Louças de família
Capítulo IX
desde Dezembro quando ela caiu doente, tivemos auxiliando ela com tempo com cuidado e com valores, tive ajuda da patroa dela e do esposo, pois foram muitos exames como tomografia que foram duas exames de sangue, eletrocardiograma, remédio, após a intervenção cirúrgica em Santa Marta que o valor foi 8.450,00 às ex patroa dela ajudaram com 5.250,00, tu com 1,000,00 a Meine com 500,00, Lucio com 50,00, Maria Antônia com 50,00, Tânia com 50,00 os irmãos da igreja ajudaram com 900,00, o pai e a mãe com 100,00, eu com 550,00. Mas após a ida até Santa Marta ela andou bem fevereiro tive um gasto com o suprimento alimentar de 250,00 no cartão, é os remédio que davam entorno de 240,00, 250,00 o pablo ajudava na alimentação pois ela tinha que comer comida mais leve, o que ela ganhava era 750,00 pois tinha dois empréstimos um ia até 2022 e o outro 2021, te pedi ajuda para ti e para Meine, pois não tinha condições de assumir sozinho, tive minhas despesa de cartão refinanciar no Verde car e no master, pois o que precisava gasolina para ir para Santa Marta e passarina cartão, remédio cartão o covid-19 ajudou porque me deram a oportunidade de parcelar. E mais ontem apenas a igreja abrir para culto presencial com o número de 46 pessoas. Realmente toda ajuda foi necessária é necessária. DEUS ABENÇOE.
Deus abençoe a quem?
Parece que toda a ajuda entre aspas que tia Eluma recebeu foi contada a migalhas por alguém sentado num banco de praça, esse mesmo alguém que, sentado, conta os pedaços mínimos de pão recolhidos pelo bico que alonga o pescoço das pombas. O tempo o cuidado a comida o dinheiro os remédios tudo contabilizado numa máquina de contar, numa máquina de fazer dívidas, até mesmo o tal deus foi aí contabilizado. Mesmo assim tudo foi em vão. Sua vida de tia Eluma sua vida de Ioiô sua vida de Didum sua vida de Mãe Eluma. Todas se foram. Em vão. Ficou apenas a impressão tipográ ca dos números do que foi impostura para esticar uma vida já tão esticada pelas dívidas.
Houve época em que foram quilométricas e quiméricas as contas de água da casa da minhavó. Nem mesmo o herói belerofonte montado no cavalo alado pégaso conseguiu matá-la ou, ao menos, enfraquecer seu bafo queimante. Certa feita, tia Eluma decidiu ir ao departamento de água e esgoto da cidade com nome de ana pedir parcelamento. O funcionário comentou com o colega de bancada que as negras gastavam muita água com seus lavados, que, quando todo mundo tivesse máquinas de lavar, o problema se terminaria.
Tia Eluma estava acompanhada da sobrinha Carmenza, bem mais velha que eu. Carmenza cuspiu na cara do funcionário falador a m de que ele sentisse o gosto da água gasta pelas mulheres negras. Tia Eluma viu e não disse nada, apenas pensou que ela, sua mãe, bisa, irmã, sobrinhas já eram máquinas de lavar que nem precisavam de energia elétrica para seus motores funcionarem.
Nas grandes festas da mid-century, Carmenza ajudava minhatia Eluma na feitura da comida e na limpeza dos pratos. Ao contrário da tia, que levava a sério demais a nesse metida a besta da patroa e do patrão, Carmenza morria de rir quando eles, com a ponta dos dedos indicador e polegar, descascavam banana nanica da cidade com nome de general, dali do lado da cidade com nome de ana, dizendo que importavam das terras de marie degringolada.
Lembro de Carmenza alta magra cabelo bleque quase vermelho macacão de um azul-escuro parada na encruzilhada no nal do corredor que dividia em quatro a casa da nossavó e desembocava na entrada da cozinha. Ela está de costas. Furiosa comigo. Por isso não descreverei seu rosto.
Carmenza foi desabençoada pelo deus do nal da vida de tia Eluma e do primomeu portador da má notícia. Em determinado momento da juventude, ela parou de rir da ridicularidade dos brancos e começou a sentir dores na cabeça. Parecia que o contador das migalhas recolhidas pelas pombas se alojara aí dentro, sentara-se num banquinho feito pelo clê e, com martelinho de quebrar pedras, fazia de conta que punha em ruínas cada parte de seu crânio.
Com quinze ou dezesseis anos ela deu à luz uma menina, mas tia Malvina registrou a rebenta em seu nome e no do marido (barnabé), pois não cava bem
lha solteira ter lhos e ainda registrá-los. Não se permitiu a maternidade da
Nina à Carmenza. Pode ser até que ela não quisesse, porém não teve oportunidade de decidir. Não se soube ao certo. Com Carmen, sua irmã, foi semelhante. Teve dois lhos com um homem que tia Malvina desaprovava. Assim, não pôde se casar com ele nem com nenhum outro, pois minhatia não aprovava nenhum. Todos eram negros vagabundos ou brancos exploradores. Tia Malvina até tentou registrar as crianças da Carmen em seu nome e no do marido. Contudo, numa rara oposição ao poder de ajé da mãe, Carmen, ajudada por tia Eluma, registrou os lhos como seus lhos, omitindo nome de pai desconhecido.
Tia Malvina vivia às turras com o expaimeu. Ela era essa gente para ele e ele era essa gente para ela, talvez porque um fosse a imagem do outro no re exo da faca bem-a ada. Ambos governados pelos brancos ricos a quem serviam, para quem ambos eram essa gente. Dentro de suas casas, para fantasiarem a saída do lugar de passividade diária, pretendiam governar, sob regime de tirania, as mulheres negras que a ela e a ele se submetiam, como se a opressão fosse ciranda de roda na boca de todos. Ciranda cirandinha vamos todos cirandar.
Essa gente apontava suspeita permanente contra nossas aparentadas mais por epiderme do que dna ou a nidade, que repartiam na mesa rala história mais ou menos comum. Destas o expaimeu e minhatia Malvina descon avam, desde cedo ensinados a suspeitar de nós, de si mesmos, da gente empretecida no seu entorno, moradoras de suas casas, mas não dos suspeitos donos das charqueadas lanifícios, das casas de família. Dessa gente fora do alcance dos seus dos nossos golpes não foram não fomos ensinadas a suspeitar.
O expaimeu vivia a nos advertir de que, se engravidássemos, nos poria para fora de casa a chute bem dado na bunda. Vivia a nos advertir de que não nos juntássemos a vagabundos. Não queria essa gente dentro da sua casa. O expaimeu teve sorte; não engravidei e, agora, se eu quisesse, nem mais poderia. Novamente z cumprir a profecia dele.
Carmenza saíra da casa da mãe para habitar com um homem branco. Diziam seu amante; hoje, talvez, dissessem companheiro. Além de brancura, portava título de separado da esposa, uma tal mina. Um dia Carmenza estava sentada na sala de sua nova casa do homem branco e de súbito viu a sombra de um inseto enorme atravessar o jardinzinho de margaridas que dava contra o muro. Não sabia nominá-lo nem descrevê-lo. Desde então caiu doente. Seu corpo exigia pronúncia do bicho que ela não sabia.
Tia Malvina e Carmen percorreram toda a província de san pedro em busca de médicos que aplacassem as dores de cabeça da enferma, mas nada havia. O bicho não dito borbulhava na cabeça de Carmenza e fazia sulcos para sair. Sulcos que se transformavam em feridas. Sua cabeça era a de uma leoa atingida por
echas numa caçada de lme de sessão da tarde. Mesmo contra sua vontade,
minhatia recorreu a uma ialorixá que recomendou a iniciação de Carmenza ao culto de Opanijé, rei dono da terra. Apenas isso poderia salvá-la. Contudo, se apresentava um problema. A iniciação teria de ser feita por tia Firmina, cujo terreiro cava na cidade do chapéu.
Ninguém me ensinou, foi deus que me ensinou, a minha mãe era lavadeira. Ela cozinhava, mas eram aquelas comidas grosseiras. Eu aprendi assim, olhando os outros fazerem, outras vezes olhando uma receita, assim fui aprendendo e aprendi sozinha, não, não... A mamãe era lavadeira. Mas bá, engomava que era uma barbaridade, lavava e engomava, tinha muita, às vezes ela tinha vinte lavadas, é... Ainda no tempo que a gente carregava roupa na cabeça, tinha que lavar e depois levar quando tava (?) a gente ia entregar. E assim eu fui criada, trabalhando, por isso que eu não conheci a preguiça, porque toda a vida eu trabalhei, desde criança, né, desde criança eu sempre trabalhei.
Essas são palavras da tia Malvina, cozinheira e outras subordinações numa casa de brancos. Numa não, em várias. Carmen também foi cozinheira e outras subalternices nas mesmas casas em que tia Malvina cozinhou. Aprendeu a cozinhar para eles antes de aprender a andar para si mesma. Aprendeu a cozinhar para eles antes de aprender a palavra comida ou a palavra mãe. Ela era a menina que preparava a sua comida e a dos outros.
Desde mocinha, quase criança, até antes de se matrimoniar, minhatia vivia num quartinho sem janelas na casa de uma senhora cuja mãe entregava as roupas sujas para minhavó lavar. Nenhuma or verdadeira resistia no quartinho. Inverno verão outono inverno. Não importava. Pouca luz era própria para ores de artifício. Quando foi transladada para a casa da senhora- lha, minhatia se sentiu a trouxa de roupa suja que, num movimento contrário, sua mãe agora entregava aos brancos.
O trabalho iniciava antes do canto do galo e não tinha horário de término. Malvina a patroa quer um chajá Malvina a patroa quer um copo de água Malvina a patroa quer um chá Malvina termina de passar os lençóis que a louça está esperando olha os lençóis devem estar bem lisos Malvina o patrão chegou e quer os chinelos Malvina serve o jantar. Essa voz que repete Malvina é a voz da governanta governando minhatia.
O que está fazendo aí Malvina o livro ainda nem foi retirado. A dona melinha me deu 1kg de batatas para descascar para a salada russa. Mas não é suficiente somos nove pessoas, disse a governanta. De longe a dona melinha retrucou que não não somos nove pois as crianças não contam e nem a outra. A outra era minhatia.
barnabé seu marido foi soldado aposentado da brigada militar vivia borracho com o corpo pele osso atirado à beira das calçadas nas esquinas buscando briga com todos e qualquer um quando não estava em casa maltratando a mulher maltratando os lhos maltratando as lhas.
Nunca o chamei de tio. Ele jogava desde frigideiras com óleo quente recém-tiradas da boca do fogão a penicos de merda na mulher e nas lhas. Foi num desses episódios que Carmenza decidiu trocar a casa do homem que se queria branco pela casa do homem que era branco mesmo sem querer.
Na cidade em que fora criança e jovem, o barnabé vivia numa casa pequena com a mãe e as irmãs. Estava acostumado a maltratá-las. Elas não podiam sair de casa. Elas levavam surras de relho por qualquer motivo ou mesmo sem motivo algum. A nal, que motivo poderá ter alguém para surrar outra pessoa? Antes de ser policial militar o barnabé já usava farda de carcereiro. Talvez nunca tenha usado roupas de lho ou irmão. Essa roupa o ciosa, ainda que não vista a olho nu, o delineava para si e para os outros. Talvez nem fosse roupa, mas sua própria pele.
Contam que, certo dia, uma de suas prisioneiras conseguiu fugar. Avisou a polícia do que ocorria e retornou para casa sem que o capitão do mato se apercebesse de sua falta. A polícia bateu na casa. Ele abriu porque nenhuma das mulheres poderia chegar perto da porta. A polícia perguntou se ali morava algum barnabé ao que ele respondeu que barnabé era ele, o dono da casa. Foi levado preso. Apareceu anos mais tarde na cidade com nome de santa vestido com peles de ovelha-ideal para infernizar a vida de outras.
Faltava o dinheiro para a viagem à cidade do chapéu, mas elas não poderiam contar com barnabé; quem sabe nem soubesse da doença de uma das lhas. Tia Malvina teve de conseguir dinheiro emprestado com uma de suas patroas.
Assim alugou uma condução, pagou um bom dinheiro ao condutor, e ele conduziu as três mulheres à cidade do chapéu. Carmenza viajava clandestina, pois as autoridades de saúde não permitiram seu deslocamento para fora do país das maravilhas. barnabé cou na cidade com nome de liberdade enchendo a cara de cachaça e batendo nos lhos com qualquer objeto que estivesse a seu alcance, vaso vassoura panela com comida cadeira pá enxada penico cheio da própria merda.
As viajantes já conheciam a cidade do chapéu. Haviam morado lá durante uns meses, quando tia Malvina, não suportando os maus-tratos do marido, arrebanhou as crianças e fugou para onde se exilara tia Firmina sua irmã. Não conseguia simplesmente dar as costas ao carcereiro, dizer adeus, logo teve que fugar. Fuga meio malograda. O único lho que permaneceu na cidade com nome de ana, o menor, foi entregue por Malvina aos cuidados de Eluma.
Enquanto ela trabalhava na casa de algum outro branco no país do rio dos pássaros pintados, as crianças cavam com tia Firmina. O alimento que recebiam, além de racionado, era horrível, deo mergulhado na água jogado a cucharadas em suas bocas por essa tia que comigo era tão carinhosa.
No tempo que tia Firmina lhes permitia tocar os pés na rua, as crianças se divertiam cantando sambas numa praça perto da casa. Recebiam dinheiro. Carmen cantava bem, e seus irmãos não cavam atrás. Lata d’água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Mariiia. Com esse dinheiro tia Malvina comprou as passagens de retorno do país do rio dos pássaros pintados para a cidade com nome de santa. Outra pisada nas fezes do camaleão.
No entanto, os irmãos quase caram para trás. Depois de retornarem da cidade do chapéu, foram internos de uma dessas instituições totais para meninos negros considerados delinquentes ou quase, algo anterior à febem. Tia Malvina tinha medo de que se tornassem marginais e os internou como medida preventiva. Isso é engraçado, pois eram lhos de um pai brigadiano. Mais uma pisada nas fezes do camaleão.
O lho de nome também barnabé, adulto, vivia em outro município do interior do estado. Jovem, trocara a cidade com nome de ana por outra. Minhatia não sabia do que ele sobrevivia e se ainda vivia. Um dia ele reapareceu na cidade com nome de liberdade acompanhado de três amigos. Duas semanas depois, um deles, branco e magro, ameaçou minhatia lhe encostando o o de uma faca de cozinha no pescoço. Ela não deveria dizer nada sobre sua chegada ou que o conhecia ou que o tinha visto ou que tinha se hospedado naquela casa. Depois, bandeou-se para o país do rio dos pássaros pintados. No mesmo dia, a polícia bateu na casa e barnabé lho foi detido e condenado à prisão por roubo.
Cheguei a visitar o primo que leva o nome do pai brigadiano na penitenciária. Minhamãe Alesọ foi sua madrinha. Um domingo sim outro não ela o visitava, comigo como sua acompanhante. Levava roupas limpas, comida de domingo e alguma palavra de conforto. Ele se mostrava calmo e compassivo.
Quando terminou de cumprir sua pena-penitenciária, seguiu apenando minhatia Malvina e as outras mulheres da casa. Parece que todas eram culpadas por sua internação, sem crime e sem julgamento, na instituição em que minhatia depositava as esperanças de que os lhos se salvariam de serem como o pai ou, ao menos, de serem totalmente como o pai.
Minhavó, que me tratava tão bem, não fora menos violenta com tia Malvina. Criança, ela jogara no bicho com o dinheiro do lavado pago por algum dos brancos da vovó. Apostara no elefante. Tia Malvina fazia o trabalho de entregar a roupa limpa e recolher a roupa suja, junto com o pagamento.
Quando deu falta do dinheiro do lavado, Anagilda surrou tia Malvina com vara de marmelo nas pernas na bunda nos braços na cabeça e, para nalizar com chave de ouro, a esganou com o pé direito alisado nas pedras do arroio. Um vizinho que espiava da janela gritou que chamaria a polícia quando viu o pé preto de minhavó na garganta da minhatia. Alguns dias depois, tia Malvina chegou com a trouxa de roupa suja que buscara nos brancos da minhavó e mais o dinheiro do prêmio do jogo do bicho. Deu elefante na cabeça. Entregou tudo à sua mamãe. Ela que lavasse a sujeira das roupas e do dinheiro.
Desde então tia Malvina criou uma con ança insuperável na palavra polícia. Por isso escolhia o lugar da polícia nas brincadeiras de polícia-ladrão. Por isso se matrimoniara com um brigadiano. Por isso entregara os lhos a uma espécie de presídio para jovens e crianças onde algum carcereiro os desensinaria o que o pai ensinara. Tia Malvina não sabia ou não queria saber que polícia ou ladrão arroz tudo do saco que ela mesma comprava e cozia.
Não houve sorte vizinho ladrão ou polícia que acudisse Carmenza. Chegadas ao terreiro da tia Firmina na cidade do chapéu, foram informadas por uma cambona de que a sacerdotisa viajara às pressas para o país das maravilhas.
A morte chegou brusca, de capa e espartilho vermelhos, olhando minhaprima pelo espelho e metendo-lhe a língua cor de melancia.
Tendo viajado clandestina, Carmenza não tinha documentos dinheiro ou cor para enterro no cementerio dos mortos na batalha do rio da prata. Foi enterrada na parte mais pobre do cementerio do escafandro com nome e documentos da Carmen. A irmã morta foi sepultada com a identidade da irmã viva. Carmen acha que, por isso, passou a viver como se estivesse num buraco. Quanto mais tirava a terra de cima de si, mais a terra a cobria.
Para pagar o empréstimo tomado da patroa, tia Malvina se empregou no frigorí co roma, que tinha várias instalações divididas por função: graxaria, cozimento do sangue, salgadura dos couros, conservas, moedura dos ossos, câmaras frigorí cas, rotulagem, matança, picada, tanque para cozer ossos, salmoura e resfriador. Na parte de fora do complexo, cavam a carpintaria, o armazém, a balança para vagões e gado e a o cina mecânica. Tia Malvina trabalhava no setor que mais lhe parecia certas polícias, a picada, onde os animais eram esquartejados.
A morte de Carmenza ajudou minhatia a dar as costas às patroas. Nos nais de semana, contudo, ela ainda fazia jantares ou bolos para os altos funcionários do frigorí co. Foi assim que conseguiu pagar a bondade-empréstimo da outra.
E deus abençoe a quem mesmo?
Mina tinha dos parentes ingleses os olhos azuis da falsidade. O azul é uma cor inventada. Inexiste na natureza. Surgiu do trabalho de algum braço escurecido sobre a pedra lápis-lazúli à beira do rio Nilo no Egito. E seus olhos, olhos de Mina, não deixavam tombar sob o esquecimento esse fato, de que o azul nascera de uma invenção, de que aqueles olhos de pedra nasciam de um invento, como o chá inglês uma invencionice, como a louça inglesa uma invencionice, como a monarquia inglesa uma invencionice.
Se os olhos de Mina consistiam num invento, seu nariz, por outro lado, correspondia a uma verdade. Longo e batatudo, não como o das bruxas dos
lmes, mas como um nariz que chega na frente do resto do corpo a qualquer
mundo a qualquer povo; um nariz que se sobrepõe aos outros órgãos porque é um nariz que vê, ouve, saboreia o gosto dos ossos colados à carne, um nariz que sente o cheiro de tudo. Um nariz como o dos comedores de batata. Mina mesma cheirava a iodo violeta de genciana e ácido carbólico. Minhaprima Xuela associaria esse cheiro a uma salinha onde descansavam prateleiras com pequenos frascos marrons, bandagens e utensílios de esmalte branco em suas superfícies higienizadas. Mas não se engane, leitora, Mina não era médica nem enfermeira.
Também eram verdadeiros seus lábios a ados frios nos cortantes como as facas mais a adas de cortar recém-usadas no açougue onde minhatia Eluma comprava carne. Mas ainda mais verdadeiros eram os dentes superiores de Mina. Entre os dianteiros, uma fenda por onde corria o bafo quimérico que a mantinha viva.
No dia em que Carmenza viu o bicho que a calou para sempre, Mina pouco antes havia estado na sala da casa da ex-rival, com um vestido azul de linho. Assim vestida, não deu um tapa na cara de Carmenza com sua delicada mão inglesa, não xingou Carmenza com sua boca de batom de marie degringolada, não chamou Carmenza de puta piranha porca parasita, não rasgou o macacão azul-escuro de Carmenza nem puxou seu cabelo bleque. Sentando-se comodamente no sofá com as pernas cruzadas, Mina ofereceu a Carmenza chá de murta, que trouxera de sua casa. Depois, no ritmo lento e quente da bebida, disse que não valia a pena brigar com outra mulher por causa de um homem quando existiam tantos melhores.
O cômodo estava repleto de espadas do que não raspa o estrume dos pés nem tira o ranho do nariz. Estava repleto de espadas da que agulha a morte, sem falar de comigo-ninguém-pode e costelas-de-adão. Quando o nariz de Mina ingressou na sala, chá e pedra dos olhos a reboque, as folhagens murcharam e, semanas depois, morreram. Suas raízes não puderam ser replantadas. Quem declarou a morte das plantas foi tia Eluma, chamada a socorrer Carmenza logo do início das dores de cabeça. Nessa época, ainda estava na cambonagem.
Mina não sentia mais nada por seu ex-marido, nem amor nem ódio e muito menos indiferença. O chá que serviu a Carmenza teve o objetivo de selar a amizade entre elas; uma baba nojenta escorria de sua boca inglesa enquanto Carmenza o sorvia. Para Mina, Carmenza poderia até car com a xícara bordada de pavões imperiais.
Carmenza acreditou na amizade de Mina, apesar de sentir que algo a ameaçava, que algo a punha em perigo, que alguém a queria morta. Mas a sensação do corpo em abismo a acompanhara desde o início de sua vida, por isso a ignorou como de hábito.
Mas era verdade que Mina queria a morte de Carmenza. Como seu querer não se realizava apenas pela força do desejo, adotou providências líquidas. Minhatia Firmina nem teve tempo de fazer voltar ao interior de sua fonte o que escorria e escorria.
Sei como é. Eu mesma adotei minhas providências líquidas para fazer de conta que a morte dele havia sido acidente ou decreto de deus. O problema foi apenas que não consegui fazer uma grande demonstração de tristeza no funeral nem rezar por sua alma. Eu queria minha morte ou morte dele. No meu desejo, não havia ordem ou preferência quanto a uma ou outra.
No entanto, fosse minha a morte, sobrariam as contas impagas luzágua blusas calçassaias camisetas compradas a prazo as prestações da casa própria. Coisas pequenas tão enormes para mim que as suportava.
Chovia muito. Olhei para a or das onze horas. Estava aberta. As nuvens tinham a cor do nescau com leite que minhavó tomava. Não havia vento nem presságios. Todos eram indiferentes a essa morte. Menos eu, que não sabia que a morte de alguém não nos libertava do seu fantasma.
O legado da morte dele me dói feito um sapato apertado de salto. Dele não posso abrir mão como não posso renunciar ao medo de um nal supostamente pequeno supostamente mesquinho num hospital onde tudo falta numa cidadezinha do interior que não se decide entre o nome de santa o nome de ana ou de liberdade. Temo que a vida também me seja assim cortada, que a morte, de capa espartilho vermelhos, olhe para mim pelo espelho e me meta a língua cor de melancia. Um m pequeno de uma vida que pereceu pequena. Tudo isso eu temo.
Eu estive no último segundo do seu último dia. Eu fui esse último segundo. Depois de feitas as contas, mandei um aviso aos parenteseus é com tristeza que comunico que ele faleceu agora às onze. O pensamento de que me foi sofrimento funciona no modelo de uma máquina de cortar ossos que acouta lenta e simetricamente meu sentido de culpa. Sei disso, e é bom. Nenhuma autoridade jurídica ou eclesiástica disse que eu deveria ter sido esse seu último segundo ou que eu deveria ter me sentado à cabeceira de sua cama de cadáver de pernas cruzadas, com meus sapatos de salto quebrado no ato do corte de isso tudo que foi tanta mesquinharia.
Confessar os próprios crimes não é se perdoar por eles; confessar os próprios crimes é apenas cortar com uma faquinha de serra, como se corta um tomate vermelho, o silêncio que aprisiona o sofrimento. Sofrimento não pela morte dele, mas por minha vida à dele aprisionada. Eu vivi labirintada à vida dele, agora vivo labirintada à sua morte.
Que deus nos abençoe.
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