Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Uma leitura do Górgias de Platão

Lendo o Diálogo

 

Preâmbulo

 

Pelo que se vê, Sócrates e o seu amigo Querefonte não puderam

acompanhar a eloquente 58 exposição ( epídeiksis ) que o famoso rétor Górgias acabara de proferir. Chegaram atrasados. Ao que tudo indica, um tanto quanto convenientemente atrasados. Pois o filósofo, como logo vai deixar claro, não se mostra lá muito interessado pela dita exposição. No entanto, havendo uma oportunidade, sabemos, bem que gostaria de fazer uma pergunta para o afamado palestrante. Mas não nos adiantemos, pois é certo que a fará. Ouçamos inicialmente as primeiras palavras de Cálicles que, abrindo meio que abrutalhadamente o diálogo, como que reprovando a conveniência do atraso dos dois companheiros, lança-lhes o seguinte provérbio, geralmente dito aos que se atrasavam, por exemplo, para um espetáculo: “Na guerra e no combate é que é conveniente proceder dessa maneira” (447 a). (Polémou kaì mákhes). Guerra e combate, além das primeiras palavras de Cálicles, também as primeiras do diálogo e, já podem nos dar um indício do que é que nos espera pela frente.

Mas se o negócio é arremessar provérbios, em resposta, Sócrates

também manda um. Ainda que usado nas mesmas circunstâncias que o dito por Cálicles – em situações de atraso –, como podemos perceber, para o diálogo, um tanto quanto diferente: “será que chegamos atrasados e, como se diz, depois da festa?” (447 a). Se as primeiras palavras de Cálicles, falando de guerra e combate, evocam dissensão e disputa, Sócrates, falando de festa, faz evocação bem diferente.

O caso é que Górgias, como de costume, já havia não apenas

acabado de fazer a sua exposição, mas, também, parte integrante do seu espetáculo, já havia respondido – ou, pelo menos, estava acabando de fazê-lo –, a todas as questões propostas pela audiência, satisfazendo a todos, não deixando ninguém sem resposta. Realmente, Querefonte e Sócrates chegaram tarde demais! De fato o show acabara. No entanto, assim como um pôde evocar a polêmica e o enfrentamento, enquanto o outro a festa, aquilo que para um é a perda do atraso, para o outro pode ser, justamente o contrário, o momento oportuno da ocasião (kairós). Querefonte, assumindo a culpa pelo atraso, tentando remediá-la, assim como é amigo de Sócrates, sendo amigo de Górgias também, diz que, conforme o filósofo preferir, “Górgias falará para nós, ou agora, ou noutra ocasião” (447 b).

Mas que o filósofo, providencialmente atrasado, queira ouvir o

orador leontino, parece ser mesmo espantoso! Pelo menos para Cálicles que, ao ouvir a proposta de Querefonte, quase que num salto, ou mesmo sobressaltado, sai com esta exclamação: “Que estás dizendo, Querefonte! Sócrates deseja ouvir Górgias?” (447 b). Mostrando assim, pelo seu espanto, uma certa intimidade com o pensamento e as ações do filósofo – o que será confirmado, como veremos, mais tarde. Pela cena que Platão vai montando, ainda que Cálicles, com seu espírito belicoso, tenha falado de guerra e batalha, não parece que estamos em um campo de combate, ou, como no Protágoras, diante de um conselho de guerra

( 59 synédrion ). Antes, pelo contrário, parece mesmo que estamos entre um seleto grupo de amigos. Pelo menos por enquanto.

Assim é que, confirmado por Querefonte o desejo que Sócrates

tem de ouvir Górgias, como ele mesmo diz, “para isso é que estamos aqui” (447 b), Cálicles, dirigindo-se ao filósofo, convida-o a ir em sua casa quando quiser para tanto, pois Górgias é seu hóspede e lá, com certeza, estará disposto a falar. No entanto, ao que tudo indica, Sócrates desconfia que, lá na casa de Cálicles, em outra ocasião, lhe fuja o momento oportuno para manter uma conversação (diáleksis) com Górgias. Não quer ouvir-lhe a exposição (epídeiksis). Se não, não teria chegado atrasado. Quer apenas “perguntar-lhe em que consiste a força de sua arte e o que é

que ele professa e ensina” (447 c) 60. Simplificando, Sócrates quer mesmo saber de Górgias o que é “que ele é” (447 c). Nada mais simples; ou, tratando-se de Sócrates, como os presentes parecem intuir, nada mais insidioso. Pede então a Querefonte que faça a dita pergunta. Mas Querefonte, conhecendo o amigo que tem, parece não entender direito o que é que Sócrates quer saber com a sua pergunta, ou, já entendendo muito bem, não quer ser inconveniente com o seu outro amigo Górgias. Afinal, que pergunta é essa? O leontino, na ocasião, já não era o afamado rétor conhecido por todos, inclusive por Sócrates?

No entanto, Sócrates, explicando para o amigo através de um

exemplo não apenas a simplicidade da sua pergunta, mas também

a simplicidade da resposta exigida, deixa Querefonte sem saída61. Assim, comprometido com duas amizades, não querendo faltar nem com uma nem com a outra, entre a cruz e a espada, como se diz, Querefonte, cheio de rodeios, dirige-se afinal a Górgias. Ouçamo-lo: “é verdade o que afirmou o nosso amigo Cálicles, que te comprometes a responder a seja o que for que te perguntarem?” (447 d). Assim, como quem se desculpa, ainda que não escrito no texto, quase que podemos escutar a sua voz complementando: “por mais absurda e despropositada que a pergunta possa parecer?” Mas é claro que ele não diria isso na frente de Sócrates. Como se vê, Querefonte não quer melindrar seus amigos.

Se diante da insistência de Sócrates, Querefonte está tentando

fazer a pergunta, ou desviando-se dela, diante da resposta de Górgias, parece realmente que não vai ter escapatória, pois em alto e bom som, o expositor reafirma: “É verdade, Querefonte; foi isso mesmo que declarei a pouco, e posso assegurar-te que há muitos anos ninguém me apresentou uma questão nova” (448 a).

No entanto, antes que Querefonte, sem saída, pudesse dirigir a

Górgias a pergunta de Sócrates, eis que surge Polo, quase que do nada, pronto para salvar os dois, como em prova de amizade, oferecendo-se para o sacrifício. A dita pergunta, que seja dirigida a ele. Afinal de contas, “Górgias deve estar cansado de tanto falar” (448 a). Querefonte inicia um protesto, mas logo aquiesce, passando então a dirigir-se a Polo, ainda que continue sendo a tékhne de Górgias o que está em questão.

Seguindo o exemplo de Sócrates, assim como o médico recebe

este nome justamente pelo exercício da sua tékhne própria, assim como o pintor também recebe o seu nome pela especificidade do conhecimento (epistéme) da sua tékhne, qual será então o nome específico da tékhne de Górgias, aquela pela qual o leontino será denominado? (Cf. 448 b-c). Aí está, feita por Querefonte, não apenas a pergunta de Sócrates, mas também o modelo para a sua resposta: simples. Porém, escutem só a resposta de Polo:

 

Querefonte, no mundo há muitas artes experimentais que a experiência descobriu. A experiência faz que nossa vida seja dirigida de acordo com a arte, e a inexperiência a entrega ao acaso. Uns são proficientes numas; outros, noutras; cada um a seu modo; os melhores o são nas melhores. Górgias é um destes e participa da mais bela das artes (448 c).

 

Pelo que se vê, Polo falou, falou e falou, mas, no fundo,

praticamente não disse nada. Ou, no mínimo, não respondeu a pergunta socrática socraticamente. Aproveitando a ocasião, antes de qualquer coisa, para, como se diz, puxar o saco do professor, bajulando-o. Mas, para prosseguirmos, talvez aqui convenha um pequeno intervalo. Intervalo para tentarmos compreender o que é que está acontecendo. Pois pode nos causar uma certa estranheza o fato de Polo, primeiro, não deixar que o próprio Górgias responda a questão, segundo, que ele, ao respondê-la, não o faça de maneira simples, como o modelo socrático sugerido. Não seria de fato mais simples? Haveria algum problema em fazê-lo? Por que então ficar enrolando? Afinal de contas, como até já foi dito aqui, naqueles tempos Górgias já não era conhecido por sua capacidade de lidar com as palavras? Não foi justamente na condição de rétor que acabara de fazer a sua exposição, evento público de versatilidade e eloquência oratória? Até aqui, ao que tudo indica, é a presença de Sócrates que parece impor aquele pequeno rol de amigos, reunidos no momento em torno de Górgias, certo recato. Certo receio de que a retórica surja, ali, diante dos dois, de Górgias e Sócrates, como uma questão. Parece que ninguém está muito disposto a dizer de fato o que é que a retórica é, e, por extensão, o que é que é aquele que a ensina. Se o tipo de exposição (epídeiksis) feita por Górgias já tinha lá a sua fama, a conversação (diáleksis) proposta por Sócrates, ao que parece, já não era desconhecida. Inclusive, muito provavelmente, pela sua impertinência. Talvez por isso, até aqui, parece que o diálogo quase que não começou, arrastando-se por um longo preâmbulo. Mais ou menos como as palavras de Polo – o lugar onde paramos – parecem exemplar. Porém, sabemos que daqui em diante a coisa vai mudar. Com Sócrates e Górgias vindo para frente da cena, o diálogo parece que engrena. O breve intervalo se encerra. Vejamos então o que podemos ouvir.