Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 12 de 15

Páginas do PDF

Não Se Humilha, Não

capítulo 10

Após o fatídico episódio do banheiro, Pedro Miller me deixou sã e salva

(e fedendo) em casa. Cheguei já jogando a mochila no sofá e fui direto para o

banho. A casa estava vazia, e eu podia colocar minhas músicas sem meu

irmão implicar por eu escutar sempre as mesmas bandas. O que posso fazer

se Lifehouse, The Fray, The Script, OneRepublic e LIVE definem a minha

vida? Com essas bandas, eu me sinto uma mulher completa. Ou uma

garotinha apaixonada. Depende da playlist.

Durante o banho, pensei em um milhão de possíveis rumos que a minha

vida tomaria daqui para a frente. Primeiro, eu definitivamente precisava

comprar um condicionador novo. Eu tinha colocado água e agitado a

embalagem nos últimos sete dias, e agora não havia técnica que salvasse mais

o restinho que ficou no fundo, exatamente porque não tinha mais restinho

algum. Segundo, eu começaria a praticar meditação a partir de hoje. Estou

decidida a ter mais autoconhecimento e a entender melhor meus sentimentos.

Quer um caminho melhor do que a meditação para ler e entender sua própria

mente? Ter um momento no dia para olharmos para dentro de nós? Todos

sabemos que olhar para dentro de nós mesmos não é nada fácil. Dói pra

caramba. É um processo demorado, desgastante e, por vezes, angustiante.

Mas uma hora a gente precisa olhar para a bagunça que deixamos se instalar

do lado de dentro e tentar dar uma ajeitadinha. Não adianta fingir que

problemas não existem, que estamos felizes com nossas escolhas e decisões.

A gente precisa aprender a lidar com a infelicidade, com os momentos

difíceis e com as fases em que nós nem nos reconhecemos mais.

No caminho de volta da faculdade, pesquisei em alguns sites e aprendi

sobre a “meditação do chuveiro”, que é uma prática muito fácil e de nível

iniciante. O site dizia que essa meditação consiste em deixar a água morna do

chuveiro levar todos os pensamentos e energias ruins que você está

guardando. Se eu acredito nisso? É claro que acredito! Sou sagitariana, rapaz,

eu acredito em tudo um pouco.

Coloquei uma música calma, me concentrei, deixei que a água caísse na

minha cabeça e, à medida que meu cabelo ficava encharcado, mentalizei

vários pensamentos e sentimentos ruins que eu queria que descessem pelo

ralo. Pensei na Isabela que eu era e na Isabela que eu me tornei. Eu não

gostava nem um pouco dessa última versão. Pensei em todos os meus sonhos,

meus desejos, nas coisas que eu tinha deixado de lado havia algum tempo.

Pensei no Gustavo. Pensei em como me sentia quando estava com ele. Um sentimento ruim me subiu pela garganta e deixei que ele fosse embora junto

com a água. Pensei no nosso relacionamento. Tentei deixar aquela relação

descer pelo ralo também, mas foi como se ela se segurasse na borda, me

encarando de volta. Vai desistir assim? Na linha de chegada? Na última

curva? E o seu “felizes para sempre”? E tudo que você sacrificou para

chegar até aqui? Vai desistir? MAIS UMA VEZ?, disse a voz (que não devia

ser da minha consciência, porque consciência nenhuma diria para eu insistir

nesse relacionamento), com alguma persistência, defendendo com unhas e

dentes esse namoro. Quando a voz chegava, minha concentração ia embora.

Mas isso tinha que mudar. Respirei fundo, pensando exatamente na resposta

certa para aquelas perguntas. Então eu disse para mim mesma:

“Mas como ser feliz para sempre, se eu não sou feliz agora?”

E, assim, percebi que meu relacionamento também tinha ido por água

abaixo e descido pelo ralo.

Passei o condicionador anticaspa do meu irmão e saí do banho, decidida a

mudar de vida.

Esse lance de meditação é mesmo bom, hein?

 

• • •

 

Em cima da penteadeira, meu celular estava apitando repetidamente. Gustavo

me enviou 57 mensagens nesse meio-tempo em que eu havia encontrado com

a Mandy no banheiro da faculdade, feito xixi na calça, reatado a amizade com

ela e pedido carona para o Pedro. Sem brincadeira. CINQUENTA E SETE.

Que tipo de pessoa manda 57 mensagens pra alguém? As possíveis respostas:

1) uma pessoa louca; 2) uma pessoa totalmente possessiva, ciumenta e

controladora; 3) um namorado abusivo que tenta controlar todas minhas

ações; 4) o Gustavo, que parece ser tudo isso numa pessoa só.

As mensagens começavam com “Onde você se enfiou?”, passavam por

muitos pontos de interrogação, uma preocupação excessiva, chamadas

perdidas, chantagens psicológicas, para no final terminarem com “Você me

deve explicações sobre o seu sumiço hoje. Espero que pelo menos vá a festa

da nossa turma. A gente conversa lá.”

Duas horas.

Esse foi o tempo em que Gustavo Ferreira ficou longe de mim. Isso é enlouquecedor. Eu não posso me afastar dele nem por algumas horas sem dar

satisfação que ele surta. Eu preciso avisar todos os meus passos, e, se não

avisasse, “eu devia explicações”. Caramba, minha mãe não falava assim

comigo nem quando eu tinha meus quinze anos e ia para a festinha das

amigas. Ele fala como se fosse meu dono, como se eu devesse algo a ele,

como se eu estivesse quebrando alguma regra ao fazer algo sem o

consentimento dele.

Eu me sinto completamente presa, da cabeça aos pés. Minhas mãos estão

atadas com algemas e meus pés arrastavam correntes pesadas. Dar um passo

para longe dele é difícil, muito difícil. Pesa, dói, machuca, arrepia a alma. Eu

sabia que as tentativas de me afastar dele por alguns instantes depois se

tornavam um martírio digno de filme de terror. Eu teria que explicar, minuto

por minuto, o que tinha feito nesse tempo em que “sumi”. Eu teria que provar

o que fiz e, caso contasse um pedaço da história errada, ou esquecesse de

algum detalhe, ele me olharia desconfiado e desconfiaria de todo o resto. Eu

gaguejaria, hesitaria e ele se aproveitaria disso para me intimidar. No fim,

tudo terminaria como sempre... Eu teria que me desculpar por viver a minha

vida, por fazer minhas coisas, por fazer o que me deu vontade na hora “sem

lembrar que tinha um namorado”. Afinal, ele sempre dava um jeito de

inverter a situação. Não bastasse tudo isso, eu ainda teria que implorar por

perdão, admitir que estava errada, aguentar o Gustavo emburrado e virando a

cara para mim durante um bom tempo... Até que, de repente, ele falaria

“Espero que você tenha aprendido sua lição”, como se estivesse me fazendo

um favor, e então voltaria a ser o meu namorado de sempre.

Por um tempo, Gustavo me fez acreditar que ele realmente estava sendo

misericordioso ao me aceitar de volta depois desses meus “grandes vacilos”.

Ele conseguia me fazer sentir culpada até por ir ao supermercado sem avisá-

lo.

Ele sempre dizia: “Mas e se você sofrer um acidente? Como eu fico? Eu

fico preocupado, Isabela, PREOCUPADO. Eu preciso que você me avise. Eu

te amo. Acha que não me importo com você? Isso é amor. Você nunca

namorou? Não sabe se relacionar?”

E eu engolia seco. Não sabia o que dizer. Sim, eu já tinha namorado outra

pessoa, e não, ninguém nunca reclamou dessas coisas. Mas as reclamações

dele eram incessantes, e eu me perguntava se não deviam ter um fundo de

verdade. Ele falava com tanta propriedade, sabe... Então eu implorava por

perdão pelas coisas mais bobas. Por colocar um copo de água na mesa de cabeceira dele, por esquecer de avisar que fui ao médico com a minha mãe,

por ter demorado a carregar a bateria do meu celular e, consequentemente, ter

demorado a respondê-lo, por ter deixado um resto de comida no prato (ele

dizia que eu tinha que comer tudo, pois muitas pessoas passavam fome, e eu

deixar comida no prato era um absurdo). Coisas que, pensando melhor agora,

não fazem sentido.

Amor é liberdade. É deixar o outro livre e amá-lo com todas as suas

escolhas e vontades. Sem impor nada. Sem pedir nada. Sem mudar nada.

Tudo aquilo que quer impor, quer te mudar e quer te prender não é amor.

Sinto um frio na barriga só de pensar em como será hoje à noite, quando

Gustavo me encontrar na Festa do Neon e a Amanda estiver ao meu lado.

Não sei como ele vai reagir, o que vai falar. Tentei antecipar os movimentos

dele para, assim, planejar os meus. Mas parece que até em pensamento algo

me paralisava, me segurava, me mantinha acorrentada...

O medo.

Ultimamente, eu tenho sentido muito medo e, confesso, não é fácil lidar

com um sentimento que não te deixa tomar uma atitude.

Você já sentiu medo da pessoa que está ao seu lado? É um barulho

interno ensurdecedor. Ao mesmo tempo que seu eu inteligente grita e

esbraveja “Ei, você não precisa estar ao lado de uma pessoa que dá medo!

Você merece mais do que isso! Isso não é relacionamento! Isso não é vida!

Você é livre para fazer o que bem entende! Você é dona de si! Você é capaz!

SAI DESSA! Vamos! Eu acredito”, o seu eu precavido e amedrontado

responde em voz baixa: “Mas e se ele nunca me deixar decidir o que é melhor

pra mim? E se ele nunca me deixar falar o que eu penso? E se ele gritar

comigo? E se ele me agredir? E se ele nunca me deixar em paz?”

Então, para ter uma falsa sensação de paz, a gente cala a voz inteligente

que habita em nós e reza para todos os santos para que a pessoa mude do dia

para a noite. A gente reza para que um dia esse medo passe e o pote de ouro

no final do arco-íris finalmente apareça. O problema é que não há arco-íris

algum nesse tipo de relacionamento. Sei que eu vivo no meio de nuvens

espessas e cinzentas. Às vezes, elas trazem as chuvas e as minhas lágrimas e,

em outras, trovejam no meu ouvido.

Tenho medo de demorar a responder uma mensagem e ele achar que

estou fazendo algo errado de propósito. Tenho medo de encarar alguém na

rua sem perceber e ele achar que estou flertando. Tenho medo de comer

alguma coisa do lado dele e ele me obrigar a comer até o último grão. Tenho medo de usar alguma roupa que ele não considera “à minha altura” e ter que

lidar com a cara de nojo que ele faz. Tenho medo de não contar direito

alguma história e ele gritar de volta: “Você não conta nada direito! Explica

isso certo!” Tenho medo de contar um caso engraçado sobre algum amigo e

ele não aprovar nossa amizade. Tenho medo de não ser suficiente, de não

dizer as palavras certas, de não prestar atenção quando ele me pede para

prestar atenção em algo. Tenho medo de mexer nas coisas dele e deixar algo

fora do lugar, tenho medo do que vou dizer para as pessoas sobre o nosso

relacionamento, tenho medo de não parecer feliz ao lado dele e ele perceber...

É tanto medo que meu coração acelera. Me sinto o tempo todo ansiosa, com

as mãos suando, enjoada, com falta de ar...

Exatamente como uma presa se sentiria na presença de seu caçador.

Sinto como se estivesse correndo perigo, como se precisasse me proteger

de uma ameaça constante. Sei que isso não é amor, está longe de ser. Me

disseram que era amor, eu tentei transformar em amor, tentei plantar amor

para colher amor... Mas como plantar algo em uma pedra dura e fria?

Enquanto me arrumo, escuto meu irmão mais velho, Bernardo, chegando

em casa do trabalho acompanhado do seu mais novo melhor amigo, Gael.

Esse garoto parecia ter saído de um filme de surfe, sério. Tinha os cabelos

nos ombros, lisos, meio louros e a barba comprida, que dava a ele uma

aparência de andarilho. Mas além da aparência descolada, Gael era

superinteligente, sabia conversar sobre tudo e era uma grande ajuda para o

meu irmão, que estava começando na carreira de médico e precisava mesmo

de um amigo que o incentivasse. Gael já é médico oncologista no melhor

hospital de Juiz de Fora, e meu irmão está estagiando com ele.

Pela porta, escuto os dois comentando que queriam ir a alguma festa e

resolvo convidá-los para a Festa do Neon. Eu tenho dois ingressos sobrando:

um do meu acompanhante (que no caso era o Gustavo, mas como éramos da

mesma sala, ele também ganhava os dele) e outro do acompanhante da

Mandy. Eu digo para o meu irmão que ele pode ir à festa, desde que fosse o

motorista da vez. É que o Pedro (que sempre era o motorista) vai beber com a

gente. Bernardo aceita sem nem pestanejar, ele nem gosta muito de beber

mesmo. A única condição foi que Gael também fosse, como se eu já não

soubesse disso. O lance do meu irmão é ficar em um cantinho da festa

analisando as pessoas e conversando com os amigos.

É claro que eu queria que meu irmão nos levasse de carro, mas acho que

tinha algo além disso. No fundo, eu achava que podia precisar dele por perto. Bernardo é mais velho do que eu alguns anos e somos muito amigos. Muito

mesmo. Ele é meu protetor, mas sempre se mostra doce, calmo e sereno.

Toda vez que eu tinha um problema na época de colégio era meu irmão quem

resolvia a situação, que me acalmava... O que é até engraçado. Lá em casa, é

ele o todo grandão. Já eu sou só a baixinha invocada mesmo. Bernardo tem

1,85m, músculos bem-definidos, cabelos castanho-claros e a pele bem

clarinha. Ele chama a atenção por onde passa. As pessoas, em geral, pensam

que meu irmão é do tipo “brigão”, já que acreditam que o estereótipo

“fortinho” se encaixa perfeitamente com “cheio de marra”. Rá-rá. Mal sabem

que meu irmão não machucaria nem uma mosca.

Acho que, nos últimos tempos, Bernardo sabe que algo não está indo

muito bem na minha vida. Sei disso porque todos os dias antes de dormir ele

bate na porta do meu quarto para perguntar se eu estou bem e me dar um

beijinho de boa-noite. E, em vários desses dias, tipo, vários mesmo, ele me

pegou chorando abraçada com o travesseiro. Eu fingia que não via meu irmão

junto à porta, e ele, em respeito, a fechava em seguida. Mas sempre deixava

um bilhetinho no espelho do nosso banheiro no dia seguinte. Ele dizia o

quanto me amava, o quanto eu era incrível, o quanto era especial, e que eu

podia contar sempre com ele. Me pergunto o que ele pensa sobre tudo isso.

Pois, aparentemente, eu vivo um relacionamento perfeito... Meu namorado é

fofo, lindo, me ama, quer casar comigo, ter filhos, morar em uma casa com

cerquinha branca e tudo mais... Pelo menos, é o que ele posta nas redes

sociais e, eu, claro, dou corda.

Vivemos tanto de aparência que nem sei se pessoas próximas entendem

de onde vem a minha tristeza. Bernardo deve achar que eu estou ficando

deprimida ou algo do tipo, o que não é de todo mentira, afinal, estou mesmo

muito mal. Porém, nessa de me afastar de todos que querem o meu bem, eu

acabo me afastando também do meu irmão. Ele tenta conversar comigo

inúmeras vezes e, poxa vida, isso me corta o coração, pois nós sempre

contamos tudo um para o outro, e, de repente, eu não quero contar mais nada.

Desde que comecei a me relacionar com o Gustavo eu guardo minhas

tristezas dentro de mim; achei que fosse capaz de suportá-las sem precisar

colocar para fora, sem precisar machucar as pessoas que me amavam e que

queriam meu bem. Eu achei que seria capaz de resolver meus problemas

sozinha, mas, aparentemente, não sou.

E é por isso que hoje, ao dar um passo gigante para a minha liberdade e

para quebrar as minhas correntes, quero ao meu lado as pessoas em quem mais confio. Tirando o Gael, que eu mal conheço, mas que parece uma

versão mais velha do Felipe Dylon, e eu gostava muito do Felipe Dylon

quando era adolescente.

Minha cavalaria está formada.

 

• • •

 

Chegamos à festa e, caramba, acho que esta é a festa mais linda organizada

pela galera da nossa faculdade. Como é a Festa do Neon, o pessoal da

comissão decidiu fazer na Fazenda Azul, uma propriedade mais afastada da

cidade, famosa pelos grandes eventos que acontecem lá. A estrutura da

Fazenda Azul é sensacional, com certeza a melhor da região. Tem uma casa

principal, que está servindo de apoio para a comissão de estudantes. Lá estão

localizados os banheiros, a cozinha e o bar.

Se você quiser comer ou beber algo, basta enfrentar uma das filas

intermináveis que ficam em frente à casa principal. Nas opções de comida

temos cachorro-quente, batata frita, cheeseburger e tacos veganos. Já as

bebidas alcóolicas e afins são cerveja, gim, vodca e energético.

Se você quiser ir ao banheiro, há duas opções: enfrentar outra fila imensa

para os banheiros da casa (com vaso sanitário, espelho, pia) ou se contentar

com os banheiros químicos que foram instalados na lateral do imóvel.

E, para chegar à famosa pista de dança da Fazenda Azul, é preciso descer

por uma trilha estreita no meio das árvores que rodeiam todo o perímetro. Ao

longo de toda a trilha, foram posicionadas lanternas coloridas para guiar as

pessoas noite adentro. Há também algumas placas com letras de músicas

famosas espalhadas pelo caminho. Achei essa ideia o máximo. Esse povo da

comissão está de parabéns, viu? Quem diria que nosso dinheirinho suado

faria uma festa tão linda?

A pista de dança fica no centro de uma grande clareira em meio aos

eucaliptos que cercam toda a fazenda. Parece cena de filme. A noite escura,

as árvores que formam uma redoma mágica ao nosso redor, a lua cheia

passando lá em cima, por entre os galhos, querendo entrar, e o DJ

(desconhecido, claro, não tínhamos dinheiro para chamar o Tiesto) com a

música na maior altura, colocando tudo pra tremer.

A festa mal começou e já está cheia. Há três barraquinhas montadas na lateral da pista, uma distribuía tinta neon para pintarmos nosso rosto, outra

distribui aquele pó colorido, que a gente pode jogar um no outro, para

ficarmos todos coloridos e tal. Por último, mais uma barraquinha de bebida,

para que você não precise subir toda a trilha só para pegar um drinque. Claro.

Olho para o meu irmão, que já havia encontrado alguns colegas e batia

um papo animado, e digo:

— Vamos pegar as tintas! A gente já volta.

— Tá bom, Isa... Decora onde a gente está e volta pra cá, tá bem? — grita

ele no meu ouvido e afaga meu cabelo, desarrumando tudo.

Irmãos mais velhos. Aff. Não entendem que a gente fica horas arrumando

o cabelo para não sair nem um fio do lugar.

— Fica tranquilo que eu estou com ela, Bezão... — Pedro dá uma

piscadela de brother para o meu irmão, passa o braço em volta de mim e me

arrasta em direção à barraquinha das tintas.

Olho surpresa para ele, me desvencilhando do abraço.

— Bezão? BEZÃO? Rá-rá. Desde quando você chama meu irmão assim?

— Desde quando eu e seu irmão começamos a conversar, branquela. —

Ele dá de ombros, com as mãos no bolso da calça.

— Não acredito que você não está sabendo, Isa — diz Mandy. — Eles

são superamigos agora.

Olho de um lado para outro, boquiaberta. Pedro dá um sorriso

convencido para a Amanda.

— Não somos superamigos... Só sou superamigo de vocês duas. Mas eu

gosto dele, o cara é gente boa demais. Temos muito em comum, a gente

conversa demais...

Bernardo e Pedro? O que eles têm em comum? O que eles conversam?

Quê? Meu Deus, quanto tempo eu fiquei em coma?

— O que vocês conversam? — Talvez minha voz tenha saído mais aguda

do que o normal. Ainda bem que “Save the World”, do Sebastian Ingrosso,

estava tocando bem alto e ninguém notaria minha voz afetada.

— Ué... Muitas coisas, Isa... Não precisa ficar com ciúme. Você ainda é a

minha Freitinhas preferida.

— Ciúme? Eu? Ai, Pedro... Você é tão engraçadinho, quase um

comediante. Eu só queria entender de onde veio toda essa amizade, só isso.

Cruzo os braços. Eu não estava com ciúme, ou estava? Não, não estava.

Era uma simples curiosidade, qualquer um teria. É isso.

— Veio de você, ora bolas, de onde mais poderia vir...? — Ele abre caminho entre as pessoas e, finalmente, conseguimos chegar ao fim da fila

das tintas. — Pronto, agora só mais meia hora e poderemos pintar nossos

rostos com tintas coloridas e sermos felizes para sempre.

Essa frase me causa arrepios. Meu corpo todo estremece. Lembro do

Gustavo, gostaria que ele nunca tivesse existido e que meu relacionamento

tivesse sido apenas um delírio coletivo. Começo a olhar apreensiva para os

lados, com medo de que ele me veja aqui na fila, sorrindo, feliz,

despreocupada, quando eu “deveria” estar procurando meu namorado. Tento

afastar esses pensamentos e não deixar que o medo me paralise mais uma

vez.

Vamos lá, Isabela, você consegue.

— Que bonitinho vocês serem amigos. Sério, fico muito feliz com isso —

digo, por fim.

Uma morena lindíssima se aproxima do Pedro e o cumprimenta com um

beijo quase na boca. Depois, ela sussurra algo no ouvido dele, e só consigo

distinguir em meio ao sorriso safado do Pedro seus lábios pronunciando

“depois, depois...”.

Reviro os olhos.

— Eles estão ficando tem duas semanas, Isa — comenta Amanda. — Isso

é quase um namoro para o nosso amigo aqui...

— Hummm... Então você está mesmo aprendendo com meu irmão! Bom

menino! — Dou um soquinho no ombro do Pedro e sinto seus músculos

amortecerem meu punho.

Hoje ele não está com o casaco de couro habitual, Pedro usa uma camisa

preta de botões meio folgada, com alguns dos botões abertos, deixando bem

pouco do seu peitoral à mostra, mas o suficiente para me distrair. Sei que

somos melhores amigos, mas poxa, Pedro Miller era com certeza o cara mais

bonito da nossa faculdade. Não tem como negar. Ao mesmo tempo, Pedro é

meio sombrio, desligado e, por vezes, muito fechado. Isso afasta um pouco as

pessoas, quer dizer, até certo ponto. Porque basta um sorriso do Pedro e

pronto. Qualquer um se rende. Ele tem algo mágico, magnético, que envolve.

— Vocês exageram muito... Fiquei com ela algumas vezes, calma lá,

meninas... — Ele se diverte.

— Isso pra você é muito! — observa Mandy, franzindo a testa.

— É mesmo, Pê! E ela é muito bonita. Eu namoraria com ela.

— Eu também — concorda Amanda, sorrindo e estreitando os olhos.

Pedro me encara com uma expressão séria.

— Você achou ela bonita mesmo? — pergunta ele, curioso com a minha

reação.

— Achei, poxa. Lindíssima. E aquela boca? Quem me dera ter uma boca

daquelas. Aff, Deus não dá asas a cobra mesmo. Eu ia acordar e pá, uma

selfie segurando o café e exibindo a minha bocona. Eu ia almoçar e pá, uma

selfie com o garfo na mão e minha bocona do lado. Eu ia seduzir um cara e

pá, lá estaria a minha bocona. Com uma boca daquelas, não precisa de mais

nada.

Era isso mesmo? Eu estava falando da boca da ficante do meu melhor

amigo? Eu juro que, às vezes, eu sou uma pessoa normal. Só às vezes.

— Você não precisa disso, Isa... — Pedro dá um breve sorriso, os olhos

tristes.

Eu odeio esses momentos em que ele parece estar pensando mais do que

falando. Simplesmente odeio.

— Eu não preciso de uma boca daquelas? Meu amor, todo mundo precisa

de uma boca daquelas.

— Você não precisa de nada que já não tenha. Acredite — insiste ele.

— Ela precisa de olhos melhores, isso sim... — Amanda me cutuca e eu

fico sem entender a agressão gratuita.

Me viro para ela.

— Olhos melhores pra quê? Para de me cutucar, bobona. Eu odeio que

me cutuquem, você sabe, eu sinto cócegas...

— Ai, ai, Isabela... Como pode? Só você não vê... Só você... — responde

Amanda, revirando os olhos, toda enigmática.

Fico sem entender o que ela quis dizer com isso.

Ela dá um gole demorado no gim e lança um olhar arregalado para o

Pedro. Conheço esse olhar. Amanda quer falar alguma coisa que eu não

posso saber. Eu simplesmente odeio esses momentos.

— Olha só, está quase chegando a nossa vez! — grita Pedro para chamar

nossa atenção, um pouco mais exaltado do que o normal.

Percebo uma tensão no ar, e sinto que ele tentou falar algo para a

Amanda pelas minhas costas, para eu não ver. Argh. Eu só vou deixar pra lá,

porque ultimamente eu estive mesmo ausente, eles devem ter os segredinhos

deles... Fazer o quê, né?

Chegamos no balcão das tintas e peço ao atendente bem-humorado uma

de cada cor: rosa, azul, verde e amarelo. Desenho alguns corações e estrelas

no rosto do Pedro e da Mandy, e peço para que eles desenhem algo em meu rosto também. Pedro toma a frente, pega uma tinta rosa e escreve LO de um

lado do meu rosto e VE do outro. Bem, love significa “amor”. Para

completar, ele faz um coração no meu braço direito e um monte de estrelas

no braço esquerdo. Pego os potes de tinta e sujo sua camisa preta com um

monte de símbolos e frases que me vem à mente.

— Pode sujar, branquela. Eu vim preparado, essa camisa é velha.

Dou um sorriso e me lembro que a minha blusinha não é velha. Droga.

Mais um mês de prestação para uma blusa que provavelmente vai ficar toda

suja de tinta no fim da noite. Respira, Isabela, respira. O que é uma blusinha

perto do que pode acontecer esta noite? Rá-rá. Se Simba achava que ria na

cara do perigo em O Rei Leão, eu dou é gargalhada, pirueta e uma boa

debochada.

Voltamos para onde meu irmão está conversando com seus amigos e, de

repente, começa a tocar a versão remix de “If I Lose Myself”, do

OneRepublic, uma das minhas bandas favoritas (e do Pedro também!).

— Branquela!! — grita Pedro assim que a música começa.

— Eu sei! Eu sei!!! A nossa músicaaaaaaa!!!! — grito de volta, chocada

com tanta coincidência.

Tudo de ruim que estou sentindo se esvai quando essa música começa a

tocar. É incrível o poder que uma música tem de mudar nosso dia, nosso

humor e nosso coração, né? É como se a música entrasse dentro de nós,

tirasse tudo de pior, e naqueles três minutinhos em que nossos tímpanos são

invadidos, todos os problemas desaparecessem. Tudo que queremos é viver

eternamente aquele momento. Quem dera eu pudesse viver dentro das minhas

músicas favoritas. Eu seria feliz para sempre.

 

If I loose myself tonight,

It’ll be by your side

If I loose myself tonight,

It’ll be you and I...

 

A música dizia: “Se eu me perder esta noite, será do seu lado. Se eu me

perder esta noite, será eu e você...”

Pedro me abraça pelos ombros, puxa Amanda do outro lado e ficamos a

música toda agarrados, cantando a plenos pulmões. Fecho os olhos e tento

congelar esse momento nas minhas melhores lembranças. Um filme se passa

na minha cabeça. Penso em como é bom ter amigos verdadeiros. Em como é bom sentir o coração pulsar forte. Em como é bom viver e estar vivo. Penso

em como é bom amar, mas como é ainda melhor se amar e se sentir bem

consigo mesmo. Penso na minha família e em tudo que eles já fizeram por

mim até hoje. Penso na minha jornada, em tudo que já passei para estar aqui e

agora. Penso em todos os erros, as lágrimas, as pedras do caminho. Em todas

as vezes que quis desistir e insisti mais um pouco, não por ninguém, mas por

mim mesma. Penso nos sonhos que já realizei e em todos os outros que ainda

quero realizar (escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore, viajar o

mundo). Penso nas vezes que chorei até soluçar e nas que sorri até a barriga

doer. Penso em todas as cenas românticas que criei na minha cabeça e que

ainda não aconteceram. Penso em todas as músicas lindas que ainda não ouvi

e nos livros inspiradores que ainda não li. Penso em como é bom viver o

presente sem se julgar pelo passado e sem temer o futuro. Penso que

desapegar de coisas que nos fazem mal é essencial para nos mantermos

sempre em frente, em direção a coisas melhores. Penso que dias melhores

virão para quem estiver pronto para eles.

Penso que para ser feliz para sempre eu preciso ser feliz agora.

E sou feliz agora.

A felicidade me toca, arrepiando cada pelo do meu corpo, depois de mais

de um ano me sentindo incapaz, miserável, alguém que não é digna de

sentimentos bons.

Aperto Pedro um pouco mais forte e ele me aperta de volta.

A música acaba e eu abro olhos.

Gustavo Ferreira estava parado na minha frente, me olhando com a cara

fechada. Um misto de nojo, repulsa e raiva dominam seu semblante. Ele está

com o mesmo casaco vermelho do dia que o conheci, mas hoje ele não reluz

no meio da multidão. Ele tem uma aura sombria, quase triste.

Um frio me estremece, engulo seco e desejo que esse momento passe

logo. Eu simplesmente não sei o que fazer.

Eu quero ser feliz.

Eu mereço ser feliz.

Eu voltaria a ser feliz.

Ah, voltaria, sim.

Nem que para isso eu tivesse que derramar muitas lágrimas.

Em questão de segundos, Gustavo me puxa pelo braço para longe do

Pedro e da Mandy, me arrasta para perto das árvores, onde mais ninguém

poderia ouvir o que ele diria para mim. Sinto a dor causada por suas mãos fortes me pegando sem delicadeza alguma, e tento me desvencilhar. Quando

consigo me soltar dele e o encaro nos olhos, vejo uma fúria nunca antes vista

durante as nossas brigas. Gustavo está com os olhos arregalados, vermelhos,

e me encara de um jeito como se fosse me comer viva se eu falasse alguma

palavra errada. Meu Deus, o que eu fiz? “Sumi” por menos de 24 horas? Isso

é tão grave assim? Que loucura é essa que eu estou vivendo?

E, então, o silêncio é quebrado quando ele diz:

— Você é MALUCA? Olha o que você fez comigo. Sério. Eu estou

doido atrás de você. Doido. — Ele fala com raiva, arfando, quase sem fôlego.

— Primeiro, você SOME o dia inteiro, O DIA INTEIRO! Agora eu entendi o

porquê do sumiço, estava com essa gentinha que você chama de amigos, né?

— Ele olha com desdém para Pedro e Mandy, ao longe. — Agora eu chego

aqui e você está bêbada, com saia curta, rebolando até o chão com esses seus

amiguinhos... Que nojo, Isabela. Nojo. Espero que você esteja muito

arrependida, porque do jeito que você leva seus relacionamentos, homem

nenhum vai te querer. Isso não é papel de mulher decente, não. Você tem que

aprender muito ainda.

Respiro fundo para dar força às palavras que viriam em seguida.

Coragem, Isabela, vai. Você consegue.

— Gustavo, eu não estou nem um pouco arrependida, me desculpa. —

Ele arregala os olhos, incrédulo com o que está vendo. A raiva ferve dentro

dele. — Na verdade, se tem uma coisa de que eu me arrependo, é de um dia

ter começado um relacionamento com vo...

Eu teria continuado a frase.

Teria continuado se ele não tivesse me empurrado para longe, com toda a

sua força, antes que eu terminasse de dizer o que eu queria.