Não Se Humilha, Não
capítulo 9
Hoje está sendo um dia atípico na minha rotina monótona. Para começar,
eu acabei cruzando com a Mandy no banheiro feminino e, tudo bem, nós duas
nos encontrávamos o tempo todo nos corredores da faculdade, já demos
algumas trombadas no meio da sala de aula também, mas sempre com muita
gente em volta. Eu ainda não tive a oportunidade de encontrá-la sozinha. Cara
a cara. Sem mais ninguém olhando e observando, afinal, o Gustavo sempre
estava na minha cola. Bastava a presença dele para melar qualquer chance de
uma conversa franca com a Mandy. Um sorrisinho, um olhar, uma
reaproximação que seja.
Eu estava apertadíssima para fazer xixi (se manter hidratada faz bem para
a saúde, mas, às vezes, é impossível segurar) e já entrei no banheiro feminino
da faculdade de Direito escancarando a porta da primeira cabine que vi pela
frente com a calça meio abaixada, já quase preparada para as vias de fato, se
é que vocês me entendem. O que eu não esperava era encontrar a Mandy
sentada no vaso sanitário, pasmem, chorando. Pois é. Minha melhor amiga,
que nunca chora, que é sempre racional, que está sempre com uma cabeça tão
boa... estava se afundando em lágrimas. Eu fiquei sem reação. Ela olhou para
mim, eu olhei para ela, o xixi avisou que estava vindo, mas eu querendo
consolar minha amiga... acabei esquecendo do xixi.
Sim. Pois é.
Eu fiz xixi na calça. E MINHA MELHOR AMIGA PRECISAVA DE
MIM! Amanda estava com os olhinhos pequenos vermelhos de tanto chorar,
esfregou as mãos uma na outra e me deu um sorriso sincero.
Poxa vida, que saudade eu sentia da minha melhor amiga.
— Mandy, eu quero te abraçar, sério, mas acho que você não vai querer
me abraçar na minha situação, né?
Olhei para minha perna toda molhada, a calça jeans clara manchada, meu
Deus, que situação. Essas coisas definitivamente só acontecem comigo!
Porém, para minha surpresa, ela se levantou de onde estava e me deu um
abraço apertado. Ficamos uns trinta segundos abraçadas, os corações
acelerados. Eu estava muito arrependida de um dia ter pedido para que ela
fingisse estar brigada comigo, muito mesmo. E ela também deve ter se
arrependido de ter virado a cara para mim, até porque... né? Mesmo se um dia
eu acabasse me tornando a pessoa mais insuportável do mundo, eu gostaria
que minha melhor amiga estivesse ao meu lado tentando me salvar.
Mas, claro, eu entendo o lado dela, mais até do que o meu.
Entendo muito.
Ter empatia é se colocar no lugar do outro, é tentar acessar a mente de
uma pessoa, analisar o que ela já passou na vida, o que ela valoriza, seus
princípios, e tentar entendê-la. Mesmo que essa pessoa pense diferente de
você, mesmo que vocês discordem quando opinam sobre algo, entender o
outro nunca vai ser algo impossível de se fazer. Basta você se abrir para isso.
Simples assim. Por anos e anos, eu tive discussões infinitas querendo definir
quem está certo e quem está errado em alguma situação. Se eu me
considerasse certa, o outro automaticamente estava errado, e não merecia
atenção nenhuma da minha parte. Que radicalismo besta... Isso não nos leva a
uma solução e nos faz andar em círculos, sem conseguir resolver um
problema, ou pior, nos torna hesitantes, porque ao menor sinal de faísca, você
acaba fugindo: “Ah, se ele não consegue admitir que está errado, então tô
fora. Pois sei que estou certa.”
E aí, quando você menos espera, acaba se tornando uma pessoa que não
sabe lidar com nada que não seja consonante o tempo todo. Uma pessoa que
não sabe lidar com rejeição, com opiniões diferentes, com visões diferentes.
O único mundo que vale é o mundo visto pelos seus olhos. Nada que não seja
a sua visão de mundo é válido.
O que você ganha quando o outro admite o erro? E o que você ganha
estando certo? Entende aonde eu quero chegar? Isso não tem importância
alguma. Se você se magoou, o outro tem que se colocar no seu lugar e pedir
desculpas, mesmo que ele tenha certeza absoluta de que está certo. Se você
magoou alguém, mesmo achando certo o que fez, seria legal pedir desculpas
também. Porque você feriu os sentimentos dessa pessoa. É o responsável pelo
machucado no coração dessa pessoa que estava na sua vida.
Não importa se você está certo ou errado, é importante levar em
consideração como você fez o outro se sentir.
E eu, com minhas experiências, quero (quase) sempre fazer as pessoas se
sentirem bem ao meu lado. Pouco importa se no final das contas eu vou ser a
certa ou a errada, mas sei que eu vou ser aquela pessoa que causou um
sentimento bom no coração de alguém. Vou ser aquela que pede desculpas,
que enxuga as lágrimas, que pergunta o que pode melhorar. Vou ser alguém
que se importa com o que o outro sente e não somente com os meus
sentimentos. Foram anos e anos para conseguir mudar isso dentro de mim,
admito, sempre fui muito egoísta, muito mesmo! Mas eu mudei, porque já
dizia Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.” Estou sempre mudando, nunca
serei a mesma. E que bom! À medida que vivenciamos experiências, sejam
elas boas ou ruins, temos que aprender a sempre tirar a melhor lição possível.
E eu percebi que discussões intermináveis sobre estar certo ou errado não me
levavam a nada. E que ficar com raiva só porque alguém não agiu da forma
que considero certa era desgastante. O orgulho não me trouxe nada, apenas
me deixou sozinha com tudo o que poderia ter sido, mas que, por orgulho
besta, não foi. Se colocar no lugar do outro não é para qualquer um, afinal,
isso nos torna mais humanos, nos despimos por completo, e deixamos que o
outro veja lá dentro.
Levem isso com vocês: o ideal é procurar sempre a solução e não
ressaltar o problema já existente. Isso mudou a minha vida, e pode mudar a
sua também...
— Mas Mandy... Por que você está chorando? Aconteceu alguma coisa?
— pergunto, curiosa, enquanto tento secar em vão minha calça naquelas
maquininhas de secar as mãos.
Mandy tira seu casaco de moletom e estende para mim.
— Toma, Isa. Amarra isso na cintura e pede ao Pê para te levar em casa,
ou o Gustavo... sei lá. Acho que você não vai querer contar esse episódio pro
Gustavo, né? — insinua ela, franzindo as sobrancelhas.
Eu entendi o que ela estava querendo dizer.
— Olha, primeiro eu quero saber por que você está chorando... — Pego o
moletom e amarro na cintura. — E, obrigada, Mandy, eu amei esse moletom
roxo. Ninguém vai notar que eu estou toda molhada por baixo.
Dou um sorriso encorajador e não recebo nada de volta. Quero ver minha
amiga bem, droga. Por que estive ausente por tanto tempo? Caramba. Como
pude permitir que isso acontecesse? Como pude ser tão idiota? É sério?
— São meus pais, Isa... Eles têm brigado muito ultimamente, tenho me
sentido desamparada, entende? Dentro de casa não tenho paz, é gritaria o
tempo todo... Outro dia minha mãe ameaçou até chamar a polícia para tirar o
meu pai de casa... Não entendo... Eles sempre se deram tão bem... E agora
isso! E ainda por cima chego aqui na faculdade — ela me olha como quem
pede desculpas pelo que iria falar em seguida — e não tenho mais você ao
meu lado, minha melhor amiga... Não quero te culpar nem nada, mas você
faz muita falta. Muita mesmo. O Pedro continua lá e cá, afinal, é o Pedro
Miller. Protetor, carinhoso, compreensivo. Ele nunca abandonaria nenhuma
de nós duas... Mas falta você. Somos os três mosqueteiros, poxa! — Meus olhos se enchem de lágrimas. — A sensação que tenho é de que está tudo
desmoronando na minha vida, sabe? E, para completar, hoje eu tirei minha
primeira nota abaixo de sete na faculdade. Você acredita? E logo em História
do Direito! Eu sou um trem descarrilhado, Isa, e nunca fui um trem
descarrilhado. Sempre mantive tudo em ordem. Não estou sabendo lidar com
isso. Não mesmo.
Dou um suspiro demorado. Isso é verdade. O caos e a bagunça sempre fui
eu. Amanda é a pessoa que aparece com soluções. E pensar que minha
melhor amiga está passando por todos esses problemas dentro de casa
enquanto eu estou tentando ser feliz para sempre com alguém que nem me
faz mais feliz. Chame do que quiser, coincidência, destino, espíritos
protetores, mas algo mais forte nos uniu nesse banheiro.
— Mandy, eu tô aqui com você de novo e nada vai mais nos separar. —
Seguro as mãos pequenininhas dela e aperto forte. — Te prometo. — Os
olhos dela também se enchem de lágrimas. — Quanto aos seus pais, você
precisa entender que antes de eles serem seus pais, são também humanos,
namorados, um casal... Eles têm problemas assim como todo casal. É que
quando são os nossos pais, nós acabamos colocando uma bolha de perfeição
em torno deles, e achamos que eles não podem discutir, discordar, nem
brigar... Mas isso é supernormal. Já houve épocas em que meus pais não
aguentavam se olhar, e no final se ajeitaram... Quando eles começarem a
brigar, coloca um fone de ouvido, vai ler um livro ou liga pra mim! Vai lá pra
casa! Sabe que você é sempre bem-vinda, né? Minha mãe ama você. — Os
olhinhos dela se enchem de esperança. — Essa nota baixa aí... Bem, na
próxima prova você compensa. Sei disso. Você é a melhor da sala. E quanto a
sua melhor amiga, repito, ela não vai mais a lugar algum. Vou ficar aqui e
daqui ninguém me tira.
—Você jura? — Ela faz beicinho e ameaça cair no choro de novo. —
Meu Deus, eu me tornei quem eu mais temia... Você! — E então dá uma
risada gostosa pela primeira vez no dia.
— Ai, ai. E quem diria que eu seria a voz da razão um dia, hein? Hein?
Hein? — Faço uma comemoração besta para implicar com ela.
— E você está bem, Isa? — Mandy faz a pergunta que não quer calar.
— Estou, sim — minto.
Quantas vezes não guardamos nossas tristezas para ajudar um amigo? Ou
para parecermos mais fortes do que realmente somos? Ou para continuarmos
a fingir que somos felizes, porque fingir é muito melhor do que admitir que você está um caco?
— E você vai na festa de fim de ano do Direito que vai ter hoje na
Fazenda Azul? — pergunto a ela.
— Eu, não... Você vai? Lógico, né? Gustavo não perde um evento social.
— Ela revira os olhos.
— Eu vou... Vamos?
Ela se surpreende com meu convite.
— Você quer ir... comigo?
— Lógico, ué! Você é minha melhor amiga.
— Mas... E o Gustavo?
— Ah, que se dane. Ou ele aceita nossa amizade ou nada feito — afirmo.
Amanda se espanta com minha reação, claro.
— Vamos juntas — prossigo. — A gente faz uma entrada triunfal, coisa e
tal, como nos filmes! O tema é neon, sabe? Vai ter luz negra e tudo mais,
então, podemos fazer maquiagens neon combinando, a gente poderia escrever
B1 na minha bochecha e B2 na sua, sacou? Bananas de pijama! Bffs forever?
— Amanda faz uma cara de desaprovação. — Ok, podemos ficar só com a
entrada triunfal mesmo.
— Isso. Entrada triunfal e amigas para sempre. — Ela me empurra para
fora do banheiro e acrescenta: — Vai pra casa logo, Isa. Seu xixi está
fedendo muito. Socorro!
Puxo ela junto comigo e saímos dando boas gargalhadas do banheiro.
— Ah, para vai... Meu xixi tem um cheirinho delicioso!
Despeço-me da minha amiga e vou em direção ao estacionamento. Sabia
que ele já estaria lá.
• • •
Avisto o Ford Mustang preto 1967 estacionado na vaga de sempre. Debaixo
do antigo carvalho, na última vaga, no fundo do estacionamento. Ele dizia
que gostava de estacionar ali porque 1) sempre fazia sombra, porque assim
toda vez que ele entrasse no carro ia estar fresquinho; 2) era melhor para
dormir entre uma aula e outra, pois ninguém gostava de estacionar ali, já que
era meio longe do prédio principal; 3) às vezes dava para ver esquilinhos
pedindo comida perto da árvore.
Devo dizer que eu nunca vi os tais esquilinhos.
— Ei, ô de casa! — Bato no vidro da janela, na tentativa de acordá-lo.
Pedro Miller estava com o banco do carro todo deitado, os dois pés
apoiados no volante, ao som de “Blood Brothers”, do Iron Maiden, dormindo
como um bebê. Como eu queria ser assim às vezes. Não me importar com
nada e só tirar um cochilo ao som de um bom e velho rock’n’roll, enquanto
deveria estar na aula de Direito Constitucional.
Ele nem se mexe.
— Pedroooooo!!! — Bato novamente na janela, agora com mais força. —
Pedro Miller, uhuuu!!!! ACORDA!!!!!
Nada.
Resolvo apelar. Vou em direção ao capô do carro e dou um tapão no
tampo. Arrá. Eu sabia que funcionaria, isso sempre funciona. Pedro se
levanta do banco do carro procurando assustado o motivo do barulho e me
olha curioso, tentando entender o que está acontecendo. Ele abaixa os vidros,
coloca a cabeça para fora e fala:
— Aconteceu alguma coisa, branquela? Não vai me dizer que tem prova
surpresa de novo... — Ele se ajeita dentro do carro, abaixa o espelho do
motorista e começa mexer no cabelo bagunçado, que nunca estivera
realmente penteado.
— Na verdade, estou precisando de uma carona. — Enfio a cabeça dentro
do carro. — Será que você poderia me ajudar, dorminhoco?
— Claro! O quê... Cadê o Gustavo...? — pergunta ele, surpreso.
O fato de eu estar no estacionamento sem o Gustavo na minha cola é uma
miragem para quem acompanha o nosso namoro. Eu sei. Parece que todos
têm medo de ficar perto de mim sem que meu namorado esteja por perto. Sei
que a culpa não é do Pedro ou da Amanda, por se espantarem ao me ver
sozinha. A culpa é toda minha, pois fiquei tão fissurada nesse namoro que
acabei passando a imagem de que eu só poderia existir se o Gustavo estivesse
ao meu lado. Como se eu não fosse forte o bastante para definir o que quero e
quem eu sou, como se não pudesse guiar meu próprio destino e todas as
decisões da minha vida envolvessem o meu namorado. E sabe o que é pior? É
não conseguir me dar conta de quando foi que isso aconteceu, de quando eu
comecei a permitir que isso acontecesse. É como se eu estivesse esse tempo
todo em transe e, agora, finalmente, tivesse acordado.
Que loucura.
Como nos perdemos de nós mesmos tão fácil assim?
Quando nascemos, nasce com a gente uma estrelinha. A nossa estrelinha.
Temos que cuidar para que ela nunca se apague, e alimentá-la sempre com
sentimentos bons, para que ela brilhe cada vez com mais intensidade. E me
diz... como que a gente entrega nossa estrelinha na mão dos outros e deixa
que alguém cuide daquilo que é nosso? A nossa estrelinha é nossa e apenas
nossa. Ela que nos faz brilhar, ela que nos faz únicos. Podemos conceder um
pouquinho de brilho da nossa estrelinha para a estrelinha de outra pessoa, a
fim de evitar que algumas estrelas se apaguem. Mas nunca devemos apagar a
nossa estrelinha para que o outro brilhe mais. Nunca devemos colocar nas
mãos de outras pessoas o poder de esconder nossa estrelinha no fundo do
armário para que ela nunca mais saia e não ilumine mais as nossas vidas.
Confesso que a minha estrelinha estava presa, perdida, jogada por aí. Deixei
que ela caísse em algum momento e não fui atrás dela. Porém, agora consegui
perceber o quanto meu brilho estava se extinguindo. E o quanto eu precisava
recuperar o controle.
Recuperar a minha estrelinha. Para brilhar novamente.
— Sei lá. — Dei de ombros e fui até a porta do carona do Ford. — E
então, vai abrir a porta pra sua melhor amiga ou não?
Ele se estica todo e puxa a trava de segurança da porta, liberando minha
entrada. Me acomodo no banco do carona e dou um sorrisão. Pedro, me
observa curioso e devolve o sorriso.
— Estamos felizes hoje, hein? — Ele franze o nariz, sentindo o cheiro
desagradável da minha calça. — E bem cheirosas também, devo ressaltar.
Reviro os olhos.
— Para o seu governo, eu já tive dias piores. — Olho para minha calça
molhada. Então em seguida me justifico: — Encontrei a Amanda no banheiro
chorando e eu estava super, tipo, muito apertada mesmo. Pra fazer xixi, você
entendeu, né? Ah, peraí. Foi o contrário! Eu estava apertada para fazer xixi
antes de encontrar a Amanda no banheiro! Mas aí encontrei com ela, na
primeira cabine, e eu já estava tipo de calça abaixada... — Pedro nem pisca.
Está de boca aberta, tentando entender a história. — Nisso, ela estava
chorando, tipo, chorando mesmo. A Amanda, você acredita? — Ele assente,
como se já soubesse da história. Resolvo continuar, apesar de achar que ele
deveria ter me contado. — Então, eu acabei ficando nervosa, xixi, Amanda, a
falta de um vaso sanitário e de uma calcinha pra segurar o xixi... E aí ele veio
com tudo. O xixi, no caso. Mas no final das contas eu e Mandy conversamos,
como você pode perceber, estou com o casaco dela e acho que voltamos a ser amigas. É. É isso. Acho que estou feliz. Mas cheirosa não devo estar mesmo.
— Ele levanta a sobrancelha esquerda. — E é aí que você entra. Preciso de
uma carona pra ir pra casa, porque não tenho coragem de pegar o ônibus toda
molhada e muito menos de ir falar com o Gustavo, porque bem... Eu não tô a
fim.
— Não tá a fim de falar com o Gustavo? — Ele me encara com os olhos
azuis semicerrados, analisando.
— Não. Hoje à noite temos a festa do neon também, a gente vai acabar se
encontrando lá — desconverso.
— E você e a Mandy voltaram a se falar mesmo? Caramba! Que
felicidade, Isa... Eu não aguentava mais ver vocês duas sem conversar... Não
sou muito de me intrometer nessas questões, acho que o tempo sempre nos
mostra o que veio para ficar e o que nunca deveria ter ficado, mas vocês duas,
com certeza, são as pessoas que eu quero que fiquem. E estar no meio desse
fogo cruzado... Olha...
— Sei que não foi fácil. — Coloco a mão nas dele. Nossa. Não sei se
minhas mãos eram geladas demais ou se as mãos do Pê eram muito quentes.
— Me desculpa por isso. Me desculpa por ter sido uma idiota esse tempo
todo... Eu... — As lágrimas começam a querer vir. Não, não. Seja forte,
Isabela. Uma mulher madura e decidida. Você consegue. — Eu tenho errado
muito com as pessoas que eu amo. Muito mesmo. Com você, com a Mandy,
com meus pais, comigo mesma... Demorei a perceber isso, mas acho que
agora consigo enxergar com mais clareza... Eu sei que pareço feliz, que
pareço estar bem... Mas aqui dentro está tudo uma bagunça.
Pedro afasta os cabelos do meu rosto e segura com firmeza o meu queixo.
— Branquela, você não tem que me pedir desculpa por nada. Fica
tranquila. Eu estou do seu lado para o que der e vier, já te disse isso, lembra?
Não arredo o pé. Mesmo que você grite, esperneie e me mande pra longe —
ele respira fundo antes de continuar —, e tá tudo bem em se sentir uma
bagunça... A vida é assim mesmo. Às vezes, perdemos o controle de tudo e
nada parece fazer sentido... Porém, mantenha sempre as pessoas que gostam
de você ao seu lado, porque elas vão te levantar mesmo quando tudo o que
você deseja é continuar no chão. — Ele passa novamente a mão nos meus
cabelos e dá um sorriso que dizia “vai ficar tudo bem”.
Ok. Não preciso nem dizer que as lágrimas começam a cair
descontroladamente no meu rosto. Se antes eu estava molhada de xixi, agora,
eu ficaria molhada de tanto chorar. Tudo que eu guardei esse tempo todo deságua aqui, no carro do meu melhor amigo, Pedro Miller.
Sei que eu não deveria estar tão carente e emotiva assim, mas o menor
sinal de carinho do Pedro me emociona de uma maneira indescritível. Vamos
aos fatos: 1) eu não recebo um carinho assim há tempos, sim, um simples
toque no queixo com olhar de compreensão ou um afago no cabelo...
Acredite. Eu nem sei mais o que é isso; 2) eu já não me sinto digna de um
carinho assim, já que tudo que o meu namorado faz 30% do tempo é me
beijar no automático e nos outros 70% me criticar sobre tudo que eu faço,
logo, tenho me achado a pior pessoa do mundo; 3) tudo que eu tenho são
palavras. “Te amo, faço tudo por você, você é a mulher da minha vida, vamos
casar” e blá-blá-blá. Mas atitudes de amor? Zero. Nenhuma. Já o Pedro não
precisa falar que me ama para eu saber que ele me ama. As atitudes dele
mostram isso. O cuidado, o carinho, o perdão sem pedir nada em troca. Até a
Amanda! Logo ela, que foi a mais prejudicada na história e que sofreu com
minhas atitudes inconsequentes... Em instantes ela me perdoou e estendeu a
mão para me ajudar. Amor é isso. E o amor me emociona, ainda mais em um
momento em que me encontro tão frágil... Cada dia mais, percebo que,
durante todo o tempo em que procurei o amor, com certeza procurei nos
lugares errados e nas pessoas erradas.
Está tudo errado.
Tudo.
Mas eu iria consertar tudo que fiz.
— Obrigada, Pê. Eu não sei o que faria sem você. Sério. — Enxugo
minhas lágrimas e o encaro. — Assisti a todas as temporadas de Lost
recentemente, e na série tem um personagem que se chama Desmond. Ele é o
meu preferido, sabe... Vou te contar a história dele pra você entender aonde
eu quero chegar... — Ele se vira no banco para me observar melhor, com a
cabeça apoiada nas mãos. — Desmond se torna um viajante do tempo devido
a uma explosão que aconteceu na ilha. Mas quando uma pessoa viaja pra
frente e pra trás no tempo, precisa de uma constante, no caso uma pessoa que
ele escolhe, para servir de ponto de referência nessas viagens do tempo,
alguém que vai ajudá-lo a parar esse loop de viagens entre realidades
diferentes. — Respiro fundo e continuo a palestra. — Se essa constante não é
encontrada, as oscilações de tempo se tornam mais frequentes e caóticas,
levando até a morte da pessoa. Falei isso tudo só pra dizer que — abro um
sorriso — com certeza você é a minha constante, Pedro Miller. Entre todas as
minhas fases, minhas loucuras, meus altos e baixos, minhas “viagens”, você é a “coisa” mais estável. Não gosto de inflar seu ego, que já é elevado — ele
revira os olhos, convencido e orgulhoso com o que tinha ouvido —, mas eu
precisava dizer isso.
Suspiro.
— Você também é a minha constante, branquela. — Ele liga o carro
fazendo o motor roncar, e então começa a dar marcha a ré devagarinho para
sairmos da vaga sob o carvalho.
— Mesmo eu sendo essa amiga instável e meio doidinha? Que tipo de
constante eu sou? Só se for a sua dor de cabeça constante, isso sim.
Ele sorri mordendo o lábio e continua dando marcha a ré.
— Tá vendo esse sorriso nos meus lábios? Você é a minha constante de
felicidade, branquela.