Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 7 de 15

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Não Se Humilha, Não

capítulo 5

– Amor, você aceita mais uma taça de champanhe? — perguntou

Gustavo, me abraçando por trás.

Ele deu um beijo no meu pescoço que me arrepiou toda. Estava me

oferecendo mais um pouco do espumante cor-de-rosa que eu estava tomando.

Retribuí o beijo, sorri e respondi que sim. Amor. Ele me chamou de

amor. Tá. Respira fundo, Isabela. Vai dar tudo certo. Olhei para os lados

tentando assimilar o que estava acontecendo na minha vida...

Sábado de sol. Estávamos na mansão de um dos tios do Gustavo, o Nico

Ferreira, dono da maior construtora de Juiz de Fora, e consequentemente

dono da maioria dos empreendimentos imobiliários da cidade. O cara

literalmente cagava dinheiro, pelo menos, era isso que eu achava. Juro que,

quando fui ao banheiro, tive que conferir se não eram notas de dólares no

lugar do papel higiênico, porque, olha, até os talheres eram de ouro. Ou

pareciam ser feitos de ouro, sei lá. Mas, para minha decepção, o papel

higiênico não tinha nada de diferente.

Já o banheiro, nossa, o banheiro... Só para deixar claro: nem parecia um

banheiro. O ambiente era imaculado, eu diria que era quase esterilizado. Nada

fora do lugar, absolutamente NA-DA. Nem o sabonete estava usado. Quase

pedi desculpas ao vaso sanitário por fazer xixi nele. Quando fui lavar as

mãos, me perguntei como ousei usar aquele sabonete tão perfeito e intacto...

Desculpa, Gus, foi necessário. Será que aquele povo rico não fazia as

necessidades básicas? Ou será que tinham tantos banheiros que aquele era

esquecido?

Preciso falar também do tanto de funcionários trabalhando na mansão do

“tio Nico”. Em meia hora pude notar uns sete funcionários trabalhando na

mansão, sério mesmo. Isso porque era sábado! Uau! Se depois de formada eu

ficar desempregada, já sei onde procurar um emprego.

Vai contando comigo: duas moças que ficavam responsáveis pela

cozinha, além de uma mulher linda, toda maquiada, que andava atrás da

mulher do Nico Ferreira. Eu fiquei muito curiosa, porque tinha quase certeza

de que ela era maquiadora e andava atrás da dona Mônica apenas para retocá-

la de meia em meia hora, se é que isso era possível. Tinha um cara fazendo os

drinques e mais um para servir, um motorista que ficava de longe nos

observando de óculos escuros, afinal, nunca se sabe quando você vai precisar

de uma carona (gente chique é outro nível), e uma moça bem novinha e

bonita que o Gustavo me disse que era paga só para brincar com os cachorros do tio dele. Achei chique. Esse é o tipo de profissão que eu queria. Ganhar

dinheiro para brincar com cachorrinhos fofinhos. Vidão, viu? Vou mandar

meu currículo com certeza.

A propriedade ocupava um quarteirão inteiro do melhor condomínio

residencial de Juiz de Fora. O Flores do Imperador. Desconfio de que aquele

terreno devesse ter mais de três mil metros quadrados. Só o jardim parecia

um campo de futebol. Eu poderia abrigar todas as gerações da minha família

lá. Será que tinha emprego para todo mundo?

No mais, eles eram bem família de novela mesmo. Ricos, felizes, mil

funcionários à disposição, com talheres de ouro, mesas postas com um monte

de comida que mais parecia comida fake, coisa e tal. Nem uma coxinha. Nem

uminha. Churrasco? Picanha? Passou longe. Eu juro que tentei até comer um

salgadinho que eu acreditei ser uma empadinha, mas senti o gosto de

damasco com banana amargar na garganta. Credo. Quem faz salgadinho de

damasco com banana? Tipo, sério?

Claro.

Não posso deixar de citar o momento em que fui apresentada à família.

A família do Gustavo, apesar de muito agradável, era também um pouco

intimidadora. Assim que cheguei de mãos dadas com ele (mãos dadas, uau!),

me sentei à mesa com toda a família e peguei minha própria taça de

champanhe (o moço que servia parecia estar à minha espera, não demorou

nem dois segundos para trazer a minha taça, juro).

Logo começaram as perguntas... Afinal, quem era Isabela Freitas? Quem

era essa bela moça que havia domado o coração do nosso pupilo, Gustavo?

Ela foi a garota que você protegeu naquela festa? Nosso Gustavo nunca

gostou de injustiças.

Não os culpei, a curiosidade era normal. Afinal, estávamos apenas a

algumas semanas juntos e só naquele meio-tempo: 1) Gustavo bateu no meu

ex-ficante a ponto de o cara ter que ir para o hospital tomar uns pontos na

testa, 2) contou para os pais dele sobre mim e, pelo que pude perceber, me

elogiou pra caramba, 3) me convidou para um almoço de família onde só

tinham pessoas, da... adivinha?! Família!, 4) Meu Deus, será que estávamos

namorando?!?!, 5) eu estava bebendo champanhe. Champanhe. Eu. Eu

odiava champanhe. Mas o que a gente não faz para agradar a família do

possível futuro namorado, né?

— Quem são seus pais? Será que a gente conhece? Fala o sobrenome...

E eu disse, com muito orgulho:

— Freitas. Mas acho que vocês não conhecem, não... Na verdade, nem

somos de Juiz de Fora. Meus pais vieram de uma cidadezinha bem

pequenininha chamada Recreio, não Recreio dos Bandeirantes, o bairro do

Rio de Janeiro, é o Recreio de Minas Gerais mesmo. Meu pai é filho do

Guaraci do Pastel, e minha mãe filha do “Sô Athaydes”.

Eles piscaram, incrédulos. Não sei se pelo fato de não conhecerem nada

do que eu falei ou por eu ser uma zé-ninguém que não tem nada de renomado

do que se gabar. Coitados, mal sabem eles que o pastel do meu avô é

simplesmente o melhor pastel da cidade.

— Quem é Guaraci do Pastel? Sô Athaydes? Aquele rico com muitas

fazendas perto de Matias Barbosa?

— Não... Meu avô só tem uma hortinha mesmo. Para cultivar os legumes

que ele mesmo come e coisa e tal. Acho que vocês não conhecem mesmo...

— Freitas? Você é prima da Andreia Freitas? Aquela advogada famosa

de Juiz de Fora?

— Também não... Nem a conheço... A gente é de Recreio mesmo, moço.

Acho que vocês não conhecem.

— Eu já conheci um Guaraci uma vez, você lembra, Nico? O cara era

fabricante de charutos. Uma família da pesada. Bons tempos...

— Não... Esse também não é o meu avô. Sinto muito.

Só sei que depois de muita insistência em associar de qualquer maneira

minha família com os ricos e poderosos de Juiz de Fora e do mundo inteiro,

acho que eles entenderam que nós não tínhamos nada a ver com a realeza.

Éramos completos desconhecidos. Não que isso me fizesse sentir menor ou

algo do tipo, porque eu não trocaria minha família e minhas raízes por

dinheiro nenhum! Mas eu sabia que estava sendo julgada.

Ah, estava.

Afinal, o que passava pela cabeça deles também passava um pouco pela

minha. Gustavo poderia namorar qualquer garota. Tipo, qualquer uma

mesmo. Digo isso porque em todos os lugares a que vamos juntos as

mulheres não conseguem evitar de encará-lo com olhares apaixonados.

Ele é apaixonante.

Sei disso.

Gustavo tinha os cabelos castanhos que mantinha num topete perfeito,

olhos cor de mel, porte físico de quem passa pelo menos umas três horas por

dia na academia. Além de tudo isso, era cortês, diplomático e muuuito

simpático. Parecia ter um feitiço em volta dele. Se Gustavo queria alguma coisa, bastava algumas palavras... E pronto. Era dele.

Deve ser coisa do signo de Libra. Vai saber. Ou é o jeito cativante dele

mesmo... “Ai, mas ele é tão educado, né?”, “Uma graça seu namorado,

parabéns Isabela...”, “Ai, ai, não dou uma sorte dessas...”, esses são o tipo de

coisa que escutei após levá-lo comigo para fazer unha no salão que eu

frequento. Ele entrou como um completo desconhecido e saiu de lá como o

rei da mulherada.

Sem brincadeira.

Até manicure grátis as mulheres ofereceram caso ele voltasse lá comigo.

Eu só me pergunto por que, dentre tantas opções, ele resolveu me

escolher... Logo euzinha. Será que eu era merecedora de tanto? Hummm. Eu

ajudei algumas velhinhas a atravessar a rua, verdade. E também rezo todos os

dias pro meu anjo da guarda. Isso deve valer de algo. E já sofri bastante com

outros homens, né? Convenhamos. Bem que dizem que no final do arco-íris

tem um pote de ouro. Será que eu finalmente havia encontrado o meu?

Ai, ai.

Mas o maior juiz de toda aquela conversa definitivamente tinha sido

Melina, prima do Gustavo.

Quando cheguei à mansão de mãos dadas com o Gus, ela me olhou dos

pés à cabeça. Tirou até os óculos escuros lentamente para poder me observar

melhor.

Não que tivesse muita coisa para ela olhar, sinceramente. Eu estava com

um vestidinho preto básico, que você encontra em qualquer lojinha por aí,

uma meia fio 80, pois estávamos no inverno e eu sentia muito frio nas pernas,

e uma bota que comprei no verão de 2011 na promoção da Renner. Nada de

Gucci. Nem Louis Vuitton. Prada? Nunca nem vi. Joias? Rá-rá. Só bijuterias.

Aquelas de lata mesmo, que nem para enganar servem.

Eu era mesmo uma decepção para alguém como Melina, que usava grife

da cabeça aos pés e, desconfio, até nas partes mais íntimas. Ela fez uma cara

de nojo para mim e eu retribuí alegremente com um sorriso.

Fazer o quê?

Se tá incomodada com minhas roupinhas de liquidação, me dá uma roupa

de marca que esteja envelhecendo no seu closet, bebê. Enquanto isso não

acontecer, vou continuar usando minhas roupas lindas e baratas, que passo

horas garimpando para comprar no melhor preço.

Com muito orgulho e horas na fila, viu?

— Não liga pra minha prima... Ela é meio... ciumenta — disse Gustavo, meio sem graça, quando viu a cena se desenrolando.

Assim que chegamos na parte da casa em que o coquetel era servido,

Melina se levantou de onde estava, disse que estava se sentindo indisposta e

se retirou para algum dos 49 cômodos da casa.

Só sei que ela simplesmente abandonou o recinto quando eu cheguei.

Desse jeito mesmo, sem exagero algum. Se tiver uma definição de climão no

dicionário, aquela cena, com certeza, seria parte dela.

— Relaxa, Gus. Tá tudo bem.

E estava mesmo. Se ela se incomodava com as roupas de alguém, o

problema não estava em mim, estava nela, né? Eu, pelo menos, nunca vi um

vestido atacar alguém.

 

• • •

 

Mais tarde quando fui novamente ao banheiro, dei de cara com Melina na

porta, bloqueando a entrada. Ela olhou para os dois lados, furtivamente, como

se estivesse se escondendo de alguém. Então me encarou, e senti naquele

momento que ela não me odiava. Muito menos se importava com a minha

roupa.

Ela queria me falar alguma coisa.

— Se eu fosse você, ficaria longe do Gustavo — sussurra ela.

Aff. Ela era mesmo ciumenta. Eu entendo, entendo mesmo. Meu irmão

tinha ciúmes de mim às vezes. E não esqueço da primeira vez que vi

Bernardo beijar uma menina na minha frente. Eu quis morrer. Quem era ela

para beijar meu irmão assim? Mas isso é uma fase. Passa, né? Queremos a

felicidade daqueles que amamos.

— Relaxa, Mel. Tá tudo bem. — Dou um tapinha nos ombros dela.

— É sério... Você não conhece meu primo... — continua ela, olhando

para todos os lados. Será que eles tinham câmeras ali?

— Pelo pouco que conheço, gosto muito dele. Ele me faz bem. — Dei

meu melhor sorriso, e, pela cara dela, Melina não estava entendendo bulhufas

do que eu estava falando. — Mas claro, não conheço ele como você... Um dia

acho que conhecerei. Espero... — finalizo com uma piscadela camarada que

sempre amenizava climões.

Ela revira os olhos e me olha com impaciência. Melina tinha olhos cor de mel e os cabelos tingidos de loiro platinado, quase brancos. Ela era linda.

— Você vai se arrepender de conhecê-lo da forma que eu conheço. Te

garanto.

E, dizendo isso, ela se vira como se nunca tivesse me visto ali. Então

sobe as escadas que, presumo, devem levar aos quartos.

O que havia acabado de acontecer aqui?

 

• • •

 

Todo sábado, os familiares do Gustavo se reuniam na casa de alguém da

família para almoçar. Era uma tradição. Assim, eles se encontravam todas as

semanas e um podia opinar na vida do outro, porque é isso que famílias

fazem, né? Naquela semana em específico, o almoço foi oferecido pelo tio

Nico, na semana seguinte, seria a vez do pai do Gustavo, Douglas Ferreira, e

na outra, a tia Nicole... Eles pareciam uma família bem unida. Talvez muito

ligada à aparência, mas ninguém é perfeito. Normal. Na minha família, meus

tios brigavam para ver quem ia ficar com a última cerveja do freezer, e na do

Gustavo eles brigavam se alguém tirasse foto sem que todos os integrantes da

família estivessem presentes. O que vão pensar de nós? Postando foto sem a

tia Nicole? Esperem até ela chegar! Por favor!

Realmente, a tia Nicole não estar presente na foto de família seria motivo

de chacota nacional. Fariam placas, passeatas, reivindicariam isso nas ruas.

“Cadê a tia Nicole?”, “Família perfeita? Sem a tia Nicole? Acho que não”.

Brincadeiras à parte, eu até que gostei deles.

Mandy, minha melhor amiga, havia feito tanto terrorismo sobre o dia em

que eu conheceria a família do Gustavo que eu estava esperando encontrar a

própria família do Drácula. Sombria e ameaçadora.

Tirando a parte em que Melina havia me encurralado perto do banheiro,

até que estava tudo bem.

Nada de dentes pontudos ou sangue na geladeira.

Parecia seguro.

É. Seguro.

 

• • •

O que dizer do fato de eu e Gustavo, ficando apenas há duas semanas, já

estarmos dando o grande passo de ele me apresentar à família? O que dizer

do momento em que ele me chamou de... PARA TUDO.

Amor!

O que dizer do fato de ele ter dito ao pai que sou a mulher da vida dele?

Não vou negar que isso ter acontecido tão de repente me incomodou,

porque olha, me incomodou, sim. É óbvio que me sinto um pouco sufocada,

com vontade de sair correndo, gritando: “AMOR?! AMOR?! MAS A

GENTE NEM SE CONHECE DIREITO, CARA. Mulher da sua vida? DA

SUA VIDA? Mas você só me conhece há duas semanas. Você nem me viu de

cabelo oleoso ainda. Nunca me beijou com bafo matinal, pois eu masco

chiclete todos os dias antes da aula pra poder te beijar com sabor de menta.

Você também nunca me viu perdendo o controle, eu fico bem doidinha. Surto

mesmo. Odeio perder o controle de alguma coisa ou de alguma situação.

Você nunca me viu com o cabelo embaraçado no domingo só porque estou

com preguiça demais para pentear. Mulher da sua vida? Ai. Vida é tempo

demais, não acha? Não posso ser a mulher do seu ano? Olha que legal. Bem

mais interessante, mais plausível...”

Por outro lado, a jovem romântica dentro de mim retruca: Ah, o que que

tem ele te chamar de amor? É fofo, vai. Melhor do que te chamar de

vagabunda, igual àquele idiota do Fábio. Tão difícil achar caras que

queiram namorar hoje em dia. Que queiram te tratar bem. Levar a sério.

Apresentar à família. A maioria só quer curtir e tchau... Deixa de ser chata.

É por isso que tá aí solteira. Vê defeito em tudo.

E tenho que concordar, eu realmente vejo defeito em tudo. Não que seja

algo controlável. Porque olha, não consigo me controlar mesmo.

Minha mente funciona assim: se estou com alguém que não quer nem me

dar a mão no meio da rua, nossa, que insensível. Se o cara me chama de amor

da vida dele, nossa, que cara louco. E entre insensível ou louco apaixonado,

eu tenho optado pelo louco. Até porque seria preciso muita força de vontade

para não se apaixonar loucamente pelo Gustavo.

Sério.

Eu estava me segurando para não dizer “eu aceito casar com você e ter

três filhos” depois de cada beijo demorado. Mesmo que eu não tenha o sonho

de me casar com alguém ou ter filhos.

O Gustavo provocou isso em mim.

Não sei explicar.

Gustavo Ferreira era mesmo aquele tipo de cara com quem você não se

importa em acelerar as coisas. Não sei se eram os cabelos castanhos,

queimados de sol, ou os olhos também castanhos, amendoados. As mãos

eram lisas, o toque aveludado. O hálito adocicado. A voz áspera que me

arrepiava... Pode ser também o sorriso com os dentes branquinhos, alinhados

perfeitamente. Uma boa filha de dentista sempre se apaixona pelo sorriso

perfeito. Ou pode ser o perfume inebriante que amorteceu meus músculos e

me fez ter vontade de morar no abraço dele. Ou será o cheiro de amaciante

nas roupas dele, sempre tão limpas e bem-passadas...

O jeito que ele me tratava... Ah, ninguém nunca havia me tratado assim

na vida.

Como se eu fosse uma princesa, alguém a ser cuidada, admirada, amada.

Era muito bom se sentir assim depois de conhecer tanta gente merda por

aí.

O Fábio que o diga.

Porque algumas pessoas parecem que passam pela nossa vida só para

destruir nosso psicológico e a nossa autoestima...

Quantas pessoas você já deixou entrar na sua vida só para elas fazerem

você se sentir insuficiente? Pequenininha? Alguém indigna de receber amor?

No início do relacionamento, você até se questiona: Ei, por que ele me

trata assim? Com tanta indiferença... Ninguém nunca me tratou assim antes.

Isso vai mudar. Eu vou falar com ele. Vou mostrar que eu sou digna de um

tratamento melhor. Vou, sim. E ele vai me valorizar. Ele vai perceber o

mulherão que tem do lado e isso vai mudar.

Mas eles sempre têm as respostas prontas.

Ah, têm.

Claro que têm.

Não estou pronto para um relacionamento.

Não quero namorar agora, mas quando eu quiser, vai ser com você, pode

ter certeza. Você é única, sabia disso? A mulher da minha vida. É por isso

que não quero te assumir agora. Só depois... Quando eu estiver mais

preparado para te dar amor como você merece...

Por favor, me espera só mais um pouquinho.

Faz isso por mim.

Você sabe que eu te amo...

Como você pode duvidar do meu amor? É tão claro...

E aí você acredita nessa história da carochinha.

Realmente, você acha que o timing de vocês não bateu e que você é a

pessoa certa no momento errado. Então você decide esperar pelo momento

certo. Pacientemente. Você para toda a sua vida para que nada saia do eixo,

para que esse momento certo chegue logo. Você tenta impressionar de todos

os jeitos, se veste da melhor forma, tenta ser sua melhor versão, conquistá-lo

de todas as formas. Ele precisa se apaixonar por você perdidamente.

A ponto de querer largar a vida de solteiro.

A ponto de achar que agora, sim, é o momento certo.

A ponto de achar que está preparado para dar todo o amor que você

merece.

Você tenta cabelo curto, cabelo longo, rabo de cavalo. Você é a princesa

indefesa, a bruxa má, a mocinha que vai para a guerra. Você dá seus

melhores sorrisos, os beijos mais lentos e os abraços mais quentes. Mas nada

disso é suficiente. Nunca é. Parece que o momento certo está logo ali, mas ele

nunca chega. Você quase o alcança, mas ainda falta mais um pouco.

Só mais um pouco...

Você pensa em desistir, mas já lutou por tanto tempo...

E vale um pouco mais de luta? Você é forte, vamos lá. Então você tenta

mais um pouco. Usa roupas pretas, coloridas, provocantes. Mostra que é uma

boa amiga, uma boa mulher, uma boa companhia. Você está lá nos momentos

bons, mas também nos ruins. É você que ele leva para o enterro do tio-avô

com quem ele nem conversava, é você que ele chama quando não tem

nenhuma acompanhante para a festa da empresa. Você cuida do cachorro dele

como se fosse seu, e até faxina o apartamento bagunçado dele. Você prepara

um jantar a dois na segunda-feira e espera por um convite na sexta, que nunca

vem.

Mas ainda não é o momento certo.

Claro que não.

Ele não te apresenta para os amigos ou para a família. Não que ele tenha

vergonha de você, jamais, claro que não! Você é incrível! Ele ama você. Mas

o que as pessoas vão pensar que somos? Como vamos explicar? Como

explicar que eu lavo suas cuecas e durmo abraçada com você todas as noites,

mas nós não somos sequer “ficantes” oficialmente? Como explicar que eu

estou do seu lado como um fantasma que não pode ser visto nem ouvido por

mais ninguém, só por você?

E, sem perceber, você vai se diminuindo para caber naquele espaço tão pequenininho destinado a você. Você se espreme toda, retira algumas peças,

tenta se encaixar. Você tem tanta confiança que, um dia, as coisas vão se

acertar que não se importa em se quebrar um pouquinho. Com isso, o

sentimento de insuficiência começa a bater na sua porta... Está preso na

garganta, como se alguém tivesse te obrigado a engolir uma corda e ela

tivesse ficado ali, agarrada. Doendo. Incomodando. Você repassa todas suas

atitudes dezenas de vezes na sua mente, tentando descobrir onde errou. O que

você deixou de fazer. O que não mostrou. O que não provou...

Sem ao menos se dar conta de que você é incrível demais, cara.

Você deu tudo de si para alguém que não tem como segurar o mulherão

que você é. Simples assim.

Você não tem culpa se a outra pessoa não consegue enxergar o seu valor.

Tampouco tem culpa por ter confiado em alguém que só mentiu para você e,

talvez, até para si mesmo...

O problema é que muitas vezes permanecemos meses, até anos, do lado

de pessoas assim. Que nos mantêm reféns de suas palavras.

Mas palavras não se sustentam sem atitudes que as confirmem.

De nada adianta dizer que ama se você não tem atitudes de uma pessoa

que ama. Quem ama quer gritar seu sentimento para os quatro cantos do

mundo, e que se dane se a inveja tem sono leve. Quem ama quer apresentar

para os amigos, para a família, para o cachorro, para o papagaio, para o moço

que te atende de manhã na padaria. Quem ama não consegue esconder, não

consegue esperar e, por isso, não espera o momento certo... Porque não existe

momento certo para amar. Qualquer momento se torna o certo quando se trata

de amor.

As atitudes falam muito mais do que as palavras.

Desconfie de pessoas que só falam, falam, falam, e suas atitudes nunca

confirmam suas palavras.

E isso não é só em relação ao amor, não. Mas também em relação às

amizades, relações familiares... Quantas vezes você não teve um amigo que

se dizia seu amigo, mas as atitudes revelaram o contrário?

Amigo que coloca o outro para baixo?

Espalha para todo mundo um segredo seu?

Te abandona quando você mais precisa?

Ah, me desculpa. Você sabe que eu sou seu amigo... Eu te amo. Me

desculpa mesmo. Não foi a minha intenção dizer pra todo mundo que você

traiu seu namorado na festa junina do colégio. Me desculpa por estar ausente. Você sabe, sou seu amigo. Te amo de verdade. Vacilei. Não vou

vacilar mais. Poxa. Vacilei de novo. Mas é a última vez, eu juro. Você sabe...

Sou seu amigo.

Quantos vacilos são necessários para a gente perceber que não se tratam

de “vacilos”, e sim de alguém que não tá nem aí se vai machucar o outro?

Quantas atitudes são necessárias para superar as palavras que iludem?

Observe as atitudes.

Sei que palavras bonitas conquistam e têm a capacidade de nos tirar do

chão, mas são as atitudes que mostram quem a pessoa verdadeiramente é e o

que é capaz de fazer.

E nem sempre as atitudes condizem com o que é dito.

Lembre-se sempre: não se diminua para caber no universo pequeno de

alguém.

Você é o que você faz, não o que fala.

 

• • •

 

— Isa? Tá aí?

Gustavo se aconchega ao meu lado na rede que ficava na enorme varanda

de pedra que cercava toda a casa, de frente para a piscina. O visual era lindo.

Dava para ver toda Juiz de Fora do condomínio Flores do Imperador, pois

ficava relativamente alto, se comparado ao restante da cidade. Senti o corpo

quente de Gustavo vir ao encontro do meu e dei um suspiro. Uau. Ele

malhava. Mais essa.

— No que você está pensando, meu amor?

Em como a vista aqui é linda. No almoço, que apesar de ter sido

strogonoff — uma comida que todos gostam —, aquele strogonoff em

específico tinha um gosto forte de conhaque, e eu fiquei me perguntando por

que pessoas chiques acrescentavam conhaque em tudo. No champanhe cor-

de-rosa, que talvez eu tenha tomado algumas taças a mais e que agora faziam

minha cabeça girar. Em como você é cheiroso. No seu corpo colado no meu.

Também me passou pela cabeça que eu deveria voltar a malhar para você

conseguir sentir meus músculos quando encostar em mim, da mesma forma

que eu sinto os seus. Em como estou feliz por estar me entregando a um

relacionamento que eu não faço a mínima ideia se vai dar certo ou não. Na imagem do Fábio em uma maca de hospital, todo machucado, mesmo que ele

só tenha tido um corte na testa e recebido alta no dia seguinte. A imagem dele

todo machucado ainda aparecia na minha mente às vezes. Junto com as

palavras que ele me disse. Mesmo que algumas ofensas não nos atinjam por

completo, pois sabemos que são mentiras e que somos muito mais do que

isso, é inevitável não relembrar vez ou outra. Pensei na Mandy dizendo que a

sua família é uma família de vampiros, e em como eu teria o prazer de

esfregar na cara dela que vocês eram normais, apesar de comer strogonoff

com conhaque e beber champanhe rosa. Pensei no Pedro e em como eu

contaria que tinha vindo na casa do seu tio conhecer a sua família e que me

deitei de conchinha com você em uma rede, observando a cidade, calada,

num sábado à tarde. Talvez ele não aprovasse nem um pouco o nosso

relacionamento, mas eu precisaria reverter isso, afinal, ele era meu melhor

amigo.

Pensei em como são poucos os momentos em que nos sentimos em

completa paz, em completa harmonia... Momentos felizes. Aqueles

momentos que se tornarão memórias tão acolhedoras, que serão lembradas

com um sorriso sincero.

Pensei em como a gente reclama da vida, sofre, chora, esperneia, mas

quando encontra algo bom, simplesmente não sabe o que fazer.

Trava.

Desconfia do destino.

Se belisca para ver se não está sonhando.

Como é que faz? Se apega, sim? Agarra? Se joga de cabeça? Vai até o

fim?

Não consigo deixar de pensar que, se eu vivesse na época da minha avó,

as coisas seriam bem mais fáceis. Juro. Eu seria apresentada para a sociedade,

conheceria o homem da minha vida (que provavelmente moraria na casa ao

lado e já seria meu amigo de infância) e estaríamos predestinados a sermos

felizes para sempre correndo por campos esverdeados. Eu não teria medo

algum de me entregar pra ele, qual é?, estaríamos no século passado. Ele

também se entregaria a mim. Seria meio que uma obrigação. Sem isso de

geração do desinteresse. Sem joguinhos. Sem medo de se decepcionar. Sem

ansiedade para saber se ele está on-line para conversar com você ou para dar

em cima de mais outras duas. Sem o arrependimento de dizer o que você

sente e ter seus sentimentos esmagados pelas expectativas não cumpridas.

Sem MEDO.

Sabe por que temos medo quando conhecemos alguém que balança o

nosso coração e a nossa vida? Porque nós sabemos mesmo é lidar com coisas

ruins. Infelizmente. Sei despachar um embuste com um pé nas costas,

enquanto faço café. Mas quando aparecem coisas boas na minha vida, eu fico

sem reação. É isso. Eu congelo. Me sinto novamente como nos tempos da

escola, quando passava a noite decorando a matéria e de repente me dava um

branco na hora da prova. Digo que o sorriso dele faz meu mundo girar ou

deixo pra lá e só sorrio de volta? Dou mais um beijo ou vou parecer muito

grudenta? Confesso que escrevi nossos nomes numa folha de papel só para

ver se ficariam bonitos lado a lado ou vou parecer idiota? Peço a hora do

nascimento dele para fazer o mapa astral ou finjo que nem ligo para essas

coisas de signo? Falo que gosto de namorar ou bato no peito e digo que estou

muito bem sozinha, obrigada? Respondo em um segundo ou em dez minutos?

Peço para ele ficar mais um pouco ou a vida toda?

Gosto de dizer a meus amigos que sou aquela medrosa corajosa. Eu sinto

medo, mas gosto de enfrentá-lo.

É.

É isso.

Acho que consegui definir legal. E em meio a todos os questionamentos

sobre o que fazer, quando fazer, se devo fazer... Eu escolho a opção mais

idiota possível.

Seguir meu coração.

Qual o problema de seguir meu coração? Ah. Sei que ele é impulsivo.

Bobo. Anseia por viver todas as sensações a duzentos quilômetros por hora e

não tem medo algum de bater com a cara no muro.

E lá vamos nós de novo. E de novo. Quantas vezes for preciso.

Me virei para fitar Gustavo nos olhos e finalmente dizer:

— Estou pensando no quanto estou feliz por estar com você. Obrigada

pelo dia de hoje... Sério. Foi muito especial...

E antes de eu acabar a frase, ele me puxa para perto dos músculos da sua

barriga e me dá um beijo demorado.

É só um murinho, vai...

Nem vai doer tanto assim.