Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 11 de 15

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Não Se Humilha, Não

capítulo 9

Hoje está sendo um dia atípico na minha rotina monótona. Para começar,

eu acabei cruzando com a Mandy no banheiro feminino e, tudo bem, nós duas

nos encontrávamos o tempo todo nos corredores da faculdade, já demos

algumas trombadas no meio da sala de aula também, mas sempre com muita

gente em volta. Eu ainda não tive a oportunidade de encontrá-la sozinha. Cara

a cara. Sem mais ninguém olhando e observando, afinal, o Gustavo sempre

estava na minha cola. Bastava a presença dele para melar qualquer chance de

uma conversa franca com a Mandy. Um sorrisinho, um olhar, uma

reaproximação que seja.

Eu estava apertadíssima para fazer xixi (se manter hidratada faz bem para

a saúde, mas, às vezes, é impossível segurar) e já entrei no banheiro feminino

da faculdade de Direito escancarando a porta da primeira cabine que vi pela

frente com a calça meio abaixada, já quase preparada para as vias de fato, se

é que vocês me entendem. O que eu não esperava era encontrar a Mandy

sentada no vaso sanitário, pasmem, chorando. Pois é. Minha melhor amiga,

que nunca chora, que é sempre racional, que está sempre com uma cabeça tão

boa... estava se afundando em lágrimas. Eu fiquei sem reação. Ela olhou para

mim, eu olhei para ela, o xixi avisou que estava vindo, mas eu querendo

consolar minha amiga... acabei esquecendo do xixi.

Sim. Pois é.

Eu fiz xixi na calça. E MINHA MELHOR AMIGA PRECISAVA DE

MIM! Amanda estava com os olhinhos pequenos vermelhos de tanto chorar,

esfregou as mãos uma na outra e me deu um sorriso sincero.

Poxa vida, que saudade eu sentia da minha melhor amiga.

— Mandy, eu quero te abraçar, sério, mas acho que você não vai querer

me abraçar na minha situação, né?

Olhei para minha perna toda molhada, a calça jeans clara manchada, meu

Deus, que situação. Essas coisas definitivamente só acontecem comigo!

Porém, para minha surpresa, ela se levantou de onde estava e me deu um

abraço apertado. Ficamos uns trinta segundos abraçadas, os corações

acelerados. Eu estava muito arrependida de um dia ter pedido para que ela

fingisse estar brigada comigo, muito mesmo. E ela também deve ter se

arrependido de ter virado a cara para mim, até porque... né? Mesmo se um dia

eu acabasse me tornando a pessoa mais insuportável do mundo, eu gostaria

que minha melhor amiga estivesse ao meu lado tentando me salvar.

Mas, claro, eu entendo o lado dela, mais até do que o meu.

Entendo muito.

Ter empatia é se colocar no lugar do outro, é tentar acessar a mente de

uma pessoa, analisar o que ela já passou na vida, o que ela valoriza, seus

princípios, e tentar entendê-la. Mesmo que essa pessoa pense diferente de

você, mesmo que vocês discordem quando opinam sobre algo, entender o

outro nunca vai ser algo impossível de se fazer. Basta você se abrir para isso.

Simples assim. Por anos e anos, eu tive discussões infinitas querendo definir

quem está certo e quem está errado em alguma situação. Se eu me

considerasse certa, o outro automaticamente estava errado, e não merecia

atenção nenhuma da minha parte. Que radicalismo besta... Isso não nos leva a

uma solução e nos faz andar em círculos, sem conseguir resolver um

problema, ou pior, nos torna hesitantes, porque ao menor sinal de faísca, você

acaba fugindo: “Ah, se ele não consegue admitir que está errado, então tô

fora. Pois sei que estou certa.”

E aí, quando você menos espera, acaba se tornando uma pessoa que não

sabe lidar com nada que não seja consonante o tempo todo. Uma pessoa que

não sabe lidar com rejeição, com opiniões diferentes, com visões diferentes.

O único mundo que vale é o mundo visto pelos seus olhos. Nada que não seja

a sua visão de mundo é válido.

O que você ganha quando o outro admite o erro? E o que você ganha

estando certo? Entende aonde eu quero chegar? Isso não tem importância

alguma. Se você se magoou, o outro tem que se colocar no seu lugar e pedir

desculpas, mesmo que ele tenha certeza absoluta de que está certo. Se você

magoou alguém, mesmo achando certo o que fez, seria legal pedir desculpas

também. Porque você feriu os sentimentos dessa pessoa. É o responsável pelo

machucado no coração dessa pessoa que estava na sua vida.

Não importa se você está certo ou errado, é importante levar em

consideração como você fez o outro se sentir.

E eu, com minhas experiências, quero (quase) sempre fazer as pessoas se

sentirem bem ao meu lado. Pouco importa se no final das contas eu vou ser a

certa ou a errada, mas sei que eu vou ser aquela pessoa que causou um

sentimento bom no coração de alguém. Vou ser aquela que pede desculpas,

que enxuga as lágrimas, que pergunta o que pode melhorar. Vou ser alguém

que se importa com o que o outro sente e não somente com os meus

sentimentos. Foram anos e anos para conseguir mudar isso dentro de mim,

admito, sempre fui muito egoísta, muito mesmo! Mas eu mudei, porque já

dizia Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.” Estou sempre mudando, nunca

serei a mesma. E que bom! À medida que vivenciamos experiências, sejam

elas boas ou ruins, temos que aprender a sempre tirar a melhor lição possível.

E eu percebi que discussões intermináveis sobre estar certo ou errado não me

levavam a nada. E que ficar com raiva só porque alguém não agiu da forma

que considero certa era desgastante. O orgulho não me trouxe nada, apenas

me deixou sozinha com tudo o que poderia ter sido, mas que, por orgulho

besta, não foi. Se colocar no lugar do outro não é para qualquer um, afinal,

isso nos torna mais humanos, nos despimos por completo, e deixamos que o

outro veja lá dentro.

Levem isso com vocês: o ideal é procurar sempre a solução e não

ressaltar o problema já existente. Isso mudou a minha vida, e pode mudar a

sua também...

— Mas Mandy... Por que você está chorando? Aconteceu alguma coisa?

— pergunto, curiosa, enquanto tento secar em vão minha calça naquelas

maquininhas de secar as mãos.

Mandy tira seu casaco de moletom e estende para mim.

— Toma, Isa. Amarra isso na cintura e pede ao Pê para te levar em casa,

ou o Gustavo... sei lá. Acho que você não vai querer contar esse episódio pro

Gustavo, né? — insinua ela, franzindo as sobrancelhas.

Eu entendi o que ela estava querendo dizer.

— Olha, primeiro eu quero saber por que você está chorando... — Pego o

moletom e amarro na cintura. — E, obrigada, Mandy, eu amei esse moletom

roxo. Ninguém vai notar que eu estou toda molhada por baixo.

Dou um sorriso encorajador e não recebo nada de volta. Quero ver minha

amiga bem, droga. Por que estive ausente por tanto tempo? Caramba. Como

pude permitir que isso acontecesse? Como pude ser tão idiota? É sério?

— São meus pais, Isa... Eles têm brigado muito ultimamente, tenho me

sentido desamparada, entende? Dentro de casa não tenho paz, é gritaria o

tempo todo... Outro dia minha mãe ameaçou até chamar a polícia para tirar o

meu pai de casa... Não entendo... Eles sempre se deram tão bem... E agora

isso! E ainda por cima chego aqui na faculdade — ela me olha como quem

pede desculpas pelo que iria falar em seguida — e não tenho mais você ao

meu lado, minha melhor amiga... Não quero te culpar nem nada, mas você

faz muita falta. Muita mesmo. O Pedro continua lá e cá, afinal, é o Pedro

Miller. Protetor, carinhoso, compreensivo. Ele nunca abandonaria nenhuma

de nós duas... Mas falta você. Somos os três mosqueteiros, poxa! — Meus olhos se enchem de lágrimas. — A sensação que tenho é de que está tudo

desmoronando na minha vida, sabe? E, para completar, hoje eu tirei minha

primeira nota abaixo de sete na faculdade. Você acredita? E logo em História

do Direito! Eu sou um trem descarrilhado, Isa, e nunca fui um trem

descarrilhado. Sempre mantive tudo em ordem. Não estou sabendo lidar com

isso. Não mesmo.

Dou um suspiro demorado. Isso é verdade. O caos e a bagunça sempre fui

eu. Amanda é a pessoa que aparece com soluções. E pensar que minha

melhor amiga está passando por todos esses problemas dentro de casa

enquanto eu estou tentando ser feliz para sempre com alguém que nem me

faz mais feliz. Chame do que quiser, coincidência, destino, espíritos

protetores, mas algo mais forte nos uniu nesse banheiro.

— Mandy, eu tô aqui com você de novo e nada vai mais nos separar. —

Seguro as mãos pequenininhas dela e aperto forte. — Te prometo. — Os

olhos dela também se enchem de lágrimas. — Quanto aos seus pais, você

precisa entender que antes de eles serem seus pais, são também humanos,

namorados, um casal... Eles têm problemas assim como todo casal. É que

quando são os nossos pais, nós acabamos colocando uma bolha de perfeição

em torno deles, e achamos que eles não podem discutir, discordar, nem

brigar... Mas isso é supernormal. Já houve épocas em que meus pais não

aguentavam se olhar, e no final se ajeitaram... Quando eles começarem a

brigar, coloca um fone de ouvido, vai ler um livro ou liga pra mim! Vai lá pra

casa! Sabe que você é sempre bem-vinda, né? Minha mãe ama você. — Os

olhinhos dela se enchem de esperança. — Essa nota baixa aí... Bem, na

próxima prova você compensa. Sei disso. Você é a melhor da sala. E quanto a

sua melhor amiga, repito, ela não vai mais a lugar algum. Vou ficar aqui e

daqui ninguém me tira.

—Você jura? — Ela faz beicinho e ameaça cair no choro de novo. —

Meu Deus, eu me tornei quem eu mais temia... Você! — E então dá uma

risada gostosa pela primeira vez no dia.

— Ai, ai. E quem diria que eu seria a voz da razão um dia, hein? Hein?

Hein? — Faço uma comemoração besta para implicar com ela.

— E você está bem, Isa? — Mandy faz a pergunta que não quer calar.

— Estou, sim — minto.

Quantas vezes não guardamos nossas tristezas para ajudar um amigo? Ou

para parecermos mais fortes do que realmente somos? Ou para continuarmos

a fingir que somos felizes, porque fingir é muito melhor do que admitir que você está um caco?

— E você vai na festa de fim de ano do Direito que vai ter hoje na

Fazenda Azul? — pergunto a ela.

— Eu, não... Você vai? Lógico, né? Gustavo não perde um evento social.

— Ela revira os olhos.

— Eu vou... Vamos?

Ela se surpreende com meu convite.

— Você quer ir... comigo?

— Lógico, ué! Você é minha melhor amiga.

— Mas... E o Gustavo?

— Ah, que se dane. Ou ele aceita nossa amizade ou nada feito — afirmo.

Amanda se espanta com minha reação, claro.

— Vamos juntas — prossigo. — A gente faz uma entrada triunfal, coisa e

tal, como nos filmes! O tema é neon, sabe? Vai ter luz negra e tudo mais,

então, podemos fazer maquiagens neon combinando, a gente poderia escrever

B1 na minha bochecha e B2 na sua, sacou? Bananas de pijama! Bffs forever?

— Amanda faz uma cara de desaprovação. — Ok, podemos ficar só com a

entrada triunfal mesmo.

— Isso. Entrada triunfal e amigas para sempre. — Ela me empurra para

fora do banheiro e acrescenta: — Vai pra casa logo, Isa. Seu xixi está

fedendo muito. Socorro!

Puxo ela junto comigo e saímos dando boas gargalhadas do banheiro.

— Ah, para vai... Meu xixi tem um cheirinho delicioso!

Despeço-me da minha amiga e vou em direção ao estacionamento. Sabia

que ele já estaria lá.

 

• • •

 

Avisto o Ford Mustang preto 1967 estacionado na vaga de sempre. Debaixo

do antigo carvalho, na última vaga, no fundo do estacionamento. Ele dizia

que gostava de estacionar ali porque 1) sempre fazia sombra, porque assim

toda vez que ele entrasse no carro ia estar fresquinho; 2) era melhor para

dormir entre uma aula e outra, pois ninguém gostava de estacionar ali, já que

era meio longe do prédio principal; 3) às vezes dava para ver esquilinhos

pedindo comida perto da árvore.

Devo dizer que eu nunca vi os tais esquilinhos.

— Ei, ô de casa! — Bato no vidro da janela, na tentativa de acordá-lo.

Pedro Miller estava com o banco do carro todo deitado, os dois pés

apoiados no volante, ao som de “Blood Brothers”, do Iron Maiden, dormindo

como um bebê. Como eu queria ser assim às vezes. Não me importar com

nada e só tirar um cochilo ao som de um bom e velho rock’n’roll, enquanto

deveria estar na aula de Direito Constitucional.

Ele nem se mexe.

— Pedroooooo!!! — Bato novamente na janela, agora com mais força. —

Pedro Miller, uhuuu!!!! ACORDA!!!!!

Nada.

Resolvo apelar. Vou em direção ao capô do carro e dou um tapão no

tampo. Arrá. Eu sabia que funcionaria, isso sempre funciona. Pedro se

levanta do banco do carro procurando assustado o motivo do barulho e me

olha curioso, tentando entender o que está acontecendo. Ele abaixa os vidros,

coloca a cabeça para fora e fala:

— Aconteceu alguma coisa, branquela? Não vai me dizer que tem prova

surpresa de novo... — Ele se ajeita dentro do carro, abaixa o espelho do

motorista e começa mexer no cabelo bagunçado, que nunca estivera

realmente penteado.

— Na verdade, estou precisando de uma carona. — Enfio a cabeça dentro

do carro. — Será que você poderia me ajudar, dorminhoco?

— Claro! O quê... Cadê o Gustavo...? — pergunta ele, surpreso.

O fato de eu estar no estacionamento sem o Gustavo na minha cola é uma

miragem para quem acompanha o nosso namoro. Eu sei. Parece que todos

têm medo de ficar perto de mim sem que meu namorado esteja por perto. Sei

que a culpa não é do Pedro ou da Amanda, por se espantarem ao me ver

sozinha. A culpa é toda minha, pois fiquei tão fissurada nesse namoro que

acabei passando a imagem de que eu só poderia existir se o Gustavo estivesse

ao meu lado. Como se eu não fosse forte o bastante para definir o que quero e

quem eu sou, como se não pudesse guiar meu próprio destino e todas as

decisões da minha vida envolvessem o meu namorado. E sabe o que é pior? É

não conseguir me dar conta de quando foi que isso aconteceu, de quando eu

comecei a permitir que isso acontecesse. É como se eu estivesse esse tempo

todo em transe e, agora, finalmente, tivesse acordado.

Que loucura.

Como nos perdemos de nós mesmos tão fácil assim?

Quando nascemos, nasce com a gente uma estrelinha. A nossa estrelinha.

Temos que cuidar para que ela nunca se apague, e alimentá-la sempre com

sentimentos bons, para que ela brilhe cada vez com mais intensidade. E me

diz... como que a gente entrega nossa estrelinha na mão dos outros e deixa

que alguém cuide daquilo que é nosso? A nossa estrelinha é nossa e apenas

nossa. Ela que nos faz brilhar, ela que nos faz únicos. Podemos conceder um

pouquinho de brilho da nossa estrelinha para a estrelinha de outra pessoa, a

fim de evitar que algumas estrelas se apaguem. Mas nunca devemos apagar a

nossa estrelinha para que o outro brilhe mais. Nunca devemos colocar nas

mãos de outras pessoas o poder de esconder nossa estrelinha no fundo do

armário para que ela nunca mais saia e não ilumine mais as nossas vidas.

Confesso que a minha estrelinha estava presa, perdida, jogada por aí. Deixei

que ela caísse em algum momento e não fui atrás dela. Porém, agora consegui

perceber o quanto meu brilho estava se extinguindo. E o quanto eu precisava

recuperar o controle.

Recuperar a minha estrelinha. Para brilhar novamente.

— Sei lá. — Dei de ombros e fui até a porta do carona do Ford. — E

então, vai abrir a porta pra sua melhor amiga ou não?

Ele se estica todo e puxa a trava de segurança da porta, liberando minha

entrada. Me acomodo no banco do carona e dou um sorrisão. Pedro, me

observa curioso e devolve o sorriso.

— Estamos felizes hoje, hein? — Ele franze o nariz, sentindo o cheiro

desagradável da minha calça. — E bem cheirosas também, devo ressaltar.

Reviro os olhos.

— Para o seu governo, eu já tive dias piores. — Olho para minha calça

molhada. Então em seguida me justifico: — Encontrei a Amanda no banheiro

chorando e eu estava super, tipo, muito apertada mesmo. Pra fazer xixi, você

entendeu, né? Ah, peraí. Foi o contrário! Eu estava apertada para fazer xixi

antes de encontrar a Amanda no banheiro! Mas aí encontrei com ela, na

primeira cabine, e eu já estava tipo de calça abaixada... — Pedro nem pisca.

Está de boca aberta, tentando entender a história. — Nisso, ela estava

chorando, tipo, chorando mesmo. A Amanda, você acredita? — Ele assente,

como se já soubesse da história. Resolvo continuar, apesar de achar que ele

deveria ter me contado. — Então, eu acabei ficando nervosa, xixi, Amanda, a

falta de um vaso sanitário e de uma calcinha pra segurar o xixi... E aí ele veio

com tudo. O xixi, no caso. Mas no final das contas eu e Mandy conversamos,

como você pode perceber, estou com o casaco dela e acho que voltamos a ser amigas. É. É isso. Acho que estou feliz. Mas cheirosa não devo estar mesmo.

— Ele levanta a sobrancelha esquerda. — E é aí que você entra. Preciso de

uma carona pra ir pra casa, porque não tenho coragem de pegar o ônibus toda

molhada e muito menos de ir falar com o Gustavo, porque bem... Eu não tô a

fim.

— Não tá a fim de falar com o Gustavo? — Ele me encara com os olhos

azuis semicerrados, analisando.

— Não. Hoje à noite temos a festa do neon também, a gente vai acabar se

encontrando lá — desconverso.

— E você e a Mandy voltaram a se falar mesmo? Caramba! Que

felicidade, Isa... Eu não aguentava mais ver vocês duas sem conversar... Não

sou muito de me intrometer nessas questões, acho que o tempo sempre nos

mostra o que veio para ficar e o que nunca deveria ter ficado, mas vocês duas,

com certeza, são as pessoas que eu quero que fiquem. E estar no meio desse

fogo cruzado... Olha...

— Sei que não foi fácil. — Coloco a mão nas dele. Nossa. Não sei se

minhas mãos eram geladas demais ou se as mãos do Pê eram muito quentes.

— Me desculpa por isso. Me desculpa por ter sido uma idiota esse tempo

todo... Eu... — As lágrimas começam a querer vir. Não, não. Seja forte,

Isabela. Uma mulher madura e decidida. Você consegue. — Eu tenho errado

muito com as pessoas que eu amo. Muito mesmo. Com você, com a Mandy,

com meus pais, comigo mesma... Demorei a perceber isso, mas acho que

agora consigo enxergar com mais clareza... Eu sei que pareço feliz, que

pareço estar bem... Mas aqui dentro está tudo uma bagunça.

Pedro afasta os cabelos do meu rosto e segura com firmeza o meu queixo.

— Branquela, você não tem que me pedir desculpa por nada. Fica

tranquila. Eu estou do seu lado para o que der e vier, já te disse isso, lembra?

Não arredo o pé. Mesmo que você grite, esperneie e me mande pra longe —

ele respira fundo antes de continuar —, e tá tudo bem em se sentir uma

bagunça... A vida é assim mesmo. Às vezes, perdemos o controle de tudo e

nada parece fazer sentido... Porém, mantenha sempre as pessoas que gostam

de você ao seu lado, porque elas vão te levantar mesmo quando tudo o que

você deseja é continuar no chão. — Ele passa novamente a mão nos meus

cabelos e dá um sorriso que dizia “vai ficar tudo bem”.

Ok. Não preciso nem dizer que as lágrimas começam a cair

descontroladamente no meu rosto. Se antes eu estava molhada de xixi, agora,

eu ficaria molhada de tanto chorar. Tudo que eu guardei esse tempo todo deságua aqui, no carro do meu melhor amigo, Pedro Miller.

Sei que eu não deveria estar tão carente e emotiva assim, mas o menor

sinal de carinho do Pedro me emociona de uma maneira indescritível. Vamos

aos fatos: 1) eu não recebo um carinho assim há tempos, sim, um simples

toque no queixo com olhar de compreensão ou um afago no cabelo...

Acredite. Eu nem sei mais o que é isso; 2) eu já não me sinto digna de um

carinho assim, já que tudo que o meu namorado faz 30% do tempo é me

beijar no automático e nos outros 70% me criticar sobre tudo que eu faço,

logo, tenho me achado a pior pessoa do mundo; 3) tudo que eu tenho são

palavras. “Te amo, faço tudo por você, você é a mulher da minha vida, vamos

casar” e blá-blá-blá. Mas atitudes de amor? Zero. Nenhuma. Já o Pedro não

precisa falar que me ama para eu saber que ele me ama. As atitudes dele

mostram isso. O cuidado, o carinho, o perdão sem pedir nada em troca. Até a

Amanda! Logo ela, que foi a mais prejudicada na história e que sofreu com

minhas atitudes inconsequentes... Em instantes ela me perdoou e estendeu a

mão para me ajudar. Amor é isso. E o amor me emociona, ainda mais em um

momento em que me encontro tão frágil... Cada dia mais, percebo que,

durante todo o tempo em que procurei o amor, com certeza procurei nos

lugares errados e nas pessoas erradas.

Está tudo errado.

Tudo.

Mas eu iria consertar tudo que fiz.

— Obrigada, Pê. Eu não sei o que faria sem você. Sério. — Enxugo

minhas lágrimas e o encaro. — Assisti a todas as temporadas de Lost

recentemente, e na série tem um personagem que se chama Desmond. Ele é o

meu preferido, sabe... Vou te contar a história dele pra você entender aonde

eu quero chegar... — Ele se vira no banco para me observar melhor, com a

cabeça apoiada nas mãos. — Desmond se torna um viajante do tempo devido

a uma explosão que aconteceu na ilha. Mas quando uma pessoa viaja pra

frente e pra trás no tempo, precisa de uma constante, no caso uma pessoa que

ele escolhe, para servir de ponto de referência nessas viagens do tempo,

alguém que vai ajudá-lo a parar esse loop de viagens entre realidades

diferentes. — Respiro fundo e continuo a palestra. — Se essa constante não é

encontrada, as oscilações de tempo se tornam mais frequentes e caóticas,

levando até a morte da pessoa. Falei isso tudo só pra dizer que — abro um

sorriso — com certeza você é a minha constante, Pedro Miller. Entre todas as

minhas fases, minhas loucuras, meus altos e baixos, minhas “viagens”, você é a “coisa” mais estável. Não gosto de inflar seu ego, que já é elevado — ele

revira os olhos, convencido e orgulhoso com o que tinha ouvido —, mas eu

precisava dizer isso.

Suspiro.

— Você também é a minha constante, branquela. — Ele liga o carro

fazendo o motor roncar, e então começa a dar marcha a ré devagarinho para

sairmos da vaga sob o carvalho.

— Mesmo eu sendo essa amiga instável e meio doidinha? Que tipo de

constante eu sou? Só se for a sua dor de cabeça constante, isso sim.

Ele sorri mordendo o lábio e continua dando marcha a ré.

— Tá vendo esse sorriso nos meus lábios? Você é a minha constante de

felicidade, branquela.