Louças de família
Capítulo III
Boa noite! Como esta a Tia. e madrinha e o padrinho. Ja esta chovendo. Abraço. Choveu uma hora estão bem dentro da situação de cada um o pai passou a manhã deitado, medicamos ele depois passou bem e a mãe Eluma passou bem as dores são constantes para aliviar a baixo de medicamentos.
Tia Eluma adorava o chá-chá-chá opressivo da chuva batendo no teto de seu quarto desventanado como alguém que insiste em pedir saída de um lugar onde está aprisionada. Pouco antes de desabar o céu, suas mãos de miudeza espalhavam vasos de porcelana pelo pátio da casa da abuela para ajuntar a água que, depois de misturada ao anil, seria utilizada na limpeza dos cômodos. Os vasos eram distribuídos de dois em dois. Nove pares. Segundo a cambona, todas as coisas haviam sido criadas em duplas, o que se vê o invisível, o masculino o feminino, o pací co o violento, a mão direita a esquerda.
Sempre achei que tia Eluma fosse fazedora de chuva. O toró desabava logo depois da dança dos vasos. Mas, não, minhatia não era fazedora de chuva. No máximo fazia as vezes de guardiã da água, de guardiã da morte das gentes empretecidas e de seus esqueletos enlouçados. Assim como de guardiã da vida das louças embranquecidas que guarneciam a casa de seus amos.
Guardiã de tudo isso em seu mundo de servício, sem intervalos, tia Eluma também foi guardiã de registros de nascimentos casamentos óbitos. Não sei se havia registros de propriedade para serem guardados, acho que sim, ao menos um. Vou procurar e em outro capítulo falo sobre esses porcos porcelanados que me caem dos bolsos. Falando em porcos, minhatia não conseguia entender por que as coisas domésticas eram quase sempre arredondadas, panelas frigideiras bacias colheres colherinhas baldes xícaras pratos, sempre arredondadas. É possível que tais formas se relacionassem com a maior ou menor facilidade para serem levadas à boca, também arredondada, mas ela não tinha certeza.
Os documentos resguardados pela guardiã Eluma pousavam numa bacia arredondada de louça com bordas irregulares verde-água. Quando foi que nós passamos a ter documentos que não dissessem respeito à nossa propriedade por outros? Teria sido quando das cartas de alforria que carregávamos como se fossem parte estranha de nossos corpos?
No fundo externo da bacia, havia uma coroa sustentada por ta grossa com inscrição ilegível, seguida da palavra france. Me lembrava brasão ou emblema de nobreza. Na bacia de nobres, então, minhavó iniciou a tradição de dar o primeiro banho nas netas e netos recém-nascidas, tradição quebrada com sua morte. A primeira neta cuja cabeça foi aí mergulhada ainda se chama Carmen. Os documentos que comprovavam sua vida um dia permitiram a consumação de outra morte.
Não sei qual a origem da bacia de porcelana da minhabuela. Tal objeto sempre me pareceu coisa re nada, dessas que hoje apenas se veem em antiquários ou novelas de época acompanhadas de um jarro também de porcelana e delicadamente entornado por certa mão branca. Talvez nem devesse ser chamada de coisa. A bacia de porcelana da abuela estava intacta, mas já fora recebida por ela desparceirada do jarro. Uma bacia completa pela metade. Tia Eluma não gostava nada disso.
Depositada na parte superior do guarda-roupa no quarto da abuela ao lado da cômoda dos bons aromas de alfazema, a bacia guardava segredos ou balangandã da minhabisa. Suponho que seu desenho de bordas irregulares devesse remeter a uma ostra. Quando aí mergulhadas, as netas viravam corpos estranhos, gênese das pérolas negras da família. Não quero dizer com isso que se lhes atribuísse grande valor.
Anastácia (brochado). Assim chamavam minhabisa. Escravizada pela família cujo sobrenome vai entre parênteses, era cria da casa. Tia Eluma contava que Nègres como nós – e então me dava conta mais uma vez de minha negridão e de nossa negrice – tiveram o sobrenome saqueado; suas mães e pais (se conhecidos) não podiam dar o que lhes fora pilhado. Por isso, os pilhadores o faziam, de modo que suas marcas em nossos corpos o estigma do dono posto a ferro no gado.
Não quero sujar minhas mãos com linhagens outras. O tempo o espaço por elas tomados nos corpos de minhavó minhabisa minhatia foram demasiados. Suas mãos, as mãos delas, perdidas para si e plenamente de outras. Essa gente leva a honra pelo trabalho delas daquelas a quem vazaram o vinho da cabaça. E assim se dão grandes importâncias e são orgulhosas de seus antepassados, esses que de tra cantes se zeram governantes. E assim são orgulhosas da procedência das joias de suas coroas.
(brochado) foi um escapulário que pendeu do pescoço de minhabisa a vida inteira. Para não gastar o tempo que não tenho, farei de conta que a história dessa família, e suas joias, é um trabalho de escola que tenho obrigação de cumprir para passar para o outro lado do buraco.
Escravizadores da minhabisa, mas não apenas dela, num mundo emaranhado de arame farpado, os (brochado) descendem de um tal cavaleiro brochard de borgonha, degringolês que se bandeou para o então condado portucalense com o
m de lutar contra os chamados mouros. Do condado, um de seus herdeiros
emigrou para a cidade do cruci cado e amealhou enorme fortuna no comércio de tecidos. Retornado a portus cale, fundou o banco lisboa, nos açores, cando ainda mais rico. Faleceu solteiro. Deixou metade de seus bens para a irmã e a outra metade para quem se habilitasse parente. Os (brochado) escravizadores da minhabisa vêm da sementeira de um fazendeiro que assim se habilitou num mundo emaranhado de arame farpado, num mundo compartimentado.
Os herdeiros do fazendeiro habilitado na herança do banqueiro trabalhavam na exploração de hulha na área da atual cidade dos butiás. Não que houvesse
oresta de butiás que desse ao local seu nome. A oresta era de carvão. Havia
apenas um pé de butiá, considerado árvore sagrada pelos tupis-guaranis, que, apesar disso, não habitavam aqueles pagos. Teriam sido exterminados junto com os demais butiás? Esse pé descalço em solidão cava próximo à fazenda da tal dona luisinha setembrina de souza. Lá pelos 1800, o pé, em sua nudeza, servia de ponto de referência a quem passasse pelas estradas próximas.
A Justina fora escravizada dessa gente de quem sua lha Anastácia arrastava o nome pelos corredores, os herdeiros do tal cavaleiro brochard de borgonha. Há gerações de escravizados e, na mesma proporção, gerações de escravizadores. Pero no. Parece que os escravizados nasceram de geração espontânea, feito as larvas dos frutos secos do pé de butiá. Seus descendentes continuaram “escravos” pelo resto da vida e da morte, deixando, eles mesmos, esse estigma como herança. Não sei como a gente branca se orgulha tanto de seus antepassados sequestradores de gente que se zeram condes duques viscondes. Nem como não se enrubesce da origem de suas tiaras de diamantes coroas.
Por motivo que desconheço, em certa data, Justina se transladou com “seus amos” do povoado com nome de árvore e cheiro de carvão para a cidade com nome de santa. As ruas de terra batida iluminadas por lampiões a querosene nem de calçadas eram servidas. Ali, onde ca a praça principal, se fazia chão para enterro de mortos brancos. Apenas bem mais tarde se transferiu o cemitério para longe do centro da cidade, com lugares separados para o enterro conforme a pele do defunto.
Os cubeiros corriam o centro da cidade com nome de santa em suas carroças exalantes de cheiro de merda. Eram contratados pela municipalidade para recolhimento transporte despejo, num arroio qualquer, dos dejetos das gentes ricas, descarregados do cu diretamente numa caixa chamada cubo. Isso antes da chegada dos banheiros com vc. Depois, lavavam os cubos com desinfetante e devolviam a seus donos, que os recebiam antes da entrada da porta, com cara de nojo, não dos cubos, mas dos cubeiros.
Para as gentes Nègres não havia cubeiros. Os cubos eram um buraco feito diretamente no chão do pátio, num lugar mais ou menos afastado da casa de moradia. A terra se encarregava de absorver e de transformar merda em outra coisa. Muitas vezes tive medo de cair no buraco de merda. Não sei de nenhum parente cubeiro, embora todos os cubeiros da cidade com nome de santa fossem parentemeus. Houve um interessado por minhamãe, mas o namoro não vingou.
Justina não durou muito na terra com nome de liberdade. Mil réis a quem (com vida) aos seus donos (família brochado) braço da fazenda. A senhora sem fome e fortes dores no peito. Ossuda alta a cabeça guirlanda. A boca um pote de terra. Ainda com anjos maometanos e outras bobagens. Atrevida. Desconhece dinheiro. Pelo nome justina que talvez ainda atenda.
Quisera que Justina fosse a mulher do poema, que tivesse perdido seu nome por outro inventado por ela mesma num ato de fuga que lhe trouxesse liberdade e dores de cabeça e prejuízo nanceiro ao seu senhor e sua senhora. Quisera que alguma liberdade a tivesse alcançado antes da morte. Algo me diz que apenas assim eu con aria na possibilidade de me ver livre dos corpos que me achatam.
Depois da morte de Justina, como herdeira natural e inconteste, Anastácia continuou no vício de servir a família (brochado). Ela estava especialmente encarregada de uma pequena ama, cujo nome esqueci e, se lembrasse, não revelaria, pelo simples prazer de lhe negar a humanidade da nomeação. Não sei com que subornos ou ameaças a tal amita impôs à minhabisa que cumprisse a ordem de acompanhá-la à atividade proibida na casa de certo moço.
A (brochado) mãe e ama maior descobriu o pecado da lha e quis castigar Anastácia pela negligência nos cuidados com a amita. Numa das paredes do cômodo onde a escravizada planchava as roupas da família, havia um ferrete de cabo de madeira utilizado pelo capataz para marcar o gado na estância. Quando a ama mor o ergueu para acertá-la pelas costas, Anastácia se virou com a plancha levantada e, antes de estigmatizada pelo ferrete, acertou bem acertada a testa da senhora com a plancha quente pelo carvão em brasa. A senhora perdeu uma bela oportunidade de bater as botas.
Anastácia fugou da casa-grande. Não calçava chinelos. Não houve armadilha ou cobra de que não desviasse. Permaneceu semanas acoutada no mato sem comida além das drupas apodrecidas do pé de butiá solitário. E sem água. Mas aqueles (brochado) jamais a encontraram. A fugitiva soube fazer bem as coisas.
Pero nem tudo correu tão bem feito. Josefa pensou que o mundo dos vivos fosse um bolo e resolveu experimentar. Com o dedo indicador. Durante a fuga, sua mãe se viu forçada a pari-la, no mato. Depois de dias tendo os pastos como berço, Josefa morreu.
Depois do feito, a bisa impedia que vingasse a semente que caísse no terreno do seu corpo. Desqueria descendência escravizada cujo brasão (brochado) queimasse como brasa. Contudo, a força do pensamento seria insu ciente para expulsar a futura criança de um nascimento escravizado. Recorria a ervas cujo cheiro ou cor ou forma ou alguma intuição ou histórias passadas de ancestra a outra dessem conta de seu desejo de liberdade. Fez poções fortes de chás de arruda sene boldo-do-chile carqueja buchinha-do-norte artemísia-hibiscus (hibiscus sabdariffa). Alguma poção fez efeito. Depois de dias e dias de intensas dores, o sangue escorria pelo meio de suas pernas como uma fonte de água. Nunca precisou retirar a futura criança do ventre com a força das mãos, como se retirasse de um buraco bicho acantonado. Isso era coisa de minhaprima Xuela. Mas noutro aspecto, minhabisa e Xuela se pareciam bastante. Ambas mandavam em suas próprias barrigas. Esse poder distribuíram a outras mulheres. Escondidas dos brancos, a bisa carregava ervas no bolso de suas saias.
Josefa havia nascido para a morte. Desgostou do blá-blá-blá estrangeiro que ouviu durante sua estada. Um amontoado de palavras desprovidas de sentido salvo o ruído de varas e chicotadas.
Assim pensava tia Eluma, olhando bem para minha cara arredondada de olhos rasgados. Dizia que Josefa queria refúgio no meio de outra gente. Eu achava a coisa bem confusa, pois já tinha me defrontado com a morte do avômeu, com a morte de uma prima, a Carmenza, e, nas aulas de ciências, os professores diziam que o ciclo da vida se encerrava com a morte para todos os seres vivos. Muito difícil entender isso que minhatia dizia. Que Josefa nascera para a morte.
Tia Eluma pensava que os abortos de Anastácia nada tinham a ver com arrudas carquejas hibiscos ou demais invencionices de gosto amarguento. Havia uma mesma criança que morria e voltava morria e voltava morria e voltava ao ventre de Anastácia, causando-lhe sofrimento. Quando cansadas do jogo de ioiô, às vezes, crianças dessa desnatureza decidiam descansar por aqui. Outras vezes, seu pouso dependia de que se encontrasse alguém com poderes su cientes para dar basta nas idas e vindas. Alguém com força para cortar com tesoura a corda que as mantinha ligadas a outra sociedade.
Conheci uma benzedeira que tinha essa força. A vovó me mandava lá por qualquer mal-estar ou dor de que eu reclamasse. Dona Nida. Atendia na sala de sua casa de chão de tábuas que choramingavam ao serem pisadas. Mulher ossuda de pele escuridão salpicada de padilhas. Dona Nida exalava cheiro de arruda. Tínhamos que atravessar os trilhos por onde corria o trem para chegarmos à casa dela.
Ela aparecia na porta. Passem! Suas mãos nos meus ombros tinham o peso das pedras que cuidavam da entrada da casa da minhavó, me aterravam. Murmurando rezas rápidas como se falasse com alguém invisível, salpicava de cima a baixo do meu corpo uma infusão com cheiro de arruda. Eu saía de lá recendendo à benzedura e com um raminho da erva atrás da orelha, que me custava abandonar, pois me conferia a proteção que eu normalmente não tinha. Por alguns momentos, meu corpo deixava de ser um perigo.
Segundo tia Eluma, Dona Nida já descobrira o pacto de uma criança-ioiô com outra sociedade. Enterrado próximo à raiz de uma laranjeira, na casa da mãe terrena da criança, havia um diamante enrolado em um tecido encardido. Em troca de papos de anjo quindins doces de abóbora e de batata-doce, a criança-ioiô contou isso à benzedeira. Foi sob suborno, pois nenhuma criança-ioiô entrega seus segredos de livre vontade; a maioria não os entrega nunca.
No início, a ioiô se negava a contar onde estava escondida a pedra, insígnia de um pacto por meio do qual se assegurava sua morte prematura e retorno para o tormento da mãe. A benzedeira pediu que ninguém se metesse. A ioiô era assunto dela. Depois de oito voltas no pátio sob a desculpa de busca, com todo o pessoal da rua em procissão atrás dela, a ioiô apontou o chão com o dedo indicador.
A benzedeira cavou a terra com suas enormes mãos de cura. À medida que cavava, os olhos da ioiô iam se abrindo até carem quase do tamanho de um punhado de amoras. A criança negou que a pedra fosse dela. Contudo, pressionada pelas mãos da benzedeira, confessou a trama e se viu livre da obrigação da morte prematura. O achado da benzedeira prorrogou a vida da criança-ioiô.
Se a ioiô viveu muito, se Josefa não viveu quase nada, a vontade de vida da bisa fora apenas um intervalo entre duas grandes casas num mundo sem intervalos. Imediatamente à natimorte de Josefa, ela, minhabisa, foi recapturada por gente do outro ramo da família (brochado). Gente que morava na zona urbana da cidade, para onde ela foi arrastada pelas tranças. Minhabisa, Anastácia, perdeu novamente a provisória liberdade. De volta à casa, mesmo assim sem casa. Antes, ainda conseguiu atirar um punhado de merda na cara dos covardes. Tudo se passou mais rápido e conciso que este parágrafo.
Na maior parte do tempo, talvez ela nem quisesse viver, talvez não se sentisse pertencente a esta terra. Eu mesma não me sinto pertencente a nada no meu entorno ou fora dele. Tudo nesta terra me é enormemente pesado, as mãos da Dona Nida sobre os meus ombros, me achatando, me aterrando. Tudo me é tormentoso. As manhãs são louças de dureza que se espatifa e me corta. Não posso me comparar à bisa, que foi escravizada, mas carrego um pouco de seu sentido de desmundo, onde tudo se quebra e nada se abre.
O fundador do banco lisboa, igualmente fundador da família que a bisa sujou de merda o sobrenome, não se casou, porque não quis ou porque não o quiseram, pouco importa. O importante é que poderia abrir o dicionário da sua gente e se defrontar com casamento, lhe sendo possível fazer com essa palavra o que desejasse, até mesmo mordê-la ou ignorá-la. Conosco era diferente. No tempo de minhabisa fugitiva – sim, uma de nossas matriarcas –, pessoas empretecidas não podiam ler nem mesmo abrir livros. Incluídos os dicionários. Ainda que pudessem, havia palavras reservadas a nós e outras reservadas a eles. Casamento era propriedade deles. Restava ao nosso léxico ajuntar ou amasiar.
Recapturada, bisa Anastácia tocou sua sobrevida. Escravizada de ganho, juntou dinheiro e comprou sua alforria. Se ajuntou com o faustino (brochado), teve Mãe Joaninha; se amasiou com o gonçalves, teve mais Anagilda e Adelina. Quero crer que Anastácia (brochado) não era irmã do faustino (brochado), talvez fossem apenas propriedade do mesmo amo.
Tia Eluma, lha de Anagilda neta de Anastácia bisneta de Justina. Os nomes que fundaram a família foram perdidos. Por isso, bem antes de rezar ao deus da cruz, tia Eluma atendia aos tambores de sua dinastia. Tinha livre acesso ao terreiro da Dona Blanca. Atuava no trabalho de cambona, as que não incorporam orixás mas os auxiliam e servem. Sem elas não há bom andamento do terreiro, ela me dizia. A cambonagem exigia que a lha fosse ativa e calma ao mesmo tempo, exigia que a lha soubesse interpretar os orixás e acertar nas decisões daí advindas, sem quebrar qualquer preceito da casa. A cambona cuidava das roupas e paramentos da entidade e estava sempre atenta ao que acontecia à sua volta. Cambonar era servir, era servir.
Antes e depois de cumprir suas obrigações no terreiro, tia Eluma servia. Servia os patrões e o lho mais velho, deuses ciumentos exigentes egoístas, a quem deveria sempre ouvir interpretar atender. Deles, se mantinha permanente devedora de oferendas, sem a contrapartida da proteção que uma lha espera de suas divindades.
Certa feita, resolveu se apropriar de parte do dinheiro que os frequentadores do terreiro lhe entregavam para comprar os ingredientes dos ebós. Se o custo fosse R$ 100,00, ela pedia R$ 150,00; se fosse R$ 150,00, ela pedia R$ 200,00, e assim por diante. Tia Eluma contava isso rindo. Depois que se tornou evangélica, achava engraçado o dom que tinha de enganar a Dona Blanca e o povo de axé. Talvez quisesse se sentir como seus patrões ao se apropriar do dinheiro que não era seu.
Na mesma época em que tia Eluma fazia tais negócios, se foi o avômeu. Velado na sala da casa principal, como o clê, seu caixão bem no meio do cômodo cercado por coroas de ores falsas. Padecia de alguma doença, acho que insu ciência renal. Estava proibido de comer sal, com o que tinham grandes preocupações as mulheres que o cuidavam. Após sua morte, tia Eluma foi revisar as roupas que ele comumente usava, para quem sabe encontrar aí algum dinheiro esquecido pelo morto; achou uma grande quantidade de sal escondida nos bolsos. O sal era a cocaína do avômeu. Ele também aspirava a brancura.
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