Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Uma leitura do Górgias de Platão

Sócrates e Górgias

 

Diante da eloquência de Polo, Sócrates, dirigindo-se a Górgias,

queixa-se do discípulo do rétor. Pois, não respondendo a pergunta de maneira socrática, “ele não responde exatamente ao que lhe é perguntado” (448 d). E, queixando-se, vai deixando bem clara, para que todos possam ver, a imagem que faz da arte retórica, distinguindo-a da sua, a conversação, demarcando, assim, por contraposição, diferenças. A primeira característica da retórica, vocacionada para a disputa (polemikós), é botar-se em armas. Em vez de dizer sem rodeios qual é a tékhne de Górgias, “com clareza e concisão” (449 a), como a pergunta socrática exige, como se pôde ver, Polo começou a exaltar as supostas nobres e generalíssimas qualidades da inominada tékhne, como se alguém, atacando-a, houvesse tentado diminuí-la (Cf. 448 e).

Mas se é para ser direto como o filósofo diz que convém ser, por

que não perguntar diretamente para o próprio Górgias ali presente? Aparentemente, ninguém melhor do que ele próprio para responder por si mesmo. Afinal, como é que se deve chamar a tékhne de Górgias? “De retórica” (449 a); agora sim, aí está respondida adequadamente a pergunta socrática, de maneira clara e concisa, e diretamente pelo próprio rétor.

Então, novidade nenhuma, pois até mesmo nós já sabíamos que,

sendo a retórica a tékhne específica de Górgias, o nome que mais propriamente lhe cabe, como Sócrates faz questão de dizer, é o de rétor (orador) (Cf. 449 a).

Górgias não nega o título – haveria por que fazê-lo? –, antes pelo

contrário, assumindo-o, acrescenta-lhe alguns adjetivos. Ouçamos aqui, como um privilégio, as palavras do próprio orador: “E excelente orador, Sócrates, o que só de nomear me envaidece, se quiseres aplicar no meu caso a linguagem de Homero” (449 a). Ora, Sócrates não vai perder a oportunidade, já que foi dito pelo próprio rétor: “É isso mesmo que eu quero” (449 a). Com o que o filósofo demarca mais uma característica da retórica de Górgias: a proximidade com a linguagem poética. Aliás, característica essa, intimamente ligada àquela primeira, o espírito guerreiro. Sem esquecer esse passo importante, ouçamos o que vem em seguida.

Com a designação de rétor, Górgias assume não apenas a sua

capacidade para falar em público, mas também a maestria no ensino da retórica (Cf. 449 b). Fazendo isso diretamente e sem rodeios. Afinal de contas, como já ressaltamos, por que haveria de fazê-los? Górgias, embaixador dos leontinos, já não era um homem respeitado, famoso e bem aquinhoado justamente por sua tékhne? Portanto, antes de sentir vergonha, pelo contrário, deveria sentir orgulho ao anunciar-se publicamente como rétor. É isso que mostram as suas palavras, ditas em um tom altivo: “E é o que, de fato, anuncio, não apenas aqui como em outras localidades” (449 b).

Sendo assim, diante da disposição de Górgias, Sócrates exorta-o

para que prossigam na conversação (diáleksis), nessa “troca de perguntas e respostas” (449 b) concisas que já começaram a entabular. Recusando, assim, o modelo da resposta de Polo, o discurso prolixo (epídeiksis), na verdade o modelo de Górgias, ou, pelo menos, um deles. Afinal, um mestre da oratória da envergadura de Górgias deve dominar todos os espectros da linguagem, quer os discursos longos, quer os discursos breves; tanto a grandiloquência, quanto a breviloquência; a fala dos políticos e a do filósofo. É isso, pelo menos, o que o próprio Górgias nos dá a entender, tamanha seria a abrangência da sua tékhne (Cf. 449 b-c), ressaltando que nem sempre é possível ser breve, pois há perguntas cujas respostas “exigem exposição mais particularizada” (449 c). Górgias aceita o convite de Sócrates para uma conversação concisa e, como veremos, não sem uma fina dose de ironia socrática, prometendo deixar no momento os longos discursos de lado, acrescenta: “Assim farei, para que venhas a confessar que nunca ouviste ninguém falar com mais concisão” (449 c).

E, de fato, como se pode ver na sequência do diálogo, as

respostas de Górgias são em sua maioria realmente concisas, quase que monossilábicas: “Sim”, “sim”, “os discursos”, “não”, “é claro que não”, “sim”, “como não?”, “necessariamente”, “sim”, “exatamente”, “sem dúvida”, “é evidente” (Cf. 449 d-450 b). Sócrates, desde o começo da sequência, parece estar ciente da ironia do rétor. Ironia improfícua que não lhe afeta e da qual, antes, vai tirar proveito. Afinal de contas, foi o próprio filósofo quem pediu a concisão das palavras. “Por Hera Górgias! Tuas respostas me agradam; mais concisas não poderiam ser” (449 d).

Na dita sequência, Sócrates busca determinar o objeto específico

da retórica. É aí que Górgias responde laconicamente, como pede o modelo socrático: “Perì lógous” (449 d). Assim como a tékhne do tecelão “se ocupa com o preparo das roupas (449 d), assim como a música com a composição de melodias” (449 d), é sobre os discursos que recaem os procedimentos retóricos. No entanto, ainda que breve, Sócrates logo ressalta a generalidade quase vazia da resposta dada pelo rétor. Afinal de contas, toda tékhne para efetivar-se requer a intervenção do lógos. Como se pode ver, não basta ser curto e grosso para dar conta da concisão requerida pela conversação socrática. E, assim, já que toda tékhne requer a intervenção do lógos, o filósofo pede para o leontino fazer a devida distinção, especificando, melhor, o campo dos discursos que mais propriamente particulariza a tékhne do rétor (Cf. 449 d-450 b).

Górgias, mostrando-se seguro, não arreda o pé da sua definição:

“É por isso que eu considero a retórica arte do discurso, e com razão, segundo penso” (450 c). O caso é que, para o rétor, “todo o conhecimento, por assim dizer, diz respeito a trabalhos manuais ou a práticas do mesmo tipo, ao passo que a retórica nada tem que ver com a atividade das mãos, sendo alcançados por meio de discursos todos os seus atos e realizações” (450 c). Assim, o conhecimento da retórica recairia diretamente sobre o próprio lógos, ao passo que as demais técnicas, ainda que não se efetivem sem o lógos, não têm

os próprios discursos como finalidade própria62.

No entanto, Sócrates volta a ressaltar que a resposta de Górgias

ainda não consegue atingir aquilo que eles estão procurando precisar, a especificidade própria da retórica. Pois, se de fato uma boa parte dos conhecimentos humanos estão voltados para a consecução técnica de atividades, podendo inclusive, em meio às atividades, prescindir do lógos – os exemplos dados pelo filósofo são a pintura e a escultura, que podem ser “exercidas em silêncio” (450 d) –, não é apenas a retórica que se constitui fundamentalmente em meio às palavras. Evidentemente que a retórica não é a única tékhne que se efetiva na preponderância do lógos. Há várias ciências teoréticas, diria um Aristóteles, que não visam à produção imediata de algo, parece pensar o Sócrates do diálogo. A Aritmética, o cálculo, a geometria e, inclusive, os jogos de azar, são os exemplos trazidos pelo filósofo (Cf. 450 d). Pode-se dizer que não produzimos nada quando realizamos tais atividades. Assim como, um pouco mais adiante, deixando os jogos de lado, ficando com os exemplos matemáticos, cita também a astronomia como mais uma tékhne que se efetiva através do lógos. Portanto, se o fato de lidar com as palavras – ou melhor ainda, com o lógos – não é uma exclusividade da tékhne do orador, é preciso, então, continuar com a conversação até que seja possível determinar, especificando, “a respeito de quê” (451 d) versaria o lógos quando retórico. Dando novamente o modelo da resposta, assim como os discursos da aritmética e do cálculo versam sobre os números, e os discursos da astronomia versam sobre o curso e a velocidade dos astros (Cf. 451 a-c), dito pela boca de Sócrates, é preciso determinar, de maneira precisa, “a que classe de coisas se referem os discursos de que se vale a retórica” (451 d). Górgias, quase que não tem como esquivar-se: “Aos mais importantes e melhores assuntos humanos” (451 d).

Ora, com sua resposta, ainda que não tenha respondido a

questão do filósofo, Górgias – ou melhor, Platão – parece deixar bem a mostra qual é a disposição da retórica do leontino. Com uma resposta assim, tão “discutível e imprecisa” (451 e), podemos até desconfiar de que, no mínimo, algum mistério esotérico ronda a retórica de Górgias, do qual nós, os profanos que assistem ao diálogo, nada devemos saber, uma vez que a dita resposta mais oculta do que revela a tékhne do nosso rétor. Mas, então, o que será que está se passando?

Sócrates, tomando a palavra por um tempo maior do que o fez até

aqui (Cf. 552 a-d), relembrando uma cantilena habitualmente entoada nos banquetes, mostra a Górgias que, de fato, há várias questões humanas que são extremamente importantes e, justamente pela importância que ocupam na vida humana, muito se discute qual delas seria a mais importante, o maior bem humano: a saúde, o ser belo ou a riqueza? No entanto, pelo que consta, nenhum destes bens estaria relacionado com a tékhnedo leontino, sendo antes, especificidades propriamente produzidas pela tékhne do médico, do pedótriba e do economista, respectivamente. Portanto, se as questões tratadas pela retórica se referem a um bem ainda maior do aqueles ordinariamente citados, urge que Górgias nos diga, de uma vez por todas, “que espécie de bem é esse” (452 d) que, pelo que defende o próprio rétor, superaria os demais. Aquele que seria o produto único e exclusivo da sua tékhne. Górgias parece que agora solta a língua. Momento fundamental do diálogo, ouçamos diretamente os dialogantes:

 

Que é, de fato, o maior bem, Sócrates, e a causa não apenas de deixar livres os homens em suas próprias pessoas, como também de torná-los aptos para dominar os outros em suas respectivas cidades. Que queres dizer com isso?

O fato de por meio da palavra poderem convencer os juízes no tribunal, os senadores no conselho e os cidadãos nas assembleias ou em toda e qualquer reunião política. Com semelhante poder, farás do médico e do

pedótriba teus escravos, tornando-se manifesto que o tal economista não acumula riqueza para si próprio, mas para ti, que sabes falar e convencer as multidões (452 d-e).

 

Ora, se era clareza que estávamos esperando de Górgias, aí está.

Pelas palavras reveladoras do orador, agora nós conseguimos saber: para o homem, o maior bem de todos é aquele que a retórica é capaz de engendrar, o poder. Mais precisamente, o poder político. Não está claro? Como diz o próprio filósofo, Górgias não teria assim explicado suficientemente em que consiste a retoriké? (Cf. 453 a). Teria. No entanto, ao que tudo indica, não é exatamente, ou, pelo menos, diretamente, a questão do poder político que Sócrates vai explorar na sequência da conversação. Mas, antes, o poder de persuasão. Ou seja, não exatamente o poder político como um bem

– isso, no momento, parece que não se discute63–, mas, mais precisamente, o que parece que entrará em questão são os meios utilizados pela retórica na tomada do poder citadino. É este termo, por conseguinte, que Sócrates vai procurar esclarecer precisando, a persuasão (peithó). Pois que essa seria, nas palavras do próprio rétor, “a finalidade precípua da retórica” (453 a).

Sócrates, porém, faz notar que não é bem assim. Dizer

simplesmente que a retórica é a tékhneda persuasão, ainda não especifica suficientemente a particularidade própria da referida tékhne (Cf. 453 b). Afinal de contas, toda tékhne para estabelecer-se como tal deve ser capaz de convencer os outros a respeito do setor de objetos que o seu conhecimento abarca. Nas palavras do filósofo, “quem ensina seja lá o que for, persuade os outros a respeito do que ensina” (453 d). Portanto, sendo assim, “a retórica não é a única artífice da persuasão” (454 a). Por fim, todas as outras tékhnas também o são. Pelo que, aos olhos de Sócrates, sabemos, a retórica ainda não está suficientemente definida. Para tanto, é preciso, então, que Górgias, na consecução do diálogo, nos diga “que espécie de persuasão é a retórica e sobre que se manifesta” (454 b).

Ora, de certa forma Górgias já respondeu essa questão. A

persuasão da sua tékhne é produzida nos espaços abarcados pelos discursos políticos. Daí envolver a questão do poder. Mas talvez seja isto mesmo que precise ser aclarado: a legitimidade da pretensão da tomada do poder. Ainda que isto não esteja dito, assim, com todas as letras no diálogo, ao que tudo indica, é nesse sentido que Sócrates, mesmo já mostrando ter, pelo menos, a suspeita da posse de um conhecimento bem próprio da retórica, insistindo na conversação, quer que o próprio rétor, de sua própria

boca, esclareça a sua 64 tékhne ; faz parte do seu método. Cada vez mais sem saída, a não ser desnudar-se, Górgias vai especificando-a: “A meu ver, Sócrates, essa persuasão é a que se exerce nos tribunais e demais assembleias, como disse há pouco, e que se relaciona com o justo e o injusto” (454 b).

Ao que parece, pelos cuidados com que cerca Górgias para não

ferir-lhe a suscetibilidade65 – afinal, estamos entre amigos, lembram-se? – era esta mesma a resposta que o filósofo estava esperando para poder começar a discutir profundamente a legitimidade do poder conquistado retoricamente. “Eu já desconfiava, Górgias, qual fosse a persuasão a que te referias e sobre que se manifesta” (454 b). Agora demarcado, sobre o justo (díkaios) e o injusto (ádikos). Isso posto e com a anuência do rétor, Sócrates prossegue na conversação, estabelecendo primeiro a distinção entre conhecimento (epistéme) e crença (pístis), sendo que toda a crença, conforme o caso, pode ser verdadeira (alethés) ou falsa (pseudés). Ao passo que, todo conhecimento, se é de fato um conhecimento, não tem como não ser verdadeiro, apenas. No entanto, em relação à persuasão, que é o termo que se está tentando esclarecer, tanto aquele que conhece quanto aquele que crê estão convencidos a respeito daquilo que um conhece e o outro crê (Cf. 454 c-e). Pelo que se pode concluir que há “duas espécies de persuasão: uma, que é a fonte da crença, sem conhecimento, e a outra só do conhecimento” (454 e). Mas, então, a qual dos dois modelos persuasivos estaria ligada a retórica? Novamente, momento crucial da conversa, não há como deixar de ouvir diretamente os dialogantes:

 

Evidentemente, Sócrates, a que dá origem à crença. Então, ao que parece, a retórica é artífice da persuasão que promove a crença, não o conhecimento, relativo ao justo e ao injusto? Exato.

Sendo assim, o orador não instrui os tribunais e as demais assembléias a respeito do justo e do injusto, mas apenas lhes desperta a crença nisso (454 e-455 a).

 

Assim, fica evidente, não apenas para o filósofo, mas também

para o próprio rétor, que vai concordando com tudo isso, que a retórica do orador (rétor) não versa sobre questões relativas ao conhecimento do justo e do injusto, mas, antes, busca inculcar nos ouvintes a crença a respeito dessas coisas. Aqui é preciso notar que o filósofo, sobrepondo os níveis semânticos da palavra orador (rétor), começa a falar, como veremos em seguida, tanto da atividade de Górgias, o ensino da oratória, quanto da atividade

política, ou seja, o uso que se faz do referido ensino66. Tentando, pelo segundo, desqualificar o primeiro. Vejamos.

Não sem uma boa dose de ironia, Sócrates começa a falar que

seria por isto, então, a – pela retórica não tratar de conhecimento (epistéme) algum –, que os cidadãos, quando se reúnem para deliberar sobre questões, por exemplo, de saúde, construção ou segurança, não dão bola para os oradores, mas procuram, antes, os respectivos experts no assunto: o médico, o arquiteto, o general (Cf. 455 b-c).

Mas, ora, é claro que todo mundo sabe, inclusive o filósofo, que

não é bem assim que se efetivam as coisas. É atrás dos conselhos dos políticos que os cidadãos vão. Temístocles e Péricles são nomeados por Górgias como exemplos de oradores capazes de influenciar as massas independentemente de haver, para o assunto em questão, uma tékhne apropriada para tanto ou não. Em relação aos interesses justos ou injustos do Estado (pólis)são sempre “os oradores que aconselham nesses assuntos, saindo sempre vencedora a sua maneira de pensar” (456 a). Pelo que o filósofo se diz realmente admirado. Do seu ponto de vista, é mesmo um espanto que a cidade seja regida por algo tão incerto quanto as crenças, que, conforme a situação, podem ser verdadeiras ou não, em vez de recorrer, na medida das necessidades, à epistéme de uma tékhne determinada, esta sim, sempre certa e verdadeira. Assim, de fato, o poder da retórica parece ser extraordinário, poder-se-ia mesmo dizer, divino (daimónios) (Cf. 456 a). E isso porque Sócrates ainda não sabe tudo sobre a retórica, porém Górgias está disposto a revelar. Ouçamo-lo.

“A retórica, por assim dizer, abrange o conjunto das artes, que ela

mantém sob o seu domínio” (456 b). Se é assim como diz o leontino, a retórica seria uma espécie de tékhne primeira, sem a qual nenhuma das outras tékhnas efetivar-se-ia. Pois, se diante dos cidadãos em assembleia, na deliberação de um assunto específico, discursarem tanto o orador quanto o tekhnikós detentor da epistéme própria que abrange o setor de objetos do assunto a ser deliberado, é do lado do orador que, sem sombra de dúvidas, ficarão os cidadãos, “pois não há assunto sobre que ele não possa discorrer com maior força de persuasão diante do público do que qualquer artífice” (456 c). Realmente, assim, a retórica torna-se extremamente poderosa!

Quem fizer silêncio suficiente, embora não estando escrito no

texto, talvez consiga escutar o que, muito provavelmente, Sócrates está pensando: poderosa tanto quanto perigosa. Górgias parece que ouviu, pois, logo em seguida, expõe uma espécie de código de conduta, que isenta o rétor dos abusos do orador. Que se deva abusar do poder não faz parte dos seus ensinamentos, antes pelo contrário. Com suas próprias palavras, “a retórica precisa ser usada como os demais meios de combate; esses, quando aprendidos, não devem ser empregados contra todo mundo indistintamente” (456 d). Primeiramente, está confirmada por Górgias aquela primeira característica da retórica ressaltada ainda no começo do diálogo: a vocação para a disputa (agonía). Assim, da mesma maneira que não se pode culpar e perseguir o professor do hábil boxeador que, pervertendo o ensino recebido, esmurra seus pais, parentes ou amigos, da mesma maneira não se deve culpar e perseguir o rétor – assim como parece que Sócrates está fazendo com Górgias – pelo mau uso que os oradores por ventura façam da palavra. Pois os conhecimentos transmitidos pelos professores das técnicas de combate, incluindo aí a retórica, são “para serem usados com justiça contra inimigos e ofensores, e apenas em defesa própria, não para atacar” (456 e). Com o que até nós nos convencemos de que a retórica em si mesma não é má.

No entanto, ao que tudo indica, resistente, o filósofo não foi,

assim, persuadido como nós. E, portanto, quer insistir na conversação. Fazendo, para tanto, um largo arrazoado que envolve os outros participantes do diálogo, de uma maneira tal que Górgias, diante dos seus amigos, não terá como fugir (Cf. 457 c-458 d). “Depois disto, Sócrates, fora vergonhoso não concordar contigo, visto haver eu mesmo me prontificado a responder a qualquer pergunta que me quisessem dirigir” (458 d). É assim que, todos na expectativa, a conversa vai prosseguir. Não deixemos de acompanhá-la de perto.

Instigado pelo filósofo, Górgias confirma a sua capacidade de

tornar orador quem se dispuser a seguir os seus ensinamentos. Podendo, assim, o orador formado na tékhne do leontino, “convencer a multidão acerca de qualquer assunto, não por meio da instrução, mas por força da persuasão” (458 e). É por isso que, por exemplo, mesmo em questões de saúde “o orador tem maior força convincente do que o médico” (459 a). Porém, não esqueçamos, diante da multidão aos ouvidos da massa ignara. Em relação aos entendidos em uma determinada área, como no exemplo da saúde, é claro que o orador não será mais persuasivo do que o médico. Justamente porque, diante do conhecimento dos especialistas, o ignorante é o orador. Donde a retórica surge, quase que injuriosamente, como uma tékhne de ignorantes apropriada para persuadir ignorantes. Pois, diante daqueles que sabem, é imperioso reconhecer que ela perde quase todo o seu poder (Cf. 459 a-b). No entanto, como de fato a retórica é tékhne que se aplica aos ignorantes, é por isso que o orador, ele próprio ignorante, “não terá necessidade de saber como as coisas são em si mesmas e bastará recorrer a algum artifício para parecer aos ignorantes que em tudo é mais entendido do que os sábios” (459 c). Porém, assim caracterizada pelo filósofo, a retórica, antes de tudo, parece ser algo ainda pior: a tékhne própria dos mal-intencionados.

É claro que Górgias ainda está em condições de defender a sua

retórica e não vai deixar de fazê-lo. Para o rétor, bem diferente do que para o filósofo, não seria justamente esta a grande vantagem da sua tékhne? Pois, mesmo sem precisar aprender tékhne alguma, a não ser a retórica, o orador acaba podendo falar sobre todas as tékhnas, não ficando, assim, inferiorizado por ninguém diante das multidões, mesmo pelos que sabem (Cf. 459 c).

Se tal façanha é uma vantagem ou não, Sócrates prefere discutir

mais tarde. No momento, reorganizando tudo o que ficou estabelecido a respeito da retórica até aqui, tirando as devidas consequências possíveis, o filósofo vai levando o nosso rétor praticamente a um beco sem saída. Pois, ou Górgias acaba admitindo, na frente de todos ali presentes, que a sua tékhne, capacitando o seu manipulador a passar “por homem de bem, ainda que o não seja” (459 e), no fundo é mesmo a tékhneinjusta dos mal-intencionados, ou o leontino famoso, para fugir de tal imputação, terá que acabar se contradizendo. Com isso, sabemos, diante do filósofo, terá mesmo é que ficar calado. Mas sigamos de perto a estratégia de Sócrates.

Como já havia sido estabelecido antes67, a retórica, a tékhne

própria dos oradores, abarca, especificadamente, o horizonte dos discursos políticos; referindo-se, portanto, ao justo e ao injusto. Pelo que, forçosamente o orador “terá que conhecer o que é justo e o que é injusto” (460 a). Ora, se pensarmos que nenhum cidadão, por mais ignorante que seja, deseja de sã consciência o mal, quer para si mesmo quer para a sua cidade, será “forçoso que o orador seja justo e, como tal, queira praticar ações justas” (460 c). Pois a justiça, ao que tudo indica, é o bem maior da cidade, aquilo que a torna bela. Sendo assim, por conseguinte, o homem de Estado jamais “há de querer cometer alguma injustiça” (460 c). Desse modo, “jamais a retórica poderia ser algo injusto, pois todos os seus discursos tratam exclusivamente da justiça” (460 e). É claro que o rétor concorda com tudo isso.

No entanto, apesar de todo o seu poder, a retórica não parece

possuir toda esta força, qual seja, a de tornar os homens justos, ou ainda, como ficará exposto na contradição, a de manter-se firme na

linguagem68, sem que as palavras, em desacordo umas com as outras, anulem o discurso. Pois, mesmo que não precisemos levar em conta a opinião que, não poucas vezes, a massa tem dos seus governantes, foi Górgias mesmo quem admitiu no transcorrer do diálogo, eximindo-se da culpa, “que o orador pode usar injustamente a retórica” (461 a). Para, por fim, voltar a dizer que para o orador é impossível “fazer uso indevido da retórica ou consentir em ser injusto” (461 b). Mas, ora, ou como prefere Sócrates, “pelo cão!” (461 b), assim, de um lado para o outro, onde é que vamos parar?

Quanto a nós que estamos lendo o diálogo, ainda é difícil saber,

mas, pelo texto, a conversação entre o rétor e o filósofo para mesmo é por aqui. Górgias ainda vai dizer umas poucas palavras antes de permanecer calado na maior parte do ainda longo diálogo que vem pela frente. Sócrates ainda terá que se haver com Polo antes de escutar o que é que Cálicles tem a dizer-lhe. Vejamos então o que é que vem por aí.