Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 15 de 15

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Não Se Humilha, Não

epílogo

Eu queria tanto viver um amor digno dos filmes românticos que acabei

tentando transformar a qualquer custo um monstro em príncipe encantando.

Isso não se faz. É meio que impossível. Coloca isso na sua cabeça. Você acha

que ele vai mudar, você tenta mudá-lo, você dá todas as ferramentas

possíveis para que ele mude, mas ele não vai mudar! Você que precisa

mudar. Para bem longe desse tipo de pessoa. Entendeu?

Após o término do meu relacionamento, acho importante ressaltar alguns

pontos: em um relacionamento abusivo é complicado demais conseguir

diferenciar a realidade do que queríamos que fosse realidade. Dá pra entender

o que quero dizer?

É que quando se vive um relacionamento abusivo, muitas vezes o mais

difícil é perceber que você se encontra nesse tipo de relação tão turbulenta. E,

quando você percebe, é como se quisesse esconder de todo mundo, porque

considera isso algo horrível sobre você. O que acontece de verdade acaba

virando um segredo de vida ou morte, e você tenta encontrar todas as

desculpas possíveis e inimagináveis para aquilo que está acontecendo. Ah,

mas ele só está estressado com o trabalho, com os estudos... Poxa, mas eu

errei. Ele tinha motivos para ficar bravo comigo. Caramba, como eu não me

lembrei que ele não gostava que mexesse nas coisas dele, como pude ser tão

estúpida? Vai passar, claro que vai passar. Isso é só uma fase ruim... E,

também, eu não sou uma pessoa fácil de lidar... E nesse mar de desculpas

que você cria para mascarar a realidade, acaba atribuindo a culpa de tudo de

ruim que acontece no relacionamento a ninguém mais, ninguém menos do

que você.

E isso é uma carga muito grande para se carregar sozinho.

Então, no fim das contas, além de estar vivendo um inferno na Terra,

você atribui a culpa de todos esses acontecimentos instintivamente a você

mesmo. Porque admitir a culpa é muito mais fácil do que admitir que a

pessoa que você escolheu para ficar ao seu lado não é tão legal assim.

Eu sei.

Eu entendo.

É um mecanismo de defesa.

A gente não quer admitir que se enganou ao dizer que aquela pessoa era o

amor da nossa vida. A gente não quer admitir que perdeu tanto tempo com

uma pessoa que só nos trata mal e nos coloca pra baixo. A gente não quer admitir que se enganou o tempo todo e que nada do que queríamos que não

fosse verdade não passa disso: a verdade. A gente não quer admitir que não

está vivendo um amor de tirar o fôlego, mas sim os piores dias da nossa vida.

A gente quer manter as aparências, disfarçar os machucados da alma com um

sorriso forçado. A gente não quer que ninguém perceba que tem algo errado

se passando aqui dentro. A gente não quer que tenham pena de nós. A gente

não quer que os amigos digam “Eu avisei!”. A gente não quer mais sofrer,

mas não consegue dar um ponto final no sofrimento, pois vai doer demais

também. A gente não quer sentir medo e, por isso, fingimos não sentir, com a

esperança de que um dia ele se vá. A gente não quer se sentir inferior,

culpado, responsável por tudo de ruim que o outro nos faz, mas no fim das

contas é exatamente assim que a gente se sente. A gente não quer ter que ficar

explicando para as pessoas próximas como pudemos ser tão “burras” a ponto

de continuar em um relacionamento que agride nosso psicológico e faz a

gente se sentir a pior pessoa do mundo. A gente nunca se imaginou numa

situação dessas e, talvez, por esse motivo, seja tão difícil sair...

O amor não machuca.

Hoje, eu sei disso.

Mas eu demorei um tempinho para entender.

Achei que o amor pudesse doer às vezes, ou até mesmo machucar.

Romantizei situações de ciúme, posse, briga, para, no fim, entender que

pessoas que criam esse tipo de relacionamento abusivo provavelmente

precisam crescer como indivíduos antes de se relacionar com alguém. Talvez

precisem ajuda psicológica para conseguir desapegar desse comportamento

destrutivo, pois para o abusador, talvez, aquilo seja mesmo “amor”. Vai saber

o que se passa na cabeça da pessoa. Mas nada justifica nos causar sofrimento.

Eu sempre digo que não preciso de metade nenhuma para me completar,

pois sou inteira. Que preciso de alguém que também seja inteiro e que me

transborde. Mas tem gente que não é nem metade, sabe? É um pedacinho

quebrado, perdido e... faminto. Alguém tentando arrancar pedaços à força

daqueles que são inteiros, na esperança de tentar ser um pouquinho mais.

Eu deixei que arrancassem pedaços meus, me desfiz inteira.

Parte por parte.

Pedaço por pedaço.

De uma mulher inteira...

Virei cinzas.

Mas não tem problema, sabe por quê?

Porque sou uma fênix capaz de renascer quantas vezes for preciso.

E bem mais forte. Com muito mais fome de viver. Pronta para enfrentar a

próxima batalha. Das cinzas aos céus. Eu me reconstruo quantas vezes for

preciso. De novo e de novo. Não temos que nos sentir horríveis por fracassar

ou por errar. Não! Viemos aqui para isso. Essa é a vida, seja bem-vindo ao

mundo real.

Tudo começa e termina por um motivo, um ensinamento.

Relacionamentos, amizades, etapas. Sabemos que o mundo gira. Mas sabe de

uma coisa? Nós também precisamos girar, precisamos estar em constante

movimento. Só assim a vida segue. Não é fácil sair da inércia, dar o primeiro

passo, chutar a porta e expulsar aqueles que nos fazem mal. Eu sei bem como

é, eu entendo. Mas é necessário. Ninguém chegou a lugar algum parado no

mesmo lugar. Todos que passam pela nossa vida são como postos de

combustível. Passamos, abastecemos, pegamos um ar e seguimos pela

estrada. Para alguns postos, a gente nunca mais quer voltar, para outros, a

gente acaba voltando de vez em quando... Mas todos eles foram importantes

na nossa jornada. Diria até que essenciais. Mesmo aqueles que você não quer

ver nem de longe. Foram eles que fizeram você pisar fundo no acelerador e

não olhar para trás, que fizeram você chegar mais rápido ao seu destino.

Entende como as experiências funcionam como combustível na nossa vida?

Experiências boas, ruins, traumáticas, eletrizantes... Todas fizeram você dar

um passo à frente e sair de onde estava.

Te fizeram caminhar.

Te forçaram a ser mais forte.

Tampouco se apegue às experiências ruins, e muito menos tenha pena de

si mesma. Suas cicatrizes mostram suas vitórias. Suas batalhas te ensinaram a

ser mais forte. Tenha orgulho de toda a sua história, de tudo o que você

passou para estar aqui. Bola pra frente. Não é porque não deu certo agora que

vai ser sempre assim. Essa lição você já aprendeu, certo? Daqui para a frente,

vai estar preparado para o que der e vier.

Não vou dizer que você não irá se decepcionar nunca mais, porque olha,

as decepções só mudam ao longo dos anos. Aos seis anos, você se decepciona

com o amiguinho que te empurra no parquinho. Aos doze, você se

decepciona com o crush da sua sala. Aos quinze, com a amiga que quis

roubar o príncipe da sua festa de debutante. Aos dezoito, com o primeiro

namorado. Aos 21, com a faculdade. Aos 25, com o trabalho. E assim segue a

vida inteira, você aprendendo a andar na corda bamba entre erros e acertos, entre momentos de completa felicidade e a mais pura tristeza. Entre risos que

fazem a barriga doer e choros encostada na porta do banheiro durante as

madrugadas. Entre a certeza de ser feliz para sempre e a descrença, a ideia de

que não viemos a esse mundo para procurar a felicidade, pois ela não é um

destino. Felicidade são aqueles pequenos momentos, nos intervalos dos

problemas do dia a dia, em que conseguimos congelar um pedacinho daquela

memória para recordar depois com um sorriso no rosto... Isso é felicidade.

É aquele momento em que tocou sua música favorita no rádio, você

aumentou e cantou sem se importar com os olhares das pessoas ao redor. É a

vez que você sorriu para um desconhecido na rua e ele sorriu de volta,

fazendo seu estômago revirar com um sentimento estranho de prazer e afeto.

É a vez que você fez as pazes com sua melhor amiga e vocês deram um

abraço demorado que dizia muito mais do que as palavras. É aquele primeiro

beijo dado debaixo da árvore, compartilhado com alguém que você nunca

mais viu. É o cheirinho da infância que você sente ao entrar na casa dos seus

pais. É o dia que você adormeceu no sofá assistindo ao seu filme preferido. É

o dia que você foi ao show da sua banda favorita e cantou todas as músicas

com tanta empolgação que parecia que seu pulmão ia ficar completamente

sem ar. É aquele primeiro encontro que revirou sua cabeça, sua vida, seu

estômago e te fez ter vontade de ir ao banheiro antes mesmo de chegar ao

restaurante. É conhecer alguém incrível nas suas férias de verão e nunca mais

ouvir falar da pessoa. É sonhar com coisas impossíveis e se imaginar

conquistando todas elas. É ouvir um “eu te amo” verdadeiro de alguém

especial. É saber que a vida é curta, mas incrível, e que mesmo vivendo

alguns momentos tristes e dolorosos, ainda teremos esses momentos felizes

aos quais voltar.

E eu volto.

Quantas vezes for preciso.

Para entender que viver é lindo, poético e um tanto shakespeariano.

Se apegue aos momentos de felicidade e aprenda com a dor.

Veja bem, eu aprendi que o amor não machuca, não oprime, não cala e

não humilha.

E de agora em diante eu prometo a mim mesma que nunca mais deixarei

que alguém me machuque em nome do amor.

Promete comigo? De dedinho?

Você merece ser feliz.

Feliz com você mesmo, é claro.

Se amando pra caramba.

Amando cada pedacinho do seu corpo, da sua história, de quem você é.

Com força.

Mas se um dia quiser dividir essa felicidade com alguém...

Lembre-se da nossa promessa.

Certo?

Não se humilha, não.

Hoje você pode estar no chão, derrotado, sem forças, e tudo que restou

são cinzas de quem você era.

Mas você é uma fênix.

Renasça e voe bem alto.

Encontre o céu.

Eu sei que você consegue.

Você terminou Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas

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