Louças de família

Eliane Marques · Capítulo 5 de 14

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Louças de família

Capítulo V

 

Estou aqui com ela. a tia Eluma hoje está melhor. Esta devagarinho conversando e abriu os olhos graças a Deus. Mais ainda esta com sonda e oxigênio. Hoje esta calma, a noite passada ela passou muito agitada.

 

Também devagarinho, com os olhos abertos num susto, quase de joelhos, as sobras dos parentes lhe suplicando que a levasse consigo. Talvez com quatro ou cinco anos, chamava-se Firmina. Sua mãe uterina falecera havia uns meses; o pai estava sendo velado naquele instante. Anagilda o conhecia, fora um dos carpinteiros que levantaram as paredes de sua casa na avenida do almirante, ali onde se bifurcam a cidade com nome de general e a com nome de santa.

Tendo o morto por testemunha, ela não se sentia autorizada a rechaçar, de pronto, a a liação, embora lhe pesasse o incômodo de ainda não ter marido. Apesar disso, Firmina saiu do ato nal de despedida do pai feito rainha em seu trono, o colo da minhavó, mãe e solteira e contrariada por não ter contraído a tal doença do matrimônio. A menina levava uma or de jasmim que recolhera de um ramalhete oferecido ao defunto.

Unindo-se de papel passado e amassado a seu primeiro marido antes de minhatia Firmina completar seis anos, vovó quebrou a tradição de que a palavra casamento não se incluísse no léxico das mulheres negras. À palavra ajuntamento, solitária até então, juntou-se casamento, de modo que as mulheres como nós cassem com mais uma possibilidade. Ou se casavam ou se ajuntavam, o que parecia mais vantagem do que dano.

Casamento ingressou em nosso thesaurus acompanhada de suas irmãs, separação e divórcio, que decaíram pelo desuso. Mais comum era o abandono desacompanhado de qualquer palavra ou propriamente a morte por doença ou infelicidade acompanhada do cheiro de iodo, violeta de genciana e ácido carbólico.

Não precisei me preocupar com separação divórcio. Rompi com a tradição inaugurada por minhavó. Não me casei nem me ajuntei; não tive que conviver com separação divórcio abandono. Meu vocabulário foi sempre reduzido quanto ao tema. Tudo para mim esteve na esfera do dano. Por isso tentei compensar a falta dessas palavras com a presença de outras a mim menos familiares, tais como léxico Xuela xixi bifurcação freud cubeiro trans guração nosocômio.

Na adolescência, achava que poderia me desviar da luz que havia projetado para mim se inventasse de contrair a doença do casamento. Talvez tivesse que viver limpando cozinhando lavando, para uma família negra e outra branca, tendo de cuidar de tudo em solidão enquanto o marido, se houvesse, fosse dar uma voltinha de vinte e quatro ou quarenta e oito horas no centro da cidade com nome de ana. Não queria car aí pisada pelas patas de minotauro do meu suposto pai e de um marido que provavelmente se parecesse com ele. O meu desejo era fugar do labirinto por cima. Um mistério que minhamãe aguentasse o tal matrimônio. Muitas vezes a culpei por nos submeter a tamanhas brutalidades sob o domínio daquele homem. Agora, eu me sinto culpada por tê-la culpado. Acho que ela também vivia labirintada; por isso, fez o que fez.

Os brancos se negavam a lavar roupa suja em casa. Dia após dia, Firmina ajudava minhavó a recolher trouxas das casas deles. Contudo, não lhes era autorizado transpor a porta. Alguma empregada, também empretecida, de uniforme da cor da bandeira do país do rio dos pássaros pintados, as atendia quase na calçada. Minhavó entregava as peças limpas engomadas passadas e recebia as sujas. Primeiro ajeitava uma trouxa menos pesada na cabeça de tia Firmina e depois colocava sobre sua própria a trouxa maior, com as cargas mais encorpadas, toalhas lençóis cobertores. Lavadas engomadas passadas, as lavadeiras as devolviam, recebendo sua apoucada paga e mais roupas para serem lavadas engomadas passadas. Tudo na beira da porta.

Uma mesa de ponta a ponta do cômodo coberta por toalha engomada de linho branco bordada com renda. Sobre a toalha copos de cristal pratos de porcelana vinhos da madeira e do porto servidos em cálices com os quais os comensais se saúdam cada vez que os entornam. Ainda sobre a toalha um copo enorme de vidro comum que as criadas mantêm cheio de água pura e fresca. Há um frango recheado gordíssimo bem no centro da mesa. Uma criada, talvez governanta, usa espanador de penas de papagaio, que nem se faz mais, para espantar as moscas; outra criada serve a comida aos patrões, acho que copeira; outra criada, cozinheira, observa os patrões da porta da cozinha para o caso de reclamações. A madame se entretém mandando qualquer criada entregar os restos do almoço aos pedintes que batem à porta. O patrão lê o jornal A Nação. Patrão e patroa ocupam as extremidades opostas da mesa. Volta e meia, tia Firmina, que ainda não era minhatia, espichava a pupila esquerda para dentro das casas e via tal cena, a mesma cena, não importava se a casa fosse outra.

As roupas, encardidas das imundícies das gentes, inclusive essa toalha de linho branco, vovó lavava no arroio que cava nos fundos de sua casa na avenida com nome de almirante. Ela batia nas camisas calçassaias vestidos lençóis com uma espécie de pá curta de madeira, um batedor, como se estivesse dando surras num

lho, patrão, quem sabe marido. No mesmo arroio, outras mulheres, também

lavadeiras engomadeiras passadeiras, realizavam o rito de bater nas roupas. Uma espécie de vingança coletiva. Já na rua com nome de enforcado, me lembro de Alesọ batendo com a mesma pá e a mesma raiva de madeira as roupas no tanque grande de pedras que cava no pátio do compound da vovó. Às vezes eu me lavava corpo e rosto no tanque e, então, me encharcava das imundícies das gentes e das sobras das raivas das mulheres que haviam lavado aí.

Minhavó gostava de pisar seus pés sobre as pedras cobertas pelas águas rasas da beira do arroio. As pedras brutas alisavam seus pés. Seus pés nas pedras brutas iam cando tão brutos quanto as pedras brutas cavam lisas. Enquanto não houve pia na cozinha da casa, o arroio também foi lavatório das louças. Nele minhavó areava as panelas até que virassem espelhos. Por si só, aquela água doce parecia um conjunto de espelhos com vidro de poço profundo onde todas as lavadeiras se viam donas de ouro e de pedras preciosas.

Parece estranho. Minhavó, a quem conheci já mãe de treze rebentos alguns mortos, teve pelo menos um grande amor. Um homem que passou feito raio pelo arroio. Quando sentiu sua pisada nos pastos úmidos de geada, vovó abandonou na água um lençol de linho branco que esfregava. Cara a cara lhe perguntou por que corria assim, de quem tentava escapar com pernas em diálogo veloz. Antes que o homem dissesse palavra ela agregou foges da morte. Ele assentiu. Não sei com que poderes a abuela o escondeu sob a tábua de lavar dentro do arroio e continuou a labuta. Quando a morte chegou cara de vaca língua de melancia esbaforida quase feia cheia de moscas cheiro de matéria encharqueando o ar, a lavadeira, tranquila, saudou com buenas! Não se tratava de visão de outro mundo. A morte retribuiu buenas. Pareciam duas comadres. A abuela nem lhe deu muita conversa, tinha mais que fazer, saiu logo avisando que o procurado atravessara as águas e já estava léguas dali. Gracias, disse a morte e se foi num só resmungo descontente. O mesmo resmungo que, anos mais tarde, ouvi minhavó dirigir ao avômeu.

(Em busca de alguns de seus lhos, vovó já havia se internado na estrada da morte. Numa das vezes encontrou sua comadre apertando as tetas de uma vaca, sem conseguir tirar leite. Chamou-a batendo um sopapo que por ali se encontrava. Depois a ensinou a ordenhar a vaca para ambas dividirem a bebida quentinha. A morte não pôde fazer nada quanto ao lho perdido. Estava perdido.)

O homem que fugava da morte sem se tornar meu avô foi anterior ao joão batista, que também não se tornou meu avô, apenas primeiro marido da minhavó. O joão batista foi anterior ao boaventura, avômeu, segundo marido da minhavó. É estranho pensar que ela teve um grande amor, dois maridos, um bando de lhos e netos, e eu não tenho nada disso. Invejo minhavó?

Um o de arame sustentado por duas ou três taquaras atravessava o centro do pátio da casa dela. Apenas mais tarde soube que recebia o nome de varal. As roupas dos brancos eram dependuradas aí para secarem ao vento ou ao sol. Me encantava uma saia de seda bordada de corte elegante traje total conforto que voejava de leste a oeste feito a pássara lavadeira-de-cara-branca, espécie estival migratória nas fronteiras. Calças calcinhas saias muito sujas de sangue menstrual

cavam de castigo até branquearem.

 

Feitiço da minhavó para brancura:

ensaboar as encardidas

deitá-las sobre os pastos ao sol

deixar por algum tempo (enquanto se lavam outras)

Consumado o tempo:

esfregar enxaguar estender no varal.

 

Mistério, isso também. Eu não entendia por que as roupas brancas cavam mais brancas e eu mais preta, por muito que me expusesse ao sol com rosto braços pernas todinhas ensaboadas. Um primo mais velho me chamava de “negra preta”. Eu não sabia se era crítica ou elogio. Ele falava rindo. Minhavó me mandava sair do solaço e ir para a sombra do cinamomo. Dizia que eu já estava preta demais. Mas não me batia com vara de marmelo. Com a tia Firmina era bem diferente.

Uma vez ela apanhou porque pegou com a mão direita suja de barro num dos lençóis brancos das famílias brancas da minhavó, deixando sua marca tatuada. Pera um pouquinho que agora tu te endireita. Minhavó sempre a ameaçava com a tal da surra de vara de marmelo. Nesse dia, o marmelo cantou feio na bunda de tia Firmina. Fiz outra consulta à wikipédia para saber acerca da e cácia do marmelo nas sovas promovidas pelos adultos; talvez fosse algo inofensivo, próprio da relação entre minhavó e tia Firmina. Não. Provável que minhavó, essa que agora bate, tenha apanhado com vara de marmelo; e que minhabisa, escravizada, tenha sido açoitada com vara de marmelo. Bom, na pesquisa soube que a vara é uma parte do galho do marmeleiro de consistência exível e resistente, utilizada para punir escravizados ou crianças. Normalmente se mantinha o castigado com as nádegas desnudas e sobre elas se desferiam os golpes. A vara era considerada instrumento mais doloroso que a palmatória ou o cinto. Uma sova de vara de marmelo podia deixar a criança espancada com cicatrizes para o resto da vida. Acredito que minhatia Firmina tenha cado com muitas.

No dia da surra de vara de marmelo, minhatia sonhara com uma mesona, coberta por toalha de linho branco bordada de renda nas pontas. Sobre a mesona havia uma sopeira cheia de sopa de pão e caldo grosso guarnecido de enorme pedaço de carne de vaca linguiças tomates toucinho charque couves gigantescas rabanetes, tudo bem cozido pela cozinheira que tinha a cara da sonhante, embora a sonhante nada soubesse da identidade da cozinheira. O pedação de carne mugia mu-mu-mu. Alguém, cujo rosto a sonhante desconhecia, mas que tinha o entalhe de seu próprio rosto, acrescentara folhas de hortelã e de alecrim ao caldo grosso. Outra alguém, com a mão esquerda em forma de cuchara, servia o cozido com pirão misturado ao caldo de carne de vaca mu-mu-mu. Ao lado do pirão, mais ao centro da mesa, uma galinha insossa misturada com arroz branco, acompanhada por um prato de verduras cozidas bem apimentadas. A galinha cacarejava muito alto próxima a uma pirâmide de laranjas perfumadas, cortadas em quatro e distribuídas a todos os convidados que iam ocupando seus lugares à mesa. Cada qual tinha sua bunda do tamanho e da forma do marmelo. As laranjas perfumadas acalmavam paladares cauterizados pela pimenta-do-reino. Quase ao nal do jantar, outra alguém servia salada recoberta de fatias de cebola crua e de azeitonas rançosas. O sonho fedia a toda aquela comilança. Firmina sentia o fedor de tudo aquilo enquanto sonhava. Na sequência, a sobremesa, arroz com leite frio, diluviado de canela, queijo de ovelha e iguarias do país dos tamancos amadeirados e país de mary sanguinária. As laranjas tornavam a aparecer junto com abacaxis maracujás pitangas melancias jambos jabuticabas mangas cajás frutas-do-conde.

Firmina acordou com o gosto de pimenta-da-costa na língua. Minhavó, que já varria o corredor, a ouviu resmungar por cinco minutos antes de se levantar da cama. Logo ralhou já está com algum bicho-carpinteiro, Firmina? Ao longo do dia de trabalho, conseguiu traduzir os resmungos da lha; não eram novidade para ela. Tia Firmina não queria ser criada de ninguém, não queria nenhuma vassoura para varrer o chão que logo estaria imundo de novo, não queria fazer nenhuma comida que enchesse panças que logo estariam esvaziadas de novo, não queria lavar roupas que logo estariam sujas de novo.

Em seguida ao casamento, minhavó deu à luz outra lha. Eu nunca soube seu nome, não era pronunciado por ninguém da família. Eu a declararei E a, porque toda pessoa tem nome e porque E a nasceu numa manhã envidraçada de sexta-feira. Tia Firmina ajudava nos cuidados com a recém-nascida. Ela gostava de fazer de conta que a pequena participava dos jogos que promovia quando ambas estavam sozinhas no quarto da minhavó. Firmina abria uma pequena mala onde havia escondido objetos e várias peças de roupas dos brancos recolhidas da cerca sem que minhavó visse.

O ritual consistia em vestir todas as roupas ao mesmo tempo, as toalhas serviriam de cabelo, as saias de seda serviriam de uma saia de seda ao sol. Depois era arrodear arrodear arrrodear até car tonta e cair sobre a cama.

Logo que se recuperava da tontura, Firmina dava a impressão de ser outra, pegava um a um os objetos da mala – amuleto cordão corrente de pérolas e coral perfume braceletes – os apresentava à E a numa espécie de oferenda e recitava as palavras pegue este amuleto, amarre-o com o cordão e o cuidado. Farei para ti, Effia, uma corrente de pérola e coral. Te vestirei com nobreza. Quando te banhar na bacia de louça, respingue perfume, enlace seu cabelo em tranças. Amarre jasmins ao pé da cama. Vista suas roupas de seda branca, braceletes de prata para

os seus braços. Não esqueça a água de rosas para as palmas de suas mãos15e o diamante da cor lilás.

Minhavó nunca soube disso. Baixava as pálpebras para certas coisas e, para outras, era bem devagar. Precisava da graça de deus para abrir os olhos. Um dia em que estava menos metida em afazeres, observou que E a vertia líquido pelos poros de todo o seu miúdo corpo, uma substância mais para amarelo do que transparente, com cheiro forte de água que passarinho não bebe. A bebê não chegou a pisar a terra. Morreu após dois meses de sua caída do ventre. Procurei me informar sobre doença com essas características. Ninguém soube me dizer de transmissão hereditária em que lhas de alcoólatras exalassem cheiro de cachaça sem que eles mesmos bebessem. O mais próximo que ouvi sobre o tema foi que diabetes pode ter cheiro de fruta madura, não de álcool.

Pre ro, então, imaginar que E a faleceu com cheiro de fruta madura em vez de supor, já supondo, que alguém dera cachaça a essa infante até que ela não mais suportasse. Minhavó não bebia cachaça. O pai de E a, primeiro marido da minhavó, sim.

No caixão, Firmina deixou com a infanta amuleto cordão corrente de pérolas coral. O diamante, o enterrou no fundo do pátio, ao pé da amoreira. Vovó gostava de morder as sementes de amora, se sentia até forçada a fazê-lo.

Depois da tia Firmina e da E a, minhavó teve outra lha. Evinha, seu nome. Ela também cou no meio do caminho. Estava em pé numa cadeira, olhando para a rua ou para o pátio por alguma janela, quando caiu e bateu a cabeça.

Tia Eluma pensava de outra forma a série de mortes. Entendia que tanto E a como Evinha tinham espírito mais velho que corpo, que ambas haviam rmado pactos com parentes e amigos de outra ordem, essa a razão de suas partidas prematuras. Quem sabe não seriam a mesma menina Josefa E a Evinha. O mundo é grande; os mortos, maiores. Morremos desde o nascimento. Vivos se esforçam, porém, a brecha segue se ampliando. Assim a sentença da cambona.

Chegou um tempo em que minhavó passou a reclamar muito da tia Firmina, que não se comportava como menina, que saía para a rua e não voltava, que não ajudava mais nas lides da casa nem no recolhimento das roupas sujas nas casas dos brancos. Segundo contou tia Eluma, tia Firmina havia se transformado. Estava cada vez mais negra.

As queixas que minhavó tinha contra ela me soavam inverossímeis. Firmina era a tia que me pegava no colo, me dava carinho, me trazia presentes da cidade do chapéu, capital do país do rio dos pássaros pintados, quando vinha de lá todos os anos visitar a família na fronteira. Uma vez ela me trouxe uma caixinha bem delicada contendo três elefantes de louça cor-de-rosa, cada elefante de um tamanho diferente, todos com uma or branca no lombo. Eu os guardo até hoje.

Não sei se na cidade do chapéu ela se vestia desse modo, bem asquenta. Vestido azul rodado de bolinhas solto no corpo até os joelhos colares de contas amarelas verdes azuis no entorno do pescoço até metade da barriga chinelos de varrer terra. Sua pele era tão escura quanto a minha; mas seu cabelo, escorrido. Vinha para a cidade com nome de ana sempre acompanhada de outra mulher igualmente redonda que a ajudava com as malas, com a comida e com outros objetos que não sei enumerar. Evidente que essa outra mulher a servia.

Certa vez houve um bafafá envolvendo minhatias e essa outra mulher cujo nome não recordo. Eluma cou sabendo que uma das malas que Firmina depositara sobre a cama da minhavó estava cheia de bonecas estranhas, que arremedavam parentaminhas. Descon ada, pediu que a ajudante a retirasse de cima da cama. Aquilo não podia ser coisa boa. A servente se negou a fazê-lo. Então minhatia abriu a mala e começou a arremessar as bonecas para a rua pela janela do quarto, uma a uma. Tia Firmina foi chamada para resolver o bochincho. Explicou que as bonecas não representavam deus ou diabo; eram apenas amuletos para atrair sorte dinheiro emprego saúde amor. Tia Eluma seguiu descon ada, mas quem teve que juntar as bonecas da rua fui eu.

Eu sentia muita falta da tia Firmina, dos seus braços de arar e de plantar, que me abraçavam e me faziam sentir amada. Ela cava uma semana na fronteira e depois retornava para a cidade do chapéu, onde tinha obrigações. Eu não sabia de que obrigações se falava.

Aos dez anos, tia Firmina foi internada pela minhavó numa instituição para crianças tortas na cidade do chapéu. Seu comportamento se mostrara um entrave para que ela permanecesse entre minhavó, seu marido e a prole vindoura. Tratava-se de um orfanato. Sinto vergonha de dizer que minhavó, aquela que me levava leite e bolachinhas na cama pela manhã, mandou minhatia para um orfanato onde as freiras exigiam que ela fosse uma menina quieta cristã tímida resignada silenciosa ordeira limpa disciplinada ingênua submissa, que fosse um não alguém ou alguém que desejasse viver o mínimo e morrer o máximo. Os desejos que o expaimeu dirigia a mim, as freiras dirigiram à tia Firmina.

Do orfanato, a jovem apenas poderia sair tendo contraído a doença do matrimônio. Se não encontrasse um marido, tia Firmina caria para sempre entre as freiras. A palavra casamento entrou, então, à força no seu léxico.

Mas isso não foi problema. As freiras logo arrumaram um marido para ela – um padeiro, trabalhador, com sonhos de casar e ter uma mulher que o ajudasse na lida. Minhatia Firmina coube certinho no sonho dele. Casou, sem véu e sem pompa. No dia seguinte, virou viúva. O padeiro seu marido foi atropelado por um bonde numa rua do centro da cidade do chapéu. Viuvinha bota luto seu marido já morreu foi por falta de carinho viuvinha aqui estou. Quando eu ainda criança, na fronteira, costumava cantar essa ciranda sem saber que falava da minhatia Firmina. Contudo, minhatia nunca se deixou ser a pobre viuvinha que vinha de belém, querendo se casar mas não achando com quem.

Este capítulo está muito trágico, cheio de mortes. Tentarei aliviá-lo vendo se posso transferi-las para outros a serem escritos mais adiante. Não garanto nada. Carrego mortes em minha mala feito tia Firmina carregava as bonecas da sorte.

 

15 Com base num poema suaíli de Mwana Kupona.↩

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