Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Uma leitura do Górgias de Platão

Introdução

 

MAS, AFINAL, PARA QUÊ, ENTÃO, FILOSOFIA?

 

“Filosofia é aquele modo de pensar, com o qual, essencialmente, nada se pode começar e acerca do qual as criadas necessariamente se riem.”

Heidegger 1

 

Ao que tudo indica, quando do seu surgimento, em seu princípio,

a filosofia era algo bem diferente daquilo que hoje ela parece ser. Mas não poderia ser de outro modo! Alguém rapidamente vai nos lembrar. Afinal de contas, quanta coisa mudou, desde que Tales de Mileto, aquele que é considerado o primeiro filósofo, andava por aí a

medir pirâmides “e a predizer eclipses do Sol e os solstícios” 2. Ainda que, desde lá, assim como o próprio Tales, filósofos continuem a cair em buracos e, com isso, possam continuar risíveis.

Como sabemos, foi Platão quem nos legou a piada sobre Tales no

Teeteto. Talvez, não apenas no intuito de ridicularizar o filósofo pré-

socrático, como alguém poderia pensar apressadamente 3. Mas, antes, para falar de algo que necessariamente advém com um determinado modo de ir levando a vida: o filosófico. Afinal, é Platão mesmo quem diz, logo na sequência, que a dita anedota pode ser

aplicada a todos os que resolvem levar a vida assim, filosofando4. Mesmo porque, talvez, olhando para cima, a proximidade com o buraco seja uma das possibilidades mais próprias do filosofar. E o riso dos servos também.

Quem cai no buraco é arrancado da superfície, direcionado,

então, para a profundidade que o sustém. Como na arquitetura, é a partir do profundo que se lançam os fundamentos. Mas fundamento só faz sentido a partir daquilo mesmo que funda. Assim é que aprendemos: os primeiros filósofos buscavam compreender, de uma maneira outra até então, a pertinência daquilo que se funda (physis) a partir do fundamento (arkhé). Mas o que é que buscam os filósofos de hoje? Aliás, como outrora, será que ainda os há hoje em dia? Ora, se é verdade que, desde os gregos até aqui, por conta dos próprios gregos, o mundo não é mais aquele, é claro que a filosofia, apesar de todo o seu parentesco com os astros, sendo feita por aqui mesmo, sob os nossos pés, ainda que não poucas vezes lhe falte o chão, também não poderia ser mais, exatamente, aquela.

Afinal, como nos ensinou um outro filósofo dos primórdios da

filosofia, Heráclito, não é verdade que “tudo flui”? Assim, é evidente que aquilo que chamamos de filosofia, na aurora do seu começo, deve ser bem diferente daquilo que chamamos de filosofia no crepúsculo do seu final. Mas se aquilo que era feito no século VII a.C. é bem diferente daquilo que se faz no século XXI d.C., por que ambas as atividades são designadas pelo mesmo nome, filosofia? Usando o mesmo nome para designar a atividade daqueles que a praticam, quer no seu começo, quer no seu final, não se está querendo apontar para a mesma coisa? Então também podemos designar os filósofos de hoje, assim como eram os de outrora, pelo nome de (physiká) (naturalistas)? O dito fim da filosofia não é justamente a dita validade das ciências naturais?

Se os gregos viveram a aurora do seu começo, e nós vivemos o

crepúsculo do seu final, a expressão os filósofos de hoje, dita atualmente, ainda faz algum sentido? Que tenha um significado é forçoso afirmar, visto que, bem ou mal, entendemos o que ela quer dizer; pelo menos, reconhecemos cada uma das palavras usadas para compor a referida frase como sendo pertencentes ao nosso idioma e que usamos, na composição, dentro da licitude vigente exigida por nossa gramática. No entanto, nada é decidido a respeito da possibilidade de uma existência filosófica ou não. Ainda mais nos dias de hoje, quando, apesar de toda informação, ou até mesmo por isso, pelo menos quanto à filosofia, ao certo, ao certo mesmo, ninguém parece saber mais nada. Será realmente preciso dizer ao certo o que é filosofia? Será mesmo possível?

Do jeito que as coisas vão, neste momento, alguém poderia até

mesmo nos dizer: “Mas para que tanto auê por conta de uma palavra? Ora, ora; palavras são palavras. Por que filosofia diferiria tanto de abacaxi, automóvel ou rancor? Usando-as todo mundo já não sabe o que cada uma é?”

Então, devemos realmente calar-nos e esquecer tudo isso,

ocupando melhor nosso tempo, admitindo que filosofia não passa de uma mera palavra?

Mas não é justamente isto, o fato de ser, por fim, meramente uma

palavra, aquilo que tanto nos causa espanto e admiração? Como pode uma mera palavra apenas levar alguém para o fundo do poço? Se é que o tem, de onde uma mera palavra pode extrair todo o seu poder? Será que é assim que se pergunta? Ou será que a palavra não é capaz de extrair nada, recebendo, antes, como dádiva, aquilo que pode? Que ela pode é difícil negar. Até mesmo a sabedoria popular sabe disso quando afirma que “as palavras removem montanhas”. Afinal, não foi tão somente a mera palavra de Deus capaz de criar o mundo? Mas a propósito de que invocamos agora o poder de Deus? Para fiar o poder da linguagem? Se filosofamos, ainda mais no século XXI, não deveríamos andar com nossas próprias patas? Por Zeus, o fim da filosofia também não é a morte dos deuses? Mas quem mata um deus, nem que seja por dignidade, assim como Judas, não acaba matando a si mesmo?

Em seu final, quem é que precisa de terapia, as palavras ou o

filósofo? Aliás, quem é que decide, passando o aval, que a filosofia chegou ao seu final? Marx, Wittgenstein, Heidegger? A filosofia de cada um dos filósofos não está sempre no seu final? Quem pode avalizar o seu começo? Tales, Heráclito, Parmênides? Afinal, quem é que decide o ser filósofo? Aliás, se é tudo tão confuso, como é que alguém pode, de sã consciência, decidir-se pela filosofia? Para ir ao fundo do poço? E ainda servir de chacota? Será que, em se tratando de filosofia, o melhor mesmo não é escutar o conselho de Epiteto e ficar calado? “Se as teorias filosóficas te seduzem, senta-te e te volta para ti mesmo. Mas não te chames jamais de filósofo e

só sofras se alguém te der esse nome” 5. Mas sofrer por quê? Pelo riso da Trácia? Mas por que as criadas se riem? Porque o filósofo caiu no buraco, indo ao fundo do poço? É claro que sim. Para a serva sorridente, prova cabal daquilo que ela já suspeitava: a filosofia não serve para nada. Mas se é assim, nada mais pertinente do que a nossa pergunta: Mas, afinal, para quê, então, filosofia?

Se é assim, coisa esquisita que hoje, passados aproximadamente

3000 anos daquela primeira queda, ainda haja quem esteja disposto a tanto. Que ao nosso redor possa haver um filósofo é até mesmo espantoso! Ora, mas se voltamos a nos espantar, de acordo com a tradição que estamos seguindo, é um bom sinal. Afinal, como nos diz um filósofo, “foi pelo espanto que os homens começaram a

filosofar tanto no princípio como agora”6. E, se de fato é deste modo, como nos diz outro filósofo, se “o espanto carrega a filosofia

e impera em seu interior”7, se nós mesmos, agora, voltamos a nos espantar, ainda que seja com a própria filosofia, ou ainda mais propriamente, por isto mesmo, que a causa do nosso espanto seja a própria filosofia, é porque, de alguma forma, já nos movemos no âmbito próprio do filosofar. Com o que se pretende estar livre da incumbência de uma possível objeção: mas não seria necessário, antes mesmo de se fazer a referida pergunta por um suposto para que da filosofia, dar resposta a uma outra pergunta? Não seria necessário dizer, antes, o que é isto, a filosofia? Ainda mais se de fato filosofamos? Todo o filosofar não deve começar pela definição dos conceitos? Não foi assim que aprendemos? Lembramos que sim.

Aprendemos que, se filosofamos, devemos estar atentos às

regras básicas de um modo tão específico de usar a linguagem que nos deixa atados, no dizer de mais um outro filósofo, “como que por

sapatos muito apertados”8. Aqui quero lembrar de uma regra que, por assim dizer, suporte a possibilidade de continuarmos, por ora, pensando o que se deixou ser pensado, quer, ao final das contas, filosofemos ou não. Falo da petitio principii, ou melhor, do fato de não podermos cair em petição de princípio quando filosofamos. Ainda que de vários modos possamos fazê-lo, lembremos, com Aristóteles, da mais óbvia: “quando se postula o próprio sujeito a

demonstrar” 9. “Postular e supor o ponto de partida é um raciocínio que, do ponto de vista do gênero ao qual pertence, consiste num

vício de demonstração do problema proposto”10. Ora, para definirmos formalmente a filosofia, demonstrando o que ela é, já devemos estar, de alguma forma, filosofando, ou seja, pressupondo aquilo mesmo que se quer demonstrar. Diferentemente, para dizer o que é nadar, não é preciso que nos joguemos na água, assim como, para dizer o que é correr, nem precisamos apurar o passo, podemos, até mesmo, fazê-lo sentados. Agora, dizer o que é filosofia já é, necessariamente, filosofar. Estão vendo? Coisas realmente estranhas ocorrem com a filosofia, pois, ao que parece, a julgar pelo que diz o próprio filósofo, até mesmo para negá-la é

preciso, contudo, filosofar 11.

É claro que aquele que nos objeta pedindo para enunciarmos uma

definição de filosofia, para então podermos, assentados no conceito, falarmos seguramente sobre ela, bem que ainda pode sugerir que façamos uma espécie de enumeração das diversas definições de filosofia dadas pelos filósofos no decorrer da história. Do que se poderia, até mesmo, extrair uma espécie de fórmula, aplicável a toda e qualquer filosofia. O mais provável, porém, é que, como nos diz Heidegger, “por esta via nunca chegaremos a uma resposta autêntica, isto é, legítima, para a questão: Que é isto – a

filosofia?” 12. E, se o filósofo alemão, tentando dizer o que é a filosofia, lá pelo final, acaba recorrendo ao parentesco desta com a

poesia 13, talvez, de fato, com a filosofia ocorra algo bem parecido com o que ocorre com o caminho do poeta: “caminante, no hay

camino, se hace camino al andar 14 ”. Caminhemos então. Pois, se estamos, diante da pluralidade, tentando um caminho possível, apesar de todos os outros, ou até mesmo por isso, não devemos nos afastar do nosso.

No momento estamos querendo tomar um caminho que nos leve

a entender a piada. Quer ela tenha alguma graça ou não, é fato: o filósofo caiu no buraco, e a escrava, espertalhona, caiu na risada.

Mas era só o que nos faltava! Sem muito esforço, quem tiver

ouvidos para tanto, será capaz de ouvir, retumbante, a voz do nosso objetor. E, talvez, ele até tenha razão. Por isso, é sempre bom escutá-lo. Afinal de contas, para que estamos dando tanta “bola” para uma piada? Filosofia não é coisa séria? Assim como a maioria, diante de uma piada, não deveríamos rir e pronto? Por que é que não conseguimos? O que é que nos impressiona tanto? Para que ficar cismando? Será que não encontramos nada melhor para fazer? Diante de tantas dúvidas, o melhor não seria deixar tudo isto para lá, espairecer, borboletear? Como se diz, aproveitar a vida e pronto? Todas essas dúvidas não são frutos podres de uma personalidade vacilante frente às disponibilidades da vida? Uma falha de caráter? Indo atrás da filosofia não acabamos descortinando, antes, uma predisposição patológica? E se este é o caso, não se deve procurar um especialista? A ciência não progrediu o bastante para poder ministrar-nos drogas suficientemente seguras capazes de contornar o problema? Se a ciência pode contornar o problema, para que ir ao fundo do poço? Isto não é loucura?

Sim, e é o próprio filósofo quem nos assegura no Fedro,

considerando-a, inclusive, uma predisposição divina perfeita pelo

amor 15. É por essas e outras que, talvez, Wittgenstein nos diga que “só quando se pensa mais loucamente do que os filósofos se

consegue resolver os seus problemas”16. Mas Wittgenstein da mesma forma é filósofo! Ele também não mandou que ficássemos

calados? 17 No entanto, assim como nós, parece que não conseguiu

frear a sua compulsão pelo jogo18. E que novidade é esta agora? Jogo? É verdade, então, que “a disputa é a origem de todas as

coisas e de todas ela é soberana”?19 Mas quando se fala em filosofia, o que é que está em jogo?

O Jogo da Vida: uma disputa emocionante em busca do sucesso!

é um jogo infantil, para crianças a partir dos 8 anos de idade, ainda que os adultos também possam jogá-lo. Para quem não o conhece, é um destes jogos de tabuleiro, de marca notória em nosso país, assim como tantos outros que conhecemos, como Banco Imobiliário, Detetive, War. Um brinquedo. Como o próprio nome já diz, o que se disputa, o que está em jogo, é o sucesso. O sucesso na vida. Cada jogador é representado por um pino – azul para os meninos, rosa para as meninas – e um carro. Montada a roleta, escolhido entre os participantes aquele que será o banqueiro, responsável pela guarda e circulação dos valores – dinheiro, apólices de seguro, ações, notas promissórias –, decidido pelos jogadores qual dos dois caminhos possíveis cada um vai seguir: se o caminho dos negócios, mais curto, porém, a princípio, menos rentável, ou o caminho da Universidade, mais longo, porém, com renda mais elevada, dependendo da profissão que se seguir. As opções são: Médico, Jornalista, Advogado, Professor ou Físico. Isto posto, cada qual possuindo o mesmo capital inicial que o outro, girando a roleta, o jogo já pode começar. E como está escrito em suas próprias regras, quando se entra no Jogo da Vida, “tudo pode acontecer”.

Diante dos jogadores está o belo tabuleiro, onde se encontra o

dito caminho. Um longo e sinuoso caminho. São aproximadamente 160 espaços que o jogador tem que percorrer conforme a sorte até que chegue ao seu final. Em cada um dos espaços referidos há a inscrição de uma ordem que deve ser cumprida conforme a parada ou passagem de cada um dos jogadores por elas. Alguns exemplos do que encontramos inscrito nos espaços: Motorista descuidado! Perdeu o seguro do carro; Alugou um apartamento. Pague $1.000; Herança! Receba $300.000; Vingança! Processo por perdas e danos; Negócios precisam de propaganda. Pague $60.000; Sua filha nasceu. Receba os presentes; Você pode jogar na Bolsa se tiver ações; Você deve impostos. Pague metade do seu salário.

É assim, percorrendo o caminho do Jogo da Vida, cumprindo o

capricho da sorte imposto pelas inscrições do tabuleiro que, dos jogadores que disputam entre si, um, ao final, pode acabar sagrando-se vencedor. Aquele que primeiro se tornar Magnata. Caso ninguém consiga, o jogo prossegue até que o último jogador vá à falência ou se torne um milionário. Assim, o grande lance do jogo é tornar-se um magnata. Para tanto é preciso apostar tudo no Dia do Juízo: a quatro espaços para o final do jogo, parada obrigatória para todos os jogadores. Como diz o Manual de Instruções, nesta rodada os participantes têm que “tomar uma decisão muito importante”: tornar-se um milionário ou um magnata. Para decidir, o Manual aconselha: se o jogador ainda tiver capital suficiente para continuar no jogo, disputando a liderança, o mais prudente é contentar-se em ser um milionário. Agora, se o jogador já estiver descapitalizado, pobre, sem condições de continuar na disputa pela liderança, o negócio é arriscar tudo na roleta e, conforme a sorte, acabar sendo o grande vencedor do Jogo da Vida, o magnata. No entanto, se a sorte não lhe sorrir, o jogador perde tudo, que já não deveria ser lá grande coisa. Nas palavras do fabricante, “fica fora do jogo”; seu vaticínio está inscrito no próprio tabuleiro do jogo: “Você foi à falência! Aposente-se e vá viver no campo como filósofo”.

Ora, como assim, aposente-se e vá viver como filósofo?

Perguntamos nós que, deixando as piadas de lado, queremos ver, de alguma forma, nossa questão respondida: Mas, afinal, para quê, então, filosofia?

Ainda que saibamos, pela boca do próprio filósofo que o exercício

da atividade filosófica “parece necessitar de poucos recursos

exteriores” 20, podendo ser realizado de pijama e de chinelos de dedo, ou até mesmo descalço, não sabíamos, porém, que ela, a filosofia, é uma atividade apropriada para os aposentados. E não propriamente para todos os que se aposentam. Mas, antes e tão somente, para os falidos. Para aqueles que perderam tudo. Incapacitados para as exigências da vida, sem algo melhor para fazer, estando fora do jogo, que filosofem. Como se vê no tabuleiro, há até um local delimitado para tanto.

Assim, fora do jogo, o filósofo é aquele que, sem nada para fazer,

tem tempo. Tempo de sobra. Mas tempo para quê? Para nada? Só para ficar olhando? O que é que faz o filósofo, afinal? Fica andando por aí, vagando de um lado para o outro? É por isso que alguns receberam a alcunha de peripatéticos? Mas, vagando por aí, o filósofo é uma espécie de vagabundo? Então, que vergonha! Um homem-feito e não faz nada de útil? Deixemos que ele próprio se defenda dizendo-nos “que o filósofo tornou-se um homem que utiliza

o tempo na tarefa de potenciar a própria humanidade” 21.

Como assim? Potenciar a própria humanidade! Assumindo a

reitoria, ainda que seja por oito meses? 22 Fazendo filhos para

enjeitá-los na roda?23 24 Masturbando-se em praça pública?

Ih! Novamente as perguntas. E agora ainda mais escabrosas.

Com tantas dúvidas não se quer faltar com a urbanidade devida, porque, no fundo, sabemos que, talvez, todas essas questões realmente não nos levem a lugar algum. Contudo, não conseguimos ficar sem fazê-las. O que é ainda mais espantoso! Com o que corremos o risco de, boquiabertos, ficarmos de fato calados. Mas se há, pois, a hora de fazer silêncio, também deve haver a hora de fazer barulho.

No momento, ficaríamos contentes com a resposta para uma

pergunta apenas, a nossa: Mas, afinal, para quê, então, filosofia?

Fazendo essa pergunta, desde o princípio, é bem provável que,

por estranho que possa parecer, não tenhamos pegado o caminho correto. Pois, se a melhor pessoa para respondê-la é o próprio filósofo, para nossa decepção, uma vez o encontramos no fundo do poço, servindo de chacota para as criadas, na outra, fora da brincadeira, entediado, não estava disposto a nada.

Talvez seja por isso que aquele que nos objeta esteja nos olhando

com a cara tão feia. Parece até que desconfia que, no fundo, no fundo mesmo, estamos é de má vontade, brincando com as palavras, querendo aparecer, provavelmente, incapazes de fazer coisa melhor. Se estivéssemos levando a questão a sério como ela deve ser levada, querendo realmente analisá-la, por que é que estaríamos perdendo o nosso tempo com uma piada que, depois de tantos anos, já nem tem mais tanta graça e com um simples jogo infantil, passatempo para os finais de semana chuvosos? Assim, até parece que nos esforçamos para parecermos ridículos. Ridículos ou cínicos. Pois, como outrora Diógenes procurava um homem, nós, agora, procuramos um filósofo. E bem sabemos que filósofos já não vivem mais em barris. Se quer um filósofo capaz de responder a sua pergunta, deve ir à Universidade. Lá você vai encontrá-lo. O filósofo é um professor.

Foi assim que mais uma vez ouvimos a voz prudente do nosso

objetor. Com a filosofia também se ganha a vida. O filósofo é um professor. Homem dedicado que deve ter feito um bacharelado, uma licenciatura, um mestrado e um doutorado. Agora está na Universidade. É um funcionário que deve lecionar suas disciplinas, cumprindo, assim, suas obrigações. Provavelmente aquelas para as quais se tornou um especialista. Conforme a ênfase nos seus estudos, frequentemente, quando passa pelo cafezinho, é apontado como aristotélico, kantiano ou marxista. Provavelmente conhece o seu filósofo detalhadamente em sua língua natal. O que lhe dá o direito, ou melhor, o dever, de cuidar para que ninguém diga nada além daquilo mesmo que o seu filósofo disse. O professor tem tudo bem registrado. Afinal, ele é um homem bem preparado; um erudito que sabe cumprir sua função. Assim, ao lado de todas as outras ciências na Universidade, lotado no seu devido Departamento, aquele que compete a sua ciência, o professor de filosofia deve estar bem acomodado. Por isso, não vai ser difícil encontrá-lo. Ele deve ser até mesmo uma pessoa solícita e prestativa.

Mas para qual deles devemos perguntar? Para o epistemólogo ou

para o medievalista? Para o dialético ou para o analítico? Para o da Antiga ou para o pós-moderno? Quem sabe não devemos fazer uma enquete? Quando, então, poderemos optar pela resposta que mais se adapte ao nosso gosto ou tentamos, novamente, fazer uma espécie de soma das diversas respostas dadas na tentativa de encontrarmos algo como uma fórmula comum? Talvez, se formos atrás do professor para além de suas salas de aula, em seus seminários, encontros, palestras, enfim, onde ele expõe os progressos de suas pesquisas, nos aproximaremos de uma resposta possível para a nossa questão?

O mais provável é que sim. Que ninguém menospreze o árduo

trabalho do professor. São todos frecheiros habilidosos, capazes de acertar na mosca do seu alvo. Contudo, cumprindo as suas funções dentro da Universidade, será que terá tempo para responder nossa questão? Sabemos que o professor é um homem ocupado. Afinal, não queremos incomodar.

Mesmo porque, agora, depois de tantos questionamentos, a

pergunta que nos moveu talvez já nem seja mais tão necessária. Depois de tanta confusão, talvez ela já tenha sido até mesmo respondida. Nós é que não prestamos a devida atenção. É tudo tão simples: Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Ora bolas, para ter uma profissão e, com ela, dignamente, em meio ao lufa-lufa diário, ir ganhando a vida, tendo, assim, um meio de sustento. Por fim, não é isto que todo mundo deseja? Considerando o país pobre em que vivemos, o professor, depois de tantos estudos, não é recompensado com um salário que lhe proporciona um padrão de vida um tanto quanto razoável?

Nossa pergunta não ficou assim definitivamente respondida?

Não? Parece que ficamos com a sensação de que deveríamos exigir um pouco mais do professor? Afinal, leciona filosofia. Por que parece que não ficamos satisfeitos? Será que estamos mesmo de má vontade com aquele a quem só deveríamos agradecer? É certo ficar aqui esperando algo mais do professor? O que é que ele ganha com isso? Ele não é igual a todo mundo? Os professores de física, de química, de biologia, de medicina e os das engenharias não estudaram tão arduamente quanto os de filosofia? Mas, então, por que será que parece que ficamos exigindo algo mais do professor de filosofia? Será que nós achamos que ele é melhor do que os outros? Mas por quê? Será que ele próprio se acha, podendo sempre evocar para tanto a paternidade de todas as demais ciências? Mas por que é que um pai é necessariamente melhor que os seus filhos? Não pode acontecer justamente o contrário? Não é este justamente o caso? As ciências não ultrapassaram a filosofia, tornando-a, inclusive, obsoleta? Quando muito, uma espécie de adorno que se coloca depois de tudo efetivamente pronto, como se fosse para enfeitar ou dar um lustro? Não é justamente daí que salta aos nossos sentidos a necessidade da nossa pergunta? Mas, afinal, para quê, então, filosofia?

Até aqui, acho que fizemos apenas perguntas. Mas quem será

que é capaz de suportar tantas dúvidas? Será possível viver assim, duvidando? Descartes, reconhecidamente um filósofo, diz que sim, que a dúvida é fundamental. No entanto, lembremos, a dúvida é apenas o primeiro passo do método. E Descartes ainda podia acreditar em certezas. E nós? Nós mesmos, eu e você, o que devemos procurar em pleno século XXI? Não ficamos nos sentindo exatamente do jeito que Aristóteles diz que não poderíamos estar:

correndo atrás de pássaros voando? 25 Pode ser.

Então, é porque se fica olhando para o alto, correndo atrás de

pássaros voando, que se corre o risco de cair no buraco, indo ao fundo do poço? E ainda ter que ouvir a risada dos escravos? Não sabemos. Não deveríamos, nós mesmos, para não cairmos no buraco, sair voando atrás dos tais pássaros? Mas se voamos, tornando desnecessários aqueles sapatos muito apertados de Wittgenstein, não estamos fora do jogo? Não sabemos. Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Não sabemos.

É realmente espantoso que, depois de tantas voltas, não

tenhamos ainda acertado o passo, respondendo, sem firulas, a nossa questão. Sabemos o que se passa na mente daquele que nos objeta. Por isso mesmo, se apesar de toda a nossa ignorância, ou melhor, por ela mesma, nos espantamos tanto, não devemos, até mesmo porque não podemos, abandonar esta nossa disposição. No caso, se é para entender melhor a filosofia e, quem sabe, responder a nossa pergunta, ela até nos ajude. Mas, se é para ficar espantado, espantado mesmo, talvez devêssemos estudar melhor o Górgias de Platão. Pois, para quem faz a pergunta que estamos fazendo – Mas, afinal, para quê, então, filosofia? –, só uma coisa é capaz de espantar ainda mais do que todas as outras coisas: será que Cálicles, personagem do referido diálogo, tem razão?