Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Uma leitura do Górgias de Platão
Apêndice
ANOTAÇÕES SOBRE O GÓRGIAS
PLATÃO E AS DOENÇAS DA ALMA
“Guarda-te de ti mesmo, assim terás guardado bem” 202.
Eis uma imagem que, entre outras tantas, encontramos no diálogo
Górgias, escrito por Platão: tal qual o médico deve tratar o corpo enfermo, é assumindo a posição de médico da alma que o filósofo deve assumir o seu papel social. Pois alguém tem que fazer alguma coisa em vista do bem comum e, pelo menos para o mestre da Academia, esse só pode ser o filósofo que, no direcionamento de uma vida, adquiriu, através de muito esforço e coragem, a tékhne apropriada para tanto, a própria filosofia, que deve culminar na epistéme (conhecimento) do bem. O que não se dá, portanto, por nenhuma via rápida, mas antes, pela longa escadaria de uma ascese determinada, capaz de destruir-nos antes da restauração – a reconquista de um lar onde possamos habitar. “A renúncia não tira.
A renúncia dá” 203.
É assim que, para Platão, o filósofo é o único profissional
habilitado (tekhnikós) para tratar de uma sociedade enferma, em que cada um só procura obter para si mesmo o maior número possível de satisfação pessoal. Ainda que, dessa maneira, nunca consigamos ficar plenamente satisfeitos. Condenados que somos a viver, assim, como aquele que tem que manter sempre cheio até a boca um barril repleto de furos, como nos mostra outra imagem do referido diálogo; ou como o roqueiro que, apesar do avançar dos anos, não consegue deixar de cantar “I can’t get no satisfaction/cause I try and I try and I try and I try”.
Ora, mas para tratar o doente é preciso, primeiro, identificar quais
são as suas possíveis doenças. Complexo que é o corpo, as suas doenças, sabemos, são muitas e as mais variadas. Já a alma, sendo mais simples, é passível de quatro doenças fundamentais: a insensatez, a intemperança, a injustiça e a impiedade. Contudo, note-se bem, para Platão, o doente não é aquele que sofre, por exemplo, uma injustiça imposta por outrem, mas, sobretudo, aquele que a comete. Tanto quanto aquele que é intemperante, injusto e ímpio é que padece com as suas próprias ações mórbidas correspondentes. Porém, também fiquemos atentos para o seguinte: tal como no corpo que, sendo um organismo, uma determinada doença, ainda que especificadamente localizada, é capaz de afetá-lo por inteiro, o mesmo se passa com a alma, havendo nela, talvez, uma interconexão ainda mais efetiva entre as suas possíveis doenças. Com o que podemos supor que, em se tratando da psykhé, raramente se está acometido por uma enfermidade só. Ao que tudo indica, a alma doente padece sempre por inteiro.
No entanto, ainda que estejam intimamente interconectadas, ou
talvez por isso mesmo, é preciso saber distingui-las, dizendo o que cada uma das doenças é. Comecemos esclarecendo então, ainda que sumariamente, a insensatez. Dos doentes da alma, o insensato (anóetos) é aquele que não pensa e que, consequentemente, age irrefletidamente, sem conseguir manter-se, nunca, na persistência de um projeto (noûs). O intemperante (akólastos) é aquele que, não tendo moderação alguma, é incapaz de refrear seus desejos, sejam eles nocivos ou não, agindo sempre por impulsão. Já o injusto (ádikos) é, fundamentalmente, o desordenado, aquele que, incapaz de seguir regra alguma, não direciona sua vida por princípio algum, agindo sempre conforme o acaso das circunstâncias, em desarmonia não apenas em relação aos outros, mas, antes de tudo, em desarmonia consigo mesmo. Por fim o ímpio (anósios), aquele que vive sem levar em consideração o numinoso. Aquilo que de divino pode haver na vida, negando a possibilidade do transcendente, aferroado, única e tão somente, à animalidade humana.
Como podemos notar, doenças que estão realmente
interconectadas, pois só aquele que não pensa é incapaz de refrear seus impulsos, não impondo regra alguma aos seus instintos, vivendo, assim, tão somente, como um animal. Talvez até mesmo como o pior de todos eles.
Mas como saber que estou doente? Afinal, apontar as mazelas
dos outros é fácil, e sabemos o quanto a nossa psykhé é capaz de esconder-se, ocultando-nos de nós mesmos aquilo que somos. Evidentemente que é aqui que ganha toda força significativa o adágio pelo qual a filosofia do mestre de Platão ficou conhecida: conhece-te a ti mesmo. Ora, mas como? Esquecendo de si, das particularidades imediatas dos nossos próprios desejos, não dando ouvidos ao ego, que no fundo talvez seja a maior de todas as ilusões; justamente aquilo que talvez menos se assemelhe a nós
mesmos. Como diz outro mestre 204, devemos ouvir, antes, aquilo que é comum, e que, portanto, perpassa todas as coisas, conferindo harmonia entre disposições opostas, o lógos. Pois só o lógos é capaz de identificar e livrar-nos da febre ardente da alma, que nos faz queimar por inteiro, que é a contradição – da alma, não das palavras. Contra a contradição, só o lógos é decisivo, sendo o phármakon adequado para as moléstias da psykhé, sendo que é preciso, antes de argumentar contra os outros, argumentar contra si mesmo, tirando a trave do próprio olhar.
As enfermidades da alma podem, portanto, ser curadas, mas
somente quando deixamo-nos submeter a um tratamento lógico, por mais dolorido que ele possa ser. Mas insisto, porque Platão, no Górgias, não nos deixa esquecer: o tratamento para ser eficaz deve atingir a interioridade da alma e não ficar apenas na superficialidade das palavras. Só assim somos capazes de, vivenciando a simplicidade do todo comum, “quando a palavra fala na alma e a
alma responde na palavra” 205, percebermo-nos em conjunção. ; ou seja, nas palavras do filósofo, “que o céu e a terra, os deuses e os homens estão ligados entre si pelo amor, decoro, temperança e
justiça” 206. Razão pela qual chamamos este ser conjunto – o mundo
– de 207 kósmos. No dizer semelhante de outro filósofo, “este jogo em espelho, onde se apropria a simplicidade de terra e céu, de
mortais e imortais” 208.
Por fim, se como dissemos no começo, instigados que fomos por
Platão, que é assumindo a função de médico da alma que o filósofo deve assumir o seu papel social, pelo que pudemos perceber, para tanto, é preciso, primeiro, que ele mesmo já tenha se submetido ao seu próprio tratamento, provando o amargor do seu próprio remédio. Remédio que nunca pode ser ministrado em dose única, mas de uma administração regular e constante por um bom tempo, até que comece a fazer significativamente seus efeitos. Na verdade, sendo crônicas as doenças da alma, o tratamento deve durar por toda vida, mesmo depois de já controladas a insensatez, a intemperança, a injustiça e a impiedade. Talvez seja por isso que um filósofo demore tanto para aparecer. Consciente das suas mazelas parece que tem vergonha de sair por aí, apressadamente, propondo tirar o argueiro dos olhos dos outros, quando a sua própria visão ainda está obliterada, procurando, desse modo, agir de maneira sensata e temperante, almejando ser justo e pio, querendo primeiro curar-se a si mesmo. Portanto, se há de fato o tempo de plantar e o de colher, é preciso, então, saber esperar, pois é bem provável que a esperança também faça parte do cuidado de si.