Não Se Humilha, Não
capítulo 1
— Amanda, para, sério.
Essa sou eu tentando convencer minha melhor amiga a parar de olhar na
direção do garoto novo que havia acabado de entrar no pátio da nossa
faculdade.
— Deixa de bobeira, Isabela! A faculdade INTEIRA está olhando para
ele, que mal tem? Ele nem vai notar nós duas. Eu sou discreta, você sabe. —
Amanda joga os cabelos pretos lisos para o lado e dá um risinho de
cumplicidade.
Devolvo o risinho e deixo pra lá. Afinal, ele não iria mesmo notar nós
duas. Sei lá, desde que entramos na faculdade, e isso já tem um ano (agora
não éramos mais calouras! Uhul!), nós nunca fomos as primeiras da sala a
serem notadas. Ou as mais disputadas. Não que fizéssemos alguma coisa para
realmente sermos disputadas. Amanda e eu não estávamos nem aí. E esse
sempre foi um dos motivos para não sermos as mais desejadas.
Quer dizer, eu até que me importava com esse lance de amor. Na
verdade, eu estava BEM AÍ quando o assunto era relacionamento. O que não
me interessava mesmo eram os caras da faculdade. Deus me livre. Só mala.
Uma coisa importante sobre expectativas: não as crie. Mesmo que seja
uma expectativa fofa, bonitinha, abandonada no meio da rua e segurando uma
plaquinha de “Procura-se alguém para me criar”. Se houver alternativa, não
pegue essa expectativa para você. Não existe uma situação em que a
expectativa não acabe com pelo menos 1% da sua sanidade. Quando criamos
expectativas, esperamos algo, almejamos algo. E quando queremos algo com
muita vontade, fantasiamos todos os detalhes, criamos a cena na nossa
cabeça, planejamos até a roupa que vamos usar na ocasião... E aí, quando
você se dá conta, lá se foram longas horas imaginando como você realmente
queria que uma situação acontecesse... para nada.
Essas coisas que fantasiamos nunca acontecem. Desiste, sabe? Ao longo
dos meus anos de vida, uma expectativa nunca se cumpriu por completo, ao
menos não do jeitinho que minha mente imaginou — isso até em situações
em que criei expectativas que se cumpriram em parte —, e quando eu digo
nunca, é nunca mesmo. Essas coisas não acontecem, entende? É difícil
admitir em voz alta, afinal, seria muito mais fácil se tudo acontecesse
exatamente do jeitinho que queríamos que acontecesse.
Mas não acontecem.
E está tudo bem.
Assim como também está tudo bem eu ter criado um milhão de
expectativas em relação à faculdade e quase nenhuma ter se cumprido de
fato.
Está ótimo.
Tudo bem mesmo.
Eu só queria que existissem muitas festas de fraternidade na faculdade.
Só isso.
Ah! E que existissem armários para a gente guardar nossos livros pesados
de Direito. Aproveitando, queria também garotos maduros e interessantes
pelos corredores. E que eu e Amanda formássemos um grupo tipo o de
Friends com mais alguns amigos legais, e que fôssemos amigos atééé ficar
bem velhinhos, relembrando nossos tempos de faculdade.
Mas não. Não tem nada disso. Tudo que eu tenho é...
— ISA? ISA! Você está incrível... Deixa eu te mostrar minha bolsa nova!
Você não vai acreditar... É couro fake de cro-co-di-lo!
Marina vem de longe, balançando suas pulseiras cheias de pingentes
(sinceramente, acho que ela só usa essas pulseiras para fazer barulho e
anunciar quando está chegando), e chega toda esbaforida mostrando para nós
a sua incrível bolsa de crocodilo que havia comprado em uma li-qui-da-ção.
Como definir a Marina? Ah, a Marina...
A Marina é uma colega de faculdade que eu mantinha perto, mas que,
sinceramente, não tinha muito a ver comigo. Ela se vestia de um jeito bem
chamativo e gostava de falar pau-sa-da-men-te. Como se não fôssemos
entender caso ela não falasse dessa forma. Às vezes, chamávamos a Marina
para fazer parte de algum trabalho em grupo quando estava faltando alguém,
mas não passava disso. Acho que ela só não tinha mais amigos porque
causava certo receio nas pessoas. Vai saber. Ela era extremamente linda. Dos
pés à cabeça. Morena cor de jambo, olhos verdes, lábios grossos. Marina
sabia como deixar os caras aos seus pés. Ela só tinha um probleminha...
— E aí, zoio puxado?! Sentiu minha falta? — diz ela para Amanda, como
se só tivesse se dado conta da presença da minha amiga naquele instante.
A Marina só pensava em si mesma e, às vezes, era bem... inconveniente.
Essa é a palavra.
Amanda dá de ombros e continua observando o garoto novo.
Mandy nunca teve muita paciência com essa minha “amizade”. Ela
sempre diz que a Marina é o tipo de pessoa que não é amiga de ninguém e,
eu, às vezes, fico me perguntando se ela não teria razão em pensar assim. A Marina gosta mesmo de diminuir os outros sempre que surge a oportunidade.
— Estão de olho no garoto novo, hein? — Marina percebe o olhar da
Amanda. — Segue a ficha completa, meninas... Gustavo Ferreira. Vinte anos.
Libriano. Solteiro. Herdeiro de uma das famílias mais ricas e tradicionais de
Juiz de Fora, os Ferreira. Eu o conheço há anos. Posso apresentá-lo, se
quiserem — concluiu ela.
Me pergunto se ela realmente tem alguma intimidade com ele. Parece ser
só mais uma das mentirinhas que a Marina conta para se sentir superior na
rodinha de conversa.
— Isabela, 20 anos, sagitariana, pegando um garoto do curso de inglês,
filha dos meus pais mesmo, procurando um estágio. Prazer — respondo para
Marina.
Mandy dá uma gargalhada, me encarando com os olhos brilhando de
tanta animação.
De repente, somos interrompidas por uma voz grossa e arrastada:
— Muito prazer... Isabela. Garoto do inglês, hein? Gostei, gostei. Me
parece um relacionamento bem promissor.
O novato para do meu lado e dá aquela conferida em mim de cima a
baixo. Poxa vida, que garoto mala. Chegou no meio do assunto e ainda quer
zoar o garoto do inglês? Quer dizer, o Fábio? Tudo bem que ele não é o
príncipe que eu pedi a Deus e que nossas conversas se resumem a... Bem, a
gente não conversa muito. Mas quem precisa de conversas, né? Ninguém.
Ninguém mesmo... O Fábio merecia mais do que isso, sinceramente.
— Espero que ainda não esteja cansada de mim, pois eu acabei de chegar.
— Ele dá uma piscadinha muito brega com o olho esquerdo, depois fica
parado em uma pose de vendedor de eletroeletrônicos anunciando alguma
promoção e esperando minha reação.
Olha, eu juro que me segurei para não rir. Ele acha isso sexy? Nossa.
Com certeza ele achava. Meu Deus... Devia estar procurando mais uma
garota para a sua coleção. Olho de canto de olho para Mandy, que
rapidamente entende o recado e me puxa pela mão.
— Com certeza a Isa queria muito ficar aqui com vocês, mas o dever nos
chama!
Com isso, Mandy belisca forte meu braço. Entendo o recado e entro no
jogo.
— Putz! Eu esqueci completamente! Nosso grupo do trabalho deve estar
nos esperando na biblioteca...
Ajeito a mochila nos ombros para passar um ar de garota-estudiosa-que-
vai-para-a-biblioteca-fazer-muitos-trabalhos e dou um tchauzinho tímido com
as mãos.
Gustavo e Marina apenas nos observam.
— Então é isso... — diz Mandy, saindo pelo lado direito do pátio.
Enquanto isso, pelas nossas costas, Marina cantarola com a voz fina,
como uma sereia:
— “A biblioteca é para o outro laaadooo.”
— Mimimi, a biblioteca é para o outro ladooo — zomba Amanda,
imitando a voz da Marina enquanto subimos os degraus de três em três até o
terraço do prédio da faculdade de Direito.
No fim da tarde, depois das aulas, nós gostávamos de nos reunir no
terraço do nosso bloco. Não, não era permitido, mas quem liga? O pôr do sol
muitas das vezes era incrível, e só se vive uma vez, não é?
— Não sei como você suporta essa garota, Isa. Ela é muito chata! —
desabafa Mandy.
— Ah, eu tenho pena... Ninguém gosta dela — respondo, meio
envergonhada de admitir isso. Porque era verdade.
A Marina era muito querida entre os garotos. Em contrapartida, todas as
meninas viravam a cara para ela e não faziam muita questão de se aproximar.
Não posso dizer que ela colaborava para que fosse diferente, porque a Marina
é do tipo que acha que as outras mulheres estão sempre competindo com ela,
e esse clima de competição entre nós é muito chato. Apesar de tudo isso, eu
sempre tentava relevar. Marina merece ter pelo menos uma amiga na
faculdade. Ou colega. Ou o que quer que eu seja. Finjo que gosto da bolsa de
couro de crocodilo falso, e, em troca, ela me passa informações sobre o
novato. Vai dizer, é uma bela troca, hein?
— Sei lá... Ela não me passa confiança. Não sei... — Amanda morde o
lábio inferior e abre a porta de incêndio que dá para o terraço.
Eu sei muito bem que quando minha melhor amiga morde o lábio é
porque está preocupada. Claro. Amanda Akira é minha fiel escudeira. É a
mais nova do grupo, porém, de longe, a mais inteligente. Pergunte qualquer
coisa para a Amanda, tipo, qualquer coisa mesmo. E ela te responderá com
detalhes, teorias, suposições, monografias de TCC e o que mais ela puder.
Amanda pode parecer tímida de primeira, mas com certeza é a mais
destemida do grupo. Por ser mais racional do que eu, por exemplo, ela
consegue muito bem dizer o que pensa, o que acha, o que sente. Sem aquele medo do que vão pensar dela. É ela que puxa meus dois pés para o chão
quando estou sonhando mais do que realizando, e é ela que me dá o ombro
amigo para chorar quando faço (mais) uma das minhas burradas. Amanda
Akira ama se vestir com camisetas largas de bandas de rock, adora estudar
programação e fazer retiro espiritual com os pais. Era descendente de
japoneses, por isso ostentava os olhinhos puxados e os cabelos bem lisos, que
ela mantinha sempre na altura dos ombros, além de um sorriso que sempre
me acolhia.
Definitivamente, nós nos entendíamos apenas com o olhar.
— Mas Mandy, pensa comigo... O que a Marina pode fazer com a gente?
Nos atacar com um guarda-chuva feito de couro falso de um animal exótico
da Tailândia? Queimar o nosso filme para o Gustavo? Rá-rá. Depois de hoje,
nosso filme já está mais do que queimado. Se bobear, nem existe mais. Deixa
essa paranoia pra lá, Mandy! Se ela tinha algo para falar, já falou para o
novato quando fomos para o lado oposto da biblioteca, parecendo duas
baratas tontas e perdidas. — Dou uma risadinha. — Ele deve ter nos achado
duas idiotas... Que tipo de garota foge de um cara gato daqueles? É por isso
que não somos as mais desejadas da faculdade...
Mandy ajeita os óculos e prende o cabelo em um rabo de cavalo.
— Ele é realmente bonito, né? Coisa rara por aqui. Pena que parece
chatinho...
— Sabe o que é pior? — pergunto.
— Pior do que errarmos o caminho da biblioteca?
— Hoje é o primeiro dia de aula, Mandy. Que trabalho teríamos para
fazer?!
Amanda dá um tapa na testa.
— Você é uma idiota, Isa. Meu Deus... Como eu não pensei... E como
senti falta disso! Da minha amiga que vive se metendo em encrenca e dando
desculpas esfarrapadas...
Ela me abraça. Hoje é o primeiro dia de aula, passamos as férias todas
sem nos ver. A saudade estava nos matando.
— Hum... Estamos carinhosas hoje? — A voz dele chega por trás,
fazendo minhas costas ficarem arrepiadas. — Eu também ganho um abraço?
Dou um sorriso. Nem preciso me virar para saber de quem se trata.
Pedro Miller.
O último integrante do nosso grande grupinho de apenas três pessoas.
Conheci o Pedro em uma festa. Foi nessa época que meu melhor amigo de anos, Eduardo, de repente resolveu fingir que não me conhecia, porque a
namorada dele havia “mandado”. Quem nunca teve aquele amigo que troca
você pela namorada nova, e que ainda pede para que você “entenda”, que
atire a primeira pedra. E é aquela história, a gente entende, claro que entende.
Mas bem longe do tal “melhor amigo”, e com a certeza de que não haverá
chances para arrependimento. Não existe isso. Deixar de ter amigos porque
está namorando. Deixar de conversar com alguém do sexo oposto porque a
pessoa com quem você está se relacionando pediu. Loucura, viu? Mas tudo
bem.
Ao chegar na tal festa, vi meu melhor amigo de longe, e senti como se
uma faca estivesse retalhando meu coração. Ele virou a cara para mim, como
se não me conhecesse... Foi duro. Me senti o ser mais solitário de todos, sem
ninguém para conversar, sem a pessoa que sempre foi meu porto seguro... Me
senti vazia. Em meio a minha vontade louca de chorar, resolvi tomar um ar na
área de fumantes e, naquele momento difícil, ele apareceu... como um anjo.
Tá.
Não como um anjo, anjo de verdade, daqueles vindos do céu.
Ele tinha os cabelos bagunçados e negros como a noite, os olhos azuis
como o mar. Estava com uma jaqueta preta de couro, calças jeans rasgadas e
All Star velho. Ah, e ele fumava também. Um anjo fumante de casaco de
couro. Século XXI, né? Rá-rá.
Só sei que ele me salvou naquele dia.
E vem me salvando desde então.
Incrível quando encontramos pessoas assim em nossas vidas.
Pedro Miller também tem 20 anos, nasceu em São Paulo e se mudou aos
seis anos com a mãe para Juiz de Fora. Além da mãe, tem o pai do Pedro,
mas ele nunca me contou muito sobre a relação deles. Desconfio de que sua
infância tenha sido conturbada, já que todas as vezes que tentei falar sobre os
outros membros da família ele deu um jeito de desconversar, e eu consegui
ver algo nos olhos dele... raiva. Concluí que essa não é uma história que ele
queira partilhar com a gente, não ainda. Pedro é um cara no mínimo
intrigante.
Ele adora passar horas e horas conversando sobre teorias da conspiração
(ok, eu também amo), extraterrestres, destino, universo... É fascinado por
tudo aquilo que não pode compreender. Pedro foi a pessoa que me fez ficar
apaixonada por esse tipo de assunto, já viramos noites formulando teorias,
imaginando coisas, sonhando com as outras vidas que já tivemos antes dessa... Pedro é muito criativo, tem o dom da música, de vez em quando toca
violão pra gente e se arrisca até a cantar. Pode não parecer, mas ele é
extremamente carinhoso com as mulheres da sua vida (mesmo que seja um
sacana! Ele é daqueles que te enganam fácil exatamente por isso), daqueles
caras com quem você fica hoje e amanhã está apaixonada... Sabe aquele cara
que para e te escuta, que presta atenção nas coisas que você gosta? Então...
Esse é o Pedro Miller.
Mas como nem tudo é perfeito, Pedro é aquariano e vive se esquivando
de um relacionamento sério. E, apesar de acreditar nas mais diversas teorias,
Pedro Miller não acredita no amor. Pelo menos é o que ele me diz. Apesar de
gostar de se manter discreto e evitar os holofotes, ele acaba chamando a
atenção aonde vai. Seus cabelos negros, jogados sem muita precisão para o
lado, os olhos azuis profundos e intensos, o maxilar bem marcado, seus
1,87m de altura, e os músculos do abdômen bem definidos (ok, confesso que
sim, eu já vi os músculos do meu melhor amigo) não passam despercebidos.
Cada semana Pedro tem uma “companhia” diferente.
Não sei como ele consegue, sério. Não que ele esteja errado, de forma
alguma. Cada um faz o que quiser da vida. Mas é que nessa minha vidinha de
sonhar com contos de fada e príncipes perfeitos, eu não consigo imaginar
como seria NÃO SE APAIXONAR.
A pior parte de entrar de férias com certeza é ficar longe dos meus
amigos. Pedro sempre viajava para algum país diferente. Ele sonha em
conhecer todos os países do mundo, então, para bancar suas viagens, trabalha
o ano todo — faz um bico ali, outro aqui —, junta dinheiro e escolhe um
destino. Mandy, como eu disse, sempre ia a um retiro espiritual com a família
e eu...
Bem, eu ficava aqui em Juiz de Fora sozinha.
Fazendo curso de inglês. Aprendendo a falar apple, monkey e the book is
on the table. E o que isso já me trouxe até agora? Um estágio remunerado
com bom salário? Um currículo cheio de experiência? Não. É claro que não!
Me trouxe o Fábio... O garoto do inglês, caso você tenha esquecido.
— Mas é claro que você também ganha um abraço. — Olho diretamente
para ele, com um sorriso sincero, e pulo para abraçá-lo bem forte.
Amanda entra no meio e ficamos alguns minutos assim, os três
abraçados.
— A Isa está ficando com o menino do inglês, Pê. — Amanda se solta do
abraço e já joga a bomba.
Olho de boca aberta para ela como quem diz “PRECISAVA DISSO
AGORA?”, porque em apenas alguns segundos eu sabia o que aconteceria...
Pedro Miller rindo da minha cara.
Claro.
Qual é? Ele nem conhece o Fábio. Não dava para saber se era motivo de
piada, certo? Nem todos os caras com quem eu ficava eram motivo de piada.
Bem... O Tiago também tinha sido.
Ou eram?
Eram?!
Fala sério. Eu mereço um pouco de crédito aqui. Nas férias passadas,
fiquei com um garoto lindo em Iriri, no Espírito Santo. Ele usava cordão de
coquinho, mas tinha um bom coração. Isso tem que ser lembrado no meu
currículo dos relacionamentos, quero deixar bem claro.
Só sei que, neste momento, estufo o peito e tento defender o meu peguete
atual.
— Olha, ele é bem gatinho, tá...
— Gatinho? — pergunta Pedro, arqueando a sobrancelha bagunçada e
negra.
— É. Gatinho — confirmo, decidida a transformar o Fábio em um
príncipe encantado. Que mal tem nisso, não é mesmo? A Disney faz isso o
tempo todo.
— Branquela, não me leva a mal... Desde quando você se importa se um
cara é gatinho ou não?
Sinto a ironia na palavra “gatinho”, mas prefiro ignorar.
Olha, a pergunta é boa.
Uma ótima pergunta.
Nossa.
Odeio quando o Pedro dá mostras de que me conhece melhor do que eu
mesma. Na tentativa de fazer o Fábio parecer interessante, acabei de falar que
ele era “gatinho” porque foi o comentário genérico que eu consegui pensar
mais rápido. Talvez ser amiga da Marina dê nisso. Quando a gente menos
espera, estamos nos referindo aos caras como “gatinhos” e pechinchando
bolsas na feira da cidade.
— Eu sei, eu sei. Não precisa se justificar... Você não se importa. — Ele
sorri como quem sabe de tudo. — Não precisa dizer frases prontas para nos
convencer de que ele é um cara legal. Se você está convencida disso, é o que
importa. Tô contigo.
Ai, o Pedro.
O que era isso?
Essa capacidade de me ler no silêncio? De escutar na pausa? De me
entender quando nem eu mesma me entendo?
— É. Eu tô, tô sim... — digo em voz baixa.
Amanda revira os olhos. Ela sabia que eu estava mentindo, e eu sei que
ela não gosta de “segredos” entre nós. Na verdade, eu mesma sei que estou
mentindo, mas não sei por que preciso tanto dessa mentira.
Quero dizer, acho que eu cansei de todo mês chegar para os meus amigos
contando sobre uma pessoa diferente. Cansei de dizer o nome, o que faz e
onde nos conhecemos. Cansei de convencê-los de que sim, aquele cara
merecia o meu tempo e as minhas mensagens apaixonadas. Cansei de pensar
em assuntos interessantes para parecer disposta a conhecer mais a outra
pessoa. Cansei de primeiros encontros cheios de beijos desajeitados e que não
combinam comigo em nada. Cansei de primeiras conversas. Da falta de
intimidade que os inícios repetitivos nos trazem. Cansei de tentar achar a
pessoa perfeita numa imensidão de pessoas imperfeitas, na qual eu me incluo.
Cansei de começar, terminar, recomeçar, terminar, recomeçar, recomeçar e
recomeçar. Afinal, todo começo precisa de uma forcinha para ser
impulsionado. Durante, precisa de uma força maior ainda para se manter. No
fim, você precisa reunir toda a força que restou para desfazer tudo que foi
construído. Tijolo por tijolo. À medida que você vai tirando um por um, uma
série de imagens passa na sua cabeça. O sentimento que fica é que você está
se desfazendo de um trabalho de anos. Despintando um quadro que você
admirava muito. Pincelada por pincelada. Linha por linha. Para começar tudo
de novo. É exaustivo. É desgastante.
Dá vontade de colocar na bio do Instagram: “Serei a tia velha com uma
dúzia de gatos.”
É mais fácil.
Beeeem mais fácil.
Mas não. Eu não perco essa minha mania de insistir em tudo aquilo que
acredito.
E eu acredito no amor. Fazer o quê?
“Menina boba, acha que vai ganhar o mundo na insistência”, dizia minha
avó. Mal sabia ela que eu não quero ganhar o mundo, só quero ser dona de
mim.
Ir até o limite para descobrir que o limite não existe.
Pois você sempre pode ir além.
Mesmo que seja cansativo...
— E como foi no Canadá? — Mudo de assunto. — Vocês conseguiram
ver a aurora boreal? Fiquei esperando você postar algo no Facebook, mas
você sempre some quando viaja! Já ouviu falar em smartphone? Celular de
última geração? Redes sociais? Você pode publicar alguma coisa lá. É só
apertar alguns botõezinhos, juro que não é tão difícil assim. Se quiser eu até
te ensino. — Arranco um sorriso dele, e a cicatriz na bochecha esquerda fica
visível. Os olhos azuis me encaram esperando por mais. — Instagram?
Twitter? SMS? E-mail? Telegrama? QUALQUER COISA, PEDRO. Você
poderia ter dado sinal de VIDA!
Ele me encara por alguns segundos com os olhos semicerrados. Respira
fundo. Pega cuidadosamente um cigarro da carteira, observa Amanda, que já
nem está prestando atenção na conversa, concentrada em jogar Candy Crush
no celular, dá um sorriso, pega seu isqueiro, acende o cigarro, dá um trago, e
só então me olha de volta.
— Mas eu dei. Você não recebeu minha mensagem? — pergunta ele,
seco.
— Não. Que mensagem? — Fico sem entender.
— Você não recebeu, então... Faz sentido. É.
Os olhos dele pousam em algum lugar no horizonte e fico sem entender
bulhufas do que ele quis dizer.
— Não, uai. Que mensagem??? Que sentido?
Olho para Amanda, buscando ajuda, mas sei que a perdi há alguns
minutos para os doces coloridos.
— Eu te mandei uma mensagem bêbado no último dia de viagem... nada
de mais — desconversa ele. — Só estava dando notícias mesmo. — Pedro
continua olhando fixamente para o sol, que agora já era um pontinho laranja
mínimo no horizonte e ia sumindo no meio dos prédios da faculdade.
Também olho para o sol.
— Nada de mais? Mesmo?
— Nadinha.
— Então, tá.
Pedro permanece quieto por alguns minutos.
— Mas foi legal lá? — insisto.
— Foi, branquela... — Ele se vira para me encarar. Nossos rostos agora
estão alaranjados, refletindo a cor de um lindo fim de tarde. — Foi a viagem da minha vida. A aurora boreal é surreal de linda. Você precisa ir um dia
comigo...
— Com certeza! É meu sonho! Espera só até eu ter dinheiro suficiente...
Faremos muitas viagens, vamos conhecer a aurora boreal, as pirâmides do
Egito, os abismos da Irlanda, o pôr do sol da Califórnia, o túnel do amor na
Ucrânia... Nossa! A gente tem que ir! Muito mesmo! Só de falar eu já fico até
arrepiada... Nós vamos conhecer o mundo juntos!
Quando paro de falar, percebo que ele continua me olhando, admirado.
Devia estar com saudades. Claro. Eu era mesmo demais. Uma ótima amiga,
se querem saber.
— Vamos, branquela, vamos, sim... — Ele sorri com um ar meio triste.
Uma coisa sobre o Pedro: ele nunca parece se entregar à felicidade
totalmente. Mesmo nos seus melhores sorrisos, que eu sei que eram
verdadeiros, ele relutava em se entregar aos bons momentos da vida. Como
se algo dentro dele dissesse que não era digno de ser feliz. Fico muito triste
com isso. Porque é nítida a tristeza no seu olhar. E eu só quero uma
explicação ou uma forma de tirar isso de dentro daquele coração.
Ele se levantou, jogou a guimba de cigarro no lixinho improvisado que
trouxemos aqui para cima no período passado e saiu pela porta de incêndio,
sem dizer mais nada.
Olho para Amanda, esperando que ela pelo menos tenha visto essa última
cena.
— O que foi isso? Será que eu falei algo errado? — pergunto, tentando
chamar a atenção da minha amiga.
— Isso o quê? Ah! Ah! Perdi! Não acredito! Era minha última vida!
Poxa, não tenho UM amigo para me enviar vida. Você joga? Ah, quer saber,
deixa pra lá. Cansei por hoje. Nossa, o sol já se pôs. Desculpa. Fui uma
péssima amiga hoje. Nem prestei atenção no que vocês estavam conversando.
— Ela bloqueia a tela do celular. — O que aconteceu? Ué, cadê o Pedro?
Tento fazer um resumão.
— Perguntei como foi a viagem. — Mandy balança a cabeça, me
incentivando a continuar. — Aí ele disse que foi ótima. Eu reclamei que ele
não mandou nenhuma mensagem, ele disse que mandou, mas que não deve
ter chegado... Depois contou que foi uma das viagens mais incríveis da vida
dele e que eu deveria ir lá um dia também, afinal, ele sabe que eu sonho em
ver a aurora boreal. E eu disse que sim, um dia iríamos viajar o mundo. Ele
concordou, me lançou um sorriso tristinho e saiu. Sem falar um “a”. — Dou de ombros. Eu estava simplesmente em choque. Por que os homens eram tão
complicados?
— Hummm... — Amanda coloca as mãos no queixo, pensativa. — Se eu
disser o que estou pensando, você vai me achar louca. — Arqueio as
sobrancelhas. — Então prefiro acreditar que ele tinha um compromisso
marcado com alguém, provavelmente uma ficante dele, se levantou e foi...
Nada de mais, Isa. É o jeito do Pedro. Você está encanada à toa. Não falou
nada de mais.
— Verdade — pondero. É bem possível, afinal, estávamos no primeiro
dia de aula do novo período. Era um prato cheio para o Pedro no que se refere
às... bem, calouras. — Deve ter sido isso mesmo. — Me convenço.
Minha amiga sempre tinha razão.
Me levanto também, decidida a descer para a última aula e a não pensar
mais nisso.
Algumas coisas não são feitas para entendermos.