Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 10 de 15

Páginas do PDF

Não Se Humilha, Não

capítulo 8

— Isa, para de falar alto, sério. Estamos no meio do restaurante —

interrompe Gustavo bem no meio do meu relato cheio de detalhes sobre o

ataque de tubarão que vi ontem, antes de dormir, em um documentário

interessantíssimo (e tensíssimo).

— Mas Gustavo, minha voz é assim, eu falo um pouco mais alto do que o

normal mesmo. Eu sempre falei desse jeito, quando você me conheceu, eu já

falava assim, eu, hein — rebato sem pensar duas vezes e deixo pra lá o que

estava contando.

Ele nem quer saber mesmo. Não sei por que insisto tanto em manter um

diálogo quando a outra pessoa não está nem minimamente interessada.

— Meu amor, eu falo pro seu bem... Imagine o que as pessoas pensarão

de você... Falando alto assim, sabe? Que garota sem classe, não sabe nem se

portar num restaurante... — Ele continua dando justificativas para essa crítica

sem sentido, só que eu já havia parado de ouvir.

Sério.

Passa rapidamente pela minha cabeça rebater mais uma vez e dizer que

talvez ninguém esteja se importando se eu estou falando alto ou não, até

porque todas as pessoas ao nosso redor estavam falando muito alto também.

Afinal, estamos em um restaurante bem movimentado de Juiz de Fora e,

ainda por cima, no horário de almoço de domingo! O horário mais

movimentado da história do planeta. Crianças choravam, mães davam risadas

segurando suas taças de gim e pais discutem em voz alta sobre a partida de

futebol (Flamengo contra Botafogo) que está sendo exibida na televisão.

Todos estavam conversando em voz alta e estava tudo bem. Mas quando eu,

Isabela Freitas, falei um pouquinho acima do tom, Gustavo Ferreira tinha que

me corrigir. Claro. Para o meu bem.

A-ham.

A verdade é que eu já estou de saco cheio disso tudo e continuo

empurrando esse relacionamento com a barriga.

Pronto, falei.

Estamos juntos há um ano e nove meses e o Gustavo que eu conheci lá no

início (o Gustavo dos três primeiros meses) desapareceu por completo. Ele se

transformou em uma pessoa que, sinceramente, eu mal conhecia, um

verdadeiro estranho. Temos dias bons, claro, não vou ser hipócrita e dizer que

nossa relação é construída apenas com momentos ruins. Mas os dias bons

estavam ficando cada vez mais espaçados, cada vez mais distantes... Não sei. Como se os momentos bons estivessem fracos demais para ofuscarem os

ruins. Talvez seja pelo fato de que algumas atitudes consideradas “pequenas”,

como a que ele tinha acabado de tomar, de me pedir para falar mais baixo,

simplesmente acabassem com o meu dia.

Tipo, de verdade. Acabavam mesmo. Meu emocional estava tão

enfraquecido que qualquer vento mais forte me fazia desabar. Essa era a

situação em que me encontrava.

Eu repassava a cena mil vezes na minha cabeça e, em todas elas, tentava

me colocar no lugar do Gustavo. Tentava entender o motivo da “crítica”, do

“incômodo”, o porquê de ele me corrigir tanto e tentar me moldar segundo

seus caprichos. Mas, todas as vezes que alguma situação desagradável

acontecia, eu nunca conseguia entendê-lo. Era como se fôssemos de mundos

diferentes ou falássemos línguas diferentes.

E sempre que eu me colocava no lugar dele me perguntava se Gustavo

em algum momento fazia o mesmo por mim. Algo me dizia que não, ele não

se colocava no meu lugar. Porque, poxa vida, será mesmo que vale a pena

pedir para a sua namorada falar mais baixo enquanto ela está superempolgada

contando sobre o documentário superinteressante de tubarões? Será que não

seria melhor sorrir e prestar atenção no que ela estava falando? Com certeza,

se ele tivesse se colocado no meu lugar, pensaria dessa forma. Porém, algo

mais forte dentro dele está sempre querendo me colocar pra baixo, de forma

direta ou indireta. E ele conseguia. Como eu estava cansada de discutir por

besteira, acabava deixando pra lá. Fingia que não era comigo. Fingia que

aquilo não estava acontecendo, que era um delírio momentâneo.

Sei que uma atitude dessas, vista de forma isolada, pode ser interpretada

como algo pequeno, ínfimo, algo fácil de se passar por cima. Mas quando

isso se torna uma constante na sua vida, todos os dias, tipo, todos mesmo,

crítica ali, crítica aqui, repressão ali, repressão aqui... você começa a se sentir

errada a todo momento. Você começa a questionar suas qualidades, seu jeito

de falar, de se vestir, de se portar. Você chega a questionar até a sua sanidade

mental, afinal, como seria possível duas pessoas não conseguirem se entender

de forma simples e clara? Será mesmo que minhas atitudes eram tão

problemáticas assim? Ou o problema estava nele?

E assim eu continuava arrastando (sem muitas forças) um relacionamento

que estava completando um ano e nove meses, adivinha... HOJE! Ah!

Inclusive, esse almoço era para comemorar o nosso “aniversário”. Pois é, o

Gustavo se importava muito com essas coisas. Todo mês ele fazia questão de “comemorar o nosso amor”.

No início, eu achei isso muito fofo.

Uau.

Eu mal tinha um namorado, e agora, além de ter um namorado, eu tinha

um namorado que achava importante comemorar nosso aniversário de

namoro t-o-d-o-s os meses. Em tempos de relações tão líquidas e vazias, isso

era algo a ser valorizado, vai...

 

• • •

 

No primeiro mês de namoro, nós fizemos uma viagem, nunca vou esquecer.

Achei aquilo o máximo. Ninguém nunca tinha feito nada parecido por mim.

Fomos para Angra dos Reis, no litoral do estado do Rio de Janeiro, e

passamos o fim de semana embriagados de amor. No segundo mês, ele

arrumou meu quarto com muitas velas, flores, e esse tipo de coisa romântica

que as pessoas fazem. E... tá, eu odiei. Porque odeio esse tipo de surpresa

romântica demais. Mas o que vale é a intenção, né? Achei fofo, agradeci,

contei para os meus amigos... Gustavo era o namorado perfeito, sem defeitos.

No terceiro mês, fomos jantar no restaurante preferido dele, o mesmo

restaurante em que estamos almoçando agora. No quarto mês, fomos fazer

um piquenique no campus da universidade em que estudávamos, a UFJF.

Lembro que, naquele dia, nós discutimos feio. Muito feio. Foi nossa primeira

discussão. E tudo porque eu estava de vestido (um dia de sol no parque,

qualquer garota usaria um vestido para se sentir confortável), e um cara

mexeu comigo quando fui comprar sorvete.

A-ham. Um cara passou do nosso lado e falou “Que loira gostosa,

hein...”. Na hora, eu me encolhi toda, a mesma reação do meu corpo em todas

as vezes que fazem isso comigo na rua, mas segurei firme as mãos do meu

namorado. Esperei uma palavra de amparo, apoio, ou só um abraço mesmo.

Eu esperei qualquer reação dele, qualquer mesmo. Mas nunca a que ele teve.

— Por que você veio com esse vestido? — perguntou ele, olhando com

desprezo para o meu vestidinho rodado branco de bolinhas pretas.

— Quê? Não entendi. — Eu realmente não tinha entendido. Do que ele

estava falando? Ele queria dizer o que eu estava achando que ele queria

dizer?

— Você é sem noção?! Não viu o cara mexendo com você?! — disse ele,

arregalando os olhos de tanta raiva, ou sei lá o que ele estava sentindo.

— Eu vi... Mas que culpa eu tenho? Nem olhei pra ele... — Tentei me

justificar. Envergonhada, constrangida, sem reação alguma.

— Não tem culpa?! Isabela, sério. Eu preciso explicar como funciona a

cabeça dos homens? Você vem com esse vestido e acha que ninguém vai

mexer com você?! Você está provocando... Claro que alguém vai mexer...

Agora você se faz de vítima, como se não soubesse disso, para, né...

— Não estou me fazendo de vítima, Gustavo. Eu só estava com calor!

Que bicho tinha mordido esse garoto? Sério? Alguém me ajuda aqui?!

— Que calor? Você tem que ter noção. Não me faz perder a paciência,

não. Já estou de saco cheio.

— Oi? De saco cheio de quê? Se estávamos rindo e andando de mãos

dadas pelo parque? Gustavo, eu...

— Me deixa, Isabela. Sério. Já deu.

E, me largando ali sem entender nada, ele soltou a minha mão e deu

passos decididos em direção ao estacionamento em frente à nossa faculdade

de Direito, onde havíamos estacionado o carro. Depois de alguns minutos,

seu Audi preto passou por mim, e ele nem sequer se virou para olhar pela

janela para ver se eu ainda estava ali onde ele havia me deixado.

Como se eu não existisse.

E eu fiquei ali. Do jeitinho que ele havia deixado.

Invisível e destruída.

Na época, não me mexi, não tive reação alguma. Meus pés pesavam cem

quilos cada um, minha cabeça girava, e as frases que ele me disse se repetiam

a todo momento na minha mente: “Por que você veio com esse vestido?”,

“Você é sem noção?!”, “Agora você se faz de vítima”... Caramba. Era um

vestidinho rodado de bolinhas com o comprimento no joelho. Não era sexy.

Não era insinuante. E, mesmo assim, se fosse, eu não tinha o direito de vestir

algo que fizesse eu me sentir bem? Eu tinha que me vestir pensando no que

as outras pessoas iam pensar de mim? Meu namorado não deveria me

defender, como tinha feito quando o Fábio me xingou no meio da festa? Cadê

aquele Gustavo? Onde ele estava? Será que ele nem sequer existia? Ou era

tudo um teatro para me conquistar?

Tentei me convencer de que o vestido tinha sido uma péssima ideia

mesmo. O Gustavo poderia estar apenas preocupado comigo. Ele voltou e me

buscou, mas a discussão no carro foi ainda mais intensa. Essa briga poderia ter sido motivada por ciúme, e esse ciúme podia ter sido motivado por um

amor gigantesco. Vai saber, né... Mas nada disso fazia sentido. Quanto mais

eu pensava, mais dúvidas tinha. Por mais incrível que pudesse parecer, nem

vontade de chorar me dava. Isso nunca tinha acontecido comigo... Ser julgada

pela minha roupa, ainda mais pelo meu próprio namorado...

Mais tarde, naquele mesmo dia do parque, quando cheguei em casa e

entrei no meu Facebook, percebi que Gustavo tinha postado uma selfie nossa

que tiramos dentro do carro dele, antes de toda a confusão do vestido. Eu

sorria, feliz, radiante. Ele também. Junto com a foto, uma linda declaração de

amor que me agradecia pelos quatro meses juntos. Respirei fundo e resolvi

passar por cima do que tinha acontecido, tudo pelo nosso amor.

Mas eu não devia ter feito isso...

Porque o amor não machuca e nem deve ser usado como desculpa para

machucar alguém...

Eu só não sabia disso na época.

E, depois disso, seguimos com nossas comemorações mensais, porém, à

medida que o tempo foi passando, eu sentia que essas comemorações eram

mais para mostrar algo a alguém do que para me fazer bem. O que importava

era a foto que ele ia postar, ou a imagem que ele ia passar... O que eu sentia

pouco importava. Foi deixando de importar... E eu me acostumei com isso.

Com esse relacionamento que aparenta ser perfeito, mas que não me faz bem.

Com esse namorado que diz que me ama, mas que não me faz sentir amada.

Em que momento eu perdi minha voz? Em que momento eu deixei de ter

atitude? Em que momento eu me perdi tanto assim dos meus princípios? Em

que momento eu deixei que outra pessoa dissesse o que era melhor para

mim? Em que momento comecei a deixar de ser quem sempre fui para me

tornar um fantasma, um ninguém, uma sombra? Em que momento eu deixei

de acreditar no nosso amor, mas ainda assim, continuei lutando por ele?

Como eu fui deixar isso acontecer? Sério!

Eu só queria mudar toda essa história e ser feliz, sabe? Como as princesas

são no final dos filmes. Ou só ser feliz, nem precisa ser como uma princesa.

Eu só queria sorrir e não ter motivos para parar.

Só isso.

 

• • •

Meu celular vibra e me tira dos meus pensamentos, me trazendo de volta à

realidade.

 

Pedro Miller:

e aí branquela, você tá bem? :P

12:41

 

Uma coisa sobre o Pedro: ele aparenta ter um radar de tudo que se passa

no meu coração. Toda vez que aperta aqui dentro, ele manda uma mensagem

perguntando se eu estou bem. Ele devia ser médium, intuitivo, empata, ou sei

lá a nomenclatura que se dá pra pessoas assim. Isso não podia ser

coincidência.

Leio a mensagem mais uma vez. Se eu estou bem? SE EU ESTOU BEM?

Eu estou péssima. Um lixo. Sou só o cocô da mosca que pousou no cocô do

cavalo do bandido. Eu poderia parar no meio desse restaurante e gritar até

todas as taças de cristal se espatifarem, de tão mal que eu estava me sentindo.

Mas eu continuava sorrindo e acenando, por algum motivo estranho. Talvez

Gustavo tenha instalado um chip em mim e tenha o controle das minhas

ações. Por isso, eu estava agindo como uma completa idiota.

Ao menos essa era uma boa explicação.

 

Isabela Freitas:

ah... tô. tô sim. e vc?

12:41

 

Pedro Miller:

isa... o que houve?

tá tudo bem mesmo?

12:42

 

Isabela Freitas:

nada. relaxa. só uma discussão besta com o gustavo. aquelas coisas

de sempre.

12:43

Pedro Miller:

ei, não fica mal. sério. não era hj que vcs iam comemorar um ano e não

sei quantos meses de namoro?

12:44

 

Isabela Freitas:

é. era. 1 ano e 9 meses pra ser mais exata.

12:45

 

Pedro Miller:

mas vcs brigaram feio? como assim???

12:45

 

Isabela Freitas:

não brigamos feio... nem brigamos... só uma coisinha mesmo que

me incomodou no almoço, mas tá td bem. eu que não tô legal :(

não sei explicar. sentindo uma angústia dentro de mim.

12:46

 

Pedro Miller:

poxa, branquela... eu odeio te ver assim :( :( :(

corta o meu coração.

12:46

 

Isabela Freitas:

o meu já tá mais que cortado </3. desculpa

ficar jogando meus problemas em cima de vc. desculpa mesmo.

mas é que a amanda já tá com raiva de mim, e eu simplesmente não

tenho mais ninguém pra conversar além de vc... :( vc foi tudo que

me restou.

12:47

 

Pedro Miller:

Digitando...

12:47

Pedro Miller:

isa, vc pode falar TUDO comigo, entendeu? TUDO. não tem que se

desculpar... não mesmo! o que eu posso fazer por vc? quer assistir a um

filme no cinema hj à noite? se bem que eu acho que vc não vai querer sair

de casa, né... podemos jogar alguma coisa on-line até a hora de dormir...

ou ficar vendo vídeo de pegadinha no skype! hein? hein? o que vc quiser

a gente faz :)

12:48

 

O fato de ele dizer “acho que você não vai querer sair de casa” me atinge

como um soco. Em que momento eu virei uma presa dentro da minha própria

casa? Pois era isso que estava acontecendo. E até meus amigos, quer dizer,

meu único amigo, sabia disso.

 

Isabela Freitas:

pegadinhas? acho que pegadinhas podem me animar hehe :P

12:48

 

Pedro Miller:

vc e suas pegadinhas... >.< mas tá. hj pode. hj vc que manda!

12:49

 

Pedro Miller:

combinado?

12:49

 

Isabela Freitas:

combinado.

12:50

 

Pedro Miller:

vai lá curtir seu almoço e depois a gente se fala, tá? fica bem, branquela.

eu tô aqui. não esquece...

12:50

 

Isabela Freitas:

mais tarde te mando mensagem! brigada por TUDO. vc é o melhor

de todos.

12:51

 

Pedro Miller:

eu sei... ;)

12:51

 

Pedro Miller:

vc tb é a melhor de todas, isa.

12:52

 

Respiro fundo. Ler uma coisa dessas, na situação em que estou, embrulha

meu estômago. Eu não me sinto a melhor de todas. Na verdade, no momento,

não me sinto boa em nada. Meu relacionamento é um fracasso. Minha melhor

amiga está com raiva de mim. Olho para a foto que tenho guardada em um

álbum escondido no celular. A foto que tiramos no parque, eu, Amanda,

Pedro. Eu era tão feliz, tão cheia de mim... E Amanda do meu lado. Nossa.

Como eu queria voltar para esse dia e consertar tudo. Dizer para o Gustavo

que eu havia mentido, deixar que ele surtasse comigo e percebesse ali que ele

não era quem fingia ser. Ah! Queria muito! Atualmente a única pessoa que

ainda se importa comigo é o Pedro, porém ele não sabe nem 30% do que

acontece comigo.

Gustavo diz que me ama, mas só me critica e me coloca pra baixo.

Minhas notas na faculdade estão despencando, e eu, que sempre fui a melhor

da sala, estou perigando repetir nada mais nada menos do que TODAS AS

MATÉRIAS.

Eu não sou a melhor.

Eu tenho sido a minha pior versão por tempo demais.

— Conversando com quem? — Gustavo corta seu peixe lentamente e

nem levanta os olhos para me fazer a pergunta.

Mais um dia normal na minha vida.

— Com o Pedro.

Dou de ombros e tento empurrar mais um pouco da comida que não

descia por nada. Convenhamos, essas comidas de rico são horríveis. Eu daria

tudo para comer um McDonald’s nos nossos aniversários de namoro. Mas não... McDonald’s não é bom suficiente, eu merecia mais. Era o que dizia

Gustavo. Eu merecia muito mais do que um cheeseburger: pão, carne e

queijo... Merecia um salmão seco, com umas folhinhas de alecrim jogadas

por cima. Ele nunca, tipo nunca, fez algo que eu queria nas vezes em que

saíamos para comemorar. Era sempre o que ele achava que era o melhor para

mim.

Sempre.

— Hum. Ele não fica falando merda na sua cabeça sobre o nosso

relacionamento não, né? — Agora, ele sorria, mas algo me dizia que por trás

desse sorriso continha uma ameaça.

— Como assim, Gustavo? — Pouso meus talheres no prato.

— Ué, aquela sua amiguinha, Amanda, vivia falando pra você terminar

comigo, sei disso porque li os absurdos que ela te mandava... Você lembra,

né...?

E como eu esqueceria? Como esquecer do dia em que ele simplesmente

pegou meu celular enquanto eu estava tomando banho e leu toda a minha

conversa com a minha melhor amiga? Eu contei sobre alguma briga que

tínhamos tido mais cedo e ela mandou umas vinte mensagens que diziam

“larga desse idiota”. Amanda estava simplesmente cansada de me ouvir

reclamar sobre o Gustavo, e eu entendo totalmente o lado dela.

Já com o Pedro, eu nunca fui muito de falar abertamente sobre tudo que

acontecia no meu relacionamento, até porque, conhecendo bem meu amigo,

sei que ele faria pior do que me mandar mensagens falando para largar o

Gustavo, e eu não queria que Gustavo o odiasse também. Mas, depois desse

dia que o Gus leu as mensagens da Amanda, minha vida virou um inferno.

Porque a Amanda passou a não suportar mais o meu namorado e o meu

namorado não suportava mais minha melhor amiga.

E, para completar: éramos todos da mesma sala na faculdade.

Então, sem ver solução alguma, e com medo de perder os dois, eu,

encarecidamente, pedi para minha melhor amiga fingir que estava brigada

comigo para que meu relacionamento continuasse a fluir. Só nos horários de

aula, sabe? E no meu tempo livre nós podíamos continuar nossa amizade...

Eu sei, fui ridícula e, sinceramente, não me orgulho nada disso. Eu estava

desesperada. Precisava contornar uma situação e não via saída alguma, a

saída que eu encontrei foi conversar com a parte mais flexível da equação...

Minha melhor amiga. De início ela até topou me ajudar, mas, no fim das

contas, acabou brigando comigo de verdade. Ela não suportava me ver ao lado de alguém como o Gustavo e deixava isso bem claro em todas as nossas

conversas. Amanda é racional demais para acreditar que um cara como o

Gustavo um dia mudaria, e eu era emotiva demais para decretar que meu

relacionamento estava fadado ao fracasso havia algum tempo...

Eu acreditava no amor, poxa vida!

“O dia que você acordar dessa loucura, me procura. Eu cansei.” Essas

foram as últimas palavras de Amanda Akira para mim. Não vou mentir, doeu

muito. Doeu porque: 1) eu sabia que estava em um relacionamento ruim, mas

eu não sabia como sair dele; 2) eu gostava do Gustavo e, de alguma forma,

me sentia um pouco refém desse sentimento, ou seria refém dele? Não sei

dizer; 3) eu queria ter forças para sair desse relacionamento, queria mesmo,

mas minhas forças eram drenadas todos os dias, e quanto mais o tempo

passava, mais imersa nessa situação eu me sentia; 4) é, eu devia estar meio

perturbada. Era uma explicação plausível para tudo que estava acontecendo

comigo.

— Lembro sim, amor. Mas já passou... — Relembrar a Amanda abre

uma ferida dentro do meu peito. Não tinha um dia em que eu não abria a

conversa dela para ver se estava on-line ou olhasse por alguns minutos para

nossa foto no parque. Como eu sentia falta da minha japonesa do meu lado...

— Relaxa, eu não falo nada do nosso relacionamento pro Pedro, pode

confiar.

Em parte, era verdade. Eu realmente nunca fui de falar nada do meu

namoro para o Pedro. Eu falava que estava triste às vezes, mas nunca contava

o motivo. Não sei se o sexto sentido de melhor amigo fazia com que ele

soubesse o que se passava comigo, mas eu o afastava da realidade sempre

que podia. Sei que o Pedro nunca suportaria o fato de eu continuar me

relacionando com um cara que me “maltratava”. Pedro cuidava de mim como

se eu fosse uma irmã para ele.

— Até porque, pelo que você fala, esse Pedro nunca namorou... Ele

sentiria inveja do nosso relacionamento. E inveja não é um sentimento bom.

Você não deve alimentar isso.

Inveja do nosso relacionamento? O Pedro? Rá-rá. Acho que nem a pessoa

mais solitária do mundo sentiria inveja do nosso relacionamento no momento

atual.

— Sim, sim... Sei disso.

Tá vendo? Eu me pegava concordando o tempo todo com coisas que eu

nem concordava. Meu Deus, o que eu estava me tornando? Cadê a Isabela? Cadê aquela euzinha que eu conheço tão bem? Onde encontro outro exemplar

de mim mesma para comprar?

— Você sabia que eu te amo? — diz ele.

Este é um dos momentos bons. Viu? Eu disse que eles existiam. Um

pouco fracos, sem força para sustentar algo, mas estavam ali. Em meio a

tantos momentos horríveis, tinha algo bem pequenininho ao que me agarrar.

Como um náufrago que encontra um pedacinho de madeira que restou da sua

embarcação e se agarra a ele como se fosse a coisa mais importante da sua

vida.

— Também te amo, Gus. — Dou um sorriso forçado, meio triste... Triste

comigo mesma por ter chegado a esse ponto.

Então ele segura minhas mãos, dá um beijo e pede a conta.

A sensação de que tudo ficaria bem sempre vinha para iludir, para dar

esperança, para tentar me fazer acreditar no nosso amor.

Mas a esperança não durava muito, porque logo, logo, ele arrumaria

algum motivo para me colocar pra baixo.

De novo.

E de novo.

Cada vez mais fundo.