Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 6 de 15

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Não Se Humilha, Não

capítulo 4

Pense e me responda: quantas vezes você deixou outra pessoa dizer quem

você é?

Tenho certeza de que ao ler essa pergunta você pensou em inúmeras

situações em que provavelmente deixou que alguém dissesse quem você é.

Isso acontece todos os dias.

O tempo todo. Às vezes, você nem percebe. Outras, concorda calada.

Pode vir de pessoas que amamos muito, ou de pessoas que não passaram

sequer cinco minutos ao nosso lado. É normal, somos humanos.

Apontar e acusar o outro é muito mais fácil do que olhar para dentro de

nós, né?

Na minha vida, muitas vezes me confundi sobre quem eu era, quem eu

realmente queria ser, e o que diziam que eu era.

O pior é que essas três pessoas não são, nem de perto, parecidas.

Muitas vezes deixei que me dissessem quem era a Isabela e me calei

diante de “verdades tão absolutas” vindas de outras pessoas. Na nossa

ingenuidade, pensamos que aqueles que não nos conhecem tão de perto têm

uma “visão melhor” de quem somos, do que aparentamos ser, e, às vezes,

cometemos o maior erro de todos: deixar que digam quem nós somos.

E isso não vem só de pessoas que nos odeiam ou que não gostam da

gente. Muitas vezes aqueles que mais amamos são os que mais nos colocam

rótulos. Acreditamos tanto nesse amor puro e verdadeiro vindo de pessoas

próximas que aceitamos calados as classificações que nos são dadas.

Vamos lá. Vou exemplificar algumas delas para vocês.

Eu nunca fui magrinha. Sempre fui maior do que minhas amigas e isso

nunca me incomodou, de fato. Para mim, era algo normal, assim como meu

cabelo ser loiro ou meus olhos serem castanhos. Eu era mais corpulenta que

minhas amigas, e daí? Vida que segue. Isso nunca foi algo que me

preocupasse ou que me incomodasse. Eu sempre gostei do que vi no espelho

e, para mim, isso bastava.

Até o dia em que cheguei para celebrar o Natal em família na cidade dos

meus avós e escutei da boca de um tio meu que eu devia estar comendo

demais para estar daquele tamanho. Pensei: Mas, gente, eu nem como

direito... eu engordei tanto assim?, e ali, naquele momento, fiquei pensando

em como me justificar, pensei em dizer que ser gorda, corpulenta, não me

fazia uma pessoa pior. Pensei em dizer que não, eu não estava comendo

demais, pois fazia dieta de segunda à sexta (mesmo não precisando, pois minha saúde estava ótima), e que só bebia refrigerante nos fins de semana.

Pensei em dizer que tinha começado a academia havia pouco tempo e que

provavelmente estava inchada de tanto malhar. Pensei em dizer que havia

cortado o arroz da minha dieta porque li uma reportagem falando que arroz

todo dia faz muito mal. Pensei em dizer que, por estar tomando

anticoncepcional, isso também deve ter contribuído para que eu engordasse

um pouco mais. Pensei em dizer que estava em época de provas, por isso

tinha me permitido comer um chocolatinho e, talvez, essa fosse a causa dos

meus “quilos a mais”. Pensei em dizer que eu estava deixando de ser uma

garota, agora estava me tornando uma mulher. Minha aparência iria mudar, é

claro que iria.

Mas não deu. Eu estava constrangida de uma forma tão absurda que

simplesmente me calei.

Cobri minha barriga que estava de fora e tentei abstrair o comentário

infeliz. Confesso também que ali, naquele momento, senti um pouquinho de

vergonha por “existir”. Não sei se consigo definir esse sentimento com

clareza, mas é uma vontade de sumir que sobe pela garganta, sabe? Como se

você estivesse no lugar errado.

Comentário feito, rótulo colocado com sucesso em alguém que nem

sequer teve voz para contestar. Minha avó, me lembro muito bem, colocou

até menos comida no meu prato na hora da ceia. E eu percebi, mais uma vez

calada. Para quem estava presente no momento, talvez nem tenha ficado

evidente o meu desconforto, a minha chateação. A conversa na mesa

continuou, falaram de futebol, da nova novela, da atriz que emagreceu e

estava com um corpaço. Por que as pessoas se importam tanto com o corpo

das outras? Por que estamos constantemente rotulando pessoas com “Nossa,

você emagreceu”, ou com “Você viu como ela engordou?”. A aparência

significa tanto assim? O nosso interior não deveria prevalecer? Não

deveríamos falar sobre o bom humor de alguém, sobre aquela garota ser tão

sorridente e prestativa, sobre aquele homem ser tão gentil e cortês? Por que

transformar o corpo em uma prisão? Nos limitar ao que vemos de imediato?

Gostaria de entender.

Aquilo que meu tio me disse doeu tanto... e continuou doendo por um

bom tempo. Devo dizer.

Por que as pessoas fazem questão de te colocar para baixo sempre que

surge uma oportunidade?

Fica o questionamento.

Quem machuca os sentimentos de outra pessoa, no geral, se esquece. Mas

quem sente as dores... Nunca esquece e sempre tenta encontrar um motivo

para esse “machucado”.

Esse comentário gerou uma série de perguntas na minha mente... Se eu

me amava do jeitinho que era fisicamente e estava feliz com isso, qual o

motivo da crítica alheia? Será que não conseguiam perceber que eu estava

nitidamente feliz com o meu corpo, que eu estava me amando, aceitando

minhas mudanças como se fosse algo natural (o que realmente é)? Qual o

propósito de um tio olhar para uma sobrinha e dizer tais palavras? Será que

ele achava que isso era um incentivo para que eu emagrecesse? Mas e se eu

não quisesse emagrecer? Se eu estava saudável, com a saúde perfeita, por que

eu deveria vestir dois números a menos? Para agradar a quem? Meu tio? A

sociedade? Eu deveria atender às expectativas das pessoas ao meu redor? Eu

deveria escutar críticas das pessoas da minha família? Estariam elas

preocupadas comigo, de fato? Ou só estavam procurando alguém para

despejar suas frustrações? Por que despejar frustrações em mim? Eu tinha

dezesseis anos, poxa! Era uma jovem se descobrindo no corpo de mulher. Eu

gostava de mim, gostava do meu corpo, mas escutar uma crítica com um tom

pejorativo desses, como se houvesse algo errado com o meu corpo, como se

houvesse algo errado comigo, realmente mexeu com a minha mente, que

ainda era bastante imatura na época.

E, sem nem perceber, eu deixei que esse sentimento me dominasse.

A frase do meu tio se repetia o tempo todo na minha cabeça. Era um

looping infinito. Eu tentava de todas as formas calar a voz dele, mas sempre

tinha um gatilho que fazia tudo isso vir à tona.

Todo dia eu acordava, me olhava no espelho e ficava procurando algum

defeito, algo que eu não fazia antes. Via pessoas me olhando na rua e

imediatamente achava que elas estavam pensando a mesma coisa que meu

tio. Quando encontrava algum amigo de antigamente, morria de medo de

ouvir que tinha engordado. Cortei refrigerante, carboidratos, doces, só comia

peito de frango. Quando ia à academia, só me permitia sair da esteira quando

o marcador de “calorias gastas” chegasse a oitocentas calorias. Eu ficava

horas na academia para conseguir me sentir bem comigo mesma de novo, e,

mesmo assim, não adiantava. Às vezes, vestia uma roupa antiga e, ao

perceber que não cabia mais em mim, vinha a voz do meu tio de novo,

falando “Tá comendo muito...”, e eu tentava responder “Não tô, não!”,

“Estou feliz assim!”, mas, por algum motivo, me sentia sempre pra baixo. E não era surpresa alguma que eu não tivesse cabeça para resolver uma questão

como essa aos dezesseis anos.

Então comecei a pesquisar dietas malucas nas revistas, ficava dias em

jejum, bebendo só água, tentando chegar a algum lugar que eu não sabia

muito bem qual era... Tive episódios de desmaio, tonturas, até cheguei a

cogitar colocar o dedo na garganta para vomitar meu almoço, como já havia

ouvido falar que algumas meninas faziam.

Porém, no dia que me vi cara a cara com o vaso sanitário, preparada para

o pior, senti que era a hora de colocar um ponto final no que nem deveria ter

começado.

Era hora de parar com isso.

Eu não ia deixar que um comentário infeliz me definisse.

Respirei fundo, me olhei no espelho e disse para mim mesma: Você é

linda. Você é incrível. Você é perfeita do jeitinho que é. Com todas as suas

cicatrizes, com todas as suas curvas.

E repeti isso todos os dias, até se tornar verdade novamente.

Não vou dizer que foi fácil, porque não foi e nunca será, e olha que eu

sempre fui muito “bem-resolvida”. Mas são nesses momentos que você vê

como um simples comentário infeliz, feito por um tio frustrado que nem

conhece você direito, pode desestruturar até a mais sólida das mentes. Logo

eu, que sempre tive uma resposta na ponta da língua para os coleguinhas de

sala que diziam que eu tinha a “testa grande demais”. Eu, que sempre falei

para minhas amigas se amarem do jeitinho que elas são, pois somos perfeitas

cada uma do seu jeito. Eu, que nunca quis ser como as garotas das capas de

revista, que nunca tinha acreditado em dietas malucas, que nunca quis me

enquadrar em padrão nenhum para ser mais aceita ou mais amada...

Por causa de um “simples” comentário, eu estava deixando de me amar.

Porque eu não fazia o que fazia (dietas, academia, ficar sem comer) para

me sentir bem, pelo contrário, eu fazia tudo aquilo porque estava me sentindo

mal em relação a algo que tinham dito sobre mim. Eu queria provar para o

mundo (ok, para o meu tio) que ele estava errado... Mas, me diga você, a

gente tem mesmo que provar algo para alguém?

Não.

A gente tem que agradar alguém?

Não.

A gente tem que agradar a gente.

Ser feliz com o que temos.

Temos um corpo perfeito que é capaz de nos levar para todos os lugares

desse mundo enorme, além de um coração quentinho dotado da capacidade

de amar e sentir os mais diversos sentimentos.

Quer mais do que isso?

No entanto, parece que a gente não aprende. Essa história com o meu tio

deveria ter me ensinado muito mais do que ter amor-próprio, deveria ter me

ensinado também que ninguém tem o direito de dizer quem a Isabela é.

Só que somos seres humanos, erramos com bastante frequência. E

sabemos quanto os erros ensinam. Às vezes, dou dois passos para trás, para

então dar quatro para a frente. E está tudo bem, sabe, depois vira história para

contar, né?

Vou contar outro episódio em que eu deixei que me dissessem quem eu

era e me calei...

Sempre fui meio tímida. Ser meio tímida é algo complicado. Se você é

tímida, tímida mesmo, todo mundo nota logo de cara. Mas se você é meio

tímida, corre o risco de as pessoas confundirem isso com antipatia. Como

assim, ela é tímida? Eu sempre a vejo falando alto com os amigos e dando

risada. Isso não me parece coisa de alguém muito tímida. Acontece que, com

pessoas com quem me sinto à vontade, eu realmente me solto pra caramba.

Pode ser um amigo de anos ou alguém parado no ponto de ônibus. Se a

pessoa faz com que eu “me sinta em casa”, eu vou contar a minha vida inteira

em questão de minutos. Revelo meus segredos mais profundos e as histórias

mais loucas sem pudor algum. Mas quando não me sinto à vontade em algum

ambiente ou com algumas pessoas, eu sou, sim, tímida.

Quando chego em algum ambiente novo, é da minha personalidade ficar

quietinha, ficar na minha, esperar alguma abertura para que eu possa ser

quem eu sou normalmente.

E isso não acontece de imediato. Às vezes, isso nem acontece.

Então, eu continuo quietinha, porque se tem uma coisa que eu sei fazer é:

me fechar no meu mundinho e ficar ali bem de boa. Sem incomodar ninguém

ou me sentir incomodada. A capacidade de “só existir” eu domino muito

bem. Ô, se domino! Sei lá, só existir é tão bom, né? Rá-rá.

É fato que toda vez que algo muda bruscamente na minha vida, como por

exemplo, começar em um novo emprego, ou entrar em uma nova sala de

aula, isso acaba se tornando um pouco desgastante. Porque sei que não vou

ser a mais popular do trabalho ou a mais popular da sala, afinal, eu não me

importo muito com isso, e muito menos tenho o “dom” para tal. Eu nunca fui aquela menina que conhecia o colégio todo e que era eleita representante de

classe, ou a que tinha 87 depoimentos no Orkut de 87 melhores amigos. Eu

tinha minhas três amigas e isso já era muito. Muito mesmo. Eu prefiro assim.

Não que eu seja metida ou me considere melhor do que as outras pessoas,

simplesmente gosto do meu mundinho e me sinto bem e segura ali.

É o meu jeito. Eu não consigo entrar num lugar em que não conheço

ninguém e conquistar todas as pessoas presentes. Eu não consigo puxar

assunto facilmente com pessoas que não conheço, a timidez (viu, eu disse que

ela existia!) sempre fala mais alto. Não consigo ser diplomática, ser mais ou

menos, fingir ser algo que não sou... Também não consigo fingir que gosto de

uma pessoa se eu não a conheço o suficiente para gostar ou desgostar dela.

Eu apenas sou indiferente ao que não me diz respeito.

Se eu gosto de você, gosto muito. Muito mesmo. Vamos da Terra ao

infinito em questão de segundos. Mas se não conheço você, vou me esconder

dentro da minha casca, viu? É minha forma de me proteger do mundo.

E esse meu jeito de ser sempre foi mal interpretado. Sempre mesmo.

Bela hora quando resolvi mudar de colégio no meio do terceiro ano do

ensino médio.

Eu não estava satisfeita com o método de ensino do colégio em que

estudava e pedi para meus pais me colocarem em um cursinho mais focado

no vestibular, além disso, eu tinha uma conhecida, a Gisele, que estudava no

cursinho, e me falava superbem do lugar.

Resolvi arriscar.

O cursinho se chamava Alternativa e parecia um lugar bem legal para

estudar. Fiquei muito empolgada no primeiro dia de aula, afinal, tudo novo,

né? A gente se enche de esperança de não sei o quê.

Cheguei lá e, para minha surpresa, a Gisele não tinha ido à aula naquele

dia. Legal, vamos lá, Isabela. Você não conhece ninguém, mas vai dar tudo

certo. O que pode dar errado, não é mesmo? É só um curso pré-vestibular

inocente, com pessoas legais, focadas em passar para alguma faculdade.

Vai fundo, menina.

Ao entrar na sala para a qual fui sorteada, notei olhares desconfiados em

minha direção. Quem era essa doida entrando no meio do ano na nossa

sala?, certamente pensaram. Engoli a vergonha, dei um sorrisinho tímido ao

léu e me encaminhei para a única carteira vazia, que ficava lá no fundão, do

lado de um monte de garotos que pareciam ser os mais bagunceiros da turma.

Por incrível que pareça, esses garotos fizeram com que eu me sentisse em casa. Não precisei fazer qualquer esforço para que eles se tornassem meus

amigos. Leo, Matheus, Tiago, Bruninho e Cadu. No primeiro dia, eles já me

mostraram onde ficava cada parte do cursinho, onde eram os banheiros, a

cantina, a xerox, a sala da coordenadora... Me falaram quais eram os

professores mais legais, os mais chatos, os que “deixavam” colar nas provas,

os que eram mais bravos... Foi amizade à primeira vista. Pensei: Caramba,

esse é meu dia de sorte. Fiz amizades sem esforço nenhum, será que a sorte

estava virando para o meu lado? Alô Mega-Sena, estou chegando!

Só que não podemos esquecer que nada é fácil na vida da Isabela, meus

amigos, nada.

Durante essa primeira semana de aula, fui conhecendo um pouco mais

dos meus novos amigos, Leo morava num sítio e tinha um bode de estimação.

Isso mesmo, um bode. Matheus era bom com números e o rei do truco. Tiago

sabia tudo de futebol e tinha o sonho de se tornar apresentador do Globo

Esporte. Bruninho só queria saber de dormir na aula. E Cadu, o mais tímido

de todos, namorava havia cinco anos com uma menina que também estudava

no Alternativa, só que um ano abaixo de nós. Me senti muito querida, muito

bem-vinda. Era como se eu sempre tivesse pertencido ao grupo deles.

Pela primeira vez na vida, uma “transição” estava sendo fácil.

Até aquele dia.

Por que dias assim sempre têm que existir?

Eu estava na fila da cantina quando sinto alguém me cutucando. Me viro

para ver quem é e me deparo com uma menina muito linda. Apesar da

maquiagem nos olhos e em todo o rosto, dava para ver que ela devia ter no

máximo uns quinze anos. Era baixinha, tinha os cabelos enroladinhos, ruivos,

o rosto cheio de sardas. Parecia até que a garota brilhava no meio das outras

pessoas, credo, devia ser proibido uma pessoa ser tão bonita assim logo de

manhã.

Dei o meu melhor sorriso para ela. Mais uma amiga? Ai, ai. Eu estava

mesmo arrasando nas amizades.

— Você é a tal novata? — perguntou ela, de forma meio grosseira,

cruzando os braços logo em seguida.

Fiquei sem reação. A tal novata? O que eu fiz? Seria eu essa novata a

quem ela se referiu com tanto nojo? Mas eu só estava no cursinho havia uma

semana, não era possível. Eu mal saía de dentro da sala de aula de tanta

vergonha, aquele era o primeiro dia em que eu tinha tomado coragem para

comprar pão de queijo no intervalo. Poxa vida. Só queria um pão de queijo, irmão. Sem complicações, só um pãozinho de queijo inocente... Eu estava

com fome. É sério. Pessoas com fome não respondem por seus atos, já ouviu

dizer? Pois é.

— Eu sou novata, sim... Se você quer saber, errr... Eu... A gente se

conhece? Quero dizer, não que não possamos nos conhecer, mas acho que

você está me confundindo... Só estou aqui tem uma semana, acabei de

chegar, eu estudava em outro colégio. O Carmelita, sabe? — A cara de nojo

no rosto dela piorava a cada palavra proferida. — Bem, eu, é... Me dá licença,

chegou a minha vez e estou morrendo de fome... Preciso comprar um pão de

queijo... Espero que encontre a “tal novata” por aí. — Fiz as aspas com as

mãos, na tentativa de parecer engraçada, porém, ela não achou graça

nenhuma. Droga. Acho que não seríamos mesmo amigas.

Quando me virei para fazer meu pedido ao atendente, pensando ter me

livrado da baixinha ruiva invocada, sinto um puxão no meu cabelo e, depois,

uma dor sem igual.

Fui direto para o chão.

Em meio a gritos de “Quem você acha que é para dar em cima do meu

namorado?!?!”, levei chutes, tapas e empurrões. As pessoas formaram um

círculo ao nosso redor e ficaram observando o desenrolar da cena,

completamente em choque. Uma menina do segundo ano batendo em uma do

terceiro. Com certeza os alunos se deliciaram com isso.

O que estava acontecendo? Eu estava apanhando, é isso mesmo? Estava

doendo muito. Nossa. Apanhar dói, hein? Será que alguém poderia me

ajudar, aqui? Acho que vou a óbito a qualquer momento. E a culpada ia ser

uma menina mais nova do que eu, mais baixa do que eu e que, com certeza,

tinha mais atitude do que eu? Quem era o namorado dela? Eu dei em cima do

namorado dela? Sério mesmo? Mas eu não tinha dado em cima de ninguém.

Ou tinha? Eu tinha? Não, não tinha. Aiii.

Isso só podia ser pegadinha. Certeza.

Torci muito para que alguém parasse aquela cena grotesca e falasse “Rá-

rá. Você está participando de uma pegadinha de TV”, mostrando as câmeras

escondidas. Eu me levantaria, machucada, e riríamos dessa pegadinha tão

realista. Depois, me fariam assinar um contrato autorizando o uso da minha

imagem e, na semana seguinte, todos estariam rindo da minha cara, sentados

com a família no sofá. Minha mãe ficaria orgulhosa, finalmente seria o início

da minha carreira na TV. E a menina baixinha e ruiva se tornaria uma grande

amiga, um dia contaríamos para os nossos filhos como nos conhecemos em meio a chutes, pontapés e puxadas de cabelo. Tudo de brincadeirinha, claro.

Escutei vozes falando alto e braços me puxando para longe dali. Naquele

momento, confesso que não estava entendendo mais nada do que estava

acontecendo comigo. Talvez a pancada na cabeça tivesse me deixado lelé da

cuca. Já vi isso em alguns filmes, é realmente perigoso.

Fui levada para a enfermaria do cursinho e colocada em uma maca bem

dura, acho que não deviam usar muito aquilo. Em seguida, algumas pessoas

entraram na enfermaria apressadas, então, pude escutar os sussurros através

da cortina que cercava minha maca.

— Essa é a menina nova, coitada...

— O que que estava passando pela cabeça da Mariane? Vamos ter que

suspender as duas. O que vocês acham?

— O Cadu já está sabendo?

— E os pais da Isabela? Como vamos falar? Gente... Isso nunca

aconteceu nesse colégio.

— É preocupante... Muito preocupante...

— Ela não se machucou muito... Pelo menos isso!

— Se machucou, sim. Você não viu o sangue?

Oi? SANGUE? Que sangue?! O Cadu já estava sabendo? O que o Cadu

tinha a ver com isso? E por que eu seria suspensa? Eu não tinha revidado nem

um chutezinho. Peraí, né?

Peguei o meu celular, ainda tremendo um pouco, e tomei coragem de ver

o estrago que a baixinha tinha feito em mim. Meus lábios estavam sangrando,

pois em um dos chutes ela acertou minha boca em cheio. O cabelo estava

todo embolado devido às muitas tentativas de arrancá-los da minha cabeça,

mas graças à hidratação de cada semana, meus fios resistiram bravamente

àquele ataque. Nenhum olho roxo. Nenhum corte profundo. Acho que eu

havia me saído muito bem dessa minha primeira briga, se quer saber. Pode

vir, Mariane. Tô pronta pra próxima. Brincadeirinha... Vai que ela escuta...

De repente, a coordenadora do cursinho, Márcia, abre a cortina e me

encara com seus óculos fundo de garrafa. Ela tinha o pescoço longo e usava

um casaco de pele que me fazia associá-la a algum animal.

Que animal seria esse? Meu Deus. Rá-rá.

— Isabela, né? — disse Márcia.

Meu Deus. Já sei! Ela parecia muito uma avestruz de óculos. Não sei por

que pensei nisso, mas a cada vez que eu tentava não pensar, pensava ainda

mais. Avestruz de óculos rá-rá-rá.

— Sim, eu mesma, senhora — respondi prontamente, segurando a risada.

O que tinham me dado? Eu estava meio louca? Será que apanhar faz isso

com a gente?

— O que foi isso? Será que você pode me dizer o motivo dessa confusão

toda no nosso cursinho? Isso nunca aconteceu antes... Ainda mais com

meninas tão bonitas, inteligentes... A Mariane é a melhor da turma dela.

Nunca vi essa menina perder o controle por nada... — E, então, esticando o

pescoço de avestruz, ela completou: — O que você fez?

Olhei incrédula. O que eu fiz? Eu também queria saber, minha senhora.

— Até onde sei... Não fiz nada. Estava na fila para comprar um pão de

queijo e ela veio me perguntar se eu era a “tal novata”. Eu disse que não

deveria ser a pessoa que ela procurava, me virei para fazer meu pedido e

pronto, ela puxou meu cabelo e começou a me chutar. Foi isso.

Pisquei duas vezes, esperando um abraço de consolo. Nada. Um afago no

cabelo? Vixe. Um olhar de piedade? Ah, vai, isso eu merecia. Nadinha. A

avestruz continuava a me encarar com aqueles óculos. Seca. Sem expressar

qualquer compaixão.

É. Essa mulher não foi com a minha cara, definitivamente.

— Não existe isso, Isabela... Ninguém bate em outra pessoa por nenhum

motivo. Você pode me dizer o que fez. Não vou te julgar.

Ah, pronto. Então, além de ter tomado uma surra no meio do intervalo, eu

ainda teria que provar para aquela avestruz coordenadora de colégio que eu

não tinha feito nada, sendo que eu realmente não tinha feito nada? Eu ainda

acredito nas pegadinhas dos programas de TV. Vamos lá, câmeras, onde

estão vocês? Podem aparecer. Estou pronta para a fama. Já até treinei meus

autógrafos.

— Mas eu realmente não fiz nada, senhora. — Dei de ombros.

Se ela quisesse acreditar, que acreditasse. Eu não gastaria minhas últimas

forças com aquilo, até porque eu nem tinha mais forças. Minha maior

vontade era de me afundar na cama e dormir até o ano que vem. Será que eles

tinham me dado algum remédio para amenizar a dor? Hummm...

Ela continuou me encarando com um olhar desconfiado, indagador.

Parecia mais uma detetive ou uma policial do que uma coordenadora.

— A Mariane alega que você deu em cima do namorado dela, o Cadu.

Você conhece esse rapaz? — Com certeza essa era a pergunta que ela queria

fazer desde o primeiro momento.

— Conheço, sim, ele é da minha sala e senta algumas carteiras atrás da minha. Mas não, eu nunca dei em cima dele. Somos só colegas de sala... Se

isso é dar em cima de alguém, olha...

— Talvez alguém tenha contado alguma coisa pra Mariane... Tente se

lembrar, Isabela — insistiu a avestruz.

Revirei os olhos tão fundo que quase não voltaram mais para o lugar.

Sério isso? Essa mulher só podia estar de brincadeira com a minha cara. Eu

mal conversava com o Cadu, o máximo de palavras que trocamos foi sobre

algumas matérias, ah, e quando ele me disse: “Eu tenho namorada, você

precisa conhecê-la um dia.” Nada mais que isso. O menino era quieto e eu

também. Nossa amizade funcionava assim. E caramba, era uma amizade! A-

mi-za-de. Mulher e homem não podiam ser amigos caso o homem em

questão tivesse uma namorada, é isso?

Em pleno século XXI, meus amigos. Por favor, né?

— Olha aqui, se você quiser me expulsar, suspender, sei lá o que vocês

fazem nesse cursinho, vá em frente, sra. Avestruz... Quero dizer, Márcia. —

Ela arregala os olhos, chocada com o que eu tinha dito, e finjo que não acabei

de chamá-la de sra. Avestruz para conseguir continuar sem cair na

gargalhada. — Eu acabei de tomar uma surra na frente de todo o colégio. Se

antes eu já quase não tinha amigos, agora talvez eu nunca tenha. Todo mundo

já está me olhando torto. Não vou ficar aqui justificando o que não tem

justificativa. Se você acha que eu fiz seja lá o que você esteja achando, então

sim, eu fiz. De que adianta te dizer o contrário, se você está decidida a

acreditar na palavra dessa tal de Mariane? O que você quer que eu diga? Que

eu provoquei a ruivinha maluca e disse que o namorado dela beijava

superbem, é isso? Então vá em frente. Faça o que tiver que fazer. Eu estou

cansada... Queria dormir um pouco... Talvez, se a senhora me expulsar, eu

possa ir para casa descansar na minha cama... Essa maca é muito dura. Vocês

podiam investir um pouco do dinheiro da mensalidade em macas melhores...

Ou em coordenadoras melhores... Você é muito chata, sério mesmo... Se

puder me dar licença... Você tá piorando a dor da minha cabeça e tá me

deixando sem ar. Eu queria respirar um pouco... Por favor... Pode sair?

Ok. Definitivamente eles deviam ter me dado algum analgésico assim

que cheguei na enfermaria, porque eu estava sem limite algum. Mas também

pudera, né?! Que absurdo era aquele que estava acontecendo comigo? Seria a

vida uma eterna pegadinha que nunca tem o “corta”? Temos que aprender a

lidar com situações bizarramente ridículas e seguir em frente?

Em silêncio, ela obedeceu ao meu pedido, se levantou ajeitando o casaco e saiu da enfermaria me deixando sozinha mais uma vez.

Eu devia estar com medo, mas a verdade é que eu não estava nem aí.

Olhei para a janela suja da enfermaria e pensei em uma avestruz. Ela

estava com raiva e me interrogava até eu admitir ter cometido um crime.

Estávamos em um tribunal e assim que ela conseguiu arrancar de mim uma

confissão, vários patos e galinhas armadas entraram para me algemar. Eu

tentava falar a língua deles, mas tudo que eles falavam era “quá quá” e “có

có”.

A enfermaria começou a rodar, e acho que dormi.

É. Definitivamente, eu dormi.

 

• • •

 

Acordei algumas horas depois no meu quarto, com a minha mãe sentada na

poltrona ao lado da minha cama, preocupada, falando no telefone com

alguém.

— É, Paulo! Ela foi expulsa do cursinho, acredita? Me ligaram do

Alternativa e eu fui lá buscá-la! Chegando lá, encontrei nossa filha apagada,

em um estado deplorável... Quase chorei. Tá aqui toda machucada, bateram

muito nela... — Poxa vida. Quando parariam de falar que eu estava toda

machucada? Eu não estava toda machucada. Foi só a boca. Relaxa, galera. Tô

vivona. — Não entendi direito. A coordenadora parecia estar muito

contrariada... Disse que a Isabela a xingou... Pois, é. — Ela fez uma pausa

para escutar meu pai. — Não é do feitio dela xingar ninguém. Muito menos

dizer que não está nem aí se for expulsa. Concordo totalmente. — Ela para

mais uma vez. — Eles com certeza estão mentindo, também acho. — Ela

olha para mim e me dá um sorriso ao perceber que acordei. — Ela acabou de

acordar, meu bem. Quando você chegar em casa a gente se fala, tá? Vou

conversar com ela. — Meu pai fala algo ao telefone, que não consigo ouvir.

— Tá bem, pode deixar. Vou falar. Beijo. — Então minha mãe desliga.

Ela continuou sorrindo, sentou ao meu lado na cama, passou as mãos nos

meus cabelos, me deu um beijo na testa e disparou:

— Pode ir me contando o que aconteceu hoje... Ninguém tem o direito de

fazer isso com a minha filha.

E eu contei tudo, tudinho.

Desde o primeiro dia de aula, até o dia de hoje, que ficaria conhecido

depois como “o dia do pão de queijo”.

Meus pais sempre foram meus melhores amigos, com eles, não tenho

medo de dizer nada, muito menos medo de ser quem eu sou. Na verdade, eles

são uma das poucas e únicas pessoas com quem consigo ser 100% eu mesma.

Sei que se eu estiver errada, eles vão ser os primeiros a apontar minhas

falhas, mas com carinho e me ajudando a corrigi-las. Assim como sei que se

eu estiver sendo injustiçada, eles também serão os primeiros a me defender

com unhas e dentes, e o que mais for preciso.

Depois que acabei meu relato, minha mãe ficou possessa de raiva. Nunca

vi essa mulher daquele jeito. Ela que sempre foi tão contida, tão certinha, tão

educada... Vi minha mãe falar um palavrão, dois, três, ligar para a

coordenadora-avestruz e falar mais dez.

Vi essa mulher fazer a coordenadora chorar do outro lado da linha e pedir

pelo amor de todos os santos e as entidades existentes nesse mundo (e nos

outros) para que minha mãe não a processasse ou processasse o colégio.

Tentei acalmá-la, mas quando vi que seria impossível, me calei no meu

cantinho e assisti àquela cena tão única na vida: minha mãe perdendo o

controle.

Minha mãe falou com advogado, juiz, promotor, com a coordenadora, a

professora, com o moço da cantina, com a mãe da tal Mariane... Ela só não

falou com um padre porque, com certeza, ele tentaria exorcizá-la no estado

em que se encontrava.

No fim dessa confusão toda, não fizemos nada. Não foi por falta de

vontade da minha mãe, acredite, ela queria muito “meter um processo nas

pessoas que fizeram minha filha sofrer e ser humilhada”.

Foi por falta de vontade minha mesmo.

Eu realmente não gosto de briga, e prolongar uma briga daquelas só me

traria mais dor de cabeça. Pedi para que minha mãe “deixasse isso pra lá” e

me colocasse em um novo colégio.

De novo.

E assim ela fez. Escolhi outro colégio da minha cidade, fizemos a

matrícula e, na semana seguinte, eu já estava em uma nova sala de aula.

Não vou dizer que “dei a volta por cima”, porque eu não dei.

Como já disse anteriormente, é muito difícil escutar coisas ruins sobre

quem nós somos e não deixar que isso nos afete. O que aconteceu, apesar de

saber que eu não tinha culpa alguma, mexeu comigo de uma forma negativa e sem explicação.

Fiquei me sentindo culpada por ter mudado de colégio no meio do ano.

Fiquei me sentindo culpada por ter feito amizade com o Cadu, mesmo

que não tivesse problema nenhum nisso.

Fiquei me sentindo culpada por ter apanhado, mesmo que eu não tivesse

feito nada para que isso acontecesse.

Fiquei me sentindo culpada por ter sido expulsa, mesmo que eu não

tivesse merecido.

Me senti culpada até por fazer meus pais passarem por uma situação

daquelas, mesmo que no meu interior eu tivesse a plena noção de que foi algo

que não havia sido provocado por mim.

É difícil pra caramba não se culpar, viu? Repassei a cena mil vezes na

minha cabeça e em todas eu mudava minhas ações para que isso tudo nunca

tivesse acontecido. No entanto, por mais que você queira, é impossível mudar

o passado. E o passado afeta quem somos no presente, então, por causa de

tudo o que aconteceu, acabei me fechando muito quando comecei a estudar

no novo colégio. Tipo, muito mesmo.

Fiquei oito meses “só existindo” na nova escola. Eu parecia um fantasma,

sério mesmo. Ia para as aulas, assistia a tudo quieta no meu canto, se perdia

algo da matéria não perguntava a nenhum colega, pois eu só conversava com

os professores. Comia meu pão de queijo sozinha no intervalo enquanto lia

um livro ou ouvia música. E sempre, sempre mesmo, desconversava quando

alguém tentava puxar muito papo comigo. Não sei o que aconteceu. Fiquei

travada. Não sei se era medo, receio, ou até estresse pós-traumático. Mas

alguma coisa me impediu de ter contato com as outras pessoas, pois tudo

acabava me lembrando daquele dia.

E, de certa forma, eu me sentia mal por tudo o que havia acontecido.

Mais uma vez, lá estava eu, me sentindo mal por uma atitude vinda de

outra pessoa. Eu não podia cair nessa novamente. O que as pessoas fazem, ou

dizem, é problema delas. Não podemos nos deixar afetar por atitudes de

terceiros.

É fácil falar, ô, se é. Na prática, já não é tão fácil assim.

Quando percebi que estava me afundando (mais uma vez) nas peças que

nossa mente nos prega, juntei toda a minha força restante e segurei bem forte

na roda do leme do barco. Eu ia retomar o controle da situação. Colocaria

tudo nos eixos mais uma vez. Afinal, eu não poderia deixar tudo que havia

construído simplesmente afundar por causa de algo que outra pessoa fez.

Peraí, né?

Eu em primeiro lugar, sempre. Esse é o lema, Isabela. Você consegue.

Me lembro de respirar fundo e prometer para mim mesma que, aos

poucos, eu sairia da minha casca novamente. Mesmo que doesse, mesmo que

fosse difícil, mesmo que aqui dentro fosse, apesar de tudo, bem mais

confortável.

Eu precisava fazer isso por mim e pela minha saúde mental.

 

• • •

 

Algo que ninguém conta para a gente sobre a vida: ninguém pode fazer nada

por você mais do que você mesmo.

As pessoas ao nosso redor podem ajudar, incentivar, dizer palavras

lindas, mas a única pessoa capaz de mudar a sua história é você. Assim como

eu fui responsável por me enfiar nesse buraco dentro da minha mente, eu era

a única pessoa capaz de me tirar dali.

Muitos dos problemas começam a se resolver quando você os admite em

voz alta. Já notou isso? Às vezes, temos um problema, mas passamos um

bom tempo o negando. Evitando o problema. Fingindo que ele não existe.

Dizendo que está tudo bem. Que vai passar. Que é apenas uma fase... E

quando você se dá conta, lá se foram dias, semanas, meses de promessas e

muitos “depois a gente resolve isso”.

Se você tem um problema, interno ou externo, o primeiro passo para

resolvê-lo é admitir para si mesmo que você tem esse problema. Quando você

admite, faz com que o problema se torne real e palpável, digno de solução.

Sei que demorei meses para admitir a mim mesma que eu estava com um

problema. Não há nada que justifique uma pessoa de dezessete anos querer se

isolar e não ter convívio algum com outras pessoas, sabe? Não havia nada de

errado comigo e eu não tinha que me afastar da sociedade “por um bem

maior”. Eu não era uma pessoa ruim, mesmo que minha mente às vezes

insistisse que sim. Eu lutei contra essa voz que me puxava pra baixo. Com

todas as minhas forças. Pra valer.

Aos poucos fui driblando meus bloqueios. Até que, certa vez, eu desejei

bom-dia para a garota da cadeira ao lado. Três dias depois, pedi um lápis

emprestado. Na semana seguinte, fiz meu primeiro trabalho em dupla, realmente em dupla. Em seguida, no começo do mês, saí com meus colegas

de sala para um bar. Dois meses depois, chamei uma amiga para estudar

comigo lá em casa. E então ela me chamou para o aniversário dela. E, de

pouquinho em pouquinho, me forcei a ser quem eu sempre fui. Aos poucos

percebi que as pessoas gostavam de mim e que não fazia sentido algum me

fechar no meu próprio mundo. Compartilhar o mundo com outras pessoas é

lindo demais. Relações humanas são complicadas, mas são mágicas quando

são sinceras.

Aquela menina alegre, feliz, que adora bater um papo com quem quer que

seja, estava de volta. Fiz novas amizades, deixei o passado no passado e dele

só tirei lições importantes:

 

1. Não devemos nos definir por ações praticadas por terceiros;

2. Um acontecimento traumático do passado não pode definir o seu futuro;

3. Você é o que faz, e não o que fazem com você;

4. Nossa mente é nossa maior amiga, mas também nossa maior inimiga.

Depende de quem você vai escolher escutar;

5. Ande sempre de rabo de cavalo, para o caso de alguém resolver puxar o

seu cabelo numa briga.

 

Rá-rá.