Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Uma leitura do Górgias de Platão

Preparando a leitura

 

Leremos o Górgias, estudaremos um diálogo de Platão. Assim, a

primeira coisa que devemos fazer é tentar explicitar os pressupostos da leitura que pretendemos fazer. Pois, se diante dos quase trinta diálogos hoje considerados autenticamente escritos pelo filósofo, escolhemos um, não o fizemos a esmo. Evidentemente, temos lá nossas razões. Antes de tudo, queremos compreender as razões de Cálicles, ou ainda, de uma forma mais direta, queremos mesmo é saber se Cálicles tem razão. Mas quem é Cálicles e qual é o seu papel no referido diálogo para que, com ele, nos preocupemos tanto?

Ora, Cálicles é personagem do diálogo Górgias de Platão. Não é

o único. No texto encontraremos mais quatro. Cada um deles facilmente identificável com o ser histórico que foi e que, mimetizados por Platão, nos diálogos, tornam-se personagens. Górgias, nascido em Leontina, na Sicília, por volta de 485/480 a.C., célebre e riquíssimo professor de retórica. Dos seus escritos que

chegaram até nós 26, Sobre a Natureza ou Sobre o Não-ser, tornou-

se o mais conhecido 27. Filóstrato deixou-nos um retrato entusiasmado do leontino:

 

Ele liderou o movimento dos sofistas pela sua maneira assombrosa de falar, pela sua inspiração e pela interpretação grandiosa de grandiosos assuntos, pelas suas interrupções bruscas e pelas ausências de transição, que tornam o discurso mais agradável e mais incisivo, e ornamentou-o, além disso, com nomes poéticos, para conferir beleza e

gravidade 28.

 

Por sua vez, discípulo de Górgias, Polo, assim como seu mestre,

também “é uma figura histórica”29 da Sicília, que ensinava retórica e

escrevia sobre a questão 30. Querefonte é reconhecidamente um amigo de infância de Sócrates, aquele mesmo que, segundo a Apologia, teria feito a pergunta sobre a sabedoria de Sócrates ao

oráculo de Delfos 31 e que Aristófanes frequentemente ridicularizava

em suas comédias32. Sócrates, sabemos, é o Filósofo. Filho de Sofronisco e Fenarete e que a condenação à morte em 399 a.C. tanto impressionou o ainda jovem Platão. Mas e Cálicles? Quem é ele?

Ainda que possamos sentir quando fala o pulsar do sangue

correndo-lhe quente nas veias e o hálito nervoso, ao que tudo indica, diferentemente dos outros personagens do nosso diálogo, ao Cálicles do Górgias, pelo menos de maneira diretamente identificável, não corresponde nenhum ser pessoal historicamente

dado. O que é extremamente raro nos 33 Diálogos. Por isso podemos dizer que Cálicles, mais propriamente do que os outros participantes nomeados por Platão no Górgias, é fundamentalmente um personagem. Fato este que, ao que tudo indica, tem intrigado muitos estudiosos, levando-os, talvez pelo inusitado, a procurar uma personalidade historicamente determinável por detrás do nome

Cálicles34.

Para uns, “facilmente identificável”35, é Alcibíades quem, com

mais probabilidade, é ocultado pelo criptônimo36. Para outros é

Demo 37. Há quem diga que é Crítias, o tio de Platão, a

personalidade oculta sob o nome de Cálicles38. Assim, diante de tantas possibilidades, sem que possamos decidirmo-nos necessariamente por uma delas apenas, cabe aqui, ainda mais outra: “é muito provável que o Cálicles personagem tenha sido

elaborado pela condensação de múltiplas figuras” 39. Sem esquecer, contudo, que, “sendo uma criação de Platão, é de supor-se que o

personagem inclua alguns de seus próprios pensamentos” 40.

É claro que, para o nosso estudo, toda essa questão da

identidade de Cálicles é um tanto quanto colateral. No fundo, no fundo mesmo, o que importa para nós não é tanto saber quem é Cálicles, mas, sim, o que é que ele disse para o filósofo no diálogo que, ainda hoje, é capaz de nos deixar tão espantados. Pois, se há quem diga que “o Górgias é o mais moderno dos diálogos de

Platão” 41, certamente, é o discurso de Cálicles que, com mais propriedade, lhe confere esta modernidade. Ainda hoje, ou sobretudo hoje, todo aquele que se decide pela filosofia, tal qual fez Platão um dia, mais cedo ou mais tarde, são as palavras de Cálicles que terá que enfrentar.

No entanto, ainda que tomemos explicitamente o dito discurso de

Cálicles como o ponto alto do Górgias, não podemos esquecer que lê mal um diálogo de Platão quem não o lê por inteiro, em sua integralidade orgânica. Como nos lembra Scolnicov, “um diálogo, como uma peça de teatro, avança passo a passo, e deve ser lido sequencialmente, na ordem em que ele se desenrola à nossa

frente” 42. Tomar Platão por excertos, ainda que não raro, é o mais temerário método para a compreensão do que escreveu o filósofo. É por isso que, ainda que no diálogo que leva o nome do celebérrimo sofista Górgias, seja Cálicles quem roube a cena, nos espantando tanto, não nos fixaremos apenas naquilo que disse este intrigante personagem, “porta-voz do mais profundo questionamento da

filosofia socrática”43. Se o dito discurso de Cálicles faz parte do Górgias, é o Górgias que devemos ler como um todo para que a dita parte exale todo o seu sentido.

Então devemos perguntar: o que é que se discute no Górgias para

que Cálicles possa inserir ali o seu discurso? Sobre o que é que falam os personagens? Qual é o tema do Diálogo?

Ora, se formos seguir aqueles subtítulos que, conforme Diógenes

Laércio, já desde Trásilo de Alexandria, acompanham algumas edições dos Diálogos de Platão, teremos que afirmar que, no Górgias, o filósofo trata da Retórica. Afinal, não é Górgias, o grande rétor, quem nomeia o Diálogo? No entanto, a julgar pelas palavras de Olimpiodoro, já na antiguidade havia dúvidas quanto à temática do Górgias, pois “alguns dizem que o seu objetivo é tratar sobre a

retórica, outros que é uma discussão sobre o justo e o injusto”44. Dúvidas essas que, ao que tudo indica, os mais próximos de nós no tempo ainda não dirimiram. Pois, se para Magalhães-Vilhena, trata-

se de “uma apologia apaixonada da justiça”45, para Grube é mesmo

“uma discussão sobre a retórica e o seu papel dentro do Estado” 46.

Já para Crombie, diferentemente, “o tema do Górgias é o poder”47. No entanto, sem esquecer que, dentro de uma perspectiva socrática, “o autêntico poder provem somente do conhecimento de

como viver” 48.

Talvez assim, apesar das dúvidas, estejamos de fato nos

aproximando do texto que em breve leremos. Lá, onde Sócrates, a julgar pelas palavras de Charles Kahn, defende “não apenas os

seus princípios morais, mas o seu estilo de vida como um todo” 49, ou seja, a filosofia. No Górgias, ao que tudo indica, vida e filosofia fundem-se e confundem-se, talvez mais do que em qualquer outro diálogo de Platão.

Assim, no texto, sendo a vida que está em jogo, é bem provável

que seja por isso que “sempre se destacou o fato de que foi escrito

apaixonadamente” 50. Tonalidade afetiva esta, a paixão, muito

provavelmente oriunda de uma crise pessoal do autor 51, pelo que José Vives nos diz: encontraremos no Górgias um “tom pessoal novo: como que uma convicção apaixonada de que se está debatendo algo vital, algo que pode ter consequências funestas

imediatas”52. Platão, como diríamos hoje, em meio à crise da meia-idade, como observa Guthrie, parece perguntar para si mesmo:

“como devo viver?” 53. Ou, dito de outra forma: mas, afinal, para quê, então, filosofia?

Se toda crise pessoal reclama uma decisão que inclui, no mínimo,

um redirecionamento das nossas tonalidades afetivas, ou até mesmo uma ruptura capaz de instaurar-nos em uma nova posição, ao que tudo indica, confirmando o que se diz, de fato, alguma coisa parece ter mudado na vida de Platão quando da composição do Górgias. Nele encontraremos um filósofo “diferente do nosso velho conhecido dos primeiros Diálogos, em que a discussão terminava

quase sempre em aporia”54. Ainda escutando Carlos Alberto Nunes, no Górgias, “o que de início impressiona é a diferença de estilo com

relação aos escritos anteriores” 55. Diferença essa que parece demarcar, efetivamente, uma nova fase – ou, pelo menos, a disposição necessária para tal –, tanto na vida quanto na filosofia de Platão.

É assim que, cronologicamente, o Górgias costuma ser colocado

como o primeiro 56 Diálogo da chamada fase de transição (388-385).

Tendo como fatos marcantes aproximados, além dos já ditos quarenta anos de idade do nosso filósofo, o retorno de sua primeira viagem à Sicília, bem como a fundação da Academia. Acontecimentos esses, evidentemente, não de pouca monta.

Quanto a sua autenticidade, fiquemos tranquilos, não restam

dúvidas – praticamente nunca houve. Tendo passado incólume até mesmo pela cerrada crítica filológica do século XIX, temos pela

frente a leitura de um autêntico 57 Diálogo de Platão.

Sendo um dos seus textos mais extensos – perdendo nesse

quesito apenas para a República e as Leis –, é certamente, também, um dos escritos mais marcantes do filósofo. Pelo que, talvez, sejamos nós que, ao transpassá-lo, não o façamos incólumes. Então, não percamos mais tempo. Leiamos, pois, o Diálogo, para que possamos saber, por nós mesmos, o que é que no Górgias dizem os personagens. Sobretudo aquele que nos impressiona tanto, Cálicles.

Veja! É justamente a voz de Cálicles que se ouve por primeiro.

Façamos silêncio, abriu-se o pano, ouçamo-los, então.