Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Uma leitura do Górgias de Platão
O rétor e o filósofo
Mas não esqueçamos que foi Platão, através do seu Górgias,
quem nos trouxe até aqui, deixando-nos à disposição o remédio, e o mais provável é que ele não possa fazer mais nada.
O RÉTOR E O FILÓSOFO
No Górgias, o terceiro diálogo mais longo escrito por Platão, que
perde neste quesito apenas para a República e as Leis, muitas coisas estando em questão podem ser vistas. Mas, fundamentalmente, o que não sai da cena, estruturando o drama, é a delimitação da oposição entre dois modos distintos de inserção política. O que certamente inclui a pergunta sobre que tipo de indivíduo deve governar a pólis: o rétor ou o filósofo? Rétor, sendo palavra, como não poderia deixar de ser, comporta uma boa dose de polissemia. No nosso diálogo, quando usada em referência a Górgias, significa professor, mais precisamente, professor de retórica. No entanto, quando usada em referência a Cálicles tem outro significado. Neste caso, rétor é o político-orador. Na presente anotação, o rétor do nosso título é este, cujo modelo é o personagem Cálicles: o político-orador que sustenta a democracia, capaz de seduzir com seus discursos públicos a assembleia lotada. Já o filósofo, cujo modelo, todo mundo sabe, é Sócrates, não se insere democraticamente na comunidade, ainda que também seja capaz de sedução, não o faz através de discursos públicos, mas, sim, de conversas privadas. No entanto, o rétor, discursando em público, busca satisfazer apenas os seus interesses privados. Enquanto o filósofo, falando de maneira privada para poucos, visa tão somente os interesses públicos, buscando o bem comum. Para o rétor o importante é saber manusear a linguagem, moldando-a conforme as conveniências do momento. Para o filósofo é preciso saber seguir o lógos da linguagem, deixando-se moldar por ele.
Como se percebe, realmente distintos, rétor e filósofo são como
dois bicudos que não se beijam. No cerne de tal distinção, duas concepções de vida incompatíveis. No entanto, existe algo em comum entre eles. Algo que faz deles sujeitos bem semelhantes. Ambos almejam o poder. O poder de governar a cidade, gerindo, assim, o destino da população. E, neste aspecto, ao que tudo indica, é o rétor quem, no momento, parece levar vantagem, pois o seu modo de agir está plenamente adequado às exigências do momento, às situações fáticas da política de então. À época do nosso diálogo, na pólis democrática, eram os retores que estavam em condições de disputar o poder, uma vez que o rétor está em seu meio próprio; já o filósofo é um tipo um tanto quanto deslocado. Talvez seja por isso que cair no buraco seja uma das suas possibilidades mais próprias, conforme a piada do Teeteto (Cf. 174 a-b).
Mas como o rétor consegue impor sua vontade aos demais? Pois
bem, persuadindo-os através dos seus discursos. O político-orador deve ganhar a confiança dos cidadãos ao ponto de convencê-los de que segui-lo é o melhor negócio. Como é que ele consegue isto: que a maioria aceite as suas palavras? Qual é a sua técnica?
Ora, o rétor diz apenas e tão somente aquilo que o povo quer
ouvir.
Para o filósofo, seu rival, agindo assim, não possui técnica
alguma, sendo antes apenas um bajulador. O primeiro indício de uma técnica é que ela esteja voltada para a consecução específica de um determinado bem. Não se é sapateiro para produzir calçados ruins. E, se o que está em jogo é o governo da cidade, deve haver uma técnica política que esteja necessariamente voltada para o bem da cidade como um todo. Contudo, diferentemente do filósofo, que procura, acima de tudo, um fundamento para as suas ações, o rétor não age a partir de princípio algum. A não ser que possamos considerar o prazer, a satisfação pessoal, como um princípio, o que seria um absurdo para o filósofo, pois um princípio, para ser de fato um princípio, deve ser necessariamente estável para servir de fundamento. Ou seja, deve ser o solo comum que sustenta os passos de cada um dos integrantes do todo. E o prazer, ligado às particularidades da sensibilidade concupiscível individual, não possui estabilidade alguma, não servindo para regular nem a vida do indivíduo nem a vida da cidade. Pelo contrário, se cada um fizer apenas o que lhe agrada é praticamente impossível estabelecer o bem comum. A busca insensata e desenfreada pelo prazer, vida centrada única e exclusivamente no indivíduo, na sua satisfação pessoal, no fundo é incompatível com qualquer projeto de sociedade que tenha a justiça como meta fundamental, ou seja, uma sociedade em que o bem individual esteja coadunado com o bem comum. Afinal, realmente, como constituir uma sociedade saudável se, como se diz, cada um cada um?
No entanto, se o filósofo tem razão, e, de fato, o rétor não possui
uma técnica efetivamente apropriada para o governo da cidade, ignorando o que seja o bem comum, também é certo que a grande massa que ele deseja governar, cada um que a constitui, também não conhece uma técnica epistemológica apropriadamente adequada para o gerenciamento da pólis em sua devida integralidade orgânica. Dessa maneira, no mais das vezes, cada um acaba querendo apenas aquilo que satisfaça os desejos imediatos da sua volição particular, cabendo ao rétor, portanto, identificar os desejos da maioria, para não contrariá-los nunca, quer a realização de tais desejos seja um bem para a cidade ou a sua ruína. Não importa. Até mesmo porque, ao que tudo indica, praticamente ninguém sabe ao certo o que é que seria exatamente o referido bem. Aliás, talvez seja até mesmo provável que a ignorância da massa seja tamanha que eles não saibam nem ao certo o que é que eles mesmos querem. Ou ainda, quem sabe, a carestia da população quiçá seja tanta, mas tanta, que ela acabe se contentando com pouco, com muito pouco.
Sendo assim, é evidente que, se formos justos e pios, não
devemos esperar dos pobres que beiram a miséria que sejam sensatos e serenos. Contudo, sem tais virtudes harmonicamente conjugadas, para o filósofo, é impossível manter a saúde da alma, quer do indivíduo quer da cidade. Devemos pensar, portanto, que, sem uma base fisiológica adequada, sem uma base educacional comum, parece impossível que uma cidade consiga efetivamente ser feliz. E efetivamente feliz significa dizer: sem que a satisfação dos desejos de uns poucos anule as necessidades de tantos.
Então, em uma sociedade assim como a de Cálicles, em que o
político, em relação à massa, age tão somente como o confeiteiro que busca acima de tudo agradar as crianças, empanturrando-as de açúcar, o que é que podemos esperar do filósofo, o que é que ele pode fazer? Além, é claro, de denunciar o status quo vigente, é possível mudá-lo? Mas como? Será que é justo ficar achando que está tudo errado, sem mexer, no entanto, uma palha para que as coisas mudem?
Como vimos, o filósofo não é um tipo popular. Pensando de
maneira radicalmente diferente do que pensa a grande maioria, como conseguirá inserir-se no governo da pólis democrática? Aprendendo a bajular o povo? Fazendo belos discursos que lhes adoce a vontade? Dizendo apenas e tão somente aquilo que a maior parte da população quer ouvir, sem se preocupar nunca com a verdade do que foi dito? Mas isso seria seguir o conselho de Cálicles para esquecer definitivamente a filosofia, reconhecendo que, embora possa servir para bonito, na efetividade da prática política, no convívio democrático do dia a dia, de fato ela não serve para nada.
Se o filósofo, contudo, não está disposto a bajular ninguém,
dizendo, antes, aquilo que pouquíssimos são capazes de ouvir, o que é que lhe resta fazer? Se continuar falando o que pensa em praça pública, o mais certo é que a população lhe ofereça uma boa dose de cicuta. Platão, sabemos, considerando as vias retóricas da política democrática convencional tão corrompidas pelo mal do individualismo extremo, ao ponto de obstruir a possibilidade da ação filosófica, retirou-se da vida política convencional. Contudo, sem deixar nunca de pensar no bem da pólis, fundou uma escola, a Academia. Afinal, pensar é a tarefa mais própria de quem filosofa. No entanto, pensar filosoficamente nunca é apenas e tão somente dizer aquilo que se quer dizer, havendo, assim, a necessidade do seu aprendizado. Pensar é entrar em harmonia geométrica com a ordenação do universo e deixar que ele mesmo fale. Por isso, pode-se dizer que, com o intuito de preparar filósofos, ou seja, chefes de Estado verdadeiramente virtuoso, investigar as relações geométricas cósmicas, harmonizando-se com elas, era o programa mais geral da Academia. Sendo assim, formar verdadeiros políticos, detentores de uma técnica epistemológica adequada para o exercício do poder na pólis, foi a maneira encontrada por Platão para agir politicamente. Dentro do mesmo contexto pedagógico, escrever diálogos também. Afinal de contas, para o Mestre da Academia, “os males do gênero humano não cessarão até que os filósofos puros e autênticos ocupem o poder, ou que os que exercem o poder nas cidades cheguem a ser filósofos verdadeiros” (Carta VII, 326 a-b).
Porém, como o Górgias nos faz notar, para ser verdadeiramente
filósofo, ao ponto de poder dominar a cidade, é preciso, antes de tudo, ter dominado a si mesmo. Coisa que Cálicles, durante todo o diálogo, não consegue fazer. E é um contrassenso que aquele que é incapaz de governar-se queira governar os demais. Contudo, implicando a conversão dos desejos mais profundos da nossa alma, autogovernar-se parece não ser algo que se realize tão facilmente, requerendo, até mesmo, uma boa dose de dores e sofrimento. Lembremos do sacrifício do prisioneiro para desprender-se das correntes da caverna (Cf. Rep., VII). Sacrifício de si em vista do bem, que é necessariamente comum. Ao que tudo indica, para
filósofos, “a renúncia não tira. A renúncia dá” 209. Mas dá o quê? Uma bela taça de cicuta?
Ora, responde Heidegger, “dá a força inesgotável do simples”.
Contudo, o simples, além de visitar “os homens
inesperadamente” 210, “carece de longo tempo para crescer e
amadurecer”211. Muito provavelmente o tempo de toda uma vida filosoficamente vivida.
Mas quem é que nos garante que as coisas sejam realmente
assim? Que a vida proposta pelo filósofo seja verdadeiramente uma vida feliz? Será que não é o rétor quem tem razão? Não deveríamos apenas nos preocupar em aproveitar ao máximo os complexos prazeres da vida, buscando “adquirir riqueza, fama e grande cópia dos mais variados bens” (486 d)? Para que tanta renúncia? Assim, tão obstinadamente, pensando e vivendo diferentemente dos modos da maioria, o que é que o filósofo ganha com isso? A força inesgotável do simples? Mas isto não é, como Cálicles afirma no nosso diálogo, apenas um amontoado de “palavrório sem valor” (486 c)? Falando assim, o filósofo não parece mais um poeta? E, como tal, aquilo que propõe, por fim, não passa de um mito?
A julgar pelo final do Górgias, parece que sim. Contudo, não nos
deslumbremos tanto com a beleza das palavras míticas do filósofo, ao ponto de esquecermos todo o trabalho lógico da diáleksis (conversação) socrática realizado durante o longo diálogo. Trabalho lógico capaz de sobrepujar os argumentos de Górgias, Pólo e Cálicles, “os mais sábios Helenos” (Górgias, 527 b) de então. Estabelecendo que, por fim, “cada um de nós deve esforçar-se, acima de tudo, não para parecer que é bom, mas para sê-lo realmente, tanto na vida particular como na pública” (Górgias, 527 b).
Para tanto, é preciso serenidade e coragem para desprender-se,
antes de tudo, do medo do julgamento da maioria, pois a maioria parece olhar sempre com uma certa desconfiança para aqueles que renunciam aos seus valores. Sendo assim, além de cair no buraco, uma das possibilidades mais próprias de quem filosofa talvez seja mesmo, como Cálicles alerta, acabar morando “em uma casa vazia” (Górgias, 486 c). Porém, no Górgias, o filósofo nos assegura que a sua é verdadeiramente a vida feliz. E que, portanto, antes só, do que acompanhado pelo mal.
Mas será que ainda há alguém suscetível às palavras do filósofo,
capaz de sacrificar-se pela filosofia? O mais provável é que sim. Pois então, desejemos com sinceridade que os impelidos pelo lógos filosófico sejam capazes de arriscar, nem que seja um primeiro passo.