Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 9 de 15

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Não Se Humilha, Não

capítulo 7

Nunca concordei com esse lance de que o amor dói. Peraí, o amor? Ele...

dói?! Quando penso em dor, eu penso em joelho ralado. Uma bolada no

nariz. Pedra nos rins. Bater o dedinho do pé em algum móvel. Descobrir que

um amigo te traiu. Mas o amor? Ah, não. Sem essa, vai. O amor não pode

doer. É inadmissível que passemos a vida toda procurando por algo que, no

final, vai doer. Eu não consigo aceitar isso, vai me desculpar. O amor não

pode doer. Não deve doer. Sei que nem tudo na vida é perfeito e, claro, o

amor não seria diferente. Mas doer? O amor? Ah, não, não. O amor cura. O

amor traz um quentinho para o nosso coração. O amor nos faz dormir

abraçados ao travesseiro com um sorriso bobo. O amor faz com que qualquer

cenário meia boca se transforme em cenário de filme de Hollywood. Ele é

mágico, simples, renovador. O amor te faz sorrir na tristeza e é capaz de

iluminar seus dias mais escuros. Isso é amor. Uma energia que arrepia,

esquenta o sangue, te faz ter vontade de viver.

Então o que é aquele sentimento que te puxa pra baixo? Que dói? Que

machuca? Que traz angústia? Que faz você querer mudar cada pedacinho do

seu ser? Olha, não sei o nome disso, mas não é amor. Está longe de ser amor.

Pode ser que a pessoa ache que é amor e insista, bata o pé, dizendo que sim, é

amor. “Porque o amor machuca às vezes.” O que alguns não sabem é que o

que machuca não é o amor. O que machuca são as pessoas que não sabem

amar.

Quantas vezes você teve um relacionamento que doía, que era como

arrastar correntes, que pesava seu coração... Você não entendia muito bem o

que era isso. Achava que era amor, queria que fosse amor. Porque, afinal, é

normal termos nossos altos e baixos, não é mesmo? Não seremos felizes

todos os dias e, tudo bem, isso é normal. Temos nossos momentos felizes e

outros nem tão felizes assim.

Então aceitamos que o amor talvez machuque um pouquinho. Se a outra

pessoa está longe e a saudade tomou conta. Se você queria mais cinco

minutinhos e teve que ir embora. Se você queria muito dizer algumas coisas e

acabou guardando para si mesmo por não achar o momento ideal. Se o amor

era demais e fazia o peito doer por falta de espaço para ele. Já conseguiu

entender? Vamos mais fundo.

Há uma grande diferença entre a dor de alguém que está com saudade

para a de alguém que escuta palavras duras e aceita simplesmente porque “o

amor machuca”. O amor machuca se, por algum motivo, ele não for correspondido. Seja pela distância, pelo silêncio ou pela ausência. Mas

quando o amor se faz presente e a sua presença machuca não é amor. Aliás,

isso está longe de ser amor.

Se o sentimento te faz ter vontade de mudar quem você é, se faz ter medo

de dizer o que pensa, se faz ser outra pessoa que não você... Não é amor. Se

reprime, oprime, rebaixa, cala... Não é amor. Se julga, analisa, critica... Não é

amor. Se ameaça, causa receio, afasta as pessoas que você ama... Não é amor.

Se obriga, humilha, grita... Não é amor. Se causa angústia e um nó na

garganta... Não é amor. Se controla suas roupas, seu cabelo, seus amigos...

Não é amor. Se afasta a sua família, atrapalha o seu emprego, desvirtua os

seus sonhos... Não é amor. Se quer dominar, prender, limitar... Não é amor.

Se faz ter vontade de desistir, desistir de si mesmo, desistir das suas

ambições, desistir das suas vontades... Não é amor. Se faz sentir culpa, raiva,

receio... Não é amor. Se chantageia, usa seus defeitos e suas palavras contra

você... Não é amor.

Se dói, se machuca, se é pesado, se está difícil demais... Meus amigos,

sinto muito, mas não é amor.

É abuso.

É dor.

Tudo começa lindo, como um conto de fadas. Vocês são perfeitos um

para o outro, ele faz seu coração acelerar, traz essa maravilhosa sensação de

finalmente ser amada por alguém. Ele é carinhoso, amoroso, te dá atenção e

te coloca no topo das suas prioridades. Aos poucos, alguns sinais ficam

evidentes. Sem nem saber o porquê, você tem medo de sair sozinha sem ele,

pois no seu interior, você sabe que ele não gosta disso. Você sente a

necessidade de avisá-lo sobre todos os seus passos, porque não custa nada

avisar. Você prefere avisar, porque isso é melhor do que gerar uma briga no

futuro. Você começa a medir as palavras quando está ao lado dele, pois sabe

que qualquer coisa que você diga fora de contexto pode ser distorcida e virar

uma briga sem pé nem cabeça. Como no dia em que você disse que gostava

de camarão frito e ele disse que camarão não faz bem para a sua saúde.

Quando você está envolvida na situação, pode até ver esse comentário como

uma preocupação, mas não é uma preocupação a partir do momento em que

você tenta argumentar que ama camarão e não vai deixar de comer só porque

ele acha que não faz bem. Qualquer pessoa normal daria de ombros e deixaria

que você comesse o que bem entende. Mas ele não, ele levanta a voz e tenta

te calar. Tenta te convencer. Porque só a opinião dele conta. Só a opinião dele vale. A sua pouco importa... Afinal, ele sabe o que é melhor pra você. E você

se cala, porque não quer brigar. E evita comer camarão perto dele. Abrindo

mão de um pouquinho de quem você é... Concessões.

Nesse relacionamento, você faz muitas concessões. Está o tempo todo

cedendo para que não existam discussões desnecessárias e para que o casal dê

certo. Num dia, ele te convence a não comer camarão; no outro, que seus

amigos não valem de nada e te convence a se afastar deles. Tudo que seus

amigos fazem será interpretado como algo ruim e ele vai te “alertar” sobre

isso. Claro, ele se diz muito preocupado com você. Com o seu bem-estar.

Coitada de você com amigos tão ruins! Com pessoas péssimas ao seu redor!

Ele precisa te ajudar a sair dessa... E ele vai “ajudar”. Claro que vai. Ele vai

falar tanto na sua cabeça, que para evitar ouvir ladainha todo dia você vai

acabar se afastando dos seus amigos. Talvez até se convença de que eles são

mesmo más pessoas e os deixe pra lá. Afinal, você tem seu príncipe

encantado que te protege de camarões malvados e amigos falsos. Do que

mais você precisa? Nada, né?

É exatamente isso que uma pessoa abusiva vai fazer com você.

Aos poucos você não vai precisar de mais nada.

Nem das coisas que você gosta.

Nem dos seus amigos.

Nem da sua família.

Nem do seu emprego.

Nem de você mesma.

Você só vai precisar dele.

E aí chega o momento em que ele começa a te criticar, mas claro, é só

para o seu bem. São “críticas construtivas”, poxa vida. Você não é tão

esforçada quanto poderia. Você não é tão magra quanto deveria ser. Tá vendo

só? Se tivesse se esforçado mais um pouco, tinha conseguido a promoção que

queria no trabalho. Mas você é preguiçosa, não se esforça, assim não vai

chegar a lugar algum. Mas ele fala isso porque te ama, né? Por que você não

emagrece? Tá muito gorda. Se descuidou... Você tem sorte de eu ainda

querer namorar com você... Qualquer pessoa desistiria de estar ao seu lado.

Olha só pra você. Como foi chegar a esse ponto? Mas ele fala isso para te

ajudar, é claro.

Depois das críticas “construtivas”, ele passa a te fazer sentir culpada por

tudo, até por atitudes dele. Vamos supor que ele faça algo errado no

relacionamento e que essa atitude machuque você. Uma traição, por exemplo. Você, com medo, tenta conversar, tenta expor a situação, como qualquer

casal normal faria: sentando e conversando. Você espera que ele te escute,

perceba onde errou, te peça desculpas por isso e tente mudar. Isso aconteceria

em qualquer relacionamento saudável. Mas a pessoa abusiva não aceita que

isso aconteça... Você não pode ter voz e mais ainda: ele não pode estar

errado. Nunca. Então, mais uma vez, ele tenta se sobrepor ao que você está

dizendo, tenta “falar mais alto” do que você. Vai dizer coisas sem sentido,

distorcer o que você disse e, no final, te fazer sentir culpada por algo que ele

fez e te chateou. Afinal, ele não pede desculpas. Ele nunca está errado. Então,

você é obrigada a engolir aquilo que te machucou, passar por cima dos seus

sentimentos e, ainda por cima, PEDIR DESCULPAS POR SE SENTIR

DAQUELA FORMA. Parece uma loucura, e realmente é, porém, quando

você está envolvida na situação, nesse relacionamento do qual não consegue

sair, você nem percebe ao que está se sujeitando. Você só quer paz. Sabe a

paz? Aquele quentinho no coração que eu falei que o amor nos faz sentir? É

só isso que uma pessoa que está em um relacionamento abusivo quer sentir.

Ela espera que um dia o outro se toque do que está fazendo e volte a ser

aquela pessoa lá do início... Mas isso não acontece nem vai acontecer, sinto

muito ter que te contar isso.

Porque a pessoa do início simplesmente não existe. Nunca existiu.

É duro dizer isso, mas quantas vezes você conheceu uma pessoa, se

apaixonou por ela e, depois de alguns meses juntos, ela se transformou

completamente? Pois é. A questão é que: ela não se transformou coisa

alguma. Ela apenas fingiu ser alguém que não era para te conquistar.

Algumas pessoas têm esse poder de ler o outro, e aí se fantasiam de pessoa

ideal, aquilo que você sempre procurou... Normal cair nesse conto da

carochinha. Eu já caí várias vezes, você já caiu, seus amigos já caíram... A

questão é que, muitas vezes, nos apegamos a essa pessoa do início do

relacionamento, afinal, foi por essa pessoa que nos apaixonamos. Ninguém é

abusivo no primeiro encontro, porque, se fosse assim, dificilmente engataria

em um relacionamento com alguém. Então você se segura com unhas e

dentes a essa imagem da pessoa que conheceu. Você tenta justificar essas

atitudes tão ruins como “uma fase”, acredita que “vai passar”. Você procura

ajuda na internet, em livros de autoajuda, em vídeos do YouTube. Você foge

da verdade o tempo todo, porque a verdade dói, eu sei, dói demais.

E são elas:

1. A pessoa por quem você apaixonou não existe;

2. Como essa pessoa não existe, ela também não “vai voltar”;

3. Não é apenas uma fase;

4. Você está em um relacionamento que não é saudável e que te faz mal

constantemente;

5. Por mais que você tente, algumas coisas não estão ao seu alcance;

6. Você é capaz de mudar apenas os seus pensamentos. Nunca os do outro.

 

• • •

 

Leia essa lista quantas vezes precisar. Sei que reconhecer falhas e fracassos

não é fácil, mas entenda que relacionamentos assim não são uma falha sua,

não é um fracasso de verdade. Você não tem culpa! Que culpa você teria por

querer ser feliz? Que culpa você teria por acreditar no melhor das pessoas?

Que culpa você teria por querer amar? Nenhuma. Nenhuma mesmo.

Eu costumo classificar as pessoas abusivas em dois tipos: 1) as que

sabem que estão sendo abusivas e, mesmo assim, continuam sendo; 2) as que

são abusivas sem nem perceber. E nesse segundo tipo, muitos de nós estamos

incluídos.

Todos nós podemos ter uma atitude abusiva um dia. Exemplo: eu já senti

ciúmes do que não devia. Coisas que não faziam sentido, como sentir ciúmes

daquela amiga de anos do seu namorado ou da mulher que trabalha com dele.

Um ciúme movido apenas pelo fato de o nosso parceiro se relacionar de

alguma forma (seja amizade, relação profissional etc.) com pessoas que, em

tese, poderiam despertar algum tipo de atração. Você cisma com a cara da

pessoa e tudo que ela faz, absolutamente tudo, e sempre a relaciona com o

seu parceiro. Chega a ser doentio, eu sei.

A questão é que todos nós estamos sujeitos a sentir sentimentos ruins e

deprimentes. Sentimentos dos quais não nos orgulhamos e nem contamos

numa roda de amigos. Coisas que não são tão legais de sentir, mas que, por

falta de controle emocional, nós sentimos. Somos humanos, qual é?! Estamos

longe de ser perfeitos. O que pode vir a mudar toda a situação é como vamos

reagir diante de tais sentimentos.

Como vou reagir ao perceber que estou com um ciúme nada a ver da

colega de trabalho do meu namorado? Eu, Isabela, prefiro engolir e deixar pra lá. Até porque sei que muitas das vezes é apenas a minha mente e a minha

insegurança me pregando uma peça. E então o tempo passa e eu aprendo a

lidar com esse sentimento ruim. Aos poucos, ele vai sumindo, até deixar de

habitar meus pensamentos. Percebo que eu tenho que confiar mais em mim e

no meu parceiro para que as coisas deem certo. Mas muitas pessoas, muitas

mesmo, não têm controle algum sobre sua mente ou sobre seus pensamentos.

Então, elas entram em colapso por não saberem lidar com essas emoções tão

avassaladoras. E, em vez de guardarem para si e aprenderem a lidar com isso,

elas externam todos os pensamentos ruins. E cobram do outro uma atitude.

Cobram do outro corrigir um problema que é único e exclusivamente...

delas.

Mas como assim? Tomar uma atitude? Se a mulher do trabalho nunca fez

nada? Se a amiga de infância nunca teve segundas intenções e nunca faltou

com o respeito diante do relacionamento de vocês?

Mas não... Em um relacionamento abusivo, você tem que deletar essa

pessoa do Facebook e do Instagram. Se possível, de todas as redes sociais.

Porque a presença dela é uma ameaça, e o fato de você ter coragem de deletá-

la se transforma em uma prova de amor. As coisas começam a ficar

distorcidas. Quando você vê, está deletando pessoas não só das suas redes

sociais, mas também da sua vida. Você se afasta de todos os possíveis

motivos de briga. Pessoas que seu parceiro pode desconfiar, encucar,

implicar. Você pensa que assim está salvando seu relacionamento, seu amor,

seu conto de fadas... Mas você só está contribuindo para que uma pessoa que

já não é tão boa da cabeça fique pior.

E quando eu digo pior é em relação às atitudes com você.

Porque na cabeça de abusadores, está tudo bem. As paranoias foram

sanadas quando você, em uma prova de amor, parou de conversar com a

amiga de infância. E, em vez de esse gesto ser visto como um aprendizado

sobre a melhor forma de lidar com um ciúme completamente descabido,

possessivo e infantil, é visto como o movimento de alguém que apenas cedeu

um pouco. Impulsionando, assim, um comportamento altamente autoritário.

Como eu disse, todos nós podemos ter atitudes abusivas um dia, uma vez

ou outra, afinal, a gente erra mesmo. E a gente só aprende errando. O que não

pode acontecer é a pessoa ter esse tipo de atitude o tempo todo. A partir do

momento em que atitudes como essas se tornam corriqueiras, a pessoa que

está ali só cedendo, cedendo e cedendo vai perdendo tudo o que ela já

construiu.

Quando começamos um relacionamento, não temos um botão para apagar

tudo o que aconteceu e tudo que já fizemos. Afinal, somos uma construção de

tudo que vivemos. Momentos bons, momentos ruins, todos contribuíram para

o que somos. Mas, a partir do momento em que a pessoa começa a cortar

todas as características que fazem de você um ser único no mundo, suas

vontades, sua personalidade, seus amigos, seu emprego, seus sonhos... Ela,

aos poucos, está fazendo com que você SE PERCA.

Perder os elementos que te construíram até hoje é se perder.

É se anular.

É deixar de existir.

A loucura desse tipo de relacionamento chega a tanto que é certo que em

algum momento ele vai querer afastar você até da sua família, isso mesmo, as

pessoas que colocaram você no mundo. Afinal, eles se intrometem demais. E,

então, a pessoa abusiva vai proibir você de contar para os seus pais o que

acontece entre vocês dois e também vai isolar você de tal forma que não resta

ninguém com quem você possa desabafar sobre seus sentimentos. Seus pais

são proibidos de te visitarem e você está sempre inventando desculpas para

que eles não percebam que tem algo errado. E tem algo errado?, você se

pergunta. Parece errado, o sentimento é de que sim, está errado, é claro. Mas

a pessoa abusiva está sempre dizendo que é em nome do amor. Que é para o

seu bem.

Se é tudo para o meu bem, por que eu não me sinto bem de verdade? Se

ele faz tudo pensando em mim, por que não me deixa falar quando tento dizer

como me sinto? Se ele quer o melhor para mim, então por que afastar pessoas

que me fazem bem? Meus amigos, minha família... Se ele me ama, por que só

vê defeitos? Se ele se preocupa tanto comigo, por que não enxuga minhas

lágrimas e deixa de ser o causador delas? Se são críticas construtivas, por que

ouvi-las dia após dia me destrói, me deixa em pedaços? Se é tudo em nome

do amor, por que eu não me sinto amada?

São essas as perguntas que a gente se faz.

E eu gostaria de nunca ter tido que fazê-las.