Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 2 de 15

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Não Se Humilha, Não

prólogo

Me levantei sem entender muito bem onde eu estava e observei a cena ao

meu redor. Ok. Definitivamente estava na casa do Gustavo. Eu seria capaz de

reconhecer essa casa impecável em qualquer estado. Os móveis que antes

estavam milimetricamente posicionados, talvez por obra de um designer de

interiores, sem nem uma pecinha sequer fora do lugar, agora se encontravam

revirados no chão. Mas, afinal, o que aconteceu aqui?! O nosso jantar da

véspera estava todo espalhado pelo carpete caríssimo da Dona Carmem, em

meio a um monte de cacos do que antes eram as louças chiques da família

Ferreira. Eu não sabia quem tinha feito aquela bagunça, mas olha, de uma

coisa eu sei: Dona Carmem não deixaria tudo isso barato.

Ah, mas não deixaria mesmo.

Tentei me levantar do sofá e senti uma dor no braço direito sem igual.

Poxa vida. Eu nem estava malhando o suficiente para sentir dores

musculares.

Percorri a sala como um detetive numa cena de crime.

Estava um caos.

Sem tirar nem pôr.

De repente, senti um calafrio percorrer meu corpo. Tentei me lembrar da

noite anterior, mas não conseguia me lembrar de praticamente nada. Meu

Deus, será que aquele caos era culpa minha? Eu tinha feito aquilo? Não, né?

Pensamento positivo, Isabela, pensamento positivo. Veja bem, você não

reviraria a mesa de jantar e deixaria tudo daquele jeito. Olhei novamente

para a mesa, que estava mesmo de pernas para o ar. É. Com certeza eu não

teria conseguido virar a mesa daquele jeito, porque, como já disse, não estava

pegando nem um pesinho de dois quilos na academia, que dirá uma mesa de

madeira maciça de não-sei-quantos-mil-quilos! Bem... Não eram mil quilos,

mas vocês entenderam. Eu sou sagitariana, exageros são comuns por aqui.

Como é que as pessoas fazem mesmo nos filmes? Elas tentam

reconstituir todos os seus passos. Vamos lá. Eu consigo. O Gustavo tinha me

chamado para jantar na casa dele. Isso. Isso! Gustavo era meu namorado. E

era lindo. Nossa, sim, muito lindo. Mas também era ciumento. Nossa, ele era

muito ciumento. Inclusive, eu estava de saco cheio de ter que podar minhas

atitudes para evitar cenas de ciúme, mas isso é papo para outra hora. Naquele

momento, eu estava no meio do apocalipse e precisava me lembrar de quem

eu era para conseguir me salvar. Rá-rá. Achar graça de tudo e fazer piada quando o mundo está desmoronando é comigo mesma. Prazer, Isabela. Vinte

anos. Moro em Juiz de Fora e estudo na federal de Direito do meu estado,

Minas Gerais. Eu amo gatos, o número 7 e batom vermelho. É. Acho que isso

era o máximo que eu conseguia lembrar sobre mim mesma naquela situação.

De novo a dor no braço.

Pensei que talvez fosse melhor conferir como eu estava.

Olhei para baixo.

Minha saia vermelha estava rasgada. Rasgada. Era só o que me faltava.

Não bastava ser universitária com medo de um futuro falido, eu ainda tinha

rasgado minha saia favorita! Ah, não. Mexeram com a minha saia, mexeram

comigo. Tá doido, tive que juntar dois meses da bolsa do estágio para

conseguir pagar as parcelas. Isso não ia ficar barato mesmo. Dona Carmem,

tô contigo! Esses assaltantes iam se ver com a gente. Ah, se iam. Porque só

podiam ser assaltantes, certo? Quem mais reviraria a casa inteira e deixaria as

coisas nesse estado? E ainda rasgaria uma pobre saia que não fez mal a

ninguém? Assaltantes, é claro!

Comecei a revirar as almofadas do sofá à procura do meu celular, que

ainda não tinha dado as caras. Não estava lá. Droga. Os assaltantes

provavelmente tinham levado meu celular, era óbvio. Tentei calcular em

quantos meses de estágio eu conseguiria pagar um celular novo. Pensamento

positivo, Isabela, não pensa nisso agora. Andei até a cozinha quase me

arrastando e encontrei outra cena caótica. Pelo visto, uma garrafa de vinho

havia caído no chão, e aquele líquido avermelhado se espalhara pelo

mármore, deixando a cozinha com um ar bem... macabro. Era essa a palavra.

Macabro.

De repente, escutei um celular tocar... Meu Deus, meu Deus do céu, era o

meu celular! De onde estava vindo aquele som? Olhei para a lixeira no

cantinho da cozinha. Ali! Ali! Peraí. Meu celular estava na lixeira? Que tipo

de assaltante jogaria um celular na lixeira? Achei ofensivo, poxa, tudo bem

que meu celular não era de última geração, nenhum daqueles modelos que

estavam na moda, mas dava para o gasto, viu? Abri a tampa da lixeira e ali

estava ele.

TODO QUEBRADO.

Ah, não.

Isso só podia ser um pesadelo, não podia ser real...

Tentei atender a ligação da minha mãe (sim, minha mãe era a única

pessoa que tentava me ligar além do meu namorado) e não consegui. Com a tela quebrada, não dava para mexer em nada. Desculpa mamãe, fica para a

próxima. Tenho uma invasão de domicílio para solucionar no momento. Será

que ainda dá para ter pensamento positivo?

Comecei a me questionar. Onde estava o meu namorado depois daquela

confusão toda? A família dele tinha viajado para Búzios e nós íamos passar o

Dia de Finados na casa do Gustavo. Até aí tudo bem. Mas depois de tudo

isso? Por que ele não ficou aqui para me proteger? Será que ele foi

sequestrado pelos assaltantes? MEU DEUS! MEU DEUS! E se os

assaltantes, na verdade, fossem sequestradores?

Então, tudo fez sentido.

Por isso eles quebraram meu celular e jogaram no lixo, é claro. Para que

eu não tivesse uma comunicação rápida com a polícia. Rá! Mas eles não

contavam com o fato de eu não ser apenas uma donzela em perigo, ah, não, e

eu iria pessoalmente à polícia. Sou uma donzela que corre atrás dos seus

direitos.

Fui até o banheiro pentear os cabelos, trocar de roupa e dar uma

melhorada no visual. Afinal, eu não ia chegar de saia rasgada na delegacia,

né?

Mas aí eu me olhei no espelho.

E a verdade me atingiu como um soco.

Que irônico.

Meu rosto estava desfigurado. Os dois olhos roxos. Havia sangue seco no

meu nariz e na minha boca.

Não.

Não.

O que tinha acontecido?

Não.

Eu não queria me lembrar.

Não.

Eu não podia me lembrar.

Não.

Para, Isabela, esquece.

Esquece.

E aí eu me lembrei.

E entendi por que esqueci.

Não existia assaltante algum.

Tampouco sequestrador.

Gustavo não corria perigo.

Minha dor no braço não era por causa da academia. Eu nem estava indo

malhar.

Meu celular quebrado não era para me impedir de ligar para a polícia.

A verdade era uma só: EU corria perigo.

Gustavo tinha me espancado na noite passada após uma crise de ciúme

por eu ter colocado aquela saia vermelha. Era isso.

Olhei para a minha sainha vermelha rasgada e desatei a chorar. As

lágrimas tomaram conta de mim, e fui deslizando devagarinho pela parede até

ficar toda encolhida no chão gelado do banheiro. Eu estava envergonhada,

com medo, sem saber o que fazer. Senti o gosto do sangue seco misturado

com lágrimas na minha boca.

Por que isso estava acontecendo comigo? O que eu tinha feito de errado?

Era minha culpa o descontrole do Gustavo? Afinal, eu sabia que isso poderia

acontecer em algum momento. Sabia. E por que não terminei com ele antes?

Por que não dei ouvidos a minha melhor amiga, a Amanda? Por que afastei

todo mundo que gostava de mim? Por que não ouvi os conselhos da minha

mãe que sempre me dizia para nunca aceitar uma atitude agressiva de um

homem que viesse para cima de mim? Por quê? POR QUÊ?

Essas eram as perguntas que ressoavam na minha mente.

E então, como se não pudesse ficar pior, eu escutei uma voz gritando meu

nome do lado de fora do banheiro.

— ISABELA, ABRE A PORTA AGORA. NÃO ADIANTA SE

TRANCAR AÍ!

Era o Gustavo.

Comecei a tremer, o maxilar batendo de tanto nervoso. O que eu poderia

fazer? Será que se tornar adulto era isso? Não saber o que fazer, mas mesmo

assim ter que tomar uma decisão? Ninguém apareceria ali para me salvar.

Ninguém. Meus pais achavam que eu estava passando o feriado em uma

verdadeira lua de mel com o meu namorado. Minha melhor amiga, pff,

estávamos brigadas exatamente porque ela tentou me alertar sobre o Gustavo.

Os vizinhos pelo visto não se importaram com o barulho, e os empregados da

família Ferreira estavam de folga. Eu precisava fazer alguma coisa. E rápido.

— ISABELA! — O som era acompanhado por socos na porta. — SE

VOCÊ SABE O QUE É BOM PRA VOCÊ, ABRE ESSA PORTA AGORA!

— Mais socos, agora mais fortes.

É isso. Eu precisava enfrentar a consequência das minhas más decisões.

Me levanto para abrir a porta, como um guerreiro que desiste de lutar e se

entrega ao seu adversário. Quando abro, encontro Gustavo todo

ensanguentado. E quando eu digo todo, é literalmente TODO MESMO. Não

tinha um pedaço de pele que não estivesse vermelho.

Olho assustada.

— OLHA O QUE VOCÊ FEZ COM A GENTE! OLHA SÓ! — grita ele,

enquanto me mostra o sangue escorrendo pelos braços.

Gente! O que está rolando aqui?

— Gustavo, eu...

Tento falar alguma coisa, mas a voz simplesmente não sai.

Fecho os olhos com força.

Isso não era para estar acontecendo.

Era inacreditável.

Ele me tocou com o braço ensanguentado e começou a passar o sangue

em mim enquanto esbravejava com raiva que eu tinha feito aquilo com nós

dois... Como assim?

O que eu fiz?

O que eu poderia ter feito?

 

• • •

 

Eu acordo.

Abro meus olhos e vejo Gustavo deitado ao meu lado, roncando com uma

expressão feliz, abraçado a uma almofada e enrolado no cobertor.

Ah.

Não acredito.

Nós apagamos no sofá enquanto assistíamos a um filme.

As louças do jantar estavam intactas.

A mesa, no lugar de sempre.

A sala voltou a ser como sempre foi, impecável, sem nada fora do lugar.

Pego meu celular para ver as horas, 2h10 da manhã.

— Amor... Volta a dormir, estava tão bom aqui...

Gustavo me puxa para baixo das cobertas novamente.

Então me enrolo com ele nas cobertas, mas não consigo pegar no sono.

Meus pensamentos estavam a mil. Ufa. Tudo isso só podia ser um pesadelo mesmo. Claro. O Gustavo nunca faria isso comigo. Olho para minha saia

vermelha. Não. Ele nunca faria isso. Ele só disse que essa saia estava curta

demais. É só uma opinião, certo?

Certo.

É.

Ele nunca faria isso comigo.

Nunca.

Nunca mesmo...

Faria?