Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Uma leitura do Górgias de Platão

Considerações Finais

 

Se Pierre Hadot tem razão ao dizer que a filosofia dialógica de

Platão “é já uma escolha de vida”196, em que “viver de modo filosófico é, principalmente, voltar-se para a vida intelectual e espiritual, realizando uma conversão que põe em jogo ‘toda a alma’,

isto é, toda a vida moral” 197, o diálogo Górgias talvez possa ser considerado o paradigma de tal atitude perante a vida. O que pode ser ilustrado pela história que Themistius nos transmite, que teria sido recolhida em um diálogo perdido de Aristóteles. Tal história relata o impacto que a leitura do Górgias provocou em um agricultor coríntio que, depois de lê-lo, largou a lavoura para dedicar sua vida

à filosofia 198.

Lendo o diálogo pudemos compreender quais são as

especificidades próprias da dita vida filosófica e as suas interconexões com a questão do poder político na pólis democrática de então.

Fundamental para a nossa leitura foi perceber que o diálogo

inteiro “apresenta um conflito entre dois modos de vida, o do filósofo

e o do 199 político-orador ”. Dois modos de vida que, conforme o diálogo avança, vão se tornando, por contraposição, cada vez mais claros; tanto quanto vai ficando cada vez mais clara a subordinação das diversas questões que permeiam o texto – como a retórica, a epídeiksis, a diáleksis, a tékhne, a epistéme, o poder, a política, a justiça, a temperança, a coragem, a piedade, a felicidade, o bem, dentre outros – à questão da vida e, mais especificamente, à questão da vida filosófica. Muito provavelmente por isto, por ser a vida que esteja em questão no diálogo, é que as refutações socráticas tenham sido “originalmente mais um teste de pessoas do que de proposições: Sócrates examina seus interlocutores para ver se suas vidas estão em harmonia com os seus princípios

admitidos”200. Sendo que, tanto a refutação de Górgias quanto a de Polo e Cálicles revelaram, justamente, “a incoerência entre a vida e

a doutrina dos interlocutores” 201. Exatamente em oposição a Sócrates, que mostrou durante todo o transcorrer do diálogo, de maneira cada vez mais explícita, a coerência entre a sua fala e a sua vida.

Assim, espera-se que, ao final, possamos responder à pergunta

com a qual iniciamos a nossa leitura? Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Alguém arrisca ser o primeiro? Se servir de alento, não se esqueça, quem ri do filósofo é sempre a escrava da Trácia.