amigo foram pescar muçum num arroio no bairro da carolina. Tomaram muita muita cachaça. Tendo bebido um pouco mais que os outros, o senhor expaimeu adormeceu com os pés no olho do sol. Já era noite quando foi acordado pela ardência das queimaduras.

Minhamãe nasceu com os pés chatos. Minhavó paterna tinha pena dela por isso. Acredito que a pena não era apenas pela chatice dos pés.

Cuandunata pé de pata foi à missa sem sapata. Irmãomeu entoava essa canção para mim. Eu não ouvia o canto, mas o deboche. As rimas em ata me doíam os ouvidos, reverberavam como pedras atiradas num riacho. Desde lá eu já não tinha lugar no terreno para que os pés queimados andassem. De fato, eu andava com os pés de pata cujas sapatas desservem.

 

Me contou minhavó

que ouviu da minhabisa

que depois da abolição,

minhabisa desejou gastar o pouco dinheiro que nem tinha em sapatos. Foi a uma loja e comprou o que foi possível – um sapato fechado cinza mais ou menos de salto alto com cadarços na parte superior. Os pés acostumados à viração das folhas no terreno não aguentaram a distância do chão, mediada por um objeto estrangeiro. Por isso minhabisa deu de carregar os sapatos nos ombros como papagaio de pirata de lme da sessão da tarde.

Muito católica, vovó cumpria o decreto de ir à missa das dez da manhã todos os domingos na igreja santa santinha. Minhaprima Xuela, cujas palavras me chegaram num sonho, me disse que cumprir tal decreto signi cava mais uma derrota, pois qual seria o resultado das vidas dos vencidos se não tivéssemos

passado a crer nos deuses daqueles que nos haviam derrotado? 7

Assim, nos domingos de encontro com o deus dos vencedores, minhavó tomava banho bem cedo e usava sabonete e talco que cheiravam a ores de alfazema. Quando ela estava na lida da cozinha, fazendo arroz e feijão ou sopa ou espinhaço de ovelha ou arroz com charque nas suas panelas de ferro, não raro eu entrava sorrateira no seu quarto, abria a primeira gaveta da cômoda e me apossava de uma caixa azul. Então, minhas narinas se enchiam da alma das ores do mundo, essas que davam seu cheiro à abuela nos domingos. O expaimeu nunca soube. Se soubesse pensaria que eu estava cheirando cocaína e teria me matado por isso.

Com os sapatos do natal, eu acompanhava minhavó agarrada a um de seus braços. Debaixo do sovaco do outro, ela apertava com força a bíblia de capa de couro preto bordas vermelhas folhas nas de contorno dourado. Não queria que a palavra sagrada rolasse pelo chão impuro da rua. Talvez não acreditasse no deus inventado por aquela bíblia; e temesse que, ao derrubá-la, não tivesse a mínima vontade de vergar sua coluna para recolhê-la.

No verão, a abuela gostava da porta da frente da casa bem aberta. Abram essa porta para entrar a graça de deus, gritava sentada na cadeira de balanço da cozinha, de costas para o armário das louças. Eu cava curiosa para saber onde e quando a graça de deus se manifestaria. Do que eu sabia pelas imagens de livros e quadros, ele não tinha graça nenhuma; pelo contrário, tinha até piolhos na barba. Talvez a graça esperada por minhavó fosse apenas uma lufada de vento no rosto. Um ianso.

Ela não calçava os sapatos da missa se antes minhatia não escovasse seu no cabelo de cinzas com uma escova de pés femininos que se escondia no fundo de outra das gavetas da cômoda. Rápidos dedos dividiam numa encruzilhada a cabeça de ifé da vovó, o rosto coberto de estrias incisas e lábios não marcados. Em cada ângulo, uma trança se costurava na outra.

Para ouvir histórias sobre a virgindade de maria ou sobre a promiscuidade de maria madalena, assim ia vovó calçada à missa. Seus pés pareciam um bolo que crescera e se derramara para fora da forma. A abuela ia bem trançada com saia e blusa de domingo além da meia-calça. Tudo muito limpo e passado. Tudo muito bem-comportado. Ia deambulando até a igreja. Não se saía mal, para quem passava os dias com um vestidinho de chita, arrastando os chinelos pela terra batida do pátio e pelo chão cimentado da cozinha. Mas, quando voltávamos da igreja para casa, já os pés tinham brigado com os sapatos, que preferiam os ombros.

A tia recebeu o nome de Eluma na pia batismal porque minhavó, ao trazê-la à luz, disse jeová é cheio de graça. Achei muito estranho vovó elogiar deus, e não a bebezinha. Mas ela quem sabia da divindade de sua crença. Dizem que as pessoas chamadas Eluma são intuitivas sensíveis sonhadoras independentes acomodadas sociáveis não con itivas afetivas. Minhatia não teve tempo de pensar em suas próprias características entre duas frigideiras e potes quebrados entre uma casa e outra entre lhas postiças brancas e um lho negro que se sentia postiço.

Me equivoco (novamente). Minhatia se dividia entre duas casas e uma frigideira tramontina rasa em aço inox com corpo triplo revestimento interno em antiaderente starflon premium com cabo 3,4 l da linha grano e tecnologia de corpo triplo (aço inox + alumínio + aço inox), que permitia um cozimento mais rápido dos alimentos. Com design sofisticado, embelezava a mesa de jantar da mid-century devido ao elegante acabamento em alto brilho. Projetada para o dia a dia, o desenho sem cantos facilitava a limpeza. Além disso, a frigideira podia ir na máquina de lavar louças, de modo que sobrava às criadas muito tempo para os demais afazeres.

Em resumo, cara leitora, minhatia se dividia entre duas casas que não eram suas – o casarão da gilde e a casinha, ou casebre, da Anagilda; se dividia entre uma frigideira, que era de outros, e um pote quebrado no fundo do qual preparou seu lho para ser um menino que não quisesse sua pretidão dela.

Não sei se ela tinha profusão de pelos nas partes púbicas ou se era dona de uma vagina que sufocava como inhame seco na garganta. Não estive nos seus últimos dias assim como ela não esteve no começo dos meus. Apenas sei que era a mãe dos seios de potes, zonas pretas zumbidas que foram silêncio.

Eluma se impressionava sobremaneira com um quadro de velásquez que havia na sala principal da mid-century, o triunfo de baco deus do vinho ou los borrachos. Ela tinha algo da loucura imputada a baco. Havia algo de baco na fórmula da cerveja que ela bebia. E havia muito dessa loucura e liquidez alcoólica em mim, especialmente colada com cola de sapateiro na sola dos meus pés. Várias vezes o expaimeu me chamou de negraloca, apesar de eu nunca ter ingerido uma só gota de álcool. Eu me afastava de qualquer bebida, com medo de me igualar a ele ou de me igualar ao avômeu, pai dele, no gosto pela água que passarinho não bebe. Durante um bom tempo, eu não bebia nem água. Não beber era a minha luta contra a loucura. Quanto à negrura, não havia solução.

Enquanto aspirava a (aqui até que o a poderia ser craseado) sujeira dos brancos na sala, tia Eluma observava baco com a pupila esquerda e baco a observava com a pupila direita. Será mesmo que os borrachos e as borrachas triunfam em algo que não seja tontear a própria vida e a vida das outras? É provável que também baco se zesse tal pergunta.

A mitologia que até o momento se considera a mitologia enuncia que a divindade que ora invoco nasceu duas vezes. Não me re ro aos brancos e nem ao expaimeu, que, de fato, sempre se autoproclamaram divindades. Me deu uma vontade imensa de agora cantar, em louvação a eles, um samba-enredo que diz assim devagar com o andor ô ô ô porque o santo é de barro. Feita a louvação, continuo, destacando que me re ro ao deus “negrego” ou “nemano”, baco. O primeiro nascimento dele se deu quando sua mãe desejou se certi car de que o pai do rebento no ventre dela seria um deus, um deus de verdade, e não de barro. Diante da visão divina proibida aos mortais, o fogo a fulminou. baco foi juntado das cinzas do corpo da mãe pelo deus-pai que o gestou nas coxas, como um escravizado moldando telhas, até que estivesse pronto para nascer de novo. Esse o seu segundo nascimento.

Se baco teve dois nascimentos, um deles das cinzas do corpo branco da mãe, e outro de uma das coxas gordas do pai, os meus nascimentos foram três.

O primeiro, quando me separei da pretura do corpo de minhamãe durante uma noite de inverno de renguear cusco num hospital gélido na cidade com nome de ana. O parto cesáreo demorou uma odisseia. Eu me negava a nascer já velha e para a morte. Quando digo nascer para a morte, por favor, não confundam com aquele poema chatíssimo que diz “da primeira vez que me assassinaram”.

Certi co e dou fé no uso das atribuições que me confere a lei, que às folhas 62-v-* do livro A 186-* de registro de nascimento foi lavrado hoje o assento de Cuandu XXXX deletado o nome do pai biológico, do sexo feminino -* de cor preta -* ... Foi declarante “a mãe”. Emolumentos Cr$ 3.122,00. O referido é verdade e dou fé.

Eis a fórmula do registro do meu nascimento o cial para o mundo da burocracia do sexo e da raça do qual nunca mais me livrei. Além do meu nome, nesse momento, alguém já disse que eu era preta e já disse que eu era uma menina preta. Será que foi minhamãe quem me delatou? Será que foi um funcionário do Ofício do Registro Civil das Pessoas Naturais que já me circunscreveu dupla e naturalmente no certi cado de nascimento sem eu dizer se era mesmo uma menina preta ou menina e preta?

Talvez aí eu tenha contratado minha primeira dívida em dinheiro – três mil cento e vinte e dois cruzeiros – quantia que minhamãe teve que atirar dos bolsos de sua saia sobre a mesa do o cial escrevente para me ver nascicida (sim, é nascicida mesmo) para um mundo que não apenas o dela, com nome sexo raça classe nacionalidade e outros balangandãs que não as insígnias da liberdade usadas por minhancestras. Me sinto no dever de confessar que nasci com balangandãs cujos amuletos e talismãs foram comidos, com farinha de trigo, pelo cão tricéfalo quérberos da silva, aquele mesmo que tranca ou a fundadora da dinastia num lugar chamado “casa de família”. Amoras e cachos de uva e cabaças e mais um pouco descansam na pesada barriga desse animal tão doméstico.

Minhamãe foi a única declarante da minha saída de suas águas. Não sei se vocês se atentaram a esse detalhe. Ela esteve sozinha no meu segundo nascimento tanto quanto esteve em solidão no primeiro. Por muito menos Olocum destruiu a primeira humanidade.

Depois de um tempo imemorial, se deu meu terceiro nascimento. Um nascimento de fogo. Um ato burocrático ocorrido quando, na rua na escola num clube em lugar fora de casa, alguém me gritou negra, verdade, estou enrolando vocês como se enrola o bife enrolado. Lembro bem onde e como foi, embora quisesse deslembrar. Eu ia à escola, atravessava, com esperança de futuro, uma esquina de uma das várias ruas com nome de general da cidade com nome de santa. Do outro lado, fui avistada por um bando de milicos.

Eles riam entre si.

Eles riam de mim.

Eles me acusavam de negra.

Eles diziam que queriam provar de minha vagina.

Eles diziam que queriam saber se minha vagina sufocava como inhame seco na garganta.

Eles queriam saber se minha vagina trezeaneira era apertadinha.

O bando de urubus verdes gritava contra mim. Eu me sentia a carniça deles. Nenhum pai poderia ou quereria me ajuntar das cinzas e me gerar novamente em suas coxas. Fiquei paralisada. Minhas têmporas latejavam. Havia entre elas, sentado num barquinho, um abridor de conchas perfurando cada osso de meu crânio com sua lâmina. Oh, mãe, “abra este dia com o lamento da concha, como fez na minha infância, quando eu era um nome docemente exalado do palato da alvorada”. Mentira, além de eu estar plagiando um verso de omeros, minto descaradamente, pois nunca fui um nome exalado do palato da alvorada. Me acusavam de negra de um modo raivoso feito o senhor expaimeu me gritava negraloca ou os porcos de tia Eluma gritavam fome-fome-fome.

Oh, mãe, abra este dia com o lamento da concha. Outros sabiam do segredo que eu procurava guardar dentro do pote duplamente quebrado dos meus registros de nascimentos. Oh, mãe, abra este dia com o lamento da concha. Eu estava marcada para sempre com a sentença de morte que a palavra negra implica e com as dívidas pela prorrogação da minha vida além dos limites regulamentares. Eu não podia mais bancar a xerazade que a cada noite ganhava um dia enganando o rei com outra história.

O referido é verdade e dou fé.

Mas quem era mesmo o rei? Foi a pergunta de minhanalista.

 

Embora me sinta achatada, o problema agora tem forma diferente dos pés patológicos, porque a culpa pela distância de tia Eluma deambula pelo meu corpo feito um bicho-carpinteiro acompanhado das dívidas e dúvidas sobre a felicidade das mortas. Se eu não me comportasse como uma “menina”, conforme o primeiro registro de meu nascimento, a vovó enchia a boca para me perguntar não pode ficar quieta um minuto? Está com bicho-carpinteiro na bunda?

Em razão de sua obediência ao deus proprietário do paraíso, acho que a abuela não usava a palavra bunda. Talvez dissesse não pode ficar quieta um minuto? Está com bicho-carpinteiro no corpo? Falei bunda por um gosto especial na palavra. O expaimeu me proibia dizer palavrões ou usar qualquer expressão que se assemelhasse a um. Havia um menino neto da Dona Rosa vizinha da minhavó cujo apelido era fodega. Eu estava proibida de enunciar o nome dele. O senhor expaimeu andava fodendo por aí com um monte de mulheres além da minhamãe, talvez até com alguns homens, mas eu não podia usar a palavra fodega. Ele temia que eu já estivesse com um pau que não fosse o dele na minha boca.

A m de que a leitora não confunda os personagens, alerto-a para o seguinte fato: o expaimeu não disse que as pessoas dormem para deus desfoder com tudo o que elas foderam durante o dia. Foi outro homem que disse isso. O expaimeu era da turma que fodia com tudo e com todos durante o dia e, depois, conseguia dormir muito bem à noite, talvez com o rabo cheio de cachaça. O expaimeu foi o que quase abandonou a casa para foder tudo com todas. Uma pena que minhamãe o impediu.

Pesquisei sobre o bicho-carpinteiro na internet para saber se ele existia no mundo dos outros ou se pertencia com exclusividade ao mundo que eu compartilhava com minhavó. Pois bem, segundo o houaiss, bicho-carpinteiro é o nome genérico de várias espécies de besouros, especialmente das famílias dos buprestídeos e cerambicídeos. Durante o estágio de larva, eles brocam troncos e cascas de árvores. Portanto, com a frase, minhavó propunha que, feito as cascas das árvores, eu tinha, sob a pele, larvas desses insetos, que se remexiam constantemente, fazendo-me cócegas e não me deixando sossegar. Esses bichos fodiam comigo.

Minhavó tinha lá suas experiências foda com os buprestídeos. Sua mãe falecera e seu pai batera as pernas para outras bandas. Ela cresceu criada por uma tal tia Marica. Não sei se tia de adoção ou parenta sanguínea. O que importa é que ela fazia doce de batata-doce de abóbora de laranja de pêssego de melão. Certa vez minhavó foi desa ada a pegar os doces que tia Marica escondia numa peça ao lado daquela em que dormiam as crianças. Entre uma peça e outra, havia um buraco no alto da parede, uma espécie de passagem secreta que dava para o lugar dos sonhos. Na ida, vovó conseguiu subir num guarda-roupa e passar pelo buraco para o outro lado. Aí, pegou alguns vidros de doce e os transpassou às outras crianças que esperavam com as caras e as mãos todas lambuzadas pela doçura. No retorno, minhavó, subida no armário da peça dos doces, alcançou novamente o buraco. Passou sua cabeça um braço outro braço um ombro outro ombro o tronco parte da cintura, mas cou trancada pela bunda. Quando tia Marica viu aquele corpo despedaçado, quis saber, sob pena de perda da língua de cada uma, o que estavam fazendo. Ninguém falou, todo mundo estava com a boca cheia. Vovó apanhou de relho na bunda e, ainda por cima, com a boca vazia. Tia Marica nem fez questão de retirá-la do buraco durante a surra.

Tia Marica usava uma bengala e batia em quem não pedisse a benção. Minhavó apanhou de bengala. Quando via alguma mulher da família, tia Marica sempre dizia as palavras mágicas como tu está bem, bem gorda, bem vistosa! Que vestido bonito! Tu compraste ou tua patroa te deu?

Não cheguei a conhecer a bengala da tia Marica.

Tia Eluma a conheceu. E também deve ter recebido frequentes elogios. Herdado da minhavó, ela manteve durante muitos anos um bicho-carpinteiro alojado em parte de seu corpo, talvez no fígado, mas não sei se ele correspondia à forma foda de felicidade. Desde cedo, me preocupei com a felicidade dela como se eu antevisse nela o meu futuro. Minhanalista já me disse que a vida não precisa ser uma felicidade foda, que não nascemos para cumprirmos o mandamento de viva uma felicidade foda. Porém, a interpretação me soa insu ciente. Continuo à procura de uma morta familiar que me a rme sua felicidade foda para que eu não duvide da possibilidade da minha. E foda-se.

 

Parece que tia Eluma passou para o outro lado do buraco apenas depois de sua morte. Dessa vez a gente translúcida (e rica) para quem ela (a tia) se arrastou de joelhos tantos anos, feito um bicho-carpinteiro, limpando o chão de mármore da casa limpando a bunda cagada a boca suja das crianças dos adultos doentes limpando o vômito dos adolescentes borrachos nas festas lavando as panelas lavando as roupas com os dedos lavando os segredos das camas com qualquer detergente lavando as feridas os cânceres e sei lá mais o que dessa gente. Essa gente não ajudou com um só centavo na compra do caixão onde foi depositado o seu corpo de cansaço.

Antes de se abraçar ao cansaço, antes de chegada à idade média da vida, minhatia tinha sonhos frequentes de que não andava de quatro pés pelo chão da mid. Pelo contrário, em vez de andar com a cara virada para a terra, bocabajo,

andava com a cara voltada para as alturas, com a bunda se arrastando pelo chão,8 apoiando-se nas duas mãos e na perna esquerda, que era tão arteira que nem vara de mato usada para tocar porco. A perna direita, que ela chamava de cabeça de salamandra, se exibia sempre suspensa no ar, cortada por uma ferida. Minhatia avançava aos trancos, de bunda, que nem um marandová. Conforme os seus joelhos foram cada vez mais roçando o chão da mid-century, ela foi se esquecendo do sonho de avançar com a bunda ou se acostumou tanto com ele (com o sonho) que não mais lhe fazia diferença se havia sonhado e esquecido ou simplesmente não sonhado.

Cozinheira de pésmãoscheias, tia Eluma preparava para a gente lá da mid um ótimo chajá, assim como outros e vários pratos. Mais adiante, caso eu não esteja mentindo, repasso para vocês a receita que peguei com minhirmã, que, por sua vez, aprendeu com ela. Eu não aprendi nada; enquanto minhirmã aprendia os segredos da culinária, eu estava socada nalgum lugar, estudando. Achava que estudar me salvaria de ser pobre, achava que estudar me elevaria à tal classe média, achava que estudar me branquearia como a roupa no quarador no pátio da casa da vovó era branqueada pelo sol. Ledo engano. A classe média não é apenas dinheiro sobrando no banco e viagens para disneylândia ou para museus de paris ou lhos em escolas particulares. Classe média é todo um pensamento de vassalagem relativamente à elite que, como aquele narciso na escova de cabelo da minhavó, olha apenas para a própria imagem re etida no espelho. E a classe média tem tempo, tempo para se atirar no sofá, tempo para car sentada ou deitada e ser servida, tempo para um monte de coisa, inclusive para car com a bunda achatada de tanto sentar.

Porém, se antes eu tinha vergonha de ser pobre, hoje tenho pavor de que me incluam nessa tal classe média. Eu a desprezo com meus espinhos de porco-espinho, desprezo aqueles que para mim são seus presentantes mais próximos. Tenho-lhes um desprezo oculto, abafado sob os panos de prato de minhavó. É um desprezo que se parece mais a uma louça pendurada no meu vestido encardido do que um sentimento. Quando lhes dirijo a palavra, uma falsa cortesia se liberta de meus dentes, uma cortesia que diz às ordens, dotora. Suponho que eles me detestem na mesma medida ou talvez eu me esteja dando demais importância, talvez eles nem saibam da minha existência fora do circo da burocracia.

Minhanalista pergunta se, por acaso, me sinto superior a eles ou a elas; se, por acaso, me sinto inferiorizada trabalhando ao lado de gente que, supostamente, não fez tanto esforço quanto eu para qualquer coisa; minhanalista pergunta se, por acaso, penso de um modo impensado que, sendo mais esforçada e quem sabe até mais inteligente, eu deveria ocupar uma posição superior à deles.

Uma vez tentei conversar com uma dessas mulheres da burocracia que adora ser chamada de dotora, como se o título já a retirasse da posição de mortal. Ela vinha da cidade com nome de santo e, com certeza, tinha ainda no seu santo sangue do continente da mulher que amou (ou foi estuprada por) um boi da cara branca a missão de catequizar. A dotora me contou que sua avó, imigrante italiana, tornara-se lavadeira no país das maravilhas e que, agora, sua família “se adonara” não sei de que num município aí. Ora, se sua avó, o santo graal do mundo, pôde amealhar dinheiro e prestígio, as descendentes de minhabuela que fora lavadeira continuavam lavando roupas por quê? Certamente meu desprezo absoluto e mal disfarçado pela dotora se estampou. Certamente brotaram espinhos para dentro de minha pele, certamente eu tive aquela vontade ancestral de colocar uma abelha viva dentro do olho direito arregalado. Mas disfarcei

minha insolência de neguinha gnamokodê, 9 mantendo-me silenciosa para que nenhuma louça se quebrasse na mid- century onde a dotora reinava.

Cometi um (outro) erro. Como já disse, pessoas como eu pagam muito caro por seus erros. Pessoas como eu? Pessoas? Acho que estou me achando. Mas não importa agora a dúvida losó ca sobre minha constituição como pessoa bicho-carpinteiro ou porco-espinho. Falo do erro. Resolvi participar de uma festa do grupo de trabalho no nal de um ano desses. Eu estava me divertindo, dançando como gosto de dançar. Alguns anos depois a dotora, promotora da festa, me ofereceu bebida alcoólica em outra situação comemorativa. Eu disse que não bebia álcool, que nunca tinha bebido álcool. E vocês já sabem por qual motivo. Foi então que ela me retrucou mas tu estavas bêbada naquela primeira festa. Vou fazer uma pausa dramática aqui. As mulheres brancas sempre querem saber mais de nós do que nós mesmas.

Ô mãe, abra este dia com o lamento da concha.

Ô mãe, dai-me paciência para suportar o que não mais suporto!

mas tu estavas bêbada naquela primeira festa. Apenas guardei a frase-revelação entre meus espinhos, ri por dentro o riso cínico, o riso do total desprezo, de quem se deu conta da merda da coisa toda, mas, por dever de ofício, se mantém calada. Uma mulher negra jamais poderá ser livre entre a gente branca e até entre a gente preta. O nosso corpo preto é uma prisão sem portas. Talvez a metáfora seja batida, mas a questão é mesmo essa, não adianta bater com a cabeça na porta. Às vezes entendo por que o expaimeu exigia que fôssemos sérias e que mantivéssemos a cara amarrada, algo que aprendi muito bem com ele, embora, às vezes, eu pague muito caro pela desobediência.

No capítulo anterior, eu disse que, enquanto minhirmã aprendia os segredos da culinária, eu estava socada nalgum lugar, estudando. Neste ponto, estou faltando com a verdade novamente, pois até tentei aprender o tal ofício de desgostos e panelas queimadas. Minhavó me ensinou a fazer arroz branco – para cada xícara de arroz, duas de água, uma pitada de sal – ela ia me dizendo e remexendo a panela sob a chapa quente. De vez em quando, dobrava os joelhos para soprar as brasas que cavam no interior da boca do fogão a lenha. Era uma forma de manter aceso o fogo.

Certa vez me animei a cozinhar uma panela de arroz na casa em que o expaimeu me inquilinava. Foi o meu primeiro arroz. O primeiro amor a gente nunca esquece é um ditado popular; no meu caso, o ditado se trans gurou em o primeiro arroz a gente nunca esquece. O senhor que até então fora meu pai jogou a panela de arroz branco no meu rosto preto porque o prato não estava do seu agrado, porque o grão estava cru ou cozido demais, porque tinha muito ou pouco sal; ele berrava que eu não servia para nada, que eu não prestava para nada, que eu era uma negra de merda.

Eu ainda sinto o arroz quente na cara. Tento arrancá-lo, grão a grão, como se

meus dedos indicador e polegar fossem o bico do pássaro do Eu-não,10 que busca recolher as sementes do terreno encharcado. Seu movimento é vão. O Eu-não supõe que recolhe a semente, mas o que faz é enterrá-la com seu bico cada vez mais na fundura do lodo.

Esse senhor que fez da minha cara um arrozal não suportava nada que considerasse deslize, de ninguém. Nossa vida com ele foi uma eterna panela ardendo no fogo, com seu cheiro de queimação inundando a casa de janelas trancadas para que os vizinhos não cheirassem nada não vissem nada nem ouvissem nada. Eu preferiria que o deus cheio de graça da vovó ou capanga a seu mando o levasse de arrasto, mas não aconteceu. Ele se era o homem branco da casa. Apenas ele poderia provocar queimaduras em nome de deus.

Eu me perguntava de quem ele teria herdado o instrumento chamado negra de merda. Um instrumento usado com tanta destreza para queimar meu corpo. Teria aprendido com a gente branca com a qual ele fora criado? Teria sido ele também chamado de negro de merda? Não sei. Também tinha vontade de chamá-lo de negro de merda assim que ele abria a porta da casa e gritava que trouxessem seus chinelos.

O branco quente atirado na minha cara preta se repetiu. Não se tratou de iniciação ao orixá do pano branco. Uma prima distante se casaria. Alesọ autorizou que eu fosse ao salão de beleza de um maquiador conhecido da família. Assim que me sentei na cadeira para ser “embelezada”, ele me encheu de pó de arroz, de forma que tive que me lavar toda ao chegar em casa. Para completar o desastre, meu cabelo foi alisado com pente quente e depois domado com rolos, embora resistisse à tentativa dos caracóis falsi cados. Novamente, o branco em mim nada tinha a ver com o caracol da divindade cujos dedos moldaram nossos corpos.

Na época, fazia sucesso nas rádios “Olhos coloridos”, na voz de Sandra de Sá – Meu cabelo enrolado Todos querem imitar Eles estão baratinados Também querem enrolar Você ri da minha roupa Você ri do meu cabelo Você ri da minha pele Você ri do meu sorriso A verdade é que você Tem sangue crioulo Tem cabelo duro Sarará crioulo Sarará crioulo (sarará crioulo) Sarará crioulo (sarará crioulo).

Embora adorasse Sandra de Sá, eu não achava que alguém quisesse imitar o meu cabelo, especialmente aquelas pessoas que me chamavam de cabelo de bombril. Foi difícil o processo de construção dessa música. Li uma entrevista com macau, seu autor. Ele estava numa exposição de escolas públicas no Estádio de Remo da Lagoa com seu cabelo bleque quando foi convidado à averiguação por um policial militar. Dentro da sala, um sargento lhe dizia eu estou vendo você lá de baixo, você não é fácil, hein? Você ri demais, fala demais. A violência se estendeu ao cabelo, à roupa que macau vestia e ao local de sua morada. Você mora naquela lama ali, cheia de bandido, ao que macau respondeu bandido não, ali não tem bandido. E novamente é isso mesmo. Tudo pobre, tudo favelado, essa coisa toda, tudo negro. Ao que macau respondeu o sangue que corre na sua veia, corre na minha veia também. É vermelho. Você está com preconceito.

macau conta que foi jogado num camburão às quinze horas, tendo chegado à delegacia por volta da uma hora da madrugada, onde cou circulando na escuridão de uma cela com um monte de gente. Libertado no dia seguinte, em vez da casa, preferiu o mar. Vendo o mar, veio, de uma forma única, o texto dos “Olhos coloridos”.

macau compôs e Sandra de Sá cantou o hino de uma geração. Mas eu cantava aquilo da boca para fora; havia algo de mentiroso saindo de minha boca. Enquanto eu cantava, desde que o expaimeu não estivesse em casa, porque ele não gostava que nós cantássemos, minhamãe alisava o meu cabelo, o da minhirmã e o dela.

No clube que me era dado frequentar, o clube dos negros – não nos era dado entrar em outros clubes da cidade com nome de liberdade –, todo mundo dançava e pulava “Olhos coloridos”. Contudo, a maioria das mulheres também tinha o cabelo alisado. Na cidade com nome de santa, a letra dos “Olhos coloridos” mais servia para agredir os brancos, dizendo que eles também tinham sangue negro e menos para modi car qualquer sentimento das mulheres negras com relação ao valor de si próprias.

Tia Eluma alisava o cabelo com pente quente apenas se estivesse se preparando para uma festa. No restante do tempo, quando servindo na mid-century, usava um lenço para escondê-lo – aquele lenço que já descrevi – ou o cortava bem curtinho. Numa época já perdida ela usou um tal de alisante marujo, que fez seu cabelo já mirrado cair todinho. Alesọ chamava de micocas as mulheres negras que usassem o cabelo curto e natural. Agora fui fazer a consulta habitual na internet acerca da palavra micocas e encontrei o seguinte signi cado: Pretinhas Chinelonas que tem cabelos impermeaveis. Vulgo vileiras.

 

Gnamokodê!

A gente de cabelos lisos de quem eu falo mal, em troca dos cuidados que recebia, doava a tia Eluma as louças riscadas os brinquedos quebrados das lhas as roupas antigas os restos das comidas que minhatia mesma fazia. E, ao nal do mês, a gente de quem eu falo mal, pelo servício diário de mais de doze horas, doava a ela metade de um salário mínimo.

Nos raros domingos de folga, tia Eluma passava o pano. Passava o pano no chão da casa onde vivia com minhavó passava o pano nos móveis passava o pano nas louças passava o pano nas paredes. Pano seco. Pano com sabão. Pano com água sanitária. Pano com lustra-móveis. Pano com cera. Pano com anil. O único elemento relativamente variável no seu processo de empanação era o pano, pois, caprichosa como ninguém, se valia de muitos, um para cada cômodo da casa. No

nal do dia, se deitava no seu quarto sem janelas para ver novela na televisão.

Nesses dias de folga, tia Eluma também lavava as roupas da família negra no tanque de pedra do pátio. Foi à beira do tanque, numa tarde quente de verão, que mostrei a Alesọ a calcinha vermelha da minha primeira, e ela, vendo, me perguntou se eu sabia usar absorvente e eu, ouvindo, baixei a cabeça num sinal de “sim”.

Eu, que ainda vivia a quentura do branco do arroz na cara empoeirada, agora tinha que me ver com o vermelho da dor todos os meses entre as pernas. O expaimeu, berrando comigo e cutucando a ferida no dedo do pé esquerdo, foi quem disse que eu deveria enrolar o absorvente num jornal antes de colocá-lo na lixeira, talvez um modo de esconder a vergonha de ter uma lha mulher negra. Se con rmava para mim a metáfora batida de que meu corpo era uma prisão sem portas.

 

Das mulheres negras que ainda sangravam era a casa da abuela. Feita de tábuas pintadas de verde-musgo, tinha a porta da frente ladeada por janelas envernizadas. Da porta, em direção ao pátio, saía um corredor que a repartia ao meio. O quarto da abuela, que às vezes eu invadia, dava para uma das janelas que desembocavam na calçada; depois dele, de quem olhava da rua, vinha o quarto que a tia dividia com seu lho mais velho. Não havia janelas. Sim, eu sei que já disse isso.

O corredor que repartia a casa recebia um tratamento especial de tia Eluma. Depois de muito bem lavado com água de alecrim, ela o cobria com cera vermelha em pasta. Depois de seca a cera, as crianças se autorizavam a deslizar de uma ponta a outra do corredor sobre panos limpos. Assim, enquanto brincavam, faziam o trabalho de lustrar. Quando chovia muito na cidade com nome de ana, minhatia cobria o chão do corredor com lona de estopa para que ninguém o sujasse com os pés enlodados. A lona, o expaimeu trazia do lanifício onde trabalhava. Num safanão, ele a atirava no pátio da casa da abuela. Não se tratava de gentileza com minhatia, mas de vontade de não ser mais incomodado por ela.

A janela oposta abria para a sala guarnecida por uma mesinha cujo centro exibia ores de plástico num vaso. Duas ou três. Azuis e vermelhas. O vaso de vidro. Um sofá de material que imitava couro encarnado e se rasgava com facilidade ocupava toda uma parede da sala, dando as costas para a vizinha Rosa. À sua frente, a porta que levava ao corredor ladeada por duas poltronas verdes, de modo que os três móveis para acomodar a bunda formavam um triângulo.

Além de depósito formal das visitas de minhavó, a sala já servira de quarto de moribundo e de capela velatória. Vi clê clementino se ndar aí, com o esqueleto atirado no falso couro do sofá vermelho, cuidado por minhatia e Alesọ. Sua carcaça já não mais caminhava, apenas sonhava.

Próximo à sua morte, clê sonhou. Sonhou que seu quartucho fora incendiado. Ao remexer as cinzas à procura das sobras de algo seu, um bebê pela metade surgiu tocando sopapo.

O meio-bebê,11 um bebê gigante cortado ao meio. Da cintura para cima todo o corpo dele. Talvez não soubesse que seu corpo inteiro apenas metade.

Quando clê procurou se afastar na ilusão de que nada tinha visto, o meio-bebê ordenou que se quedasse. Tiomeu não pôde caminhar até que ele escalasse suas costas e montasse em seus ombros como se monta um cavalo. O meio-bebê ordenou ao clê que o carregasse para a campanha. Na beira da estrada em que se internaram, pararam numa venda para comer arroz com charque e tomar cachaça. O meio-bebê comeu e bebeu a comida dele e, num safanão, se apossou da do clê. Não sobrou migalha. O meio-bebê cou com forças para seguir tocando o sopapo cada vez mais forte.

O clê reclamou que estava cansado e que o bumbo lhe doía os ouvidos. Com raiva das reclamações, o meio-bebê ordenou aos olhos do clê que nada mais vissem. Tiomeu parou de enxergar. Embora pudesse ser um alívio deixar de ser invadido pelo mundo, agora visto apenas pelo bebê, não foi. A imagem do bebê pela metade já grudara às costas de tiomeu como bonder.

A notícia de um homem montado por um bebê pela metade se espalhou pelas bandas da campanha.

Todas as vendas foram fechadas.

Todas as estradas foram trancadas.

Os dois tiveram que adentrar a mata rala.

O clê tentava abandonar o bebê em algum lugar e fugar para sempre, mas seu cavaleiro não permitia. Nem à noite ele dormia ou deixava o clê fazer outra coisa que não fosse carregá-lo. Ambos já estavam mortos de fome, embora a barriga do bebê pela metade continuasse crescendo, e ele também.

Certa noite eles ouviram os sons de instrumentos e de vozes. O bebê pela metade ordenou que o clê o levasse até o lugar de onde vinha a música. Em menos de duas horas de caminhada, chegaram. Apenas então o meio-bebê desceu dos ombros de tiomeu e se juntou ao tambor, à dança e à música, que eram gente como o clê.

Quando a dança começou a dançar, o meio-bebê e o clê se juntaram a ela na dança. Quando o canto começou a cantar, o meio-bebê e o clê se juntaram a ele no canto. Quando o tambor começou a tamborear, o meio-bebê e o clê se juntaram a ele no tamboreio.

Durante dez dias permaneceram dançando cantando tamboreando, sem descansar um só minuto sem comer sem beber o que quer que fosse.

Ao nal desse tempo, o meio-bebê mandou tiomeu abrir a boca.

Queria fazer latrina da goela de sua montadura.

Não sabia que era apenas metade.

Com a boca ainda aberta, tiomeu acordou.

A sensação de queda do lombo de um cavalo o acompanhou por dias.

Bebia muita muita cachaça, o clê. Disseram que teve uma trombose que cou paralítico que seus pés haviam abandonado o fundo da toca entreaberta dos

sapatos12 que seu casaco velho e puído aguardava em vão na guarda de uma cadeira.

Não sei bem a ordem dos acontecimentos. Paralisia trombose paralisia. Achava tudo a mesma coisa. Depois soube que a trombose se dá quando um coágulo formado nas veias grandes das pernas e das coxas bloqueia o uxo de sangue e causa inchaço e dor. Fiquei sabendo, também, que o coágulo pode se mover na corrente sanguínea feito um bicho-carpinteiro. A tal embolia.

O clementino carpinteiro nunca malandro não tinha riqueza não tinha fazenda não tinha arroio não tinha lho não tinha ciência nem religião não tinha dentes não tinha roupas para lavar nem casa para limpar sem brancos para servir vagabundeava sem paradeiro pela cidade com nome de ana sempre com as piores roupas o pior sapato o forte perfume de mofo do quarto.

Foi ele quem fez quase todos os móveis de madeira da casa principal. Uma cadeira pequena com assento de palha, do meu tamanho de mais ou menos cinco ou seis anos, ele tinha feito para me agradar. Com seu olhar de azulejo xo para o meio do pátio, sentada numa outra cadeira da cozinha, vovó passava parte do seu tempo. Então eu me sentava na minha própria cadeira, de marca clê, bem do lado dela, e cava olhando para o pátio, como se estivesse resolvendo as dívidas da família.

O clê nunca saiu do entorno da vovó. Morava num quartinho nos fundos do terreno, perto do pé de laranjas do céu. Eu o via aos tropeços, sob o domínio da cachaça, tentando atravessar o corredor que limitava o terreno da casa da vizinha Rosa. Não o conheci sóbrio. Talvez não tenha perdido grande coisa. Às vezes, ele me dava alguns trocados ou arrancava laranjas da copa da árvore para mim. Nunca o vi com namorada, nem namorado, o que seria bem mais difícil naquele tempo. Vivia com a garrafa de cachaça como noivo ou noiva. Não incomodava, dizia tia Eluma. Se fazia mal, apenas a ele mesmo, dizia Alesọ. A vovó lhe gritava sempre que o agrava atravessando o pátio rumo à rua clementino vem pegar um prato de comida!

Depois de sua morte, abri a janela do quartucho. Latas secas de tinta se espalhavam pelo piso de madeira todo arrebentado. A cama de solteiro, desarrumada, estava coberta por um lençol de ores de laranjeira cujo perfume me truncava a respiração. O retirei da cama num susto, queria marca da pisada do clementino que não fosse o cheiro de or. Encontrei uma ponta de lança com lâmina na forma da cabeça de pássaro contra um pedaço quadrado de madeira bruta que servia de tela. O clementino carpinteiro nunca malandro não tinha riqueza não tinha fazenda não tinha arroio não tinha lho não tinha ciência nem religião talvez tivesse arte e sonhos.

De modo diverso do clê – eu não o chamava de tio –, tia Eluma não ocupou com o corpo de enferma ou com o corpo de morta a sala da casa que foi da minhavó e que até então fora sua. Seus ritos funéreos se zeram no salão da igreja evangélica que frequentava. Sua morte foi rápida. Certamente não quis dar trabalho. Não podia admitir sair da posição de quem cuida para a de quem poderia ser cuidada.

 

1 Acoutar signi ca asilar. A narradora elegeu essa palavra em razão de ser usada nos anúncios de fuga de

escravizados nos séculos XVIII e XIX no Brasil.↩ 2 Oriki de Exu. Adaptação de Adriano Migliavacca a partir de tradução de Pierre Verger no livro Notas sobre o culto dos orixás e voduns. A palavra Exu foi trocada pela narradora por Enugbarijo (a grande boca do

mundo), epíteto desse orixá.↩

3 O “cavaleiro completo” se baseia em trechos de O bebedor de vinho de palmeira (1952), de Amos Tutuola, considerado o primeiro romance africano a ter repercussão internacional, traduzido para onze línguas,

inclusive o português.↩

4 Baseado no poema “Dúvida”, de Georgina Herrera (livro Cabeças de Ifé, Escola de Poesia, 2021, traduzido

por Eliane Marques).↩

5 “[...] tão dura que caria em pé, tão farfalhante que deus pensaria ter sido feita de asas de anjos” – frase

retirada do lme E o vento levou.↩

6 Referência a A autobiografia da minha mãe, de Jamaica Kincaid, p. 109.↩

7 Referência ao livro A autobiografia da minha mãe, de Jamaica Kincaid.↩

8 Referência do livro Alá e as crianças soldados, de Ahmadou Kourouma.↩ 9 Referência do livro Alá e as crianças soldados, de Ahmadou Kourouma. Gnamokodê signi ca lho da

puta ou puta que pariu.↩

10 Do livro Death and the king’s Horseman, de Wole Soyinka.↩

11 O “meio-bebê” se baseia em trechos de O bebedor de vinho de palmeira (1952), de Amos Tutuola.↩

12 De Aimé Césaire.↩

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