Mas, afinal, para quê, então, filosofia? Uma leitura do Górgias de Platão
Ficha catalográfica
REVISÃO DOS Fausto dos Santos Amaral Filho
TEXTOS
REVISÃO Marlei Maria Diedrich
FINAL
PROJETO Mariah Carraro Smaniotto
GRÁFICO E
DIAGRAMAÇÃO
CAPA Felipe Stanque Machado Junior
FOTO DA CAPA Brian Merrill / Pixabay (CC BY-SA 2.0 Creative Commons).
Disponível em: <https://pixabay.com/pt/pe%C3%B5es-pessoas-ocupado-circulação-400811/>. Acessado em dez. 2018.
DIVULGAÇÃO Diretoria de Comunicação
FORMATOS Impresso, EPUB, MOBI E PDF
A485m Amaral Filho, Fausto dos Santos
Mas, afinal, para quê, então, filosofia? [livro eletrônico] Uma
leitura do Górgias de Platão. / Fausto dos Santos Amaral Filho
Chapecó: Ed. UFFS, 2018.
ISBN: 978-85-64905-88-7 (EPUB)
1. Filosofia - Estudo e ensino. 2. Platão. I. Título. II. Título: Uma leitura do Górgias de Platão.
CDD: 101
107
184
Ficha catalográfica elaborada pela
Divisão de Bibliotecas – UFFS
Nelcy T. da Rosa Kegler
CRB – 14/1311
Versão digital: janeiro de 2021
Notes
1. HEIDEGGER, Martin. Que é uma coisa? Lisboa: Edições 70,
2002, p. 15.
↵
2. DIÓGENES LAÉRCIO, I, 27.
↵
3. “Platão gostava de ridicularizar os Pré-Socráticos, facto que,
apesar de verdadeiro, tem sido frequentemente ignorado na
interpretação de certos passo menos claros” (KIRK, G, S.;
RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, M. Os Filósofos Pré-Socráticos.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, p. 78).
↵
4. “É o mesmo que se conta de Tales, Teodoro. Estando ele a
observar os astros, caiu dentro de um poço porque tinha os
olhos postos no céu. Uma serva da Trácia, esperta e cheia de
bom humor, pôs-se a troçar dele, conta-se, dizendo que Tales
punha todo o entusiasmo em saber o que se passava no céu e
não prestava atenção às coisas que tinha diante de si e debaixo
dos pés. A mesma troça aplica-se a todos os que passam a
vida a filosofar” (Teeteto, 174 a).
↵
5. ÉPICTÈTE. Entretiens, III, 21, 23.
↵
6. ARISTÓTELES, Met., A, 2, 982 b.
↵
7. HEIDEGGER, Martin. Que é isto – a filosofia? São Paulo:
Livraria Duas Cidades, 1971, p. 36.
↵
8. WITTGENSTEIN, Ludwig. Cultura e Valor. Lisboa: Edições 70,
1996, p. 66.
↵
9. ARISTÓTELES. Tópicos, 13, 162 b.
↵
10. ARISTÓTELES. Analíticos Anteriores, 16, 64 b.
↵
11. “[...] se se deve filosofar, deve-se filosofar, e se não se deve
filosofar, deve-se igualmente filosofar; em qualquer caso,
portanto, deve-se filosofar; se, de fato, a filosofia existe, somos
obrigados de qualquer modo a filosofar, dado, justamente, que
ela existe; se, ao invés, não existe, também nesse caso somos
obrigados a pesquisar como a filosofia não existe; mas,
pesquisando, filosofamos, porque a pesquisa é a causa da
filosofia” (ARISTÒTELES, Protrético, fr. 2).
↵
12. HEIDEGGER, Martin, op. cit., p. 31.
↵
13. Mas pelo fato de a poesia, em comparação com o pensamento
estar de um modo bem diverso e privilegiado a serviço da
linguagem, nosso encontro que medita sôbre a filosofia é
necessariamente levado a discutir a relação entre pensar e
poetar. Entre ambos, pensar e poetar, impera um oculto
parentesco porque ambos, a serviço da linguagem, intervêm
por ela e por ela se sacrificam” (HEIDEGGER, Martin, op. cit., p.
42).
↵
14. ANTONIO MACHADO. Proverbios y Cantares, XXIX.
↵
15. Cf. PLATÃO. Fedro, 265 a - 266 c.
↵
16. WITTGENSTEIN, Ludwig. Cultura e Valor. Lisboa: Edições 70,
1996, p. 111.
↵
17. A referência aqui é ao chamado Iº Wittgenstein do Tractatus
Logico-Philosophicus.
↵
18. A referência aqui é ao chamado IIº Wittgenstein das
Investigações Filosóficas.
↵
19. HERÁCLITO, fr. 53.
↵
20. ARISTÓTELES. Ét. nic., X, 8.
↵
21. STEIN, Ernildo. Nas Proximidades da Antropologia. Ensaios e
conferências filosóficas. Ijuí: Unijuí, 2003, p. 143.
↵
22. Referência a Martin Heidegger.
↵
23. Referência a Jean-Jacques Rousseau.
↵
24. Referência a Diógenes, o cínico.
↵
25. Cf. Met.,1009 b 35.
↵
26. Em português, podemos encontrar os testemunhos e
fragmentos referentes à obra de Górgias reunidos em:
GÓRGIAS. Testemunhos e Fragmentos. Tradução, comentários
e notas de Manuel Barbosa e Inês e Castro. Lisboa: Edições
Colibri, 1993.
↵
27. Para um estudo do referido escrito de Górgias pode-se verificar:
AMARAL Fº., Fausto dos Santos. Filosofia Aristotélica da
Linguagem. Chapecó: Argos, 2002, p. 69-77.
↵
28. FILÓSTRATO. Vida dos Sofistas. In: Biógrafos gregos. Madrid:
Aguilar, 1973, p. 1394.
↵
29. GUTHRIE, W. K. C. A History of Greek Philosophy. Vol. IV:
Plato. The Man and his Dialogues. Earlier Period. Cambridge
University Press, 1975, p. 285.
↵
30. Platão faz menção aos escritos de Polo tanto no Górgias (462
b) quanto no Fedro (267 c).
↵
31. Cf. Apologia 21 a.
↵
32. Cf. As Nuvens; As Vespas, vv. 1408 – 1412; As Aves, v. 1554.
↵
33. “Todos os caráteres nos diálogos de Platão são pessoas reais,
em sua maioria conhecidos a nós por outras fontes
independentes [...] Há só dois caráteres nomeados em Platão,
sobre os quais não sabemos nada (a distinguir dos caráteres
que não tem nome, como o menino-escravo de Ménon que
aprende a solução de um problema geométrico, ou o Visitante
Eleático nos diálogos tardios Sofista e Político). Diotima, no
Banquete, pode ter sido invenção de Platão; Cálicles, no
Górgias, é um mistério” (SCOLNICOV, Samuel. Como ler um
Diálogo Platônico. In: Hypnos. São Paulo. 2º sem. 2003, p. 51).
↵
34. “A realidade histórica de Cálicles nunca foi positivada. No
entanto, é contrário aos hábitos de Platão criar uma imagem
fictícia com tanta vida e tal acúmulo de particularidades pelo
simples prazer de combatê-la. Debaixo desse nome deve estar
alguém, cuja memória Platão zelava com carinho” (NUNES,
Carlos Alberto. Marginalia Platonica. Belém: EDUFPA, 1973, p.
47).
↵
35. NUNES, Carlos Alberto. Introdução. In: PLATÃO. Protágoras,
Górgias, Fedão. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém:
EDUFPA, 2002, p. 35.
↵
36. “A primeira figura que nos surge à mente, quando atentamos no
significado dos dois termos – kállos e kléos –, é a de Alcibíades,
o belo, alternadamente exaltado ou execrado pela democracia
ateniense” (NUNES, Carlos Alberto. Introdução. In: PLATÃO.
Protágoras, Górgias, Fedão. Tradução de Carlos Alberto Nunes.
Belém: EDUFPA, 2002, p. 35).
↵
37. “Para Schmalenbach o caso é simples: trata-se de Demo, filho
de Pirilampo em primeiras núpcias, que veio a casar-se com
Perictíone, mãe de Platão com seu primeiro marido” (NUNES,
Carlos Alberto. Introdução. In: PLATÃO. Protágoras, Górgias,
Fedão. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA,
2002, p. 36).
↵
38. Cf. MENZEL, Adolf. Calicles. Contribuición a la Historia del
Derecho del Más Fuerte. México: Universidad Autónoma de
México, 1922, p. 116.
↵
39. MOSCONE, Ricardo Oscar. Sócrates: sólo sé de amor. Madrid:
Biblioteca Nueva, 2002, p. 333.
↵
40. Idem.
↵
41. DODDS, Eric Robertson. Plato. Górgias. Oxford, 1959, p. 387.
↵
42. SCOLNICOV, Samuel, op. cit., p. 52.
↵
43. MOSCONE, Ricardo Oscar, op. cit., p. 329.
↵
44. OLYMPIODORUS. Commentary on Plato’s Górgias. Translated
with full notes by Robin Jackson, Kimon Lycos and Harold
Tarrant. Introduction by Harold Tarrant Boston: Brill, 1998.
↵
45. MAGALHÃES-VILHENA, Vasco de.Platão e a Lenda Socrática.
A idealização de Sócrates e o utopismo político de Platão.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p. 237.
↵
46. GRUBE, G. M. A. El Pensamiento de Platón. Madrid: Editorial
Gredos, 1987, p. 91.
↵
47. CROMBIE, I. M. Análisis de las doctrinas de Platón. 1. El
hombre y la sociedad. Madrid: Alianza Editorial, 1988, p. 260.
↵
48. Idem.
↵
49. KAHN, Charles H. Plato and the Socratic Dialogue. The
philosophical use of aliterary form. Cambridge University Press,
1996, p. 126.
↵
50. RUIZ, J. Calange. Introducción. In: PLATÃO. Górgias. Madrid:
Editorial Gredos, 1992, p. 9.
↵
51. “A paixão manifestada no Górgias parece que procede de outro
motivo diferente da morte de Sócrates ou de qualquer outro fato
com ela relacionado. Há que se buscar uma razão distinta.
Provavelmente se trata de uma crise pessoal. Na idade de
quarenta anos, tendo regressado da Sicília, Platão tem
acumulada uma experiência enorme, ainda que pouco
agradável” (RUIZ, J. Calange. Introducción. In: PLATÃO.
Górgias. Madrid: Editorial Gredos, 1992, p. 10).
↵
52. VIVES, José. Génesis y Evolución de la Ética Platónica. Estudio
de las analogías en que se expresa la Ética de Platón. Madrid:
Editorial Gredos, 1970, p. 96.
↵
53. GUTHRIE, W. K. C. A History of Greek Philosophy. Vol. IV:
Plato. The Man and his Dialogues. Earlier Period. Cambridge
University Press, 1975, p. 296.
↵
54. NUNES, Carlos Alberto. Introdução. In: PLATÃO. Protágoras,
Górgias, Fedão. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém:
EDUFPA, 2002, p. 25.
↵
55. NUNES, Carlos Alberto. Marginalia Platonica. Belém: EDUFPA,
1973, p. 46.
↵
56. Para a questão da cronologia dos Diálogos de Platão, pode-se
ver: LLEDÓ, Emilo. La Memoria del Logos. Estudios sobre el
diálogo platónico. Madrid: Taurus, 1996, p. 227-236.
BRANDWOOD, Leonard. Stylometry and chronology.
TheCambridge Companion to Plato. Edited by Richard Kraut.
Cambridge University Press, 1997.
↵
57. “No século passado (XIX), chegou a tal exagero o expurgo da
opulenta herança recebida da antigüidade, que para um
analista de merecimento, Schaarschmidt, só se salvavam nove
diálogos: Protágoras, Górgias, Teeteto, Fedro, O Banquete,
Fedão, República, Timeu e Leis” (NUNES, Carlos Alberto.
Marginalia Platonica. Belém: EDUFPA, 1973, p. 28).
↵
58. O termo epídeiksis, traduzido aqui por exposição, geralmente
era usado justamente para designar o tipo de apresentação
pública que os sofistas, usando e abusando da linguagem,
costumavam fazer de maneira grandiloquente.
↵
59. Apesar dessa diferença, ou mesmo por ela, “salta aos olhos o
paralelismo entre o Górgias e o Protágoras. Górgias de
Leontinos, criador da retórica, na forma em que ela havia de
pautar os últimos decênios do séc. V, é para Platão a
personificação desta arte, tal como Protágoras o é da sofística
no diálogo que tem o seu nome” (JAEGER, Werner. Paidéia. A
Formação do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995,
p. 649).
↵
60. Aqui, para quem ainda não está habituado, aquilo que designa
a palavra arte é a tradução consagrada – e por isso a estamos
seguindo – daquilo que os gregos denominavam tékhne.
↵
61. “Se ele, por exemplo, fabricasse sapatos, responderia que
trabalhava com couro. Ou não compreendes o que falo?” (447
d).
↵
62. Por ser um membro da Academia e, portanto, não estar muito
longe destas distinções, lembremos aqui do livro A de
Aristóteles, onde aparecem claramente distintos dois ramos do
saber: o prático e o teórico. Seguindo junto a devida relação
axiológica. Aliás, pela citação que faz de Polo (Cf. 981 a 5) no
contexto destas tais distinções, certamente Aristóteles está
lembrando do Górgias. Muito provavelmente do lugar onde
estamos. O que nos permite lembrar, também, da concorrência
que a retórica impõe à filosofia. Aqui é preciso dizer mais uma
coisa, ainda que um tanto quanto fora do contexto específico do
nosso estudo: distinção esta, entre o prático e o teórico, entre o
braçal e o intelectual que, perdurando ainda hoje, acaba
ocultando, mais que revelando, as características próprias do
pensamento.
↵
63. Ora, evidentemente que o futuro autor da República também
considera o poder político um bem, se não o maior, um dos
maiores. Sabemos que uma das formas de compreendermos o
seu pensamento é nunca deixarmos de lado as motivações
políticas que levaram Platão, desde os primeiros diálogos na
disputa com o saber poético, a construir a sua filosofia.
Portanto, não é errado dizer, sendo até necessário reconhecer,
que o filósofo, sendo um homem do seu tempo, também tem
sede de poder. Lembrando aqui umas poucas palavras de
Jaeger: “O problema para o qual desde o primeiro instante se
orienta o pensamento de Platão é o problema do Estado”
(JAEGER, Werner. Paidéia. A Formação do Homem Grego.
São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 749).
↵
64. “Vou já dizer-te. O que seja propriamente essa persuasão a que
te referiste, conseguida pela retórica, e a respeito de que
assunto se manifeste, fica sabendo que ainda não percebo com
segurança o de que se trata, muito embora suspeite o que
pensas tanto de uma como de outra coisa. Mas nem por isso
deixarei de continuar a perguntar-te o que seja, no teu modo de
ver, a persuasão conseguida pela retórica e sobre que objetos
ela se manifesta. Por que motivo, então, uma vez que tenho
essa suspeita, continuo a interrogar-te, em vez de eu mesmo
expor o teu pensamento? Não é por tua causa que o faço, mas
no interesse do nosso próprio argumento, para que ele avance
e se nos patenteie com luz meridiana o assunto em discussão”
(453 b-c).
↵
65. “Mas, para que não venhas a admirar-te se dentro de instantes
eu voltar a apresentar pergunta idêntica sobre o que parece tão
claro, retomo o mesmo assunto. Pois, como disse, ao formular
essas perguntas, não tenho em mira a tua pessoa, mas apenas
dirigir com método a discussão, e também para que não
adquiramos o sestro de antecipar os pensamentos um do outro,
como se os tivéssemos adivinhado. O que é preciso é que tu
mesmo desenvolvas tua idéia como melhor te parecer” (454 c).
↵
66. “Rhetor continua ainda na época clássica a ser o nome para
designar o estadista, que num regime democrático precisa
sobretudo ser orador. A retórica de Górgias propõe-se formar
retóricos neste sentido da palavra” (JAEGER, Werner. Paidéia.
A Formação do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes,
1995, p. 650).
↵
67. Cf. 454 b.
↵
68. Notemos que o termo contradição é nosso e, pelo visto,
também da maioria dos tradutores que seguimos. No entanto,
se tomamos o termo antilogía como o equivalente grego que
Platão poderia ter usado para dizer contradição – como mais
tarde usará na República (454 a) – não é exatamente isso que
está dito no texto. Pelo menos na passagem que estamos lendo
(461 a), nosso filósofo fala em desacordo (synáidein) entre as
palavras. Assim como, logo em seguida (461 c), onde também
costuma-se traduzir por contradição, a palavra usada por Platão
é enantíon (oposição).
↵
69. “Foi assim que a culinária se introduziu na medicina, fingindo
conhecer os alimentos mais convenientes para o corpo, de
maneira que, se o médico e o cozinheiro tivessem que entrar
em um concurso em que crianças ou homens tão insensatos
quanto crianças julgassem sobre quem mais entende da
excelência ou da nocividade dos alimentos, o médico morreria
de fome” (464 d-e).
↵
70. “Na medicina, como disse, insinuou-se a bajulação culinária; na
ginástica, seguindo o mesmo processo, a cosmética, que é
prejudicial, falsa, ignóbil e indecorosa, que, por meio das
formas, das cores, dos esmaltes e da indumentária, de tal modo
seduz os homens que, andando sempre estes no encalço da
beleza estranha, descuidam da que lhes é própria e que só se
obtém por meio da ginástica” (465 b).
↵
71. “Platão, em todos os lugares, assume um princípio que
encontramos no Íon: que uma arte ou uma ciência deve ser
definida em referência ao seu objeto. Para cada objeto existe
apenas e tão somente uma techne (KAHN, Charles H. Plato
and the Socratic Dialogue. The philosophical use of aliterary
form. Cambridge University Press, 1996, p. 129).
↵
72. “Nesta passagem, Platão resume concisamente os resultados
de toda a sua análise do conceito da techne. Não há nenhum
álogon prágma que mereça ser chamado techne. Nesta
definição dos traços fundamentais que determinam a estrutura
de uma techne, é importante não perder de vista que toda a
techne tende para o melhor; por conseguinte, indica a sua
relação em ordem a um valor e, em última instância, ao mais
alto de todos os valores. Serve para a realização do valor
supremo no campo da realidade sobre a qual incidem as suas
atividades. O modelo que Platão apresenta nesta análise da
essência de uma verdadeira techne é a Medicina. Dela parte o
conceito da terapêutica ou ‘cuidado’ da alma e do corpo, a
imagem de apontar ao alvo (stokházesthai) do melhor, e ainda
as suas denominações como bem-estar ou constituição
adequada (eueksía)” (JAEGER, Werner. Paidéia. A Formação
do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 656).
↵
73. “Ainda que não tivesse chegado até nós nada da antiga
literatura médica dos Gregos, seriam suficientes os juízos
laudatórios de Platão sobre os médicos e a sua arte, para
concluirmos que o final do séc. V e o VI a. C. representaram na
história da profissão médica um momento culminante do seu
contributo social e espiritual. O médico aparece aqui como
representante de uma cultura especial do mais alto grau
metodológico e é, ao mesmo tempo, pela projeção do saber
num fim ético de caráter prático, a personificação de uma ética
profissional exemplar, a qual por isso é constantemente
invocada para inspirar confiança na fecundidade criadora do
saber teórico para a edificação da vida humana. Pode-se
afirmar sem exagero que sem o modelo da Medicina seria
inconcebível a ciência ética de Sócrates, a qual ocupa o lugar
central nos diálogos de Platão” (JAEGER, Werner. Paidéia. A
Formação do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995,
p. 1001).
↵
74. “Polo – Como assim? Achas que a retórica seja bajulação?
Sócrates – Uma parte da bajulação, foi o que eu disse. Com
essa idade, Polo, já estás esquecido? Como ficarás depois de
velho?” (466 a).
↵
75. TEOFRASTO. Os Caracteres. Tradução e comentários de
Daise Malhadas e Haiganuch Sarian. São Paulo: F. P. U., 1978,
p. 37.
↵
76. “Teofrasto, natural de Ereso, filho de Melanto, lavador de panos.
Foi primeiramente, em sua pátria, discípulo de Leucipo, seu
conterrâneo; depois foi discípulo de Platão e, finalmente,
passou a ser discípulo de Aristóteles” (DIÓGENES LAÉRCIO,
V).
↵
77. Talvez, no fundo, tenham é medo, pensamos nós.
↵
78. E isso para não falar das cidades, pensamos nós, que sofrem
com as suas ações. Não esqueçamos que “a Atenas onde
Platão faz viver Sócrates, onde o faz reviver para nós, é já a
Atenas que o próprio Platão, ele só, e não já Sócrates pôde
conhecer. Era já o teatro de lutas e de conflitos mais ásperos e
mais dramáticos do que aqueles de que fora testemunha o
contemporâneo de Péricles e de Fídias” ( MAGALHÃES-
VILHENA, Vasco de. Platão e a Lenda Socrática. A idealização
de Sócrates e o utopismo político de Platão. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 1998, p. 253). “Platão cresceu no tempo
da Guerra do Peloponeso, portanto um período de constantes
batalhas, em que Atenas tentava afirmar-se sempre com menos
sorte diante de Esparta e seus aliados. Em relação ao período
de Péricles, anterior ao seu, quando a democracia ateniense
dispunha da mais importante frota marítima do Mediterrâneo, e
vivia um florescimento econômico e cultural brilhante, ao
mesmo tempo com estabilidade interior pela posição dominante
de Péricles, aquela não foi apenas uma fase de derrocada
militar e econômica, mas de progressiva decadência dos
valores éticos e políticos. De modo geral, guerras eram então
facilmente uma questão de tudo ou nada, pois derrota podia
significar escravidão, em parte até assassinato dos cidadãos. E
também os conflitos políticos internos, aumentados por crises
externas, podiam ter rapidamente conseqüências perigosas,
com perda de fortuna, exílio, até perda da vida, numa Atenas
politicamente muito vacilante, com seus procedimentos (que
não se podem comparar à democracia atual) de exercício
democrático direto do poder em reuniões do povo e tribunais
populares” (SZAIF, Jan. Platão: Espectro da filosofia. In:
Coleção História da Filosofia. Filósofos da Antigüidade – I. São
Leopoldo: UNISINOS, 2003, p. 168).
↵
79. MAGALHÃES-VILHENA, Vasco de. Platão e a Lenda Socrática.
A idealização de Sócrates e o utopismo político de Platão.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p. 241.
↵
80. Pelo que Platão teria buscado na filosofia – incluindo aí o
ensino acadêmico – uma nova maneira de ação política. Para
uma discussão mais detalhada da ação política platônica, tendo
em vista principalmente, justamente o Diálogo que estamos
lendo, ver o capítulo VI – Filosofia e Política: O Górgias – do
citado Magalhães-Vilhena.
↵
81. “A monarquia macedônia era uma monarquia hereditária, militar
e pessoal. Era um regime onde o Estado se confundia com a
pessoa do rei” (LAFER, Celso. Medida e desmedida: reflexões
sobre as relações externas da Pólis e sobre o conflito
Demóstenes e Felipe. In: A Democracia Grega. Hélio Jaguaribe
(Organizador). Brasília: Universidade de Brasília, 1981, p. 87).
↵
82. “Não é por mero capricho que neste deslindar de duas
concepções do mundo diametralmente opostas se enfrentam
com tanta nitidez os conceitos de poder e de paidéia. Embora
estes conceitos não tenham, aparentemente, quaisquer
relações um com o outro, eles representam para Platão, como
revela precisamente esta passagem, duas concepções
antagônicas da felicidade humana, que é o mesmo que dizer da
natureza humana. Temos de optar entre a filosofia do poder e a
filosofia da educação. É esta uma passagem muito indicada
para a propósito dela explicar o que Platão entende por paidéia”
(JAEGER, Werner. Paidéia. A Formação do Homem Grego.
São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 659 - 660).
↵
83. Cf. PARMÊNIDES, fragmentos 1, 2, 6, 7, 8.
↵
84. Arrogância que, constando dos caracteres de Teofrasto, não era
bem-vista entre os gregos, como de resto não é bem-vista de
uma maneira geral. “A arrogância é uma rispidez de trato, que
se manifesta através das palavras. O arrogante é um homem
que, se lhe perguntam: Onde está fulano?, responde: Não me
cries casos. Cumprimentando-o, não retribui a saudação.
Quando vende, não diz aos que compram por quanto poderia
vender, mas pergunta quanto lhe dão. Aos que o homenageiam
e lhe enviam presentes nas festas, afirma que não o fazem sem
interesse. Não perdoa nem o que o empurrou involuntariamente
nem ao que o pisou. Ao amigo que lhe propõe contribuir para
uma coleta, diz que não dará e mais tarde vai levar-lhe a
contribuição, dizendo que perde também esse dinheiro. Tendo
tropeçado no caminho, é capaz de amaldiçoar a pedra. Não
poderia esperar alguém por muito tempo, nem aceitar cantar,
declamar ou dançar. E é mesmo capaz de não orar aos deuses”
(TEOFRASTO. Os Caracteres. Tradução e comentários de
Daise Malhadas e Haiganuch Sarian. São Paulo: F. P. U., 1978,
p. 37). Ora, pelo menos por essa última característica, sabendo
nós que foi pela acusação de impiedade que Sócrates foi
condenado à morte, ou seja, por não cumprir as obrigações
citadinas com os deuses, podemos perceber que, de fato, aos
olhos da massa, o filósofo, não poucas vezes deve ter sido
considerado um arrogante.
↵
85. “Que disseste? Se um indivíduo é apanhado e detido na
tentativa injusta de apoderar-se do poder, é posto a tratos e
mutilado; queimam-lhe os olhos, e depois de infligirem as
maiores e mais variadas torturas, e de ver ele que a mulher e
os filhos são tratados da mesma maneira, por último é colocado
na cruz ou besuntado com breu e queimado vivo: esse
indivíduo será mais feliz do que se não for apanhado, conseguir
tornar-se tirano e, como senhor absoluto da cidade, continuar
durante toda a vida a fazer o que bem lhe parecer, objeto de
inveja e de admiração tanto dos seus concidadãos como dos
estrangeiros? Isso é que consideras impossível refutar” (473 c -
d).
↵
86. GRUBE, G. M. A. El Pensamiento de Platón. Madrid: Editorial
Gredos, 1987, p. 92.
↵
87. “Não sou político, Polo; sim, no ano passado, fui eleito para o
conselho, e como minha tribo exercesse o pritanato e eu tivesse
de recolher os votos, pus-me a rir, sem saber o que fazer” (473
e – 474 a).
↵
88. Como vimos o feio não foi definido única e exclusivamente pela
conjunção (e) necessária entre sofrimento e maldade, mas,
também, disjuntivamente (ou).
↵
89. Mas antes de prosseguirmos auscultando os personagens, não
deixemos de perceber que na passagem que acabamos de ler,
ainda que invocando o já estabelecido, “de acordo com o que
assentamos antes” (477 c), Platão não mantém exatamente a
mesma nomenclatura usada anteriormente em 475 a, onde
consta, para definir o feio, as palavras lype (dor) e kakón (mal).
Como podemos ver, aqui, em substituição a palavra lype
encontramos aniarós (molesto) e, substituindo a palavra kakón
(mal) da definição originária encontramos tanto blábe (dano)
quanto algeinós (doloroso). Ora, é claro que as diferentes
palavras tomadas podem ser consideradas como sinônimas
umas das outras, assim como também é claro que, cada
palavra contém as suas idiossincrasias semânticas que podem
liberar sentidos diversos. As opções usadas pelas traduções
que seguimos podem, talvez muito platonicamente para a
ocasião, ocultar a ambiguidade que pode surgir na língua do
filósofo quando se procede tal qual ele próprio procedeu.
↵
90. “É que o castigo nos deixa mais prudentes e justos, atuando a
justiça como a medicina da maldade” (478 d).
↵
91. “Se estamos certos, Polo, no que argumentamos até aqui,
percebes o que se infere de nossa conversação, ou queres tu
mesmo tirar a conclusão?” (479 c)
↵
92. Exatamente aqueles que, fugindo do castigo, perpetuam-se no
poder.
↵
93. Só para lembrar o leitor, não esqueçamos que a crítica à
retórica, sendo a crítica ao rétor (político-orador), também é,
concomitantemente, a crítica à democracia-retórica de então.
↵
94. “Sócrates, dás-me a impressão de que te exibes em teus
discursos como o fazem os oradores populares” (482 c).
↵
95. Para uma análise mais pormenorizada do Tratado Sobre o Não-
ser de Górgias pode-se ver, sobretudo o segundo capítulo de:
AMARAL Fº, Fausto dos Santos. Filosofia Aristotélica da
Linguagem. Chapecó: Argos, 2002.
↵
96. AUBENQUE, Pierre. El problema del ser en Aristóteles. Madrid:
Taurus, 1987, p. 102.
↵
97. “Cálicles, se as pessoas não tivessem certos sentimentos em
comum, cada grupo os seus, e, pelo contrário, cada um de nós
tivesse os seus sentimentos particulares sem relação com os
dos outros, não seria fácil comunicar a alguém a nossa
experiência” (481 c-d).
↵
98. SCOLNICOV, Samuel. Platão e o Problema Educacional. São
Paulo: Edições Loyola, 2006, p. 49.
↵
99. Creio que devemos compreender aqui, dando a devida
importância para tal, que, sendo conterrâneos, Cálicles e
Sócrates compartilham, fundamentalmente, a experiência
(páthos) comum de habitarem o mesmo lar (pólis).
↵
100. “Essa passagem é um dos mais deliciosos exemplos da famosa
ironia de Sócrates, em que o moralista parece adular o
adversário, quando, em verdade, põe a nu seus principais
defeitos” (NUNES, Carlos Alberto. Marginalia Platonica. Belém:
EDUFPA, 1973, p. 26).
↵
101. Lembremos aqui da cena do Banquete, onde Alcibíades,
bêbado tresloucado, queixa-se publicamente de Sócrates, que
não teria feito as suas vontades, acolhendo todos os seus
desejos.
↵
102. Ainda que a distinção entre physis e nómos, imputada aos
sofistas, apareça em diversas obras de Platão, como em
República 358 e; Protágoras 322 d, 337 c; Críton 50; e Leis 626
a, penso aqui, fundamentalmente, na relevância que tal
distinção assume para a consecução de um diálogo como o
Crátilo. Onde, pelo menos em relação à linguagem, tal distinção
deve ser superada. Para uma análise hermenêutica do Crátilo,
pode-se ver: AMARAL Fº, Fausto dos Santos. Filosofia
Aristotélica da Linguagem. Chapecó: Argos, 2002; AMARAL Fº,
Fausto dos Santos. Platão e a Linguagem Poética. Chapecó:
Argos, 2008. Aqui cabe lembrar, também, de Aristóteles que,
muito provavelmente, bom leitor dos diálogos socráticos
escritos por seu mestre, entendendo a cena dramática, imputa
a Cálicles justamente o procedimento que o nosso personagem 108. Seguimos aqui a edição das obras de Pindaro publicada pela
imputa a Sócrates. Ouçamos o estagirita: “Um tópico que leva
as pessoas a proferir paradoxos copiosamente é a aplicação
dos padrões de natureza e de convenção que se representa
Cálicles aplicando no Górgias e que todos os antigos julgavam
válidos, uma vez que, segundo eles, a natureza e as
convenções se opõem e a justiça é uma coisa boa de acordo
com a convenção, mas não de acordo com a natureza.
Portanto, a alguém que discursa em termos de natureza é
preciso responder em termos dos padrões convencionais, e
quando ele fala em termos de padrões convencionais deve-se
encaminhar o argumento para os termos de natureza, isto
porque em ambos os casos, resultará que ele emite paradoxos”
(ARISTÓTELES. Elencos Sofísticos, XII, 173 a 10-15).
↵
103. ARISTÒTELES. Elencos Sofísticos, 173 a 15.
↵
104. “Só uma vez, nos livros finais, Homero entende por arete as
qualidades morais ou espirituais. Em geral, de acordo com a
modalidade de pensamento dos tempos primitivos, designa por
arete a força e a destreza dos guerreiros ou lutadores e, acima
de tudo, heroísmo, considerado não no nosso sentido de ação
moral e separada da força, mas sim intimamente ligado a ela”
(JAEGER, Werner. Paidéia. A Formação do Homem Grego.
São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 27).
↵
105. Cf. MENZEL, Adolf. Calicles. Contribuición a la Historia del
Derecho del Más Fuerte. México: Universidad Autónoma de
México, 1922, p. 43-52 e 127-132.
↵
106. ORTEGA, Alfonso. Introducción General. In: PÍNDARO. Odas y
Fragmentos. Introducciones, traducción y notas de Alfonso
Ortega. Madrid: Editorial Gredos, 1984, p. 20.
↵
107. MENZEL, Adolf. Calicles. Contribuición a la Historia del
Derecho del Más Fuerte. México: Universidad Autónoma de
México, 1922, p. 46.
↵
Loeb Classical Library: PINDAR. Nemean Odes, Isthmian Odes,
Fragments. Edited and Translated by William H. Race. Harvard
University Press: London, 1997.
↵
109. Cf. HERÓDOTO. História, III, 38.
↵
110. “Depois da crítica de Xenófanes à teologia de Homero e
Hesíodo, também tem Pindaro o seu próprio sentido do mito.
Ninguém como ele fez uma purificação tão radical dos mitos,
corrigindo ou reformando visões homéricas que não fossem
dignas do seu conceito do divino. Só o belo dos deuses é
contável e cantável (Ol. I 35)” (ORTEGA, Alfonso. Introducción
General. In: PÍNDARO. Odas y Fragmentos. Introducciones,
traducción y notas de Alfonso Ortega. Madrid: Editorial Gredos,
1984, p. 36). “Ao crescente individualismo do pensar
democrático e à triste situação nascida da guerra do
Peloponeso não podia chegar com igual eficácia e convicção a
voz de um poeta que proclamou, desde uma existência distinta,
um sentido de comunidade e de fé agora rompido” (Ibidem, p.
54).
↵
111. MENZEL, Adolf. Op. cit., p. 128.
↵
112. “Böckh lançou a hipótese de que o fragmento 169 de Píndaro
iniciava com as palavras katà physin; Thompson, entre outros
estudiosos do mundo antigo, aderiu à opinião de Böckh”
(MENZEL, Adolf. Op. cit., p. 127).
↵
113. MENZEL, Adolf. Op. cit., p. 127.
↵
114. “Alegra-me o espetáculo de um adolescente que se aplica no
estudo dessa matéria; assenta-lhe bem semelhante ocupação,
muito própria de um homem livre, como considero inferior e
incapaz de realizar alguma ação bela e generosa quem nessa
idade descura da filosofia” (485 c).
↵
115. Geralmente aqui se costuma reconhecer que o poeta citado é
Homero, mais precisamente: Ilíada, IX 441.
↵
116. Cálicles compara o seu procedimento com aquele de Zeto em
relação ao seu irmão Anfião, personagens da tragédia Antíope
de Eurípedes, da qual só possuímos fragmentos, onde os dois
irmãos gêmeos, cada qual encarnando um modo de vida oposto
ao outro; a ativa Zeto, a dedicada à poesia e à música, Anfião,
aparecem discutindo a superioridade de um modo de vida em
relação ao outro.
↵
117. “Por tudo isso, meu caro Sócrates, não te ofendas com o que
eu te disser, pois a amizade que te dedico é que me leva a falar
dessa maneira” (486 a).
↵
118. Nos últimos momentos do seu discurso, Cálicles continua
fazendo citações da tragédia Antíope de Eurípedes. No nosso
texto, neste momento, são elas que aparecem em itálico.
↵
119. Aqui não podemos deixar de ouvir os ecos de trechos da
Oração fúnebre de Péricles, transmitida por Tucídides; discurso
de exaltação das virtudes da Atenas democrática, portanto do
dêmos, que, como sabemos, Cálicles ama tanto: “Nós
consideramos o cidadão que se mostra estranho ou indiferente
à política como um inútil à sociedade e a cidade” (TUCÍDIDES.
A História da Guerra do Peloponeso. In: A Democracia Grega.
Helio Jaguaribe (Org.). Brasília: Universidade de Brasília1981,
p. 146).
↵
120. “Foi exatamente isso o que eu disse e repito-o agora” (488 b).
↵
121. Cf. 483 a – 484 a.
↵
122. “Por conseguinte, é bem possível que não tivesses dito antes a
verdade e me acusasses sem razão, quando afirmaste que a
natureza e a lei se contrapõem e que eu disso tinha pleno
conhecimento no desenrolar das conversações, porém procedia
de má-fé, apelando para a lei, quando alguém falava segundo a
natureza, ou para a natureza, quando se referia à lei” (489 b).
↵
123. Não esqueçamos que em grego physis, donde katà physin,
pode significar, entre outras coisas, a constituição de algo, sua
forma exterior, sua aparência corporal. E iskhys, donde tò
iskhyróteron, também se refere, fundamentalmente, ao físico,
ao corporal.
↵
124. “O que então disserem deverá ser considerado lei?” (489 c).
↵
125. “Porém instrui-me, admirável amigo, com um pouco mais de
brandura, para que eu não tenha que fugir de tua escola” (489
d)
↵
126. “Peripécia é a mudança da ação em sentido contrário”
(ARISTÓTELES. Poética, 11, 1452 a 22).
↵
127. “Cálicles –Nesse caso, as pedras e os cadáveres seriam
felicíssimos. Sócrates –Ainda assim, tal como a defines, terrível
coisa é a vida. Nada me admirarei se fala certo Eurípides,
quando disse: quem nos dirá que não é morte a vida, e estar
morto, viver” (492 e).
↵
128. Como se vê, o jogo com as palavras persiste.
↵
129. “A religião órfica tentou responder a duas perguntas que
ocuparam os gregos constantemente desde o século VI a.C.,
isto é, a indagação quanto à origem do mundo e a questão
sobre o destino do ser humano. Mas o orfismo não se servia de
um logos racional, e sim de especulações mito-poéticas”
(ROESSLI, Jean-Michel. Orfeu. O orfismo e os órficos. In:
Filósofos da Antigüidade – I.Dos primórdios ao período clássico.
São Leopoldo: Unisinos, 2003, p. 21).
↵
130. “Esta linguagem é, sem dúvida, um pouco insólita, mas é
quanto chega para ilustrar o que eu desejara demonstrar-te, se 139. MAGALHÃES-VILHENA, Vasco de. Platão e a Lenda Socrática.
fosse capaz” (493 c).
↵
131. No texto grego o pássaro é outro: kharadriós.
↵
132. Ainda que a moralidade sexual grega, vista a partir da nossa,
muitas vezes, para alguns, possa parecer um tanto quanto livre
em demasia, o que não nos cabe aqui discutir, pela passagem
onde estamos, pelo argumento usado por Sócrates e pela
indignação que causa ao seu interlocutor, se Cálicles continua
representando aquilo que pensa a maioria, podemos supor que,
em se tratando de sexo, os gregos também tinham lá seus
pundonores, pois que, também havendo limites para tanto, nem
tudo era aceito socialmente. Para a questão da sexualidade na
Grécia Antiga pode-se ver: DOVER, K. J. Greek popular
morality in the time of Plato and Aristotle. Indianápolis: Hackett
Publishing Company, 1994. ULLMANN, Reinholdo Aloysio.
Amor e Sexo na Grécia Antiga. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade. O uso dos
prazeres. Rio de janeiro: Edições Graal, 1994.
↵
133. “Muito bem; já que pensas desse modo, explica-me o seguinte:
existe algo a que dás o nome de conhecimento?” (495 c).
↵
134. Cf. 491 b.
↵
135. “Mas tão-pouco concordará Cálicles consigo próprio, quando
examinar a si mesmo sinceramente” (495 e).
↵
136. GRUBE, G. M. A. El Pensamiento de Platón. Madrid: Editorial
Gredos, 1987, p. 99.
↵
137. Cf. 464 b-466 a.
↵
138. “Não, por Zeus! Não conheço nenhum orador nessas
condições, pelo menos entre os modernos” (503 b).
↵
A idealização de Sócrates e o utopismo político de Platão.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, p. 253.
↵
140. “A Atenas onde Platão faz viver Sócrates, onde o faz reviver
para nós, é já a Atenas que o próprio Platão, ele só, e não já
Sócrates, pôde conhecer. Era já o teatro de lutas e de conflitos
mais ásperos e mais dramáticos do que aqueles de que fora
testemunha o contemporâneo de Péricles e de Fídias” (Idem).
↵
141. KAHN, Charles H.Una nueva interpretación de los diálogos
socráticos de Platón. Areté. Revista de Filosofia. Vol. XII, n. 1,
2000, p. 39. “No Górgias as coisas são mais simples, já que o
nosso desejo racional pelo bem não se dirige a alguma Forma
transcendente, mas ao embelezamento da alma por meio da
virtude” (KAHN, Charles H. Plato and the Socratic Dialogue.
The philosophical use of aliterary form. Cambridge University
Press, 1996, p. 146).
↵
142. O que pode ser conferido nos capítulos que se referem aos
diálogos referidos em: AMARAL Fº, Fausto dos Santos. Platão
e a Linguagem Poética: o prenúncio de uma distinção.
Chapecó:Argos, 2008.
↵
143. ROSS, William David. Plato’s Theory of Ideas. Oxford:
Clarendon Press, 1976, p. 13.
↵
144. ARAÚJO, Carolina. Da arte. Uma leitura do Górgias de Platão.
Belo Horizonte: UFMG, 2008, p. 143.
↵
145. “Mas, como se diz, não é bom deixar por acabar nenhuma
história; é preciso acrescentar-lhe a cabeça, para que não se
ponha a andar por aí sem cabeça. Por isso, responde ao que
ainda falta responder, para que nossa conversa venha a
adquirir cabeça” (505 d).
↵
146. Talvez aqui o diálogo toque de maneira bem visível, pelo
ridículo da situação, algo que alguém já poderia estar
desconfiando: se geralmente costuma-se identificar o
personagem Sócrates com o autor Platão, o personagem
Cálicles não deixa de representar algo de muito arraigado na
alma do seu criador. Ambos possuem o mesmo impulso erótico,
o mesmo desejo de dominação. Ao ponto de parecer que
Sócrates é o Cálicles que Platão teve que transmutar em sua
alma, tomando um rumo completamente oposto em sua vida.
↵
147. “É, pois, o problema dos diálogos menores e do Protágoras, o
problema da unidade das virtudes, que ele registra nesta
passagem” (JAEGER, Werner. Paidéia. A Formação do Homem
Grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 679).
↵
148. “Poderás ver, Sócrates, como estou sempre disposto a elogiar-
te, quando proferes algo razoável. Isso que disseste se me
afigura muito certo” (510 b).
↵
149. Ora, pensemos nós, situação deveras contraditória! Pois se o
tirano é exatamente aquele que não se submete a vontade de
ninguém, como assemelhar-se a um sendo submisso?
↵
150. Ora, sabemos que o próprio Platão tinha lá a sua admiração
pela política espartana,
↵
151. HEIDEGGER, Martin. O Caminho do Campo. São Paulo:
Livraria Duas Cidades, 1969, p. 72.
↵
152. É claro que, diante da perspectiva do bem, tais sacrifícios são
meramente aparentes. Assim como nem todo prazer é bom,
nem toda dor é má.
↵
153. Para um aprofundamento do tema referido, pode-se ver:
AMARAL FILHO, Fausto dos Santos. Platão e a Linguagem
poética: o prenúncio de uma distinção. Chapecó: Argos, 2008.
↵
154. “Todavia, esse proveito só é alcançado por meio de dores e
sofrimento, tanto aqui na terra como no Hades; não há outro
modo de limpar-se da injustiça” (525 c).
↵
155. “Em geral pressupõe-se que o objetivo de Platão no Górgias
seja traçar uma linha rígida de demarcação entre as atividades
da filosofia e a da retórica, favorecendo a filosofia sobre o seu
adversário obviamente considerado inferior” (MAcCOY, Marina.
Plato on Rhetoric of Philosophers and Sophists. New York:
Cambridge University Press, 2007, p. 85).
↵
156. STAUFFER, Andrew. The Unity of Plato’s Górgias. Rhetoric,
Justice, and the Philosophic Life. New York: Cambridge
University Press, 2006, p. 19.
↵
157. Para uma explanação, ainda que breve, do termo epídeiksis
ver: CASSIN, Barbara. Sophistics, Rhetorics, and Performance;
or, How to Really Do Things with Words. In: Philosophy and
Rhetoric. Pennsylvania: Pennsylvania State University, Vol. 42,
Nº 4, 2009, p. 349-372.
↵
158. “O diálogo inicia com aquele Sócrates aparentemente familiar
dos diálogos que versam sobre a definição: o filósofo propõe
uma pergunta ‘O que é F?’, também pergunta se Górgias
estaria disposto a participar de uma conversação, em vez de
fazer uma exibição retórica (447b9-c4), insistindo, às vezes com
muito zelo, que sejam dadas respostas curtas as suas
perguntas, evitando, assim, quaisquer floreios retóricos (448d-e,
449b-d)” (VASILIOU, Iakovos. Aiming at Virtue in Plato. New
York: Cambridge University Press, 2008, p. 93).
↵
159. “aos mais importantes e melhores assuntos” (451 d).
↵
160. “A insistência filosófica sobre o conhecimento, em oposição à
falibilidade da mera crença, mostra que a identificação
gorgeânica do seu logos com o poder é, no mínimo,
parcialmente falseada pela incapacidade do rétor em transmitir
o seu conhecimento dentro do seu próprio contexto gerador, o
do debate adversativo sobre questões políticas e jurídicas
perante a massa” (WARDY, Robert. The Birth of Rhetoric.
Górgias, Plato and their sucessors. London: Routhedge, 1996,
p. 65).
↵
161. DODDS, E. R. Plato. Górgias. A Revised Text with Introduction
and Commentary. Oxford: Clarendon Press, 2002, p. 2.
↵
162. RUIZ, J. Calonge. Introducción. In: PLATÓN. Górgias. Madrid:
Editorial Gredos, 1992, p. 11.
↵
163. “Uma techne é definida não apenas pelo assunto que trata,
mas, também, pelo seu objetivo” (KAHN, Charles H. Plato and
the Socratic Dialogue. The philosophical use of a literary form.
Cambridge University Press, 1996, p. 131).
↵
164. “Platão tinha consciência de que ao dar a empeiría um tom
pejorativo, equivalente ao de tribé e oposto ao de techne, ia na
realidade contra o uso corrente da linguagem entre os seus
contemporâneos. Por isto expõe com todo detalhe e
minuciosidade o novo uso que quer dar as palavras e, para que
seja melhor aceito, desenvolve vários exemplos” (VIVES, José.
Génesis y Evolución de la Ética Platónica. Estudio delas
analogías en que se expresa la Ética de Platón. Madrid:
Editorial Gredos, 1970, p. 103).
↵
165. “Enquanto a descrição dada por Sócrates da retórica é colorida
por seu desejo de provocar Polo e assim trazê-lo para a
discussão, Sócrates também mostra uma preocupação em não
ofender Górgias em demasia. Antes de dar a sua extensa
descrição da retórica, Sócrates menciona o seu medo de que
Górgias pense que está zombando dele (462e6-8). Ele também
ameniza o golpe seguinte, observando que a retórica que
descreverá pode não ser o tipo de retórica perseguida por
Górgias (462e8-463a1). No entanto, o propósito mais
importante desta última observação pode ser sugerir que 170. “Não me concites, portanto, a contar os votos dos presentes, e
Górgias deveria mudar seu caminho e buscar um tipo diferente
de retórica. Pois a retórica que Sócrates descreve em termos
tão críticos parece ser exatamente o tipo de retórica que
Górgias professa” (STAUFFER, Andrew. The Unity of Plato’s
Górgias. Rhetoric, Justice, and the Philosophic Life. New York:
Cambridge University Press, 2006, p. 44).
↵
166. Não esqueçamos, contudo, que, no âmbito platônico no qual
nos encontramos, há uma prevalência ontológica da alma em
relação ao corpo: “De fato, se a alma não estivesse sobreposta
ao corpo e este se governasse a si mesmo, e se aquela não
tivesse discernimento e não separasse da medicina a culinária,
e apenas o corpo tivesse de julgar, de acordo com os prazeres
que pudesse auferir de cada uma delas, predominaria, meu
caro Polo, aquilo de Anaxágoras – isto é matéria do teu
conhecimento – a saber: todas as coisas se confundiriam sem
que fosse possível distinguir a medicina, a saúde e a culinária”
(465 c-d).
↵
167. Afinal, como nos diz Polo, exemplificando a sua concepção de
poder: “Não podem matar, como os tiranos, a seu bel-prazer,
não confiscam os bens alheios e não expulsam das cidades
quem eles querem?” (466 c).
↵
168. No interior da diáleksis que estamos seguindo, Sócrates
consegue relacionar, atrelando, noûs, dynasthai e agathón.
Portanto, se o poder é um bem, aqueles que o exercem nas
cidades devem ter em vista a inteligência dos seus atos. Sem o
que, o exercício do governo perde o foco do bem, perdendo,
assim, a especificidade do seu poder.
↵
169. Para Charles Kahn, este é um momento crucial do diálogo, a
partir do qual Sócrates refutará Polo, impondo o seu
pensamento (Cf. KAHN, Charles H. Drama and Dialectic in
Plato’s Górgias. In: Sócrates Critical Assessments. Edited by
William J. Prior. London: Routledge, 1996, p. 67).
↵
se não dispões de melhor processo de refutação, cede-me o
teu lugar, conforme sugeri a pouco, e faze a experiência da
argumentação que me parece indicada. De minha parte, só sei
aduzir a favor do que afirmo uma única testemunha, justamente
a pessoa com quem estiver argumentando, sem dar maior
importância à opinião da maioria; só conheço o modo de obter
esse único voto; às demais pessoas não me dirijo” (474 a-b).
↵
171. “No Górgias, como em outros diálogos de Platão, a forma como
as pessoas reagem ou respondem à conversação socrática
reflete as suas abordagens e atitudes em relação à vida”
(RUTHERFORD, R. B. The Art of Plato. Ten Essays in Platonic
Interpretation. Cambridge: Harvard University Press, 1995, p.
150).
↵
172. MAcCOY, Marina. Plato on Rhetoric of Philosophers and
Sophists. New York: Cambridge University Press, 2007, p. 97.
↵
173. Cf. STAUFFER, Andrew. The Unity of Plato’s Górgias. Rhetoric,
Justice, and the Philosophic Life. New York: Cambridge
University Press, 2006, p. 83.
↵
174. Todo injusto é infeliz, e, mais infeliz ainda se não for castigado;
sendo assim, mais vergonhoso cometer injustiça do que sofrê-
la.
↵
175. “Sócrates seria um bufão ou um revolucionário? Começa aqui a
se colocar mais radicalmente a questão socrática: por que,
afinal, teimava ele em dizer o contrário de tudo o que os
atenienses tinham por hábito? Seria apenas a galhofa de um
excêntrico ou haveria mesmo um porquê, um princípio a partir
do qual tudo deveria ser feito de outro modo? Com essa
questão, Cálicles aparece não só como um interlocutor mais
ousado, mas como alguém que parece compreender melhor a
intenção daquele homem, o que se revela inclusive pela
aceitação à questão proposta: Sócrates está de fato incitando
ações contrárias às praticadas pelos atenienses” (ARAÚJO,
Carolina. Da Arte: uma leitura do Górgias de Platão. Belo
Horizonte: UFMG, 2008, p. 98).
↵
176. “Cálicles, se as pessoas não tivessem certos sentimentos em
comum, cada grupo os seus, e, pelo contrário, cada um de nós
tivesse os seus sentimentos particulares sem relação como os
dos outros, não seria fácil comunicar a alguém a nossa
experiência” (481 c-d).
↵
177. “Como Sócrates sugere aqui, os amores de Cálicles levam-no a
esconder suas crenças e a lisonjeá-los, uma prática que
Sócrates condena tanto no amor quanto em todos os passos da
vida” (RUTHERFORD, R. B. The Art of Plato. Ten Essays in
Platonic Interpretation. Cambridge: Harvard University Press,
1995, p. 159).
↵
178. “Eu, pelo menos, meu caro, sou de parecer que me fora
preferível ter a lira desafinada e desarmônica, ou um coro por
mim dirigido, sim, e até mesmo não concordar com minhas
opiniões a maioria dos homens, e combatê-las, a ficar em
desarmonia comigo mesmo e vir a contradize-me” (482 b-c).
↵
179. “A metáfora musical frequentemente foi tomada como evidência
da influência pitagórica nos diálogos, já que os pitagóricos
sustentavam que a areté era uma harmonía. Mas, de fato, ela
percorre as discussões éticas de Platão do começo ao fim”
(DODDS, E. R. Plato. Górgias. A Revised Text with Introduction
and Commentary. Oxford: Clarendon Press, 2002, p. 260).
↵
180. Para o papel da vergonha na refutação dos interlocutores de
Sócrates no Górgias ver: FUTTER, D. B. Shame as a Tool for
Persuasion in Plato’s Górgias In: Journal of the History of
Philosophy, Vol. 47, nº 3, 2009, p. 451-461.
↵
181. KAHN, Charles H. Drama and Dialectic in Plato’s Górgias. In:
Sócrates Critical Assessments. Edited by William J. Prior.
London: Routledge, 1996, p. 75.
↵
182. Idem.
↵
183. Idem.
↵
184. Para a constituição da filosofia pela oposição à linguagem
poética pode-se ver: AMARAL Fº, Fausto dos Santos. Platão e
a Linguagem Poética: o prenúncio de uma distinção. Chapecó:
Argos, 2008.
↵
185. Só para lembrarmos, ainda que a palavra forma (eîdos) apareça
aqui, como sabemos, não se trata, contudo, de uma referência
a uma suposta Teoria das Ideias já estabelecida pelo filósofo.
↵
186. Sendo que, uma alma doente é aquela que se mostra
insensata, intemperante, injusta e ímpia (Cf. 505 b);
↵
187. “Podemos ver aqui a primeira indicação da tendência autoritária
do pensamento de Platão, que foi encontrar plena expressão na
República e que cresceu com o passar dos anos, culminando
nas propostas elaboradas das Leis para condicionar as
massas” (DODDS, E. R. Plato. Górgias. A Revised Text with
Introduction and Commentary. Oxford: Clarendon Press, 2002,
p. 328).
↵
188. A alma saudável, em oposição à doentia, é aquela que se
mostra temperante/sensata, justa, corajosa e piedosa. Sócrates
nos mostra que o indivíduo que possui uma alma perfeitamente
saudável, quando o bem se realiza no homem, é aquele onde
tais virtudes atuam conjuntamente em harmonia;
reciprocamente determinadas, umas oriundas das outras,
constituindo uma unidade (Cf. 507 a-c).
↵
189. “Essas verdades, que se tornaram manifestas em nosso
discurso anterior, como digo, estão firmes e chumbadas – se
me for permitido usar uma expressão um tanto grosseira – por 193. ARAÚJO, Carolina. Da Arte: uma leitura do Górgias de
argumentos de ferro e diamante, como parece, e se não
conseguires quebrá-los, tu ou alguém de mais decisão, não
será possível empregar linguagem diferente da minha, que está
certa” (508 d-509 a).
↵
190. “Um sinal favorece o reconhecimento do político autêntico:
entre ele e o povo deve haver, se necessário, uma ruptura, que
se justifica precisamente pela diferença de qualidade entre suas
naturezas e de nível em sua espiritualidade, e é isto que
interpõe, entre o líder e o povo, a distância necessária ao
trabalho paidêutico” (MACIEL DE BARROS, Gilda Naécia.
Platão: Poder e Paidéia. In: Revista Hypnos. São Paulo: EDUC:
Palas Athena, 2000, ano 5, nº 6, p. 33).
↵
191. “A coisa mais impressionante sobre o relato de Sócrates é que
ele o chama de logos, ao invés de mito (ver 522e5–6, 523a1–
2). O que ele quer dizer com isso, no entanto, não é claro. A
explicação mais simples, naturalmente, seria que Sócrates
pensa que o relato é verdadeiro, e que, chamá-lo de logos é
uma maneira de expresser a própria convicção em sua
verdade” (STAUFFER, Andrew. The Unity of Plato’s Górgias.
Rhetoric, Justice, and the Philosophic Life. New York:
Cambridge University Press, 2006, p. 168). “O criador do mito
claramente tinha o Górgias em mente. E, se o criador é Platão,
creio que devemos dizer que o mito do Górgias é chamado de
lógos porque expressa em termos imaginativos uma verdade da
religião” (DODDS, E. R. Plato. Górgias. A Revised Text with
Introduction and Commentary. Oxford: Clarendon Press, 2002,
p. 377). Para um estudo dos usos que Platão faz dos termos
mythos e lógos ver: BRISSON, Luc. Plato the Myth Maker.
Chicago: The University of Chicago Press, 1999.
↵
192. “Esta Visão do Julgamento é curta e simples, tanto quanto é o
mais antigo dos mitos escatológicos de Platão” (DODDS, E. R.
Plato. Górgias. A Revised Text with Introduction and
Commentary. Oxford: Clarendon Press, 2002, p. 372).
↵
Platão.Belo Horizonte: UFMG, 2008, p. 183.
↵
194. BROWN, Lesley. The Judgement of Souls (Górgias 523a–
527a). In: Plato. Selected Myths. Edited by Catalin Partenie.
New York: Oxford University Press, 2004, p. 9.
↵
195. “Acima de tudo, a principal inovação que Platão fez na velha
mitologia, a imagem das cicatrizes na alma nua, que são sinais
da sua maldade apresentados perante os juízes, transmite a
convicção de Sócrates de que fazer o mal é prejudicar a si
mesmo, a sua própria alma, mesmo quando ainda se está vivo.
Mesmo que não haja vida após a morte, isso ainda se aplica;
essas cicatrizes não são consequência de um castigo póstumo,
mas são inflingidas à alma por seu próprio dono durante a sua
vida” (RUTHERFORD, R. B. The Art of Plato. Ten Essays in
Platonic Interpretation. Cambridge: Harvard University Press,
1995, p. 176).
↵
196. HADOT, Pierre. O que é Filosofia Antiga?São Paulo: Edições
Loyola, 1999, p. 102.
↵
197. Idem.
↵
198. THEMISTIUS, Orationes XXIII, 295 c-d.
↵
199. RUTHERFORD, R. B. The Art of Plato. Ten Essays in Platonic
Interpretation. Cambridge: Harvard University Press, 1995, p.
142.
↵
200. KAHN, Charles H. Plato and the Socratic Dialogue. The
philosophical use of aliterary form. Cambridge University Press,
1996, p. 133.
↵
201. Idem, p. 137.
↵
202. MESTRE ECKHART. Sermões Alemães. Vol I. Bragança
Paulista: Universitária São Francisco; Petrópolis: Vozes, 2006,
p. 64.
↵
203. HEIDEGGER, Martin. O Caminho do Campo. São Paulo:
Livraria Duas Cidades, 1969, p. 72.
↵
204. Cf. HERÁCLITO,1, 2, 50, 72.
↵
205. MESTRE ECKHART. Sermões Alemães. Vol I. Bragança
Paulista: Universitária São Francisco; Petrópolis: Vozes, 2006,
p. 132.
↵
206. PLATÃO. Górgias, 508 a.
↵
207. Alguns significados possíveis de kósmos são: ordem, boa
ordem, decência, conveniência, disciplina, organização,
constituição, universo, mundo.
↵
208. HEIDEGGER, Martin. A coisa. In: Ensaios e Conferências.
Petrópolis: Vozes, 2002, p. 157.
↵
209. HEIDEGGER, Martin. O Caminho do Campo. São Paulo:
Livraria Duas Cidades, 1969, p. 72.
↵
210. Id., ibid., p. 69.
↵
211. Idem.
↵
212. Para o conceito de integralidade orgânica aplicado às obras de
Platão, pode-se ver: AMARAL Fº, Fausto dos Santos. A
Filosofia de Hegel e a Poesia de Platão, ou ainda, Integralidade
Orgânica: para uma hermenêutica dos diálogos de Platão. In:
Dialética e Metafísica: o legado do Espírito. Festschrift em
homem a Paulo Meneses. Recife: Universidade Católica de
Pernambuco, 2010.
↵
213. “O espanto é a verdadeira característica do filósofo. Não tem
outra origem a Filosofia” (PLATÃO. Teeteto, 155 d).
↵
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Fausto dos Santos Amaral Filho