Louças de família

Eliane Marques · Capítulo 13 de 14

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Louças de família

Capítulo IV

 

[...] indo depois assumir as funções de Zeladora do Grupo Escolar [...]

Jornal A Nação

 

O casamento que ela planejara por tanto tempo, insistindo para que se casassem como livres, rapidamente desandou em chicotadas e salgaduras. Realizado em janeiro de 1855, terminou um ano e meio depois, quando Henriqueta solicitou a um padre a separação eclesiástica, pois seu marido, como seus antigos senhores, adquirira o mau hábito de lhe marcar o corpo com arranhões. Testemunhas descreveram seu rosto peito braços e pernas cheios de feridas. Mas as feridas mais doídas em Henriqueta foram as dívidas contraídas por ele e pagas por ela, já que comprava a crédito frutas e verduras para revender, sendo indispensável manter a con abilidade de seu nome. A separação serviu para proteger tanto seu bom nome quanto seu bem-estar. A propriedade adquirida com o dinheiro do trabalho dela na constância do matrimônio foi vendida e metade do valor, repassado ao exespososeu. A metade que coube a ela foi quase totalmente consumida pelas dívidas que assumiu.

Houve uma época em que o senhor vitinho e a senhora isabel cuña não tinham comida nem para eles nem para os lhos e lhas. Não que estivessem pobres, apenas não dispunham de comida nem dinheiro para comprá- la. Não foi um dia de falta do que comer, foi uma época de vacas magras, como aquele sonho contado a josé pelo faraó do Egito. Saíram do Nilo sete vacas gordas e belas, depois saíram do mesmo rio sete vacas feias e magras, que foram para junto das primeiras e as comeram por inteiro. Contudo, mesmo em época de vacas magras, o senhor continuava as jogando e perdendo as jogando e perdendo. A situação dele era mais ou menos como a do marido de Henriqueta, que atolava o dinheiro não nascido do trabalho dele no pagamento das dívidas de jogo. No caso do marido da quitandeira, o dinheiro crescia do trabalho dela; no caso do marido da senhora, o dinheiro não nascia do trabalho dele nem do dela, mas da herança da família amealhada com o trabalho alheio. Eles formavam o rebanho de vacas magras que se alimentavam do trabalho de minhancestras.

Henriqueta, que não teve nem deixou herança, é parentaminha cujo rastro se perdeu. Henriqueta é parentaminha cujo rastro foi comido pelas vacas magras. Sinto sua presença corpórea na vermelhidão madura das maçãs melancias tomates. A pele dessas frutas, quando fendidas, têm algo das fendas das dívidas de Henriqueta.

O casal cuña da terceira geração, isabel e vitinho, se conheceu num baile a fantasia de nal de ano no clube campestre, aquele mesmo em que o avômeu não podia pisar os pés. O senhor vitinho se fantasiou com as roupas referidas ao orixá ogum e a senhora isabel com as roupas referidas à orixá Iansã.

O pai e a mãe da senhora isabel cuña haviam sido contrários ao matrimônio, pois o pretendente, viciado em jogos de azar, trabalhava como mascate. Fosse caixeiroviajante se pareceria menos a um negro com suas trouxas às costas. Não se trata de aspecto físico, o noivo era quase loiro; contudo, de forma diversa aos caixeiros- viajantes, que faziam suas viagens de negócios acompanhados de um talão de pedidos e catálogos com descrição das mercadorias, os mascates conduziam suas mercadorias consigo, desfazendo-se delas ao longo do caminho, o que não era bem-visto pelas classes reinantes locais. A atividade do caixeiro-viajante possibilitava juntar dinheiro sem possuí-lo, já o mascate possuía o que levava consigo, mais ou menos como Henriqueta, o que, às vezes, era quase nada.

O interessante, e me sirvo dessa palavra por não ter outra mais interessante, é que apesar de não ter comida nem dinheiro para comprá-la, a família permanecia tendo criadas – minhavó e sua lha mais nova e mais pretina, tia Olma. Sim, tia Olma, que era considerada a negrinha da família. Mas de qual família, tia? Ora, das duas.

Vovó alimentava dois lhos e duas lhas com sua única frigideira torta que não era dela. Uma das lhas, perfeita em sua quase branquidão, provavelmente de origem nobre, não precisava sofrer com a pretidão que não tinha. Quando eu era criança, me admirava bastante dessa tia mais velha ser tão menos preta e tão diferente dos meus outros tios tão escuros e tão altos quanto o avômeu, o tuba. Será que o corpo ensaboado exposto ao sol funcionara para ela? Minha admiração talvez fosse não pela diferença dela relativamente a outras tias e tios, mas por sua brancura em si, um ideal para mim.

Gostaria de ser como minhaprima Xuela. Amava tudo que lhe pediam para odiar. Amava o cheiro da sujeira na atrás de suas orelhas, o cheiro da sua boca não lavada, o cheiro que vinha do meio das suas pernas, o cheiro de antimônio divino de seus sovacos, o cheiro de seus pés não lavados, tudo isso ela amava. Minhaprima amava até não amar seu pai. Mas eu não, eu não conseguia amar o que o expaimeu odiava em mim e odiava até odiá-lo.

Enquanto a tia menos preta fora criada para os estudos, a tia mais preta tinha sido criada para o trabalho de seus brancos. Essas foram con ssões feitas a mim nos corredores de espera do hospital num dia em que ela, a mais preta, falou o que nunca havia falado. Que nunca mais falará.

Sua irmã Ebema, tia menos preta ou mais branca, ainda muito jovem teve o corpo transladado para as dependências da casa, não do senhor vitinho e da senhora isabel cuña, mas da casa dos pais da senhora isabel. Titulando o sobrenome como brasão do continente da mulher que amou (ou foi estuprada por) um boi da cara branca, a senhora cuña-mãe era tida por muito boa para com pobres e negros, que praticamente tinham a mesma cara. Chamava-se jose na, de família criadora de ovelhas- ideal, neta de maria augusta. Assim, com pés de pluma sobre os tapetes de lã de ovelha, se podia dar ao luxo de reconhecer-se bondosa. No entorno do pescoço, sempre um colar de pérolas. Três voltas. Brincos e anel também do chagrin das ostras. Seu cabelo, de um loiro armado, lembrava o capacete do primeiro homem que pisou na lua. Seus dedos nos, suas mãos pequenas alongadas pela prática do piano. Seus olhos azuis.

Político e advogado na cidade dos ajuntados, o senhor marido de jose na, não lembro o nome, funcionava como delegado na cidade com nome de ana. Não tinha atrativo especial que não seus títulos de homem branco estudado da capital que não precisava do próprio trabalho para viver. Uma vez z concurso para delegada de polícia. Rodei na prova física. Eram dez apoios e z apenas um ou dois. Não tive força de vontade para fazer mais. Não tive em quem me apoiar para fazer os tais exercícios de apoio.

Minhanalista assinalou que, nessa mais uma reprovação, meu desejo fora mesmo ser reprovada. No ponto, acolho sua leitura. Não me permiti ocupar lugar reservado aos brancos na caçada aos negros. Talvez eu quisesse ocupar um lugar no sistema de injustiça onde, como os donos dos frigorí cos e das charqueadas, me fosse dado sujar menos as mãos com a mortandade dos pretos iguais a mim, o que fatalmente ocorreria fosse eu aprovada.

Ebema era alguns anos mais nova que isabel cuña. Ebema podia estudar e não tinha deveres de negra para com a família que a abrigava.

Minhamãe tinha dois rostos e uma frigideira onde me cozinhou, uma frigideira minha, me disse tia Olma. Já os livros, aqueles que estavam lá organizados nas estantes que sua mãe, minhavó, limpava, pertenciam à Ebema.

Muito estranhas as visitas à tia Ebema na infância. Sua residência, pequena para seis pessoas, cava lá do outro lado da praça principal da cidade com nome de santa, numa vila de casas iguais. Meus primos e primas, uns mais velhos e outros mais novos que eu, todos menos pretos, nunca estavam quando chegávamos. Se estavam, logo saíam. Tia Ebema nos recebia a contragosto, com cara de sono.

Num dia, já adolescente, fui sozinha à casa dela. Ela também estava sozinha. O marido, de apelido conde, fora fulminado, anos antes, por um ataque do coração enquanto dormia. Ficamos falando algo de algo agora esquecido. Seu braço se esticou e retirou da prateleira um livro. Eu ainda o tenho. Chama-se nossos 20 anos, de clara malraux. Na época, eu tinha mais ou menos essa idade. Acabo de abri-lo. Há uma dedicatória Para Cuandu com carinho da tia Maria Ebema. Feliz Ano-Novo. Que grande álbum de fotos é este que folheio hoje, sem álbum, sem fotos e sem presenças... Um trecho desse livro.

Tia Ebema não sabia ou não gostava de cozinhar. Nisso, eu também me aparentava a ela – não gosto e não sei cozinhar. Seu marido conde respondia pela comida. Os dois se conheceram na cidade de açúcar quando Ebema lá fez um curso de especialização numa área da biologia. Durante meses cou na casa de Doca, minhatiavó, de quem falei logo no início da segunda parte. Doca vivia num bom apartamento. Casara-se com um homem branco, de dinheiro, que a tratava como princesa. Tinha empregadas, sequer levantava uma palha do chão ou precisava se preocupar com a comida do dia ou as contas de amanhã. Vestia-se com roupas caras da moda. O casal não tinha prole.

Tia Ebema poderia ter sido lha tardia do casal, mas preferiu se casar com o conde cuja fama nada nobre era conhecida por Doca que avisou minhavó que se tocou da cidade com nome de santa para a cidade de açúcar impedir o casório. De nada adiantou. Ebema fugou para a casa do noivo, num bairro muito afastado das áreas centrais da cidade de açúcar. Acabaram casando e retornando para a cidade com nome de ana. Perguntei a tia Olma se o conde era negro. Ela pensou um pouco e respondeu, o conde era sarará. Depois perguntei em que ele trabalhava, ela imediatamente me respondeu que o conde não trabalhava, vivia às custas de minhatia Ebema. Assim como o marido de Henriqueta, o conde tinha dívidas de jogo cuja responsabilidade pelo pagamento fora atribuída por ele a ela, que trabalhava e ganhava muito bem, então deveria pagar algum tributo à nobreza.

Antes de morar na vila de casas iguais em sua tristeza amadeirada, Ebema vivia num lugar onde as enchentes levavam o tudo do pouco. Volta e meia eu ouvia Alesọ comentar que Ebema estava no olho da rua com as quatro crianças pequenas, pois as águas das últimas chuvas haviam invadido sua casa, na beirada dos trilhos. Eu não entendia como alguém tão estudiosa, com graduação e especialização em biologia na cidade de açúcar, trabalhava num laboratório e ainda dava aulas podia car desabrigada, como alguém assim podia morar numa casa onde a água da chuva furava a madeira. Seria essa a parte preta de minhatia quase branca?

Eu temia que esse destino fosse o meu. Eu tão estudiosa que não sabia cozinhar. Acho que não tive lhos também por isso, pelo medo de car desabrigada com eles no colo no meio de uma enchente com o expaimeu me azucrinando a cabeça e me chamando de negra vagabunda.

Ebema nunca quis comprar imóvel, receava que, ela morta, os quatro lhos se digladiassem pela divisão do bem. Sempre morou inquilinada.

Minhamãe tinha dois rostos e um pote quebrado onde escondia uma lha perfeita que não era eu. Versos da unicórnia preta. Tia Olma pensava assim, esses versos poderiam ser seus. Quando minhavó ajudava Ebema com algum dinheiro ou comida, a lha imperfeita cava com raiva, a nal de contas, Ebema é quem deveria ajudar a família, já que pôde fazer o que a ela, Olma, não fora permitido. Minhavó carregava essas duas mulheres sobre suas costas. Cada uma delas carregava consigo raiva própria.

É provável que o avômeu também achasse que sua lha Ebema fosse perfeita, até por saber que, de certa forma, não era sua, embora ela não quisesse que ele fosse seu. Naquele dia de inverno nas cadeiras de espera do hospital, perguntei à tia Olma que razão teria Ebema para se envergonhar da paternidade do tuba. A irmã se envergonhava da pretidão do pai, disse ela. Achei esquisita essa vergonha porque minhavó, inclusive, era bem mais escura que o avômeu e não havia me chegado notícia de que Ebema se envergonhasse dela, pelo menos não de forma pública.

Uma vergonha trocada, me disse ana.

A fome da família branca, isso também minhavó aplacava. Naquela época de vacas magras, quando morriam de fome, herculana encurralou num canto do pátio uma das cinco galinhas do vizinho que lindamente passeava no território das inimigas sem saber da panela que a esperava. Com pés de bronze e penas de ouro, não voava nem o mínimo para uma galinha. Xodó do vizinho, dormia na cama com ele. Shatta a perseguiu durante horas até suas penas douradas se acantonarem num bueiro na esquina da rua. Sem trégua, vovó lhe atirava baldes de água quente para de antemão amolecer as penas. Ferida, a galinha saiu do esconderijo diretamente para as mãos de minhavó, que a cozinhou com arroz e matou a fome da família rica.

isabel, a sinhá, não se separou do marido mascate como zera Henriqueta, a ex-escravizada que tinha de manter o nome limpo para trabalhar no comércio. Talvez isabel o amasse muito, mesmo na fome. Na verdade, a questão é esta: não passava fome, pois tinha minhavó e tia Olma para caçar e cozinhar galinhas para sua família nobre. Enquanto assim fosse, podia suportar o amor dos jogos de azar.

 

Já contei que Doca fora levada para a cidade de açúcar ainda criança, para servir a outro ramo da família cuña. Shatta permaneceu nos pagos, pagando o que não devia, assim como Henriqueta pagou o que exespososeu devia. Aos quinze anos minhavó teve anunciada sua primeira gravidez, conhecida.

Quando viu que a barriga crescia, o senhor marido da senhora jose na determinou a seus delegatários revirarem a cidade com nome de santa à procura do homem que lhe teria feito o “mal”. O acusado nem sabia do crime nem se estava escondendo. Foi procurado nos prados cassinos clubes. Tratava de um motorista que viera da cidade de açúcar para a cidade com nome de santa no intuito de ensinar o delegado a dirigir automóvel. Tranquilaço, passara uma tarde de domingo chuvoso na casa do contratante, apreciando churrasco de carne de ovelha, bom vinho italiano e livros limpos das estantes.

Encontrado do outro lado da linha que dividia um país do outro, com a boca mais interessada num pancho do que em promessas, o suposto malfeitor não aceitou a condenação que lhe impunha casar com minhavó embarazada. No dia posterior ao desaceito, apareceu bucho furado, corpo ncado nos espinhos de uma cerca de arame farpado, crivado de balas na cabeça, num campo onde ovelhas-ideal pastavam.

Depois da notícia fúnebre a todos lamentável, o senhor cuña enviou seus delegatários à porta do frigorí co roma com proposta de casamento e recompensa. O avômeu aceitou, sem o que perder. A promessa de dinheiro cou na promessa. Esclerosado, mas não tão velho, como disse tia Olma, no nal se sua vida o vovô trazia o assunto à tona para a galhofa de alguns de seus netos.

Se para mim o avômeu soava akhenaton, minhavó pouco ou nada tinha de nefertiti. Não me re ro à beleza da rainha de Kemet, mas do que se supõe ter sido a relação amorosa entre os faraós. Ambos atenderam às ordens das tradições de se unirem em matrimônio. Mais ou menos foi o caso de minhavó que atendeu à ordem do delegado da cidade com nome de santa. A diferença entre o casal da décima oitava dinastia e eles é que entre Shatta e tuba não houve casamento. Esse detalhe me fez supor a precariedade da tese de que o senhor cuña estivesse preocupado com a honra da Shatta. Talvez até se considerasse que mulheres negras nem tivessem honra, então, de fato, não haveria motivo para preocupação.

Acabo de ter uma visão. O delegado sentado na sua poltrona de couro na biblioteca, em casa, pernas cruzadas, lendo um livro de machado de assis, pés sobre o tapete de lã de ovelha. Cai sobre sua cabeça letrada uma folha de samambaia. jose na a retira delicadamente. Depois, como se tivesse tido uma ideia maravilhosa, ele se levanta da poltrona e chama minhavó. Entre as várias ordens domésticas que dele emanam, informa a ela ter encontrado um bom homem negro a quem deverá se ajuntar para seu próprio bem. A senhora do colar de pérolas olha para ambos e deixa cair no tapete de lã de ovelha a folha de samambaia. Minhavó a recolhe.

Ainda que houvesse motivo para preocupação com a honra da minhavó, nunca entendi suas precisas dimensões a ponto de o marido da senhora jose na mandar assassinar um homem branco e prometer recompensa em dinheiro a um homem negro. Se tratava de um espírito casamenteiro, com certeza.

Nunca se viu um ato de carinho entre o tuba e Shatta. A relação cou marcada por esses antecedentes de morte e promessa descumprida. Mas me equivoco totalmente quando falo em matrimônio. Minhavó apenas foi transladada da casa do senhor marido da senhora jose na, no centro da cidade, onde prestava serviços compulsórios, inclusive sexuais, para a casa do avômeu no rincão da carolina, onde seguiu prestando serviços compulsórios, inclusive sexuais.

Não sei se a relação da minhavó com o senhor branco foi consentida. Uma bela noite, porém, o senhor cuña, que era homem de sangue esperto e orçava então pelos seus trinta e cinco anos, sentiu-se em insuportável estado de lubricidade. Era tarde, mas havia, na casa-enorme, criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se da mulher, jose na, mas repeliu logo a ideia. Tal cena se repetiu como uma página de livro que se volta a ler da mesma forma.

Descon o que entre minhavó e o senhor cuña não houvesse “relação” no sentido comum da palavra. Havia ato unilateral, monocrático, que ela apenas suportava. Me custa pensar que ela o pudesse ter amado, ainda que de modo torto. Me custa pensar que ela, se não o amou, tenha gostado de transar com ele.

O senhor cuña não odiava sua boa esposa. A coitada era boa demais. Para não lhe estragar a bondade, preferia se servir da minhavó. Muito jovem, muito sozinha, com certeza sem amparo. Moralmente nada diminuía a vontade dele de invadir a pecinha das empregadas onde ela permaneceu criada. Não sei se onde há subordinação e sentimento de dever poderá haver consentimento.

Já que puxei do fundo da bolsa vazia o sentimento de dever, me lembro de ana ter comentado que a vergonha da tia menos preta relativamente ao avômeu, a vergonha trocada, era mais de se saber lha de pai branco que não a assumiu como herdeira de sua condição de gente, do que propriamente do tuba, ajuntado à minhavó quando Ebema ainda crescia no ventre. O tuba entra no jogo como aquele que a acolheu e contra o qual sua raiva pôde vir à tona porque, ainda que borracho e sem dinheiro, ele era a gura que ela tinha para chamar de pai.

Soube que vovó jamais falou do assunto em casa, soube que Ebema jamais teria questionado acerca de seu pai e das condições de seu nascimento. Tudo se concentrou na vergonha do tuba, vergonha de ser lha de um homem branco chefe da casa onde sua mãe foi criada vergonha de ser liada por um homem negro a quem não se dava nada, nem a possibilidade de conquistar uma mulher. Vergonha, quem sabe, de ter nascido de um estupro abafado pela morte e pela promessa de dinheiro nunca pago.

Não sei se havia alguma forma de amor entre mi nhavó e avômeu, pelo menos amor romântico. Talvez se tivessem um ao outro na conta de essa-gente-da-qual-se-pode-tão-somente-descon ar ou essa-gente-como-nós-a-quem-aprendemos-tão-somente-desprezar. Quem sabe, feito minhaprima Xuela, considerassem o amor desvantagem para si e vantagem para outrem.

Bebia muito muito o avômeu. Tinha grande amor pela cachaça. Quando tocava seu clarinete nos bailes bares clubes como integrante de conjunto musical com alguns dos seus tios postiços, o pagamento que recebia não era em dinheiro. Os artesãos construtores das pirâmides de Kemet recebiam seus pagamentos na forma de pão e cerveja. Fizeram até greves para que o faraó lhes pagasse o devido. Tal como eu o pensava faraó, o avômeu se pensava artesão. tuba soprava o clarinete a noite inteira e parte da madrugada em troca de cachaça. Os músicos brancos talvez recebessem dinheiro. tuba tocava porque amava o clarinete e porque foi ensinado amar a cachaça. Vovó não gostava das madrugadas líquidas.

Houve épocas em que ela o abandonou na casa no bairro da carolina. Bebia muito muito o avômeu. Tomava tanta cachaça que, por mais pacienciosa que fosse minhavó, não o aguentou. Havia um mundo na garrafa de caldo de cana fermentado, melhor, havia um submundo povoado pelas palavras afogadas que ele não disse ela não disse ninguém disse. Tal pacto se dava especialmente em torno do nascimento de minhatia Ebema. Uma palavra qualquer que fosse dita, se romperia a família tal qual concebida, tanto a negra como a branca. Ebema é a estranha familiar em qualquer uma delas. Quem sabe por isso nunca quis casa sua, quem sabe tinha medo de perder essa condição.

Numa de suas separações, vovó preferiu morar com os quatro lhos e lhas na casa destinada à zeladoria num colégio no centro da cidade onde o senhor cuña marido da senhora jose na lhe conseguiu vaga. Foi responsabilizada pela limpeza de toda a escola secretaria biblioteca banheiros sala dos professores pátio. O pó do giz formava cerros debaixo do quadro verde de cada sala de aula. O prédio não era bem limpo fazia uns trinta anos. Herculana avançou contra ele com baldes de água panos vassouras nunca su cientes para a remoção da sujeira encrustada nas coisas.

Na época das eleições, não lembro para que cargos públicos, vovó fazia os melhores pastéis da cidade com nome de santa para vender a mesários e eleitores cujas sessões se localizassem na escola. O trabalho começava dias antes com a compra de farinha fermento passas de uva ovos óleo sal carne moída cheiro-verde cebola alho tomate panelas frigideiras.

No dia do pleito, ela vendia tanto que não sobrava um pastel para contar a história. O fato lhe possibilitava juntar um bom dinheiro que geralmente usava para quitar as dívidas feitas com a compra dos ingredientes, as contas atrasadas luzágua, inclusive dos lhos. O “lucro” ela dividia com Alesọ, que a ajudava na feitura dos comes e do café.

Quando da época das eleições, sinto o cheiro da uva-passa que elas misturavam com guisado para recheio da massa do pastel. Dizem que o olfato é um dos sentidos mais primevos. Eu cava no entorno do fogão vendo as duas trabalharem na fritura, de vez em quando recebendo um pouco do recheio em minha boca com a colherinha que vovó depois lavava bem, para tirar o babujo. Fui sentindo aí o cheiro do trabalho o cheiro das dívidas impagas o cheiro do feito para os outros sem a justa paga. O dinheiro da vovó durava até o dia seguinte, o cheiro dos pastéis dura em mim até hoje.

Eu novamente cometi um equívoco, pois antes de ser transladada para a casa do avômeu, Shatta foi passar uma temporada na casa do novo casal cuña, isabel e vitinho, não como hóspede, obviamente, mas como criada, a m de ensinar à recém-casada os segredos das lides domésticas.

 

Tia Olma queria a abolição do serviço doméstico. Fora concebida, se criou e vivia sob a égide de panelas frigideiras panos de chão cuidados e mais cuidados, afora consigo mesma. Acompanhara Shatta, a quem chamava Shatta, nos serviços na casa dos cuña. Depois foi criada da lha dos cuña, isabel, depois de seu próprio marido e lho b, de quem, parece, se libertou faz pouco.

Isso tia Olma não queria para si. Havia uma freira da congregação das irmãs teresianas, trineta do general david canabarro, o mesmo da traição de Porongos, que lhe dava alguma atenção aos domingos quando morava junto ao tuba e à Shatta. Em troca, a freira pedia ouvido à palavra de deus. Se é que se pode negociar com a palavra de deus, a troca durou alguns anos até que minhatia resolveu ser também freira, trocando um senhor por outro. Com as poucas economias que fez, pegou um bonde para a capital sem o consentimento de Shatta já que tuba tinha apenas boca para cigarro e cachaça.

Na infância de tia Olma, tuba plantava. Ela o ajudava. O pai abria uma la de ventres na terra com a pá ou as mãos; a lha ia atrás, engravidando-os com sementes de tomate melancia maçãs cenoura, coisas que Henriqueta venderia. Depois, o tuba vinha na direção inversa, fechando com terra os buracos semeados. Minhatia o seguia, apertando o hálux do pé direito no ventre que seu pai fechara. Esse ritual o ciado por pai e lha tinha por ebó os vegetais à terra. A terra minhancestra Henriqueta.

Foi-se o tempo de semear. Não veio o de colher. O tuba não mais plantava. Recebia seu salário do frigorí co, comprava um fardo de arroz e outro de alguma coisa que não me lembro agora. Fosse feijão seria ótimo, mas não era, e bastava. Comprava apenas isso, como se outros ingredientes para a cozinha brotassem da terra não mais semeada, inclusive sal farinha açúcar maizena.

Fica implícito que tuba deveria sustentar a casa ou explícito que, por não falar, até o que poderia adquirir com seu dinheiro de nal de mês, sua comida, estava se tornando um fardo. Não tinha mais palavras além do fardo de arroz branco. O expaimeu morava com minhamãe na casa do vovô nessa época do não semear nem colher. Porém, nem arroz branco ele comprava com seu dinheiro de nal de mês. Recebia e ia diretamente para os bailes, deixando Alesọ com os lhos pequenos sem ter o que comer por mais de mês. Shatta mãe do expaimeu chegou a perguntar a Alesọ como ela conseguia suportá-lo.

O expaimeu gostava de abrir bem a boca para reclamar que Anagilda e boaventura, mãe e pai de Alesọ, não quiseram o casamento deles. Acho que minhavó e avômeu tinham razão, mas não sei o que Alesọ achava, se estava com esse homem porque o amava por costume por não ter opção ou porque tinha

lhos e não queria que crescessem sem pai. Casou grávida do irmãomeu. Bom

que já tinha mais de trinta anos, não passou a juventude acorrentada ao expaimeu, pôde dançar namorar se divertir, teve até outro noivo antes de ingressar e quase não mais sair da fortaleza.

Quem foi à casa no bairro da carolina falar com tuba e Shatta sobre a gravidez de minhamãe foi tia Eluma, de quem o expaimeu tinha verdadeiro pavor. Ele chorou muito quando, nesse dia, foi decidido que se casariam.

Certa vez, eu ainda não nascida, o expaimeu voltou de mala e cuia para a casa na carolina. Disse à vovó que abandonara Alesọ. Fincando pé, vovó retrucou que aí caria apenas com a esposa e o lho. O expaimeu não fez causo, deu as costas à minhavó dirigindo-se à área mais interna da casa. Quando retornou, vovó lhe sampou um tapa bem dado na cara. Depois disso, ele sumiu da cidade com nome de santa, mas não para sempre. Não sei se vovó fez bem ou mal. Não sei o que minhamãe sentia. Quando criança, eu queria que fossem separados. Ele viveria em outra casa, e nós, certamente caríamos com Alesọ, de modo que a vida pareceria menos infeliz.

Tia Olma não ncou pé. Os cuña arrumaram para ela um serviço no lanifício na cidade com nome de ana. Ela deveria limpar as salas escritórios servir cafezinho para os donos e administradores da empresa. Vovó se tocou de bonde para o convento na capital e trouxe minhatia com tal promessa de trabalho.

Tia Olma não ncou pé. Os cuña arrumaram para ela um marido que também trabalhava no lanifício na cidade com nome de ana. Ela deveria limpar a casa dele lavar as roupas dele fazer a comida dele transar com ele cuidar dos lhos que ele já tinha de outro casamento servir cafezinho para ele. Vovó se tocou de bonde para o convento na capital e trouxe minhatia com tal promessa de casamento.

Tia Olma deveria ter montado num porco, mas não montou. Fez isso uma única vez quando criança. Havia um porco bem gordão e bem deitado no pátio da casa na carolina. O expaimeu e tiomeu antom cavam passando, de longe, um galho de amoreira nas fuças do bicho, não sei se algo que o tonteava. Quando viram que ele estava mais para lá do que para cá, ajudaram tia Olma a montá-lo como se cavalo fosse. Assim que ela subiu no lombo do bicho, ele levantou as quatro patas de uma só vez e saiu corcoveando pátio afora, rua afora com tia Olma em sua garupa. Seus irmãos de nhavam de rir.

Ela também não montou num porco quando o então seu marido, por compaixão, teve um caso com minhatia Ebema logo em seguida à morte do conde. Tia Olma sabia, mas se mantinha calada. Talvez também tivesse compaixão por sua irmã e pelo extiomeu. Até as camisas dele para o encontro amoroso ela passava.

Tia Olma fora bonita. Alta como tuba, ossuda como Redugéria, pele escura como de sua mãe.

Ele também era alto cabelo preto muito preto liso pele não muito escura. Músico como o avômeu. Tocava saxofone. Seguia-a pelas ruas do centro da cidade com nome de ana até que ela chegasse ao lanifício onde trabalhava. Seguia-a não apenas com as péspernas, mas com a música soprada de seu instrumento de viento. Durou um ano o cortejo diário até ele pedir para fotografá-la. Ela, por sua vez, pediu autorização a jose na não apenas para ser fotografada, como ser fotografada por ele e no jardim da casa dessa senhora a quem também servia. Vó jose na, que não é minhabisa nem avó dela, permitiu. Estou com uma fotogra a dessa fotogra a no meu celular. Não sei se a palavra belíssima alcança minhatia. Está sentada sobre o chão cimentado do jardim entre folhas tombadas das árvores. Vestido azul de corte seco reto até a altura dos joelhos dividido verticalmente por botões redondos de um azul mais escuro que o do tecido e algo como um lenço branco cobrindo sua cabeça perfeita. Não consigo saber se seu cabelo fora alisado. Ela não olha para a câmera. Ela não olha para o fotógrafo-músico. As bochechas de seu rosto recusam a câmera e encontram uma criança. Ela abraça a criança. Um menino branco vestido de branco. Com botinhas pretas.

Me pergunto por que tia Olma teve que buscar o menino de botinhas pretas para dividir com ela o centro da cena, como se não pudesse ser agrada livre do serviço do cuidado de algum branco, como se apenas isso conferisse a ela um sentido de existência ou mesmo de beleza.

Na única fotogra a que tenho de minhavó Shatta a cena se repete. Shatta, até mais jovem que sua lha Olma, usa vestido azul de corte seco reto até a altura dos joelhos dividido verticalmente por botões redondos de um azul mais escuro que o do tecido e algo como um lenço branco cobrindo sua cabeça pequena. Ela divide a cena com uma criança branca, obviamente alguém a seus cuidados de menina negra. Contudo, na condição de herculana, minhavó entrega o rosto para a câmera.

A criança branca com quem Olma divide a cena é lha da então criança branca com quem minhavó divide a cena.

Tia Olma estava gostando do músico-fotógrafo. Ele a convidou para juntos se irem da cidade com nome de ana. Ela teve medo do que não conhecia. Ele se foi

oreando o saxofone. Ela casou com o extiomeu, embora preferisse o convento

ao casamento. Era um lugar muito bom o convento, ela me disse. Se servia a deus, não aos homens. Se trabalhava por fé, não servidão. O extiomeu já tinha quatro lhos quando se casou com minhatia. Sua então esposa falecera. E por que a senhora casou com ele, tia? Compaixão.

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