Louças de família

Eliane Marques · Capítulo 14 de 14

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Louças de família

terceira parte

 

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O expaimeu me proibia falar com a língua ou com os olhos, me proibia caminhar mover os braços as mãos o dedão do pé esquerdo. O movimento do ar em meus pulmões o perturbava. Ele queria que eu parasse de respirar. Até pouco depois da infância, eu não sabia abraçar, não sabia beijar, nem no rosto. Eu não podia rir, não podia mostrar o branco de meus dentes. Ele queria que eu fosse uma não alguém que vivesse o mínimo e morresse o máximo na cidade com nome de santa. Uma cidade de casas sólidas feitas de pedras e porcelanas. Uma cidade em que, com as porcelanas utilizadas para fabricar os pratos nos quais se servia a comida para a classe reinante, se fabricavam seus penicos de merda. Uma cidade de ruas de chão batido e paralelepípedos onde as latas de lixo transportavam de dentro para fora das casas de família sobras daquelas que não existiam. Sendo essa que morre eu não lhe daria trabalho, não o incomodaria. Seria uma estátua de mim mesma.

Ele não queria que eu fosse como Alesọ, que viveu antes de se matrimoniar com ele, a partir de quando foi desaparecendo à medida que desapareciam coisas. A caixa azul com a alma das ores do mundo fogão fogareiro pente quente lençóis de linho branco colchas xícaras panelas tomate melancia maçãs cenoura sal farinha açúcar maizena leite manteiga geladeira vermelha arroz feijão armário de seis portas cor-de-rosa sabão bolachas bolachinhas salgadas café com farinha latas grandes rádio televisão a válvula. Até lenha para o fogo desaparecia à medida que Alesọ ia desaparecendo. Desapareceu também um conjunto de espelho e escova com pé feminino. Desapareceram panelas e frigideiras. Desapareceu a bacia arredondada de louça com bordas irregulares verde-água onde minhavó iniciou a tradição de dar o primeiro banho. Desapareceu a saia de seda bordada de corte elegante traje total conforto. Desapareceu o vestido azul de bolinhas de tia Firmina. Desapareceram as peças de louças das quais tia Eluma era donatária, desapareceu o armário antigo de madeira de lei onde se guardavam.

Minhamãe ia desaparecendo à medida do desaparecimento das coisas.

Eu queria ser como Alesọ, mas não totalmente. Eu não queria receber as palavras fermentadas dele como Alesọ recebia. Eu não queria falar apenas com o invisível como Alesọ o fazia. Sempre fui de pouca conversa, mesmo com quem se via. Assim eu era como o expaimeu queria, calada e a serviço do servício de limpar lavar cuidar, coisa para o que Alesọ também muito bem servia. Apesar de me querer calada, a cremação das minhas palavras também o inquiria.

A palavra certa para mim seria criada muda, como foi para minhatia Eluma para minhatia Olma para minhavó Shatta para minhavó Anagilda.

O apego, dizem haver entre pai e lha, não existia entre mim e o expaimeu, afora se eu me aceitasse sua criada muda. As páginas da minha vida nasceram com o desejo de morte. Havia ódio e descon ança e medo constante. Eu estava sempre à beira de um poço seco prestes a me jogar ou a jogá-lo. Na presença do expaimeu eu pisava cacos de louças com pés descalços enquanto ele protegia os seus por sapatos de couro e galochas de aço. Pés protegidos por sapatos fortes. Qualquer folha caída ou canto de pássaro poderia desencadear sua fúria. Eu tinha a impressão de usar diante dele uma camisa de força preta, comprida, espécie de mortalha encobrindo meu pescoço, braços, seios, joelhos, encobrindo meus pés. Como diz minhaprima Xuela, eu era do povo dos derrotados, dos vencidos; ele também, mas acho que não soube até o dia em que o venci.

O expaimeu não usava uniforme de polícia ou brigada como o pai de minhaprima Xuela ou o barnabé usavam. Seu uniforme um macacão azul-escuro de operário. Ainda que fosse daquele outro tipo mais formal de traje, era igualmente cruel dentro de sua casa, com sua mulher e prole. Ele queria que lhe demonstrássemos a humildade dos derrotados, algo que as gentes embranquecidas da classe reinante também exigem de nós diante de suas presenças iluminadas.

Alesọ foi esposa do expaimeu. Foi minhamãe. Caiu num poço de pedras quando se matrimoniou com ele. Eu já nasci nesse poço, tentando sair por baixo, embora fosse por cima a única saída. Alesọ estava cansada dele, cansada de nós, cansada dela conosco e com ele. Alesọ não queria mais o legado das contas, o legado do sapato de salto apertado. Ela encontrou para si um lugar fora da morte e também fora da vida.

Certo dia o expaimeu viajou a trabalho e a deixou em casa para continuar cuidando das coisas como sempre cuidava. Nesse tempo, não limpou não varreu não cuidou. Alesọ sumiu, sumiu com a montanha de objetos que tinham desaparecido. Alesọ renunciou ao nal supostamente pequeno supostamente mesquinho num hospital onde tudo falta numa cidadezinha do interior que não se decide entre o nome de santa o nome de ana ou de liberdade. O que ela vinha suportando era mais do que poderia suportar. Então decidiu se tornar algo que não se vê.

Alesọ não era mais a esposa dele, não varria mais o chão, não preparava mais a comida, não lavava mais as roupas, não estava mais entre os vivos nem entre os mortos. Ela não mais ouvia as reclamações do expaimeu.

Irritado com o corpo desaparecido daquela que fora sua mulher, ele a amaldiçoou. Onde quer que ela estivesse teria uma vida sempre instável, suas palavras não teriam rosto, teria problemas de geração a geração, as lhas dela, que éramos eu e minhirmã, não prosperariam. Eu, especialmente eu, levaria no corpo o peso de todas as mulheres wérewère da família.

Descon o que minhamãe tenha sofrido alguma grande tristeza. Uma dessas que fazem com que não tenhamos mais vontade de tomar banho, pentear o cabelo. Uma dessas que fazem com que não tenhamos mais vontade de sair de casa. Quem sabe quanto tempo ela vinha com essa dor que lhe percorreu o corpo como a agulha fura a roupa. Quem sabe.

Alguém me disse que fui uma mulher negra louca que afugentava as pessoas com meu modo de falar de caminhar de me vestir. Alguém me disse que eu lembrava um monstro, como o expaimeu fora para mim, como ele queria que Alesọ fosse para mim. Por isso e mais um pouco acho que descendo apenas de Alesọ. Mas às vezes me olho no espelho e vejo na minha cara a cara dele e temo que sua morte não tenha sido su ciente para impor uma muralha de pedras entre nós.

Antes da decisão de desaparecer, Alesọ nos orientou que deveríamos usar um objeto no corpo se quiséssemos falar com ela. Esse objeto nos protegeria contra as pragas rogadas pelo expaimeu. Ela já sabia que ele iria praguejar contra nós. Meu primeiro objeto, um porco-espinho de porcelana, o clementino fez para mim quando eu ainda era criança. Eu o usava como broche. Diziam que era muito feioso. Quando Alesọ desapareceu, esse brinquedo de criança perdeu seus espinhos e serviu para que eu não casse wérewère como o zé, de quem eu temia ser contaminada.

Para car mais perto de Alesọ, eu adotei o costume de colocar mais e mais objetos no corpo, como mais uma camada de tecido. Eu passei a adorar dispor de muitas coisas sobre mim além dos panos das roupas. Às vezes me chamavam de mendiga. Tudo o que via, eu colocava no corpo, eu parecia uma louca. Mas eu não era uma wérewère.

Na maior parte do tempo, eu nem quero viver, não me sinto pertencente a esta terra, assim como não me sinto pertencente a nada no meu entorno ou mesmo fora dele. Tudo nesta terra me é enormemente pesado, como as mãos da Dona Nida sobre os meus ombros, me achatando, me aterrando, tudo me é tormentoso, as manhãs são louças de dureza que se espatifa e me corta. Carrego um sentido de desmundo, onde tudo se quebra e nada se abre.

Eu o matei. Fiz a luz branca se apagar dos seus olhos de claridão. Eu vi o ar abandonar seus pulmões, suas narinas. Senti sua pele escura se enregelar. Seu corpo foi aquietado. Sua crueldade foi aquietada. Escolhi a roupa com que ele foi enterrado. Tive permissão para fazê-lo, pois minhamãe não mais estava. Não estava Alesọ.

Este livro terminou de se escrever em janeiro de 2023.

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