Louças de família
Capítulo VII
Ontem ela conversou com o Dionatan até gravou uns vídeos falando com o pai a mãe e pedindo refri para a Lani. Mas hoje está só dormindo, eu fico até as 20:00, depois vem a esposa do pablo as 20:00 E saí as 8:00
Tia Eluma gostava de cerveja. Depois que se entregou ao deus dono da igreja dos comensais da mesa de deus, se convenceu de que gostava só de refrigerante e água. Aos poucos começou a se parecer a vovó Anagilda, que bebia nada além de água, refrigerante e leite com nescau ou farinha de aveia; quando cansava de um, tomava outro. Sempre sedenta, vovó entornava a água da torneira a gut-gut numa caneca grande de latão torta pela correria do tempo; o leite era aquele que o leiteiro deixava na porta todas as manhãs, vindo do campo para a cidade de carroça, direto da vaca. Minhavó estava proibida de tomar café preto, tinha pressão alta, mas não fazia mesmo gosto nesse líquido. Nunca a vi reclamando ou se fazendo de desentendida para tomá-lo longe da vigilância de tia Eluma ou de Alesọ. O leite vinha com uma crosta grossa de gordura na superfície. Eu detestava. Era nojento. A vovó tirava a crosta com uma colherinha para que eu pudesse tomá-lo. Eu também tomava só leite, um modo de compartilharmos algo além do bicho-carpinteiro e da morte do avômeu.
Depois que ele se foi sob o gosto do banquete salino que lhe era interdito, minhamãe e o expaimeu me deixaram com vovó durante bom tempo – achavam que a presença infante aplacaria um pouco da solidão dela. Minhanalista perguntou que tipo de solidão uma criança de menos de oito anos poderia aplacar numa mulher adulta viúva quase velha. Por mim, caria na casa da vovó para sempre, único modo de, naquele momento, me ver livre do expaimeu e do que eu intuía submissão de minhamãe.
Todo domingo de manhã eu comprava para vovó duas garrafas de litro de fanta laranja no bolicho do seu nelson, numa das encruzilhadas da rua com nome de enforcado menos de quadra da casa dela. O bolicheiro homem branco atarracado quase careca cheio de lhos casado com mulher que vivia escondida branca baixa gordinha cabelo preto bem liso de fala mansa quase inaudível.
Vovó me tirava das brincadeiras de mancha ou passa passará pelo último ficará a porteira está aberta para quem quiser passar com um truque. Cuandu, toma isso ou aquilo. Eu pensava que receberia brinquedo ou doce, mas recebia um mandado, ir à venda comprar algo, em geral para o almoço. Então o isso ou aquilo, não passava de um punhado de palavras. Chegou o tempo em que, para não desfazer sua crença no poder da invenção, comecei a ngir que vovó me enganava. Ela poderia ter sido escritora. A ouvi várias vezes reclamando de que não havia estudado além do primeiro ou segundo ano porque desde cedo teve que ajudar no sustento da família lavando roupas ou trabalhando na limpeza das casas dos brancos. Para cumprir seu destino de afazeres, minhabuela fora retirada da escola.
Nas tardes de chuva forte fria, em que não se podia brincar na rua ou no pátio, vovó reunia as netas no entorno do fogão a lenha, fazia café com farinha, não por pobreza mas por que gostava de fazê-lo para as netas, sentava-se numa cadeira de frente para todas e contava de seus encontros com a mula sem cabeça ou com o lobisomem. A história de que mais eu gostava não tinha tal tipo de monstro.
Em tempos em que vocês não eram nascidas, nem eu, num outro lugar muito longe, houve uma guerra feia, e os soldados com suas roupas vermelhas, inclusive as tiras das sandálias e as tiaras da cabeça, sequestraram todas as moças do grupo inimigo. Enquanto as levavam para suas terras, uma delas deu um grito que estremeceu as águas e fez surgir no céu um clarão que os cegou. Eles caram dando cabeçadas nas árvores e uns nos outros, desesperados. As moças conseguiriam fugar mas não o zeram, pois aquela que convocara as forças mágicas passou uma poção de ervas que preparara nos olhos dos sequestradores.
Eles voltaram a enxergar e, gratos, as libertaram.16
As mentiras da vovó eram verdades que jamais ousávamos desmentir. O encantamento se quebrava quando os raios e os trovões se apagavam, e o sol se atrevia a dar sua cara de bandeira do país do rio dos pássaros pintados. Um total desgosto para mim, que sonhava ser a moça dos poderes mágicos. Porém não, eu não conseguiria invocar os raios. Apenas minhabuela manejava esse poder.
Vovó lavou por anos em beira de arroio ou tanque, mesmo quando a geada rasgava seus dedos. Quando cou velha ou doente demais para o serviço, apenas a acudiu a boa pensão que o avômeu lhe deixou. No entanto, quase todo o dinheiro que recebia cava com seu nelson.
Eu acompanhava Alesọ na discussão sobre medidas a serem adotadas para estancar a sangria da pensão da minhavó pelo armazém do homem branco. Todo dinheiro que recebia no nal do mês era queimado no nal de mês com a conta do nelson, assim como os colchões e o dinheiro do vovô queimaram na cidade com nome de estrela. Tia Eluma participava da discussão, embora não administrasse o dinheiro. A conta era maior do que o maior arroio jamais visto. Com o nome da vovó na capa, várias e várias folhas pautadas de uma caderneta cinza precisavam ser viradas e viradas e viradas para que se encontrasse o valor devido ao nal de cada mês. A caderneta foi a substituta do livro de histórias que talvez ela quisesse escrever. Os produtos e os preços iam anotados um abaixo do outro – arroz feijão massa sal açúcar azeite sabonete fanta laranja – conforme a data das compras. A con ança de Alesọ ou de tia Eluma na honestidade do seu nelson deveria ser como a con ança da vovó na bondade do deus católico, pois jamais conferiam os preços ou o somatório da conta. Talvez não fosse con ança, mas submissão à verdade do homem branco. Bueno, poderia ser também falta de tempo, já que a conta era enorme.
Uma das soluções adotadas por Alesọ, apoiada por tia Eluma, foi a de fazer um grande rancho mensal para se evitar as muitas idas diárias ao armazém e o excesso de compras, costume da minhavó. Deu ruim. Depois de uns meses, a administradora resolveu passar a régua na conta do nelson, parcelar o saldo devedor e abrir nova conta no bolicho do baixinho, que cava noutra encruzilhada.
Nesse meio tempo, todo mundo soube que a mulher do nelson o havia abandonado, levando consigo as lhas; os lhos, mais velhos, permaneceram com o pai. Torci a favor dela quando soube. Apanhava muito; o bolicheiro não a permitia sair de casa para nada, quanto mais trabalhar.
nelma abandonou nelson no nal da madrugada. Talvez tenha ministrado a ele algum sonífero na água ou na comida servida no jantar ou quem sabe até tenha tentado assassiná-lo. Rompeu a situação de maltrato saindo do labirinto com o corpo e a roupa que vestia. Outra mulher deve ter lhe emprestado novas peças. Na cidade com nome de ana, ainda não havia abrigos e, mesmo se houvesse, nelma talvez se sentisse envergonhada, culpada para tornar pública a sua opressão.
Depois de muitos anos, quando da missa de um mês de falecimento do expaimeu, quei surpresa ao vê-la na igreja santa santinha, ajudando o padre. Feito as contas da minhavó com bolicheiros, nelma trocara um amo por outro.
Na troca de amos e de encruzilhadas, a única mudança foi que minhavó não mais dizia, vai lá no nelson comprar tal coisa, e sim vai lá no baixinho comprar tal outra. O baixinho muito antigo andrajoso coxeava. Para disfarçar o desnível entre suas pernas, usava muleta vermelha com cabo de metal dourado. Seu bolicho
cava bem mais longe; eu tinha que caminhar duas longas quadras para chegar.
Para minhavó talvez fosse menos caro. Outra diferença é que o baixinho não era branco. Não sei se se tinha por negro.
Outros bolichos que levavam nosso pouco dinheiro cavam na rua com nome do enforcado. Havia o do seu alemão, homem bem grande bem gordo bem branco de olhos bem azuis. O armazém fedia a querosene. Às vezes, na saída do colégio, comprávamos ali chicletes de morango ou melancia. Seu alemão ouvia o pedido da freguesia com o barrigão atirado sobre o balcão, mãos em prece. Parecia à beira da morte. Depois, pegava o dinheiro da venda, recolhia a mercadoria de alguma prateleira e a atirava sobre o balcão como se jogasse baralho. Então voltava à posição de quem reza. Tínhamos de respeitar um tabu quando íamos lá. Não podíamos perguntar se havia tal coisa, devíamos pedi-la diretamente. Um dia, um dos netos da Dona Rosa, desavisado, foi expulso de dentro do bolicho a pontapés, pois quebrara o tabu. Seu alemão, tem chicletes?
Na rua do enforcado também se situava um bar onde tiomeu ivo bebia cachaça até cair e ser levado de arrasto para a casa da vovó. Demorei para me lembrar do nome do barzeiro, toni. Tia Eluma dizia que aí era o ponto de encontro dos borrachos da cidade com nome de santa. Conheci o local cinza com cheiro forte de cerveja e de mijo na época em que Alesọ fazia pastéis para fora. Via o ivo aí, dormindo atirado numa cadeira, um pedaço de trapo. Sonhando ou quase, reclamava da morte de um tal vinhateiro. Apesar disso, não parecia totalmente infeliz, então, para mim, estava tudo bem.
Não estava tudo bem nos raros momentos em que eu o surpreendia sóbrio. Emburrado, de poucas palavras ou até sem, entrava no beco em direção à pecinha dos fundos da casa da minhavó, onde morava, como se carregando um caixão de cerveja nas costas. Eu já fui assim, muito séria e emburrada, apesar de não beber cerveja cachaça vinho ou o que fosse. Não sabia o que era viver nos intervalos entre bêbada e sóbria. Achava que pessoas negras deveriam ser sérias sem intervalos, porque o expaimeu estava sempre com a cara emburrada em casa. Não gostava que ríssemos para não parecermos vagabundas. Mas eu o via alegre e falante com os amigos. Devia ser um peso para ele car em casa, assim como era pesada para mim sua presença de morto.
Estou falando mal do ivo. O quarto-casa dele cava atrás daquele que fora do clementino. Havia aí, logo na entrada, à esquerda, um armário de duas portas onde cavam guardadas fantasias de carnaval. Ele des lava em escolas de samba da fronteira; a preferida dele tinha o nome de Marinha, a mais tradicional. Tocava bumbo. Vinha no último lugar da leira, mais à direita ou mais à esquerda. Cômica sua gura baixa e larga carregando instrumento quase maior que ele, gotas de suor caindo pelo rosto avermelhado. Era meio sarará. Participar da bateria de uma escola de samba, integrar esse movimento comum em que cada instrumento é um e vários ao mesmo tempo, repetir a mesma batida durante uma hora ou mais, mas ser diferente em cada repetição. É provável que isso lhe fosse melhor que a cachaça. Mas o sentimento de pertença foi se esvaindo à medida que as escolas de samba foram desaparecendo.
Eu e minhaprimas entrávamos no quarto quando ele não estava e vestíamos as fantasias, umas por cima das outras. No armário também cava atirado um vestido azul, solto, de bolinhas. Parecia um corpo desmaiado. Pertencera à tia Firmina. Alesọ o usava qual uniforme para lavar roupas no tanque de pedras. Ela o vestia quando lhe contei que eu sangrara feito omoxum. Até hoje não entendo por que se guardava o vestido no meio das fantasias no quarto do ivo. Mais uma coisa que precisava ser escondida.
Tia Eluma contava que certa vez um incêndio quase engoliu a casa da avenida com nome de almirante. Ela, vovó e Alesọ iam e vinham com baldes de água no afã de abafar o foco do fogo provocado pela queda de uma vela no colchão de palha onde ivo dormia. Ele permanecia deitado em plena balbúrdia. Dormindo sonhando dormindo sonhando o sonho seu mundo. Filho da rainha mãe de mais sete lhas mourejantes, todas todo o exigido para que seguissem exploradas, era apenas um bebedor de vinho de videira da alvorada ao crepúsculo. Não bebia água, apenas vinho. Sua mãe-rainha contratou um vinhateiro para lhe preparar diariamente vinho de videiras cujos cachos iam colhidos pelo mesmo serviçal no terreno especialmente destinado ao cultivo. Havia mais de sessenta mil videiras dando seu vinho a ivo. Um dia o serviçal-vinhateiro tombou de uma videira e morreu tombado cara achatada pelo chão. ivo acordou num susto com a sensação de quem tomba. No vaivém da água e do fogo, desviou a atenção da minhatia das chamas com a pergunta já que vocês estão nesse vaivém, podem me trazer um copo de vinho de videira? A tia fez menos do que isso, jogou o balde de água na cabeça grande dele.
Às vezes, Natal ou ano-novo, minhavó bebia cerveja preta. Nessas datas, nós ainda crianças e vovô boaventura vivo, a família se reunia ao redor de uma mesa montada no pátio – os tios faziam churrasco e as tias, o restante da comida. ivo
cava lá com sua cara avermelhada metida na fumaça e no fogo, mexendo brasas
espalhadas pelo chão onde se ncava a trempe que sustentaria a carne. Vovô lavava e secava os pratos mantendo o guardanapo num dos ombros, feito sapato.
Eu já não estava mais na fronteira quando ivo se foi consumido pela cachaça. Parece que já vinha doente, não comia mais. Soube por quem me avisou da morte que ele saiu do quarto dos fundos onde havia meses seguia internado. Talvez quisesse chegar à casa da minhavó para pedir socorro. Ou vinho. Tombou de bruços. Em sua mão fechada, uma semente de amora cujo gosto açucarado não teve tempo de provar.
No mito grego, perséfone comeu um fruto e foi condenada a acompanhar hades no mundo dos mortos. Quem quer que comesse qualquer coisa no inframundo cava impedida de voltar para a terra dos vivos. perséfone quebrou o jejum, a lei dos infernos, mas um acordo entre zeus e hades permitiu a ela uma terça parte do ano na escuridão e as duas outras junto aos mortais. Não acredito que ivo tivesse qualquer crença ou esperança nesse sentido. Sua divindade era a cachaça. Seu inframundo, o quarto dos fundos. Acho que foi erguido da cama de enfermo para buscar outro vinhateiro ou tentar um vinho de amoras em lugar do de videira.
Na infância e juventude, Alesọ e tia Eluma des lavam em escolas de samba. Alesọ integrou Os Alejós até serem extintos. A grupação reunia criollos da fronteira migrados da cidade com nome de santa para a capital e para o centro do país das maravilhas em busca de ascensão social. Era gente negra agora retornada para o carnaval. Vinham da cidade de açúcar da cidade não conduzida da cidade dos ajuntados. Aos olhos dos cados, haviam subido na vida. Os Alejós usavam fantasias mais bordadas mais lantejouladas mais miçangadas que as demais escolas. Alesọ mourejava muito. Com isso juntava dinheiro para se dar ao luxo de des lar com eles.
Depois de casada com o expaimeu, Alesọ abandonou essa alegria. Acho que aí começou seu processo de desaparecimento. No lugar esvaziado, passou a montar uma banca durante os festejos de carnaval, que vovó ainda chamava de corso. Vendia refrigerante cachorro-quente pastel. Ganhava algum dinheiro para pagar as contas do outro dia. Nunca vi o expaimeu ajudá-la. Depois que terminava o des le das escolas de samba e das murgas, depois que todo o público havia ido embora, minhirmã e eu tomávamos conta das arquibancadas. Aí fazíamos nosso des le, algo que jamais o expaimeu nos teria permitido. Enquanto isso, Alesọ limpava guardava contava fechava a banca para a noite seguinte.
Quando do retorno para casa, nos perturbavam os mascaritos, homens (a maioria) que andavam em bando, rosto coberto por saco feito de trapos de tecido com dois furos abrindo para os olhos, um rasgo no orifício da boca contornada por tinta ou batom vermelho. Nos metiam medo apenas com suas presenças. Tentavam emular mulheres com perucas vestidos longos às vezes justos meias-calças coloridas sapatos pequenos em pés imensos modo de andar pretensamente delicado e enchimentos em seios e bunda. Alguns emulavam grávidas. Até hoje me lembro de um que usava máscara encarnada e colar de pérolas de rio com duas ou três voltas no pescoço. Não falavam. Eu não sabia se eram do país das maravilhas ou do país do rio dos pássaros pintados. Assim como não cogitava que língua ouviam, nunca me perguntei sobre a cor ou raça deles, pois se cobriam do topo da cabeça às solas dos pés.
Os brancos sabiam raça ou cor dos mascaritos. Não passavam de negos bandidos de face criminosa escondida atrás de máscaras, uma fauce oscura que matava a sangue- frio bons membros da sociedade. A antítese do bem e da virtude. Os oyinbo, então, passaram a divulgar nos jornais e rádios que os festejos carnavalescos eram incompatíveis com a moral; que se revelavam a festa da carni cina; que nada tão censurável quanto o carnaval; que embrulhados em máscara astuta e vilã negros assaltavam famílias de bem. Os oyinbo ponti cavam que não precisavam de máscara para se divertir; já iam longe os tempos de exibições grotescas para saciar a sede de alegria. O mundo se transformara em outro, agora o da guerra aos mascaritos.
Se o mundo deles já outro, podiam nos deixar com nosso mundo já antigo.
Se a alegria deles outra, podiam nos deixar com nossa alegria mesma.
Podiam se bandear para suas casas de praia em ponta de leite levando, de arrasto, suas serviçais enegrecidas, nos deixando espaço de paz, por uns dias.
Podiam nos abandonar com nossa loucura mascaritada e não medicalizada.
Podiam car mamando seu uísque de boca fechada.
Podiam car se empanturrando com doces salgados feitos por nossas mães e tias.
Podiam car enterrados nos seus clubes campestres onde não entrávamos, a não ser para lhes limpar as botinas.
Não podiam.
Tinham que destruir tudo ou nos saquear o que não tínhamos.
Leitora, em honra à verdade histórica, reproduzo aqui uma carta de amor à praia de ponta de leite publicada no jornal A Província. O autor se equivoca. Assim como não viu acidentes de trânsito, não viu ou fez que não viu tia Eluma, Carmen, tia Malvina, levadas de arrasto pelos oyinbo da cidade com nome de liberdade para o paraíso de ponta. Elas deveriam estar preparando o almoço ou limpando os banheiros ou as bundas das crianças quando ele visitou as gentes das casas de família que lá veraneavam.
ponta de leite é um paraíso encravado no inferno do país do rio dos pássaros pintados. ponta de leite foi erguida pela gente do país de la negra María Remedios del Valle, que não quer saber dela, para gozar da vantagem de não conviver com o país do rio dos pássaros pintados. Há gente de todo o mundo em ponta, menos do país do rio dos pássaros pintados. Por isso, a gente de María Remedios, os remedianos, se refugiou lá. Mas, aos poucos, eles cedem terreno para as gentes do país das maravilhas, os maravilhanos. Haverá mais maravilhanos em ponta do que remedianos. As crises nanceiras os empobreceram. Venderam suas moradas em ponta. Não vou a ponta de leite por sua beleza natural e arquitetônica. Vou pelos cassinos e pêssegos. Não é preciso dizer que tanto o atlântico quanto o rio da prata, que banham as duas margens da península em ponta, têm águas geladas. Se ponta tivesse as águas quentes como as de jurerê, seria a cidade mais frequentada do mundo. A água é gelada, nem pinguim conviveria com ela. Mas as ruas e avenidas de ponta são limpíssimas, arejadas por árvores e têm um trânsito convidativo como não há igual em nenhuma cidade. Eu nunca vi um acidente de trânsito em ponta. Finalmente, é incrível, mas não há sequer um negro em ponta de leite. A 150 quilômetros de ponta, na cidade do chapéu, há milhares de negros. Mas em ponta nenhum empregado, nenhuma empregada doméstica negra, nem camareiras de hotel. Foi feita em ponta uma segregação racial pací ca e não violenta. Há mais negros no continente da mulher que amou (ou foi estuprada por) um boi da cara branca do que em ponta. Não há sequer um só negro ou
uma só negra em ponta.17
Basta. Vou queimá uma ponta.
Tia Eluma acreditava que os mascaritos eram outra coisa; seus panos e trapos roupa garanta-que-eu-viva-muito. A mascarada original teria sido uma deusa que triunfara em certa luta. Nos panos dos mascaritos havia algo oculto, algo da deusa que deveria car protegido de olhos ciumentos e malignos. Eu nunca entendia o que minhatia queria dizer. Por que homens usariam roupas de mulheres e máscaras se a mascarada primeira fora uma deusa? Minhatia me mandava prestar atenção e abria a boca para contar que o dono-dos-trovões-violentos-como-se-fosse-nos-devorar consultou o oráculo em favor da deusa no dia em que ela chorava por não ter lhos. O oráculo orientou que levasse para fora da casa nove chicotes no lado direito nove chicotes no esquerdo nove galos que pudessem cantar. E ainda que ela cobrisse a cabeça com pano encarnado. A deusa carregou suas oferendas ao mercado e fez o recomendado pelo oráculo. Nasceram dela nove lhos, que gostavam de brincar com panos sobre suas cabeças. Ela lhes disse que não o zessem, mas eles continuavam quando ela não estava olhando. E eles assustavam as pessoas. E eles iam ao mercado com chicotes e com panos sobre as cabeças. E diziam saiam saiam deixem o caminho livre.
Minhatia parava de falar. Profundamente contrariada, respirava, puxava um cigarro, soprava a fumaça para a lua e continuava a história em ritmo mais lento e pausado. A deusa pediu novamente às crianças que não o zessem. Mas elas continuaram fazendo. A deusa cou contrariada. A deusa acabou com a brincadeira delas.
Tia Eluma parava novamente, parecia ter di culdade para respirar. Fumava outro cigarro. Cruzava as pernas. A doença desabou sobre as crianças. A deusa teve de consultar um segundo grupo de adivinhos chamados É-uma-grande-ocorrência-quando-o-rato-é-encontrado-num-buraco-d’água e É-uma-grande-ocorrência-quando-o-peixe-é-encontrado-sobre-a-grama. Eles disseram que sacri casse um galo para cada um dos panos que suas crianças estivessem usando sobre as cabeças. Eles disseram que, assim como proibira, agora permitisse às crianças irem ao mercado.
Minhatia então olhava para os lados direito e esquerdo. Tirava o lenço da cabeça e concluía. Quando a deusa fez o sacrifício, as crianças caram boas. Saíam entravam usavam os panos encarnados e iam ao mercado dizendo não há nada a fazer não há nada que tenha sido deixado de fazer.
Tendo muito serviço a fazer, tia Eluma me abandonava na cozinha da casa da vovó. É-uma-grande-ocorrência-quando-o-rato-é-encontrado-num-buraco-
d’água. É-uma-grande-ocorrência-quando-o-peixe-é-encontrado-sobre-a-grama.
Nas reuniões de família na casa da minhavó havia música samba cantoria, coisa bem difícil de acontecer na casa do senhor expaimeu. Ele não gostava que cantássemos ou dançássemos. Talvez porque passava dias e noites em bailes ou prostíbulos enquanto minhamãe cuidava de três crianças pequenas sozinha em casa, muitas vezes sem comida sem dinheiro. Isso ela me contou o teu pai recebia o dinheiro do serviço dele e se sumia por vários dias.
Se queria uma vingança contra ele, minhamãe a forjou nessas palavras de que jamais me des z. Não exijo dele santidade. Mas é fato que ele, sem possuí-la, exigia de nós. O expaimeu gostava de dizer façam o que eu digo não façam o que eu faço. Não podíamos usar shorts quando éramos crianças ou adolescentes; certamente seria nossa culpa o mau comportamento de algum outro homem. Até hoje não uso.
Fugando da santidade imposta pelo expaimeu, certa vez furtei uma garrafa pequena de fanta laranja de um desses bolichos que infestavam a rua do enforcado. Eu e minhaprima entramos por sua porta ampla para comprarmos chicletes. O balcão com o vendedor cava nos fundos; na parte da frente, estavam expostas as mercadorias, inclusive engradados de refrigerantes desvigiados. Na saída, peguei rapidamente uma dessas garrafas sem que ninguém visse. Me senti tão culpada, o minotauro em mim montado, tão vigilante e severo que não me permiti tomar o refrigerante ou mesmo me vangloriar do sucesso do malfeito. Abandonei a fanta sobre um banco de pedra numa calçada no retorno para a casa da vovó. Alguém menos preocupada e menos culpada poderia bebê-la. O crime não teria sido em vão.
Eu era vista como uma menina comportada que quase nunca fazia nada de errado. Não por vontade própria, pelo menos. O crime de furto quebraria a imagem que se prensava de mim. Já não seria apenas uma negra, mas uma negra suja ou bandida, como dizia o expaimeu de qualquer outra pessoa que não fosse ele. Sabia que, bem no fundo, eu-pessoinha-peçonhenta-capaz-de-matar-alguém, inclusive ele, apenas não o fazia pelo medo de revelar aos outros a parte do mino que montava em mim.
Enquanto não soa o toque de recolher, acompanho o sétimo dia de protestos contra o assassinato de mais uma pessoa negra nos estados unidos. george oyd, chamado de gigante gentil pelos amigos. O expaimeu era grande, mas nunca gentil. Pelo menos não conosco. oyd não conseguiu ter o sucesso que esperava nos esportes, tinha uma lha de seis anos e tentava reconstruir sua vida. Antes que chegasse lá, foi sufocado pelo joelho de um policial branco sobre seu pescoço por mais de oito minutos. A acusação: ter passado uma nota falsa de vinte dólares num mercado.
A cobertura dos protestos contra o racismo feita pela imprensa branca do país das maravilhas é semelhante às atitudes do expaimeu, sempre preocupado com que as lhas se mostrassem passivas, enquanto a ele, assim como ao estado, o monopólio da violência. Não sei por que temos que ser pací cas se o estado é pací co conosco apenas quando nos nega saúde, educação, moradia, salário digno.
Já com o expaimeu a coisa funcionava em sentido inverso. Por nos inquilinar em sua casa, por nos oferecer comida e não deixar que andássemos nuas por aí, por nos possibilitar o estudo sem que tivéssemos que trabalhar, pelo menos até o atual ensino médio, ele se dava o direito de nos violentar ao extremo.
Depois ele passou a reclamar da falta de amor das lhas, especialmente da minha. Quem foi criada a patadas aprende a dar patadas. Ele também passou a pedir algo que eu não tinha de onde tirar para lhe oferecer, acho que por isso eu lhe oferecia dinheiro como se fosse uma nota falsa de vinte dólares.
Feito minhavó sempre enrolada no colar de contas dos bolichos, volta e meia eu ando endividada com empréstimos bancários. Eu paguei a reforma da casa de propriedade do expaimeu na cidade com nome de liberdade. Terça parte da metade dessa casa me pertence. O objetivo era vendê-la. Com uma parte do dinheiro, pagar as despesas da reforma e outra parte investir na compra do meu apartamento.
Mas o homem branco mascarado de negro não quis fechar o negócio da venda da casa. Me equivoquei ao acreditar que o fato com minhamãe tivesse alterado alguma coisa nele. No ano-novo, quando esteve em minha casa (havia um quarto e um banheiro apenas para ele, a seu pedido), um pouco antes da meia-noite, ele repetiu a cena que nós – eu minhirmã irmãomeu minhamãe – tínhamos que suportar nessas datas (e em outras). Esparramou no chão da casa toda a ceia que minhirmã havia feito, começou a gritar que estava sendo maltratado por nós, que tudo que eu tinha construído eu devia a ele, que ele iria embora naquele momento para a cidade com nome de santa. Tudo por culpa minha.
Sim, apenas uma santa e minhamãe para suportá-lo. Eu con ei que poderia conviver com ele na minha casa em troca da venda da casa dele, em parte. Uma troca demasiado cara e quase da ordem do impossível, ponderou minhanalista.
Na verdade, aquele sentimento de ruína de que falei no início do livro é algo que sempre me leva a vivências de extrema pobreza. O expaimeu berrava que nós éramos nada, que apenas negras sujas, que não queria que o envergonhássemos
cando grávidas de vagabundos, que não seríamos nada se não estudássemos.
Tais frases caíam de sua boca como uma laranja cai do pé sem força que possa explicar a queda.
Parece que debo introducir algo para que puedas poner el pie en algo más que mis propias palabras: el sentimiento de culpabilidad lleva a desastres, a cometer desatinos, locuras... y siempre está asociado al vínculo con o pai... dicho esto... y saliendo del tema teórico que sólo entré para poner un pie entiendo que haber ofrecido a teu pai morar na tua casa era un desatino quizás una forma de acercarte a algo que siempre te dió miedo como si pudieses ponerte en un lugar de superioridad con él y protegerlo pero... en la violencia el superior es el violento, en tanto uno está en su espacio… y toda la ayuda económica que le diste no fue vivida como protección por eso ahora te sentis tan culpable, y te castigas sino como tu obligación.
São palavras da minhanalista. Sim, depois de car gritando na sala com minhirmã, eu acuada no quarto, o expaimeu foi embora para a terra da liberdade. Eu queria que ele tivesse saído num caixão.
Qué especular sus palabras, él era el único que podía tratar mal en esta familia, como se te ocurrió “tratarlo mal”? Sim, era realmente. Cómo fuiste a rivalizar con él? Mirá el lugar que pone a los otros.
Minhirmã me contou que quando recebia seu mísero salário de professora, ele a acompanhava ao banco para car com metade do dinheiro. Y ela fazia mirá el terror que tendría. Eu convivi relativamente bem com ele durante um tempo curto desde o que houve com minhamãe. Mas me enganei com a possibilidade de permanência do convívio pací co. Conviviste en tua casa “relativamente bien”, pero cuando él se dio cuenta que perdía su casa y tenía que convivir con vos y formar parte da casa se puso a prova te puso a prova. Sim, como el maltratador que te pone a prueba para mostrar quien camina adelante. Mas ele está bem, mandou sua nova namorada buscar as coisas. Mandou buscar adonde? Aqui na cidade dos ajuntados, na casa da minhirmã. Ya sometió a otra mujer más? Acho que sim.
Así es ese señor, no sería preciso que siga funcionando a la distancia su poder con vos, comanda a distancia. Qué cosas necesitaba buscar que mandó a una persona a buscarlas, qué tan importantes eran esas cosas, si no fuese para mostrar su poder. Sim. La culpa te somete a un lugar demasiado incomodo, porque te deja contra la pared como un maltratador.
Suas roupas e um aparelho de som. Foi o que mandou sua nova namorada buscar na casa da minhirmã. Isso me assusta. Me desespero e limpo a casa todos os dias sob a justi cativa de que se trata de um antídoto contra o vírus coroado. Porém, o que temo é a inexistência de um remédio que me faça efeito contra o poder do minotauro.
16 Mito iorubá.↩
17 Paródia a um texto do jornalista Paulo Sant’Ana publicado no jornal Zero Hora em 29/12/2014.↩
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