Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Uma leitura do Górgias de Platão

Sócrates e Górgias

retórica e filosofia155, pois há uma distinção por oposição fundamental na maneira como ambas se utilizam da linguagem (Cf. 448 b-449 a). Como nos diz Stauffer, “a diferença mais óbvia entre

as duas” 156, não por isso de somenos, antes pelo contrário: o rétor

vale-se da 157 epídeiksis, exposição monológica grandiloquente; o

filósofo da 158 diáleksis , conversação dialógica concisa. Métodos distintos que poderão evidenciar vidas distintas.

 

SÓCRATES E GÓRGIAS

 

Podemos dizer que o preâmbulo acaba quando Górgias,

aceitando o método socrático, assumindo a interlocução com Sócrates, responde à pergunta do filósofo “com clareza e concisão” (449 a). Assim, dito pelo próprio Leontino, é “de retórica” (449 a) que se deve designar a sua tékhne. Cabe agora, portanto, na visão de Sócrates, a declaração do que seja a retórica, especificando o objeto particular da sua suposta epistéme (Cf. 449 d). Com o que já percebemos, pela proximidade entre ambas, a necessidade de uma demarcação precisa entre filosofia e retórica, pois, se a retórica incide sobre a linguagem (lógos), como assevera o rétor (Cf. 449 d), com a filosofia, sabemos, não será diferente. E isso, de uma maneira diversa da maioria das demais tékhnai. Porquanto, ainda que não haja tékhne alguma que se efetive sem o lógos, no entanto, como nos diz Górgias, tais tékhnai não têm o lógos como objeto próprio, diferentemente da retórica – e da filosofia, dizemos nós. Assim, se o fato de lidar com as palavras – ou, melhor ainda, com o lógos – não é uma exclusividade da tékhne do orador, é preciso, então, continuar com a conversação até que seja possível determinar, especificando, “a respeito de quê” (451 d) versaria o

lógos 159 quando retórico. Depois de uma resposta evasiva, com a insistência do filósofo, Górgias responde de uma maneira mais precisa: a sua tékhne procura efetivar o maior de todos os bens, o poder político, engendrado pela persuasão (peithó). Porém, Sócrates ressalta que toda tékhne para estabelecer-se como tal deve ser capaz de convencer os outros a respeito do setor de objetos que abarca (Cf. 453 d). Por conseguinte, Górgias deve declarar qual a especificidade própria da persuasão da sua tékhne (Cf. 454 b). E é isso que ele faz: para o afamado rétor a sua persuasão é aquela “que se exerce nos tribunais e demais assembleias, e que se relaciona com o justo e o injusto” (454 b). Dito isso, o filósofo prossegue com suas distinções, afirmando que há duas espécies de persuasão, uma que se estabelece a partir do conhecimento (epistéme) e outra a partir da crença (pístis). Toda crença, conforme o caso, pode ser verdadeira (alethés) ou falsa (pseudés). Ao passo que, todo conhecimento, se é de fato um conhecimento, não tem como não ser apenas verdadeiro (Cf. 454 c-e). Sócrates então estabelece, com a anuência de Górgias, que a retórica do orador (rétor) não versa sobre questões relativas à epistéme do justo (díkaios) e do injusto (ádikos), mas, antes, busca inculcar nos ouvintes a crença a respeito dessas coisas (Cf. 454 e-450 a). Porém, como que percebendo as conclusões que o filósofo pode tirar do que acabara de falar, Górgias, comparando a sua tékhne com as demais artes de combate e, de certa forma, corrigindo a ambiguidade com a qual Sócrates utilizou a palavra rétor, diz que os conhecimentos transmitidos pelo professor de retórica são “para serem usados com justiça contra inimigos e ofensores, e apenas em defesa própria, não para atacar” (456 e). Ainda que seja assim, como diz Górgias, o filósofo acha bem espantoso que os cidadãos recorram a algo tão incerto como as crenças para resolver seus problemas, quer sejam elas relacionadas à saúde, à arquitetura ou à guerra, em vez de recorrerem à epistéme da tékhne apropriada para tanto (Cf. 455 b-456 a). Para o nosso rétor, porém, é justamente aí que reside todo o poder da sua retórica: que um político-orador possa “convencer a multidão acerca de qualquer assunto, não por meio da instrução, mas por força da persuasão” (458 e), abrangendo, dessa maneira, todas as outras tékhnai “que ela mantém sob o seu domínio” (456 b). Sendo assim, uma espécie de tékhne primeira, sem a qual nenhuma das outras tékhnai efetivar-se-ia. E tudo isso, sem que o próprio político-orador precise, de fato, conhecer os assuntos sobre os quais se propõe a falar. Mas note-se bem, como Sócrates faz notar, isso só se dá diante da massa ignara, não diante dos especialistas (Cf. 459 a-

c)160. Dessa maneira, pode-se dizer que a retórica está sendo qualificada pelo filósofo como uma tékhne de ignorantes apropriada para persuadir ignorantes e, consequentemente, a tékhne própria dos mal-intencionados. Pois o orador, “sem conhecer as coisas em si mesmas e sem saber o que é o bem e o mal, o belo e o feio, o justo e o injusto, dispõe de um método especial de persuasão que aos olhos dos ignorantes o faz parecer mais sábio do que os entendidos” (459 d), fazendo-se passar injustamente “por homem de bem, ainda que não seja” (459 e).

Mas como harmonizar tais conclusões com aquilo que ficou

estabelecido no transcorrer da conversação? Lembremos: a retórica, a tékhne própria dos oradores, abarcaria, especificadamente, o horizonte dos discursos políticos, referindo-se, portanto, ao justo e ao injusto (Cf. 454 b). Pelo que o orador teria “que conhecer o que é justo e o que é injusto” (460 a). E, conhecendo o justo, é “forçoso que o orador seja justo e, como tal, queira praticar ações justas” (460 c). Porém, a conclusão da diáleksis revelou o oposto, ressaltando a contradição de Górgias. Dessa maneira, nosso afamado rétor acaba ficando sem palavras. Quando, então, Polo passa para o primeiro plano da cena, assumindo a conversação com Sócrates.