Louças de família
Capítulo IV
Estou com ela no hospital eu cheguei as 8:00 e até agora ela tem dormido, as enfermeira falou que como ela estava muito agitada a noite deram remédio e fez efeito no dia a glicose estava alta deram insulina.
Tão doce quanto o chajá que tia Eluma preparava. Mãe Joaninha. Não a conheci, mas seu nome na boca das mulheres enegrecidas um puro amor que jamais eu provaria. Minhanalista me assinala que a queixa de falta de amor nada mais que puríssima fantasia, pois se eu não tivesse quem me alimentasse, me
zesse dormir, me ensinasse a caminhar, me vestisse, se não tivesse quem matasse
minha sede, não teria sobrevivido. Alguém me amou, diz ela, que também é ana. Talvez minha queixa seja pela falta de um amor tal qual eu demande hoje, um amor total, que, em vez de salvar, mate.
Não importa. Mãe Joaninha encarnava o amor total. Esse que minhatia Eluma teve. Minhamãe teve. E que eu não tenho. Um amor que esteve mais implicado com a vida e menos com a sobrevivência. Ouvi uma frase assim num documentário, acho que sobre a vida e a obra da Toni Morrison. Alguém dizia que nós fomos obrigadas a inventar estratégias de sobrevivência durante os séculos de escravidão e que agora teríamos que aprender a viver, teríamos que inventar estratégias de vida e não apenas modos de evitação da morte.
Torço na cabeça de pano branco engomado com as pontas de renda de onde caem folhas de arruda como se fossem diamantes da cor verde-maçã ligeiramente aturquesada, nas orelhas brincos de argolas de ouro não folheado nem falsi cado, no pescoço o de miçangas corais prata correntes de elos largos todos pendendo para as costas. Nenhum escapulário. Anéis em todos os dedos. Sapato de couro de salto. Mãe Joaninha, minhatiavó, vestida assim espalhava o tal amor de vida, um amor que costurava as relações entre ela e as demais mulheres da família. Talvez a forma de unir uma à outra adviesse do seu ofício de linha e agulha. Exímia costureira, ela atuava especialmente sob demanda. Disputadíssima, fazia vestidos de festa vestidos de noivas enxovais e ganhava muito dinheiro.
Eu quero um vestido à francesa, três peças – uma sobressaia, a saia interior e um peito que remeta a um triângulo. Sobre eles, quero um espartilho e um guarda-infantes (para esconder meus filhos durante a festa de gala). Início do século XX, e uma cliente de minhatiavó, famosa mulher de sociedade, luisinha setembrina de souza hernandez, queria que ela desenhasse e costurasse um traje do século XVIII, de antes da revolução francesa, aquela mesma que anunciou liberdade e igualdade, mas apenas para os homens brancos.
Tia Eluma conta que Mãe Joaninha, de pernas cruzadas bem sentada num sofá vermelho da sala do casarão de setembrina – que intimidade estranha ela tinha com essa gente – ouvia com sua proverbial atenção e depreendia o sentido do desejo do ritmo das frases da senhora. Já em sua casa, ordenava esse desejo desenhando e costurando o tecido à sua própria moda. O tal vestido à francesa do século XVIII resultou num longo de brocado de lyon cor laranja com motivo de ores ribetes manga pagoda com duplo volante peito de renda saia de tecido a juego engageantes de linho calado e barbas de renda de malinas. Parece que setembrina até pagou um pouco mais pela peça.
Se a clientela da dior incluía a princesa margarida da inglaterra e evita perón, então primeira dama da argentina, entre as clientes de minhatiavó se encontravam as ricaças da cidade com nome de santa, as mulheres herdeiras das charqueadas, as mulheres dos donos dos frigorí cos, as esposas dos donos dos lanifícios, as donas das estâncias e das vacas, que valorizavam o re namento em suas salas e a brutalidade mal disfarçada em suas cozinhas.
Também eram clientes da minhatiavó Alesọ e tia Eluma, que igualmente valorizavam o re namento, acima de tudo. Mãe Joaninha desenhava e costurava todas as roupas delas quando meninas e adolescentes. Assim, as mimava com vestidos que nem as princesas do continente da mulher que amou (ou foi estuprada por) um boi da cara branca tinham e papos de anjo quindins os de ovos olho de sogra e joias. Mãe Joaninha lhes era a mãe dos jardins. Às vezes minhancestras achavam a roupa muito apertada ou muito grande ou muito lantejoulada ou muito opaca; uma queria a roupa com miçangas, outra com búzios da cor da água. Contudo, Mãe Joaninha jamais se atordoava.
Um vestido bordado, rosa-antigo, que se alargava ou se estreitava segundo a linha do corpo, o que realçava a cintura na e a saia acampanada, alcançando o tipo de perfeição que apenas se poderia encontrar na alta costura, foi o presente de quinze anos de Mãe Joaninha para tia Eluma. Alesọ ganhou um relógio pesado de ouro.
Por gosto ou pro ssão, pois não queria dar ensejo ao brocardo casa de ferreira espeto de pau, Mãe Joaninha sempre andava muito bem-arrumada muito bem-perfumada muito bem-penteada muito bem-calçada. Descon o, porém, que fosse um pouco como eu e junguzu. Andar pelas ruas da cidade com nome de ana, tão inesperada, era uma vingança contra a época em que as mulheres negras não podiam usar vestidos de tecidos nobres de seda ou cambraia ou holanda, com rendas ou sem elas, uma vingança contra a época em que não podiam usar guarnições de ouro ou de prata ou qualquer objeto de luxo, uma vingança contra a época em que não podíamos usar sapatos.
Mãe Joaninha era bonita. Mãe Joaninha era perfumada. Mãe Joaninha era luxuosa e luxenta. Escuto agora a ressonância de seus sapatos de salto arrastando-se como se pés de prata no piso frio de meu apartamento. Mãe, devo te oferecer os pedaços de pano de minhas roupas? É o que tenho. Mãe, são os panos a tua espada. Mãe, o que quer de mim, o que posso fazer? Mãe, como se fossem dos teus seios, verte teu amor sobre mim.
Mãe Joaninha não teve de seu sangue lhos ou lhas. Não sei nem se os gerou e depois se viu livre deles para não cumprir o destino de ser mãe de trabalhadores sem emprego, de ser mãe de homens bêbados do nascer do dia ao cair da noite. Não sei nem se amou algum homem ou mulher que não fossem as mulheres da família. Também não sei se amou os homens da família. Com certeza sabia que eva descansa apenas quando adão não está de ronda, embora soubesse que nada tinha a ver com essa mulher da bíblia.
Mas um dia, cedo demais, porque antes de meu nascimento, porque sei que ela teria me amado, porque sei que eu a teria amado. Mas um dia, cedo demais, antes de meu nascimento, sua beleza se foi carregada por um sopro forte de Oyá, que a amava. Não falo do sopro cobrindo seu corpo como roupa; falo do m de suas mãos de costureira, que foram sua espada, do m do seu cheiro de jasmim. Houve uma dor, não sei que dor, não sei de onde, mas houve uma dor que fez seu corpo já tão miúdo murchar em cima de uma cama. O seu corpo miúdo foi sua prisão, como o meu é para mim.
Oh, mãe, que tu não sejas recebida com grosseria.
Oh, mãe, que tu não sejas recebida com rudeza.
Os médicos registrariam no atestado de óbito que ela padecera de alguma forma avançada de reumatismo. Com certeza a doença decorrera do desgaste natural dos sistemas ósseo e muscular, diriam. Eu não nego a ciência, não albergo a planitude da terra ou teses semelhantes. Mas descon o que a pretensa cienti cidade alcança a nós mulheres negras de forma bem apoucada.
Foram os considerados cientistas que inventaram a inferioridade negra com fundamento em medidas do crânio e toadas desse tipo; foram eles que utilizaram, sem consentimento, o corpo de mulheres negras para inventar a correção cirúrgica da fístula vesicovaginal, pequena abertura entre a vagina e a bexiga, causada pelo parto, que provoca dores severas e muita vontade de urinar. Lucy foi uma das mulheres feitas cobaias. Esperou pacientemente, com as mãos na segurança dos joelhos, enquanto o médico tentava reconstruir a falha entre sua vagina e a bexiga, sem anestesia. Lucy desenvolveu septicemia, porque o médico tentou criar um cateter a partir de um pedaço de esponja. Ele esperava que ela morresse, ela impôs sua sobrevivência. Foram os considerados cientistas que utilizaram corpos de homens negros para testar medicamentos contra a sí lis, sem que eles soubessem. São eles que nos negam anestesia nos hospitais sob a justi cativa de que somos fortes.
Além de rancorosa, sou muito descon ada. Sou da escola das ressentidas. Não preciso a rmar isso. Vocês já puderam ler. Mas preciso a rmar que não somos fortes, apenas não temos outra saída senão suportar, senão sobreviver.
Eu descon o que Mãe Joaninha, na verdade, tenha padecido de alguma grande tristeza, uma dessas que fazem com que não tenhamos mais vontade de tomar banho, de pentear o cabelo, uma dessas que faz com que não tenhamos mais vontade de sair para fora de casa. Depois que cou assim, Alesọ foi quem lhe deu banho e, depois, a recolocou na cama. Quem sabe por quanto tempo minhatiavó cou com essa dor que lhe percorreu o corpo feito a agulha fura a roupa. Quem sabe.
Oh, mãe, que tu não sejas recebida com grosseria.
Oh, mãe, que tu não sejas recebida com rudeza.
São 15h13 do dia 17 de maio de 2020. Estou ouvindo Lizzo no youtube. Ela veste uma roupa que poderia ter sido desenhada e costurada por Mãe Joaninha – um vestido alaranjado bergamota. Soube, pela manhã, que falecera um primomeu, bem mais velho. Talvez eu não devesse ouvir música. Quando era criança e morria alguém da família ou de nossas relações, ninguém podia ouvir música, mesmo que o expaimeu não estivesse em casa, nem varrer a casa ou olhar televisão. Devíamos esse tipo de respeito ao morto, ainda que quando vivo todos quiséssemos nos ver livres dele.
Primomeu de quem anuncio a morte não foi vítima da covid-19. Morreu de câncer e loucura. Sua morte não me abalou. Sofreu muito mesmo antes de cair doente e também fez sofrer muito suas irmãs, sua mãe – Malvina, irmã da minhamãe – e outras gentes. Não quero saber se ele foi feliz em sua vida ou se será feliz em sua morte. A felicidade dele me importa bulhufas.
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