Louças de família
Capítulo III
Shatta era uma grande amiga do nosso diretor, por que nos viu iniciar a carreira jornalística com o saudoso Dr. Cuña, de cuja casa ela era autentica e querida “Governanta” [...].
Jornal A Nação
Nem na morte minhavó se viu livre da servidão. Na parte do aviso fúnebre que encabeça esta página, foi retratada como a que viu o dotor fulano de tal iniciar uma carreira de sucesso, a governanta da casa não sei de quem. Não podiam lhe prestar homenagem sem homenagear a si mesmos. Não havia para eles nada de bom em minhavó que não sua condição de prestadora de serviços. Perguntas retóricas.
Minhavó nunca foi governanta de nada nem ninguém, nem de si própria. Apenas servia os cuña sem salário sem carteira de trabalho assinada. Foi para agrandarem a si próprios que a colocaram no lugar de governanta, ela que não passava de criada doméstica, mulher do povo dos derrotados, como Sabina.
Ser livre como Sabina, isso minhavó queria. Sabina foi uma mulher trabalhadora ex-escravizada que fazia o comércio atacadista de mercadorias da Abibimañ do oeste, comprando em grande quantidade barris de conchas de cauri nozes-de-cola sabão cabaças pimenta e metros e mais metros do tecido listrado pano da costa, que ela revendia aos comerciantes para serem rerrevendidas aos consumidores. Sabina levava consigo as mercadorias como partes de si.
Enquanto limpava as enormes estantes de livros, vovó ia se adonando dessas histórias, já que não podia ser dona de si mesma como Sabina. Tal como crânio, as partes de seu corpo pertenciam a outros.
Cada novo livro adquirido por senhor ou senhora ela higienizava antes de colocar na estante. Com um pano úmido de álcool, não muito molhado para não afogar as palavras, limpava suas capas removendo a crosta de sujeira. Em seguida, os expunha com as páginas abertas para que os raios solares zessem o trabalho de secagem, expulsão do mofo e branquidão.
Quarta-feira era o dia especial de limpeza das estantes. Os livros, velhos ou novos, amados ou odiados, lidos ou completamente abandonados, pequenos ou imensos, eram retirados de seus lugares de espera e sofridão e postos sobre uma mesa de mármore no pátio de chão cimentado onde receberiam tratamento com pano seco e pincel, que minhavó manejava entre as páginas como a vassoura entre os cômodos da casa. dom casmurro por machado de assis. memórias póstumas de brás cubas por machado de assis. quincas borba por machado de assis. esaú e jacó por machado de assis. memorial de aires por machado de assis. o cortiço. Uma bela noite, porém, o miranda, que era homem de sangue esperto e orçava então pelos seus trinta e cinco anos, sentiu-se em insuportável estado de lubricidade. Era tarde já e não havia em casa alguma criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se da mulher, mas repeliu logo essa ideia com escrupulosa repugnância. Continuava a odiá-la. Entretanto esse mesmo fato de obrigação em que ele se colocou de não se servir dela, a responsabilidade de desprezá-la, como que ainda mais lhe assanhava o desejo da carne, fazendo da esposa in el um fruto proibido. A nal, coisa singular, posto que moralmente nada diminuísse a sua repugnância pela perjura, foi ter ao quarto dela. Shatta, me traz agora um copo d’água que estou morrendo de sede e depois vai ver se a isabel quer alguma coisa. o mulato por aluísio azevedo. casa de pensão.
Todos os marcadores esquecidos entre as páginas deveriam ser recolhidos e postos num vaso de cerâmica para novo uso pelos leitores, desde que entre eles não estivesse minhavó. Ela não se importava, marcava as páginas interrompidas com pedaços de pano de limpeza, às vezes usava os os dos panos mais vagabundos. Para evitar insetos e umidade, vovó colocava em cada quatro nichos de estantes frascos com sal de cozinha, trocados a cada semana. Alguns visitantes perguntavam ao senhor dono da casa se a negra andava fazendo macumba com aqueles potes de sal nas estantes, ao que o senhor ria despreocupado.
Havia regras para a limpeza. Minhavó não podia se sentar para a limpeza da biblioteca, então passava o dia inteiro em pé na beirada das estantes ou da mesa; outra regra: ela não podia abrir nenhum livro para ler, somente limpar. Assim, vovó fazia de conta que seus olhos serviam para limpeza, não para leitura, limlendo enquanto os donos de tudo se distraíam com a boca ocupada pela comida. Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam a um interesse pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que, no entanto, gostava imenso; vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas... Shatta, a comida já está pronta?
Li vários dos livros que vovó limleu na casa de família onde foi “criada”, mas não na biblioteca dessa gente que o expaimeu odiava. Meu contato com eles foi acidental e esporádico. O último se deu quando da doença de tia Olma. Uma das mulheres brancas que ela criou branca esteve na minha casa para visitá-la e oferecer o conforto de sua presença. Quando saiu do quarto dos pássaros, como se eu estivesse fazendo algum serviço especialmente para ela, me agradeceu os cuidados com a tia, ao que respondi, com desprezo, ela é minhatia, ao que ela retrucou, ela é minhamãe. Sua mãe? Mas a diferença de idade entre vocês não é menor que dez anos? Ela tem setenta e oito e tu tem setenta, mesmo assim ela é tua mãe? Essa gente não tem mesmo vergonha na cara. Depois dessa troca tão agradável, ela, que em todos os nais de semana mandava um bolo pronto para a tia Olma, nunca mais mandou. Um castigo.
O quarto dos pássaros foi um cômodo que organizei para que minhatia pudesse se recuperar depois da cirurgia. Chama-se quarto dos pássaros porque foi decorado com pássaros. Ela gosta de pássaros. Sente falta do canto quando eles o recusam.
Não. Tia Olma não era mãe dela. Ou mãe dos irmãos dela. Talvez fosse mãe no não receber pagamento para cuidar de um bando de crianças ranhentas, no não receber pagamento para limpar a casa lavar passar fazer comida aguentar reclamações mau humor dores tudo tudo para que a mãe branca da visitante e de seus irmãos pudesse estudar e, depois, exercer ofício de magistério, e para que o pai dela e deles jogasse dinheiro fora tranquilamente. Quando a tal senhora chegava em casa, já estava tudo pronto, lhos limpos, lhas limpas. Tia Olma me falava com certo orgulho. Parece que isso lhe concedia lugar que ela não tinha, quase de superioridade. Mas, tia, por que a senhora trabalhava de graça para essa gente? A mãe delas não tinha dinheiro para pagar, era professora. E não tinham pai? O pai jogava. E a senhora, ganhava bastante? Tinha outra fonte de renda que não o seu outro trabalho braçal no lanifício para poder servi-los de graça? Por que a senhora tinha que servir essa família como uma escravizada? A jose na por acaso limpava sua casa cuidava dos seus lhos e lhas em contrapartida ao que a senhora fazia para ela e para o marido? A jose na ganhava pouco. Mas, naquela época em que a senhora não podia estudar, as professoras não ganhavam tão pouco assim, tia. Além do mais, a jose na tinha herança de família. Foi quando gente como nós passou a frequentar as escolas públicas que a remuneração do magistério diminuiu. É? Por que ela pode estudar e a senhora não? Eu tive que trabalhar muito cedo, cuidar deles.
Pode ser até que estivesse encoberto pelo cansaço da viagem de mais de dez horas dentro de um ônibus vindo num trote da cidade com nome de santa até a cidade dos ajuntados, mas tia Olma parecia não guardar ressentimento, exceto quando diz que era a negrinha da casa. Quem sabe o ressentimento agora fosse menos importante, advindas tantas dores divididas comigo. A ressentida sou eu.
Lembro que uma vez ou outra a lha postiça da cartinha amorosa bateu à porta da casa do expaimeu para visitá-lo. A conversa entre ele e ela uía rápida. Ela me parecia alta elegante rica. No dia em que foi visitar tia Olma na minha casa, pareceu-me bem menos que uma mulher branca comum quase ordinária com sua sobrancelha de henna pela metade máscara anticoroado vermelha botinhas rasteiras de pelúcia.
Querida Olminha! A vida prega muitas peças para nós. Depende de nós, da nossa fé em Deus e nos espíritos bons que nos rodeiam, a nos livrarmos dela. E tu conseguiste! Sinto muita dor em não estar contigo, fisicamente, mas no espírito somos uma só. Te amo muito, muito... pra sempre. Até quando já tivermos em outro plano. Olminha, Deus te abençoe. Amor para sempre é o nosso.
A cartinha com tal mensagem maravilhosa de amor eterno foi escrita e entregue a minhatia Olma pela lha postiça de quem falo. A tia havia deixado o hospital quando a recebeu. O papel cou abandonado numa gaveta do quarto dos pássaros. Que o deus de que fala a lha postiça livre minhatia da convivência-subserviência com ela no outro plano. Que piada é essa de “amor para sempre” enquanto minhatia morava numa casinha caindo aos pedaços no rincão da carolina depois de servi-las por anos em substituição ao corpo de trabalho de minhavó? A frase correta é “labor para sempre”. Já ia me esquecendo de dizer que a limpeza das estantes foi o quarto trabalho de minhavó herculana na casa dos avós da postiça.
Consegui me deserdar da tradição do vício do serviço à família cuña ou a qualquer outra coberta pelo sangue das vacas ou das ovelhas ou sustentada pelo sangue das gentes empretecidas da cidade com nome de santa. Suponho ter quebrado ao menos essa maldição que vitimou minhancestras. A maldição das casas de família, que bem daria lme de terror. Algo do desvio devo à minhavó, matadora de leões, e à minhamãe. Talvez eu também tenha me associado ao amoródio do expaimeu a essa gente. Tal associação me livrou da promiscuidade amorosa das casas de família, que nos emparedava entre a humanidade vacum e a bovinidade humana. Algo devo ao expaimeu, mas não tudo.
O prédio enorme, de dois andares, estilo neoclássico. O piso inferior tomado por mesas retangulares que se estendiam do início ao m do salão. As mesas compridíssimas cercavam-se de várias cadeiras. Encostadas nas paredes, as estantes dominavam todo o lugar, parecia que seríamos devoradas por elas. Decifra-me ou te devoro!
Íamos em grupo à biblioteca fazer os trabalhos de escola, especialmente de geogra a, cuja professora com nome de rainha degringolada se mostrava muito exigente. Tínhamos que desenhar mapas políticos e de relevo e de hidrogra a. Eu tinha um colega que apresentava mapas maravilhosos. Nunca consegui apresentar os meus com toda aquela elegância. Tínhamos que saber por que não chovia no nordeste do país das maravilhas, por que era quente a zero grau de latitude, por que nevava na morada da neve. Tudo isso a biblioteca respondia. Nunca tivemos que pesquisar nada sobre pobreza, desigualdade social ou coisas parecidas. Não precisávamos saber por que éramos pobres. Não sabíamos nada sobre a história do ventre dos povos. Esse ventre não tinha história, apenas geogra a. Às vezes íamos à biblioteca apenas para retirar ou devolver livros. Chão mesas cadeiras, tudo muito limpo, com certeza por uma mulher negra para quem a biblioteca foi a substituta das casas de família. Subíamos rindo os quatro ou cinco degraus de entrada do prédio.
Como na casa em que o expaimeu me inquilinava, no interior do prédio tínhamos que fazer silêncio. Até havia numa das paredes o retrato de uma mulher branca que lembrava uma enfermeira norte-americana nos impondo silêncio com o dedo indicador em riste sobre a boca, unha pintada de vermelho dos imperadores.
Não me lembro das funcionárias que nos atendiam no balcão. A memória da mulher branca de unha vermelha abafando minha voz as sufocou. No entanto, me lembro de uma mulher negra retinta como eu com um pano na mão e um balde limpando as escadas que davam acesso à parte superior do prédio. Ela está me olhando agora como um dia eu a olhei e pensei: não quero ser mais uma mulher negra faxineira. Acho que ela quer saber se cumpri meu intento e se ainda me persegue a vergonha de ter me identi cado com ela pela negação.
ana me diz que muitas das minhas queixas advêm do não quero ser faxineira não quero ser cozinheira não quero ser lavadeira não quero ser o que foram minhantepassadas, não quero ter dívidas. Sim. Uma vida que se construiu a partir da negação, a minha, talvez por não ter como construí-la a partir da a rmação de quero ser professora como foi minhavó quero ser advogada como foi minhamãe quero ser amável como meu pai foi.
Dos livros que limpava minhavó decorava poemas. De tanto ouvi-la recitar ao descascar as batatas para a salada do domingo, minhaprima, a lhada por ela, aprendeu que viver não é necessário o que é necessário é criar aprendeu que não conto gozar a minha vida nem em gozá-la penso só quero torná-la grande ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo só quero torná-la de toda a humanidade ainda que para isso tenha de a perder como minha cada vez mais assim aprendeu que penso tudo quanto penso tudo quanto sou é um deserto imenso onde nem eu estou.
Encontraram textos concebendo a escravidão dos povos africanos como algo lógico e legítimo de autoria do poeta cujo minha alma a lenha desse fogo minhavó declamava. Um dos investigadores de sua obra o defende da acusação de racista, já que, desde 1980, diz, se publicam centenas de coisas que o poeta nunca pensou publicar, e muitos leitores não distinguem entre o que ele deu ou pretendia dar à estampa e o que atirou simplesmente ao baú que guardava o que escrevia, mesmo certas parvoíces que rabiscava em papeizinhos, eventualmente com uns copinhos já bebidos. Parece que o poeta não atirava nada fora e até poderia ter escrito outros papeizinhos dizendo o contrário. Parece que isso lhe acontecia muito frequentemente. Parece que a defesa da escravidão consistia “numa espécie de exercício dialético ou retórico íntimo, às vezes irritado, sempre provocatório”. Quem sabe!
O corpo da minhavó realmente funcionava como a lenha do fogo da gente de quem ela foi criada e com quem ela foi criada como criada, não como criança. Seu serviço os tornava grandes frente a si próprios e à sociedade local. Tal sentimento de grandeza surge quando temos alguém a quem considerar pequeno, alguém que sirva de bengala para que apoiemos nossas fraquezas. Como todo sentimento em geral, em geral é enganoso. Ouvi isso de ana. Mas acho que Shatta não pensava sobre a relação entre eles e ela, seu corpo no movimento do dia a dia era o próprio pensamento. Quem pensa isso sou eu. É um espinho que me incomoda desde a infância.
Shatta também não poderia ser um deserto como referido no poema. Ainda que quisesse desertar, uma voz de mando a surpreendia com ilusões acerca de sua granditude. Shatta, me traz um pouco de água? Não sei se seus olhos cavam entediados arregalados ou molhados com essa ilusão da qual fazia parte.
A professora com nome de rainha degringolada também nos fazia pensar sobre desertos da patagônia atacama gobi Saara. Enquanto falava na parte da frente da sala de aula, retorcendo a boca e apontando o mapa com uma caneta especial, iluminada na ponta, os meninos meus ímpares me jogavam no rosto papéis da bala, com o nome da marca escrito Neguinha. E riam. Depois viravam seus pescoços para a frente e faziam de conta que prestavam atenção nos desertos enquanto se olhavam uns aos outros, canto de olho, orgulhosos do ato. Riam, eles riam.
Estava num deserto cercada de gente branca, que eu sabia branca. Não sei se eles se sabiam brancos. Para mim não havia ilusões. Soube desde cedo. O expaimeu não me deixava me esquecer da minha negridão, que em razão do fardo teria que estudar mais e trabalhar bem mais que os brancos. Minhanalista diz que todos precisam trabalhar e estudar. Acho que nessa frase falta alguma coisa.
Não sei se havia outras cores, mas o papel de bala que meus ímpares me jogavam no rosto era amarelo. Algumas meninas riam com eles, como césaire riu com as mulheres brancas do homem negro abandonado no bonde que tentava se apequenar para não ser visto. Também me chamavam de macaca, situação tão comum quanto não ter a quem se queixar em casa ou na escola. Num lugar ou noutro, eu seria culpada.
Agora há pouco essa gente organizou um grupo no inhaí com todos e todas que foram colegas de turma da primeira à oitava série do colégio david canabarro, no centro da cidade com nome de ana. Na semana encharquilhada, tínhamos que formar la para ouvir o hino da província de san pedro. Eu me sentia envergonhada na parte do povo que não tem virtude acaba por ser escravo. Então alguns de meus espinhos se viravam para dentro. Nas aulas de história eu aprendera que descendia de “escravos”.
Mais tarde quei sabendo que o colégio onde estudei durante oito anos carregava nome de assassino, o que parte da história nega e ele mesmo negou até o m de seus dias de dono de gente. O destino dos soldados negros foi um problema para que o governo imperial, representado pelo barão de caxias, e os chefes da república de san pedro acordassem o m da revolução encharquilhada. bento gonçalves não aceitava proposta que não garantisse liberdade aos lanceiros. Foi afastado das negociações. Numa madrugada de novembro de 1844, numa trama entre caxias e canabarro, os lanceiros foram dizimados pelas forças imperiais no cerro dos porongos. Os soldados estavam segregados no acampamento entre brancos, negros e indígenas. Os imperiais atacaram especi camente o acampamento negro. Os demais soldados fugiram.
No grupo de inhaí dos orgulhosos descendentes de david canabarro há uma ou outra ímpar com quem frequentei a biblioteca pública. Estou como espiã. A meu contragosto, eles me acharam na rede social com nome de cara e me escreveram pedindo meu número e autorização para me colocarem no grupo. Fingi estar feliz com o contato deles, que ngiam também ngiam felicidade. Não há momento em que me sinta vinculada a essa gente, meu interesse é apenas saber se os brancos daquela época continuam não sabendo que são brancos embora sempre tivessem sabido que sou negra.
Em geral, limpo a conversa, apago o magote de mensagens e vídeos sem nenhuma atenção depois de tê-los silenciado por uma semana. Além de piadas sobre mulheres brancas e pessoas gordas, certo dia me deparei com uma pérola que z questão de arquivar e trazer na íntegra para este futuro livro. A pérola demonstra que a boa vontade branca avança no máximo até entender que uma pessoa pode se ofender ao ser chamada de magrelo ou de negão, jamais até entender que a questão em jogo no caso do negão não se circunscreve ao campo da ofensa.
Eu silenciava quando os guris me atiravam papéis de bala Neguinha e as gurias riam e a professora não via ou ngia que não via. Fazia como sempre z, dobrava meus espinhos para dentro e me concentrava naquela dor de corpo para não ter de me haver com a dor da palavra. Chegava em casa sangrando. O expaimeu e Alesọ não ouviam. Estavam trabalhando para a família de alguns colegas descendentes do valoroso david canabarro ou queriam mesmo não ver. O que fariam com isso? Poderiam desvirar meus espinhos?
“Me perdoem os amigos..conhecidos..E a quem magoar... Mas é a mais pura verdade! GERAÇÃO 2000 CHATAAAAA pra carambaaaaa... 😠 😠 😠
Geração cheia de mimimi, que sempre quer mostrar conhecimento de coisas que não viveu, que se magoa com qqr coisa, que acha que td é bullying, racismo, preconceito, que tem que viver se rea rmando, entre tantas outras coisas!
Aí Geração nutella pega essa visão...
Na escola, Não ganhávamos uniformes, o #UNIFORME era comprado...se fosse sem uniforme não entrava na aula... Se chegasse atrasado assinava o livro preto....Não tínhamos telefone celular nessa época, éramos acostumados a usar o famoso #ORELHÃO... As pesquisas eram na Biblioteca hahahaha... como era divertido ir até a biblioteca.
O trabalho era escrito a mão e na folha de papel almaço..
Tinha dever de casa e a EDUCAÇÃO FÍSICA era esperada por todos!
Na escola tinha o #CICATRIZ,o #GORDO, o #MAGRELO o #ZOREIA, #QUATROZÓIO, #CABEÇÃO, #BAIXINHO, #OLÍVIAPALITO o #NEGÃO o #PATO e nada disso era uma ofensa!
Todo mundo era zoado, às vezes até brigávamos, mas logo estava tudo resolvido e seguia a amizade... Era brincadeira e ninguém se queixava de #BULLYING. Existia o #VALENTÃO/#VALENTONA, mas também existia quem nos #DEFENDESSE kkkkk.
Antes de iniciar as aulas, a gente cantava o #HINONACIONAL.
A rede social da época eram os cadernos de pergunta e resposta que circulavam pela sala para contarmos sobre nós e também sabermos um pouco mais um dos outros!
íamos para a escola à pé, na saída, adorávamos quando alguém fazia aniversário... ERA #OVO, #FARINHA, o que tinha pela frente.
Final de ano, não víamos a hora de acabarem as aulas, para que os colegas escrevessem nas nossas camisetas para guardarmos de recordação!
A frase ‘PERAÍ MÃE’ era para carmos mais TEMPO NA RUA e não no COMPUTADOR ou no CELULAR como hoje... Colecionávamos FIGURINHAS, SELOS, PAPEL DE CARTA, CARRINHO DE ROLEMÃ, tínhamos ioiô e outras brincadeiras mais. As brincadeiras eram saudáveis, os meninos brincavam de bater gurinhas, não nos colegas e professores como atualmente. Adorava quando a professora usava MIMEÓGRAFO e aquele cheiro do álcool tomava conta da sala... Na rua era, ESCONDE ESCONDE, PULAR CORDA, ELASTICO, TACO, AMARELINHA, QUEIMADA, PIPA e etc...
Comíamos na rua mesmo, bebíamos água da torneira, andávamos descalços e vivíamos no sol sem protetor.
Não importava se nossos amigos eram #NEGROS #BRANCOS, #PARDOS, #RICOS, #POBRES, #MENINOS ou #MENINAS.
Todo mundo brincava junto e como era bom. Bom não, era #MARAVILHOSO! Filmes só assistíamos na tv e não víamos a hora de passar a sessão da tarde.
Que saudades dessa época em que a chuva tinha cheiro de terra molhada!!! Podíamos tomar banho nela sem car doente... Época em que nossa única dor era quando passávamos MERTHIOLATE nos machucados KKKK.
#EDUCAÇÃO era em casa, até porque, ai da gente se a mãe tivesse que ir à escola por aprontarmos.
Nada de chegar em casa com algo que não era nosso, desrespeitar alguém mais velho ou se meter em alguma conversa.
Fico me perguntando!!! QUANDO FOI QUE TUDO MUDOU??? E os valores se perderam e se inverteram dessa forma???
Quanta saudade, quantos valores, que pra esta geração não valem nada.
Saudade de tudo que hoje não tem mais valor!!!
Fui dessa época com muito orgulho, e que saudades... 😎
Cadê a galera que engoliu chiclete e não morreu”
O que vocês acabaram de ler é a maravilhosa demonstração do modo branca classe reinante de estar no mundo, um modo de estar de quem nunca se deu conta do que se passava no entorno porque era, e deve continuar sendo, um entorno todo branquinho fo nho cheirosinho. Fiquei com dúvidas em trazer a mensagem veiculada num grupo particular de inhaí para o futuro livro. Parecia algo desonesto, uma traição. Mas a quem eu estaria traindo? À ímpar que fala do alto do seu lugar de verdade, como se sua experiência bem particular fosse a experiência de todas? Realmente me impressionam os lugares míticos que não se sabem mitológicos.
Porém, caí do porco. Ao revisar esse texto, ainda com dúvida sobre a ética em publicar a mensagem ímpar, descobri que há vários, inclusive com frases iguais, na internet. E eu achando que fosse algo original ou inédito. Só mesmo fumando outra ponta.
Durante os oito anos de colégio me lembro de ter sido convidada uma única vez para um único aniversário. Não fui. Porque não me deixaram, pois teria que gastar com roupa, presente, transporte; ou porque não quis, pois nunca me senti à vontade com essa gente que somente me queria por perto para que eu os ajudasse a tirar boas notas.
“Não importava se nossos amigos eram #NEGROS #BRANCOS, #PARDOS, #RICOS, #POBRES, #MENINOS ou #MENINAS”, porca-espinha que sou, ler esse trecho da lavra de minha cara ex-colega me dá vontade de descer rolando de rir o cerro de palomas com o meu pelo enegrecido gritando que todos somos humanos. Chegando lá embaixo, ao pé do cerro, a polícia estaria me esperando porque fora avisada de que uma negraloca descia o morro gritando e perturbando a vizinhança.
E outra, eu detestava educação física, havia um professor barrigudo e nojento que quase nunca nos dava exercícios para fazer durante as aulas e, quando o fazia, era para nos deixar sem poder caminhar direito durante uma semana. A pessoa dona do texto que relato parece que é dona de uma academia, então até entendo sua saudade dessas aulas.
Mais uma. O cheiro de álcool do mimeógrafo me lembrava do cheiro de cachaça do expaimeu. Eu não tinha nenhuma adoração por esse odor.
E outra. Isso de gostar de ir e vir a pé deveria ser bom para quem, como ela, morava nas cercanias do colégio. Eu morava longíssimo, tinha que caminhar mais de uma hora para ir e mais de uma hora para voltar, o que era especialmente difícil nos dias de chuva até porque não podia permanecer em casa sob pena de ser chamada de preguiçosa ou vagabunda por vocês-sabem-quem.
Para a nobre colega descendente de escravizadores, realmente a única dor deve continuar sendo a do merthiolate e a de envelhecer, não apenas na idade. Me impressiona sua forte crença no mundo que criou para si e para as outras, como se não houvesse nada de diferente de seu país das maravilhas, nem ontem e nem hoje.
Outra colega se deu ao trabalho então de responder à saudosista. Eu só tiraria desse texto a parte do uniforme comprado (só quem tem poder aquisitivo pode comprar...) e a parte dos apelidos/bullyingentão... a gente é que acha que as pessoas não sofriam com esses apelidos... talvez muitos não, mas vai saber se o “Gordo” não sofria com isso... o “Negão” não se sentia discriminado... não acho que seja mimimi. Acho que as pessoas têm que se respeitar. Sei lá... eu nunca me senti ofendida por me chamarem de baixinha, Mônica baixinha dentuça (by XXXXX kkkk), pintora de rodapé, salva vidas de aquário, quatro olho cinco piolho... mas cada um tem uma forma de lidar com isso e, dependendo do tipo de preconceito que sofre, o apelido pode ferir, sim... O resto... só saudades do “nosso” tempo!
Novamente a escritora do primeiro texto se manifesta: “Então XXXX... Naquela época íamos uniformizados e todos estavam iguais, quanto a se incomodar com os apelidos naquela época é quem sabia levar na esportiva.. que nem vc e eu...TB tive vários apelidos.... Que não me “ofendi” então é disto que me re ro... Tudo era mais leve... Hj em dia as agressões são piores, são com ódio, isso não tinhamos era brincadeira se tinha o negão tinha a branquela, se tinha o gordo (a) tinha o seco... E por aí vai... Só quero que entendas que não era tão assim como é hj, até pq se ultrapassava os limites assinava o livro preto ou verde... 😂”.
O uniforme não fazia ninguém igual a ninguém, a menos que já fosse considerado igual, branco, lho de estancieiro ou de comerciantes bem-sucedidos na exploração do trabalho das outras, ou pertencente às classes médias que se achavam superiores ainda que fossem vassalas dos mesmos senhores. Nunca deixei de ser considerada negra por usar uniforme igual ao que as alunas brancas e alunos brancos usavam. O tal uniforme nunca foi uma pele branca para mim. Quanto a levar na esportiva, francamente não há o que dizer. A não ser que a ímpar esteja falando de racismo recreativo. Será isso? Quanto maior a besteira, mais difícil escrever sobre ela.
Mais uma. Eu assinava o livro preto há anos.
“Claro que entendo, @XXX! Sei que o ódio, hoje em dia, a maldade, a exaltação à superioridade (e por isso, à inferioridade) são muito mais fortes do que na nossa época. Isso se re ete na sociedade, não só na escola. O que quis dizer é que eu não incluiria isso nesse texto, se eu fosse escrevê-lo, pois é um tema bem mais profundo (no meu ponto de vista). Sim, todos tínhamos apelidos... Mas não acho que isso não magoasse alguns... As pessoas não tinham espaço pra expor o que sentiam sobre isso... sei lá. O importante é que nos amamos! Kkkk”
Essa ex-colega que foi chamada de baixinha, de mônica baixinha dentuça pintora de rodapé salva vidas de aquário quatro olho cinco piolho, e que dialoga com a saudosista, me foi bastante próxima. Talvez não tenha se importado com os apelidos que recebeu no colégio por não haver no país das maravilhas um sistema de opressão contra as mônica baixinha dentuça que se estende por mais de quatrocentos anos. Não posso negar que, na infância, passei algumas tardes agradáveis em sua casa, embora constantemente acompanhada pelo medo de que me descobrissem negra. Sua mãe, ainda que parecesse incomodada com minha presença espinhosa, nos fazia chocolate gelado, que tomávamos com um canudinho, e uns sanduíches de lamber beiços. Acho que um dia me descobriram, já que nunca mais fui convidada a retornar. Soube no ano em que escrevo esse futuro livro que a ex-colega era judia, não sei se isso signi ca algo para ela, mas signi ca para mim.
Quanto a nos amarmos, ela deve estar brincando ou falando apenas por ela que é pessoa de bom coração. O meu é cheio de espinhos, razão pela qual não compartilho desse amor pelo próximo nem pela próxima.
Me sinto meio Carolina Maria de Jesus, a minha geração deve ser a do quarto de despejo, escrevendo aqui o que leio no grupo de inhaí e falando aqui o que não digito lá – “[...] Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradáveis me fornecem os argumentos”.
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