Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 8 de 15

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Não Se Humilha, Não

capítulo 6

— Então você está namorando o Gustavo Ferreira? É isso? — pergunta

Pedro calmamente, se virando para mim enquanto tento não pensar no fato de

que estamos a 32 metros do chão.

Trinta e dois metros. O cara sorridente que opera o brinquedo havia me

contado isso enquanto eu estava na fila. Assim como quem faz a previsão do

tempo de amanhã. Vai chover... Uma pena... Trinta e dois metros, senhora.

Uma das maiores rodas-gigantes da região! Ainda falou com orgulho. Por

Deus! Quem tem orgulho de algo que pode matar pessoas? Que tipo de

monstro esse cara é? Isso nem é seguro, sabe. Eu já vi vááárias reportagens

em que as pessoas “saem voando” de brinquedos como esse. Ou de rodas-

gigantes que param de funcionar no meio do percurso, deixando pessoas

penduradas — a 32 metros de altura — por horas. Horas. Eu não tinha horas,

se é que vocês querem saber. Amanhã eu preciso entregar um trabalho de

Direito Constitucional e não sei nem do que se trata.

Mas quem liga, né? Ninguém liga.

Talvez nem eu ligue, já que estou num parque de diversões em plena

quarta-feira com meus dois melhores amigos, Pedro e Amanda.

— Namorando é uma palavra um pouco forte... Eu...

Olho para baixo. Estávamos no ponto mais alto da roda gigante neste

exato momento. Droga. Por que eu olhei para baixo? Por quê? Eu nem

acreditava taaanto assim naquela frase que dizia que devíamos enfrentar os

nossos medos. Por mim, os medos podiam ficar lá, bem quietinhos, sem fazer

mal a ninguém... Começo a me tremer toda, é como se a temperatura de Juiz

de Fora de repente atingisse dez graus negativos. Agarro o braço direito do

Pedro. Se eu segurasse o braço dele com força, talvez conseguisse evitar

minha queda de 32 metros de altura.

— Estamos nos conhecendo...

Respiro fundo, o medo tomando conta de mim. Confesso que eu já nem

prestava mais atenção no que estávamos conversando. Eu só queria sair dali

bem rapidinho.

— ... quer dizer, talvez com mais intensidade do que o normal, mas é

basicamente isso, Pê.

Pedro olha para minhas unhas cravadas no braço dele com ar curioso, me

analisando. Depois franze a sobrancelha e me acolhe, passando o braço por

trás de mim.

— Branquela... Que medo de altura é esse? Eu não sabia que você tinha

tanto medo assim. — Então, se aconchegando melhor, ele me segura com

suas mãos firmes. — Vem cá, eu te seguro. Não precisa ter medo, respira...

— Ah, não? Eu te falei, Pedro, eu falei! Eu MORRO de medo de altura!

Prefiro enfrentar dez cobras venenosas do que uma roda-gigante. Quero

dizer, dez cobras é muita coisa, mas uma cobrinha eu enfrento tranquilo, pode

vir, tô preparada. Mas altura? Como que enfrenta a altura? Não dá.

Olho para baixo de novo. Gente, o que é isso? Essa roda-gigante está

parada? Ou eu que parei no tempo?

— Esse negócio enguiçou? — pergunto. — Ah, não... — Aperto o braço

dele com mais força. — Pedro, sério, a gente vai morrer. Eu tô sentindo.

Sabe aquela luz que você vê quando está perto da morte? Eu tô vendo, Pê. Eu

tô vendo.

— Não vai, não, branquela. Fica tranquila... Eu tô aqui com você,

esqueceu? — Ele dá uma gargalhada gostosa. — A luz que você está vendo é

do brinquedo aqui do lado... E estamos parados porque eles param por alguns

minutos pra gente apreciar a vista... Olha lá, a ponte do rio Paraibuna... as

luzes da cidade... o Hospital Star... — Ele aponta pra algum lugar no meio da

escuridão e eu nem ouso olhar. Não, não.

Alto demais para se apreciar algo. ALTO DEMAIS!

— Pedro! Essa ponte é horrorosa! Quem quer ver a vista? Quem? —

Minha voz sai um pouco mais esganiçada do que o normal. Pigarreio,

tentando me recompor. Se é que isso seria possível no momento. — As

pessoas só querem descer desse brinquedo, é isso que elas querem.

— As pessoas ou você? — implica ele.

— Eu. As pessoas. Isso importa? Eu sou uma pessoa e EU PRECISO

DESCER, Pê. Tô sentindo que vou cair daqui.

A frágil gaiolinha em que estávamos range um pouco com o nosso

movimento e eu me arrepio toda. Enfio as unhas no braço do Pedro sem dó.

Amigo é para essas coisas, né?

— Essa gaiolinha vai cair, Pedro. É sério. Eu já vi casos assim no Google

— insisto.

— O Google está sempre certo, né... Fico impressionado. — Ele se

diverte. Não sei qual é a graça. — Quantas doenças não foram diagnosticadas

pelo Google... Quanto câncer a gente já não descobriu com o Google,

branquela! Agora o Google também alerta jovens a não frequentarem parques

de diversões, muito menos a roda-gigante. Ah, não. A roda-gigante, não. Ela é prejudicial à saúde e coloca nossa vida em risco. Eu tomaria cuidado se

fosse você.

Fecho os olhos com força porque, se fosse um pesadelo, eu tenho certeza

de que eu acordaria.

Mas não.

Só podia ser a minha vida mesmo.

Bela hora para Pedro Miller brincar com a minha cara. Belíssima. Se

tivesse uma hora perfeita para brincar com alguém, a hora seria esta.

Trancados dentro de uma gaiolinha a 32 metros de altura.

Repito. Trinta e dois metros de altura. E o chão lá embaixo.

Depois de se divertir bastante com o próprio comentário, Pedro solta um

suspiro, aperta meu ombro e volta a falar com a voz rouca e arrastada.

— Namorando, então? Com o Gugu? Rá-rá. Por essa eu não esperava.

Reviro os olhos.

— Gugu, não. Gus. Por que não esperava?

— Então você confirma que está namorando?

Bufo.

— Acho que sim, não sei... Não teve um pedido oficial, entende? Mas ele

já me chama de amor e me levou pra conhecer a família. Isso significa que

ele gosta de mim, certo? O que já é algo.

Pedro fica em silêncio por um minuto ou dois. Ou talvez tenham sido

segundos, eu sinceramente já não sei mais contar o tempo.

— Parece que sim, ele gosta de você... Com certeza... — Então ele para

mais uma vez, pensativo. — É, ele gosta, sim, Isa. Afinal, apresentar pra

família é algo bem grande, né?

Os olhos azuis me encaram.

Ele realmente está falando sério. Uau.

— É... Eu também acho. — Olho para baixo de novo e penso em gritar

para o moço que opera o maquinário da roda-gigante. Não é hora de ele

apertar o botão novamente para voltarmos ao chão? Alôôô?

— Ele te trata bem? — dispara Pedro.

Pela primeira vez, ouso me mexer na gaiolinha (que rangia horrores a

cada respiro nosso) para encarar Pedro nos olhos. Que tipo de pergunta é

essa? O Gustavo me trata muito bem. Até demais. Não é visível? Quero dizer,

nós todos, eu, Pedro, Mandy, Gus, somos da mesma sala na faculdade. Eu

achava que nesse meio-tempo já tivesse dado para perceber algumas coisas

bem óbvias. Ele me espera todos os dias na porta da faculdade para entrarmos juntos. Se vou no banheiro, ele faz questão de me acompanhar e me esperar

com um sorriso. Deixei de pegar o ônibus 202, e agora volto com ele de carro

para casa depois da aula. Caso eu queira fazer algo no centro, ele também me

acompanha. Gustavo está comigo em todos momentos, basicamente.

Gustavo era o cara. Companheiro, atencioso.

Sim. Ele é o cara.

— Muito. Ele parece um príncipe. — Limito-me a dizer. Eu não tenho

mais forças. Estamos alto demais para qualquer argumentação.

E tá, tudo bem que eu já chamei alguns outros caras que passaram pela

minha vida de príncipe, mas ah... É mais forte do que eu. Se o cara me trata

bem? Príncipe. É romântico? Príncipe. Abre a porta do carro? Príncipe.

Percebam que não precisava de muito para me conquistar, afinal,

enfrentávamos tempos difíceis no campo dos relacionamentos sérios.

Das duas uma: ou a Disney nos iludiu, ou príncipes estavam em extinção.

— Nem sempre o príncipe é o cara que vai salvar a mocinha, né? —

Pedro me tira dos meus pensamentos.

O que ele quer dizer com isso? Sério? Isso é hora para enigma?

— Bom, nos meus filmes da Disney, sim, é sempre o príncipe que salva a

princesa... Mas o que isso tem a ver, Pedro? Para de me confundir. Ele me

trata muito bem e ponto. É um lorde. Um príncipe. É só modo de falar... Eu

não sou princesa, nem preciso que me salvem.

Respiro fundo. A roda-gigante volta a se movimentar.

Não sei o que é pior. Ficar parada a 32 metros de altura ou ouvir a

gaiolinha rangendo.

— Você se salva muito bem sozinha. Sei disso. É uma das razões de eu

ser seu melhor amigo e fiel escudeiro. Mesmo que você não precise... Tô

sempre aqui. — Ele estende a mão para mim, esperando que eu corresponda e

faça o “nosso toque”. — Toca aqui. — Bato na mão dele. — Tá feliz de estar

finalmente namorando? Você sempre quis um namorado para apresentar à

sociedade... Rá-rá.

— Ah, vai. Eu nem queria tanto assim. — Dou um soquinho no ombro

dele e nossa gaiolinha range mais um pouco. Fecho os olhos novamente. —

Sem soquinhos. Ok, ok, gaiolinha. Vamos lá. Boa menina. Não vai se soltar

da roda gigante... A gente precisa de você viva, menina. Mais alguns

minutos. Gaiolinha, gaiolinha... tão bonitinha... — Abro os olhos e dou de

cara com o Pedro embasbacado me encarando. — Eu falei isso em voz alta,

não falei? — Me dou conta da minha loucura pública.

Mas, ah, estou com o Pedro. É o Pedro, sabe? O garoto que já me viu

chorando na área de fumantes de uma festa porque o meu melhor amigo me

trocou pela namorada (sim, eu choro por pessoas que não merecem); o garoto

que já segurou meu cabelo enquanto eu vomitava porque comi um cachorro-

quente de rua e tive intoxicação alimentar; o garoto que já me viu com as

bochechas inchadas quando tirei meus dois sisos e ainda teve coragem de

dizer que eu estava linda. Parecia um tomate? Sim. Mas um tomate lindo.

Esse era Pedro Miller, meu melhor amigo.

— É. Falou. — Ele se diverte com meu pânico, ok, devia ser mesmo

muito engraçado ver uma pessoa enfrentando a morte. — Calma, já tá

acabando, branquela, pelos meus cálculos essa é a última volta. Já, já, você

estará sã e salva... — E então ele volta ao assunto: — Mas me diz... Se o

Gustavo é esse lorde que você diz que ele é — arregalo os olhos, foi uma

ironia no lorde ou é impressão minha? —, e não, não estou duvidando disso...

É só que... Eu queria saber por que você não avisou pra ele que viria ao

parque de diversões com seus dois melhores amigos.

Repentinamente, tiro os braços dele do meu ombro e me afasto.

Lá no fundo, escuto a gaiolinha ranger, mas não me importo tanto assim.

Não agora.

Como Pedro Miller sabe disso?

Sério? Tipo... COMO?

Quero dizer, eu realmente preferi não contar aonde estava indo... O

Gustavo é tão... Sei lá. Ele quer estar comigo em todos os momentos. Já

percebi que, se eu faço algo e ele não está junto, isso o chateia. E eu não quis

e não quero chateá-lo, sabe? Mas também não queria trazê-lo porque eu,

Pedro e Amanda tínhamos combinado há tempos de aproveitar para sairmos

juntos quando o parque de diversões passasse por Juiz de Fora.

E eu queria um tempo a sós com os meus melhores amigos também.

Queria contar para eles os detalhes de tudo o que aconteceu no fim de

semana. Eu não tinha conseguido contar nada justamente porque estudamos

todos na mesma sala, e como disse, o Gustavo fica cem por cento do tempo

do meu lado.

Tipo, o tempo todo.

O tempo todo mesmo.

Ele me levava no banheiro e me esperava do lado de fora com um sorriso

no rosto. Me levava na cantina e perguntava o que eu queria comer. Me

levava para estudar na biblioteca e ficava do meu lado esperando que eu estudasse. Era fofo, era um cuidado, até certo ponto... Uma garota tem que ter

seus momentos sozinha para respirar... E eu estava precisando do meu. Sou

sagitariana, qual é?

E, sim, eu sei.

Eu não deveria mentir para o meu novo namorado.

Ok.

Culpada.

Sei disso.

Mas ele não tinha me deixado muita escolha, né? Então, para descolar um

tempo com os meus amigos, eu disse para ele que toda quarta-feira eu

passaria a trabalhar como “passeadora de cães” do meu vizinho, e que ele

tinha quatro buldogues franceses bem gordos, lindos e peludos. Roy, Joy,

Troy e Nala. Ok, sei que não foi a melhor mentira de todas. Talvez eu tenha

me empolgado nos nomes dos buldogues imaginários e tenha perdido a linha

no “Nala”. Eu até pensei na clássica desculpa de dizer que iria à casa de um

parente, mas me lembrei que ele me levou na mansão do tio Nico no fim de

semana e, se eu não o levasse junto, isso poderia resultar em uma discussão

desnecessária. Pensei em inventar um médico, mas médico de noite? Ah, tá.

Pensei em dizer que iria ao salão de beleza fazer as unhas, mas me lembrei da

última vez que ele foi lá comigo, fez amizade com todo mundo, inclusive

com a Marthinha... A secretária fofoqueira que poderia me desmentir em um

piscar de olhos. E ela adoraria me desmentir.

Então eu fiquei sem opções.

Tive que apelar para um vizinho que não existe e para buldogues

imaginários: Roy, Joy, Troy e Nala.

Não seria um máximo se eles realmente existissem?

Eu acho.

O fato é que... Como o Pedro soube disso? Ele não era capaz de ler

mentes, apesar de, às vezes, parecer que sim. E eu não tinha comentado sobre

isso com ninguém, nem com a Amanda... Ah! Como pude ser tão inocente?!

Os nossos celulares, claro.

Eu havia entregado meu celular para ele. E ele entregou o meu celular

junto com o dele para a Amanda segurar enquanto estivéssemos no

brinquedo.

Para um bom curioso, meia mensagem na tela de bloqueio basta. Droga.

O que será que o Gustavo tinha me mandado? Meu estômago revirou.

E agora não era por causa da altura. O que era ainda pior.

Eu odeio mentir. Odeio. Odeio. Principalmente porque... eu não sei

mentir. Tenho ciência de que mentiras são necessárias vez ou outra, uma

mentirinha saudável aqui, outra mentirinha fofa ali... Que nem essa. Era uma

mentira fofa, né? Eu menti para não magoar os sentimentos do meu

namorado. Só isso. Não é? É. É, sim. Você não tinha o que fazer, Isabela.

Você queria um tempo com seus melhores amigos. Caso você dissesse a

verdade, o Gustavo não desgrudaria e, mais uma vez, você não teria esse

tempo com eles. Caso você pedisse para que ele não fosse, ele poderia pensar

que vocês fariam algo a mais no parque de diversões... Será que todo namoro

é assim? Tentar não chatear o outro e, no meio do caminho, fazer coisas que

podem chateá-lo ainda mais?

Tento respirar com o pouco de ar que tinha sobrado nos meus pulmões.

— Ai, Pedro. É complicado... E por que você leu minhas mensagens? Eu,

hein! — Cruzo os braços e viro a cara, observando pela primeira vez a vista

da gaiolinha.

Uau. Era realmente linda. Pedro não tinha mentido sobre isso.

— Eu não queria ler... Mas tinham muitas mensagens, todas do Gustavo.

Minha curiosidade falou mais alto do que meus princípios. — Ele tenta se

justificar. — Você sabe que eu jamais faria isso, ler suas mensagens... Mas é

que achei estranho o tanto de mensagens. Me desculpa, branquela. Me

desculpa mesmo...

Me viro para ele e sinto algo entalado na garganta.

Talvez seja meu estômago querendo dar uma voltinha aqui fora.

— Eram muitas mensagens? Sério??? — Meus olhos se enchem de

lágrimas. Será que meu sonho de algodão doce já estava se desmanchando?

— Como assim, Pedro... Eu falei que ficaria sem responder durante uma hora

e meia, pois não passeava com os cachorros com o celular na mão... Por que

ele iria mandar tantas mensagens... — Dou um tapa na testa, me lamentando

por minhas decisões tão péssimas. — Eu sabia que mentir não era para mim.

Minha mãe sempre disse que eu não deveria mentir, pois sou uma péssima

mentirosa. As mães estão sempre certas. Sempre. Sabe quando elas falam pra

gente levar o casaco? A gente tem que levar o casaco, Pedro. Por que não dei

ouvidos a minha mãe? Tão sábia... Poxa vida. Agora, ele vai descobrir a

mentira, e tudo vai parecer bem pior do que é. Isso se eu sobreviver a essa

roda-gigante, né? Imagina, só... O Gustavo descobrir que eu menti pra ele

após ler no jornal: “Jovem de vinte anos morre em roda-gigante. As causas

ainda são desconhecidas pela polícia.” E a jovem sou eu, você tá entendendo, Pê? Jovem, mentirosa e medrosa. Roy, Joy, Troy e Nala que me perdoem. Eu

tentei.

Pedro fica confuso. Claro. As coisas que estou falando não têm o menor

sentido.

— Cachorros? Roy, Troy e quem? — Ele me abraça mais uma vez pelos

ombros, talvez mais forte do que antes. Acho que queria me passar

segurança. — Isa, calma. Às vezes não é nada. Eu só li a primeira mensagem

que apareceu na tela, em que ele perguntava onde você estava, tudo em

maiúsculas e com muitos pontos de interrogação. Talvez não seja nada de

mais... Foi só isso que me chamou a atenção e eu tive que perguntar pra você.

Droga. Tudo em maiúsculas e com muitos pontos de interrogação. Para

quem entende de linguagem de internet, isso nunca significa coisa boa.

— Ai, Pedro. Eu sei que você tem a melhor das intenções e eu agradeço

muito por isso. — Dou um sorriso nervoso e pego as mãos dele. — Mas é

óbvio que era algo importante. Ele falou em Caps Lock... Mandou vários

pontos de interrogação... — Faço um beicinho e respiro fundo.

Ele corresponde ao meu sorriso, também nervoso, e segura minhas mãos

ao me encarar. A cicatriz repuxando na bochecha esquerda, e os cabelos

negros iluminados pela luz azul da roda-gigante. Se não estivéssemos a 32

metros de altura eu me ofereceria para tirar uma foto dele.

Seria a foto perfeita.

Atrás dele, toda a cidade reluzia.

Queria que Amanda estivesse aqui com sua câmera nova.

— Se acalma, branquela. Vai ficar tudo bem. Você não está fazendo nada

errado. Não se sinta culpada... Tá? Promete pra mim que não vai se sentir

culpada.

— Eu menti pra ele, Pedro. Eu disse que levaria Roy, Troy, Joy e Nala

pra um passeio noturno, pois nas quartas-feiras, além de usar rosa,

aparentemente eu também sou passeadora de cães. E Roy, Troy, Joy e Nala

nem sequer existem! Coitados! Muito menos o meu vizinho, que me

contratou e que, supostamente, é o dono dessa galera toda. Como eu vou sair

dessa agora? Como, Pê? — Ele ajeita o casaco de couro preto, será que

também estava com frio? Eu disse que deveria estar fazendo dez graus

negativos em Juiz de Fora. Então continuei: — E se ele me pedir foto dos

buldogues? E se algum conhecido dele me avistar aqui no parque? Como eu

não pensei nisso antes? Pedro... Eu...

Eu estava surtando. É isso.

Ele tira o casaco de couro e me entrega.

— Coloca o meu casaco, você tá tremendo muito. — Ele olha para baixo,

conferindo algo, e se volta para mim. — Já deve estar acabando... Olha. Olha

bem pra mim e presta atenção no que eu vou te dizer.

Encaro os olhos azuis, relutante. Era difícil demais encarar olhos tão

bonitos. Queria ter olhos únicos, inconfundíveis, tão marcantes como os

dele... Os meus eram só castanhos mesmo. Mas eu tinha muito orgulho deles.

— Você é uma ótima namorada, Isa. — Ao perceber que vou interrompê-

lo para corrigir o “namorada”, ele completa: — Ou seja lá o que vocês

sejam... O importante é que você não está fazendo nada errado. Queria um

tempo com seus amigos, e isso é normal. Ele tem que aceitar isso, se for

realmente uma boa pessoa como você diz. Quanto à mentira... Diga você toda

a verdade... Vai se sentir melhor consigo mesma. Não tem nada melhor do

que a verdade, sempre. Mesmo depois de uma mentira, poucos são os que

recorrem à verdade. Alguns continuam mentindo... — Ele para por alguns

segundos, pensando no que dizer em seguida. — Você fez tudo para não

chateá-lo, só isso. No fim, o que importa são as suas intenções e o seu

coração...

Sinto o choro preso na garganta. Putz. Por que eu sou tão bobona? Vinte

anos nas costas. A tão sonhada maturidade e a vida adulta parecem não ter

mudado nada em mim.

Eu ainda tenho vontade de chorar quando brigo com meu namorado. Ou

quando as coisas não saem do jeito que minha mente criativa tinha

imaginado.

Custava o Gustavo ter acreditado na minha mentira?

Era tão difícil assim para a realidade seguir o roteiro do Filme da

Isabela?

Me volto para meu melhor amigo.

— Tá... Tá bem. Você acha que ele vai ficar de boa? Jura, Pedro? O que

você faria nessa situação? — pergunto, desesperada.

Sei que ninguém é igual a ninguém, mas, às vezes, os homens parecem

falar uma língua e as mulheres, outra. E Pedro era homem, certo? Eu ia me

aproveitar dessa minha vantagem.

Ele morde os lábios, talvez um pouco nervoso com a pergunta. Pedro

nunca havia namorado, sei disso. Ele era um cara que sempre tinha alguém na

cama, mas ninguém na sua cabeça e muito menos no seu coração...

Nunca vi o Pedro se apaixonar. Nunca vi os olhos do Pedro brilharem ao comentar sobre alguém. Ele nunca contou sobre alguma garota que havia

feito ele ficar com a cabeça nas nuvens. Já tinha me apresentado muitas

ficantes, isso era verdade. Cada semana ele aparecia com uma diferente...

Maria, Gabriela, Marcella, Jaqueline, Beatriz, Juliana, Juliane, só Ju... Eram

tantas! Mas ele era assim, pé no chão, e uma frieza fora do comum quando se

tratava de amor. As meninas ficavam completamente apaixonadas e ele,

completamente indiferente. O que era um pouco estranho, porque ele era

muito carinhoso comigo e com a Mandy, talvez até mais do que com

qualquer outra pessoa... Nem parecia o mesmo Pedro. Desconfio de que ele

tenha medo de se apaixonar e, por isso, se feche no seu mundinho como uma

forma de proteção. E eu entendo. Se apaixonar é bom demais, mas dói. Ô, se

dói. Não vê euzinha aqui? No sábado, estava tão feliz que poderia levitar e

passear pelas nuvens se eu quisesse. Tudo parecia perfeito, no seu devido

lugar. E em apenas quatro dias, aqui estava eu. No alto de uma roda-gigante a

32 metros de altura, dentro de uma gaiolinha, quase chorando de nervoso

com o meu melhor amigo, sem saber o que fazer. Me culpando por ter sido

tão burra a ponto de inventar uma mentira. Afinal, quem tem quatro

buldogues chamados Roy, Troy, Joy e Nala?

Eu era realmente uma piada.

Um fracasso.

Talvez o Pedro estivesse no caminho certo e eu no errado.

Vai saber.

— Eu? Você quer mesmo saber? — Ele passa as mãos nos cabelos

negros agora brilhantes sob as luzes do parque. — Primeiro eu fingiria que

estava bravo, muito bravo. Depois eu ia rir muito da sua cara. — Ele dá uma

gargalhada gostosa.

Estamos quase chegando no chão. Finalmente! Eu nunca pensei que o

chão fosse algo tão maravilhoso. Nossa, como eu amo o chão. Me lembrem

de exaltar o chão e seus zero metros de altura todos os dias.

Da janela da gaiolinha, eu já consigo ver Mandy na saída do brinquedo,

acenando pra gente, provavelmente feliz porque havíamos sobrevivido.

— Sério, Pê? — Respiro aliviada.

Talvez tudo ficasse bem, afinal.

— Sério. Claro que eu pediria pra você não mentir pra mim nunca mais.

Até porque, em um relacionamento, os dois devem ser amigos, melhores

amigos. — Arregalo os olhos. — É, Isa. Assim como você me conta tudo,

deve ser assim com ele também. Só assim para um relacionamento ser saudável e de fato funcionar. — Abro a boca tentando argumentar, mas ele

continua: — Sei que nunca namorei, mas te afirmo com toda a certeza que a

única forma de vocês se entenderem é conversar sempre. Dizer o que

pensam. Serem transparentes. Não tem nada melhor do que ter confiança um

no outro. Vai por mim.

Escuto calada. Ele tem toda a razão.

— E talvez, quem sabe, um dia eu não te dou quatro buldogues? Roy,

Troy e quais são os outros nomes mesmo?

Abro um sorriso. Meus olhos devem estar brilhando mais do que a roda-

gigante. Eu tenho o melhor amigo do mundo. Sério.

— Joy e Nala — completo, um pouco envergonhada da minha mentira

sem pé nem cabeça.

— Isso mesmo. Um dia prometo que te dou seus tão sonhados quatro

buldogues. — Ele morde o lábio superior, e me dá um sorriso encorajador. —

Vai ficar tudo bem, branquela. Prometo.

A porta da gaiolinha se abre e lá está o moço simpático que deveria ter

apertado o botão minutos atrás. Ele estende os braços e me oferece as mãos

para que eu saia em segurança da gaiolinha. Pedro sai em seguida e vamos ao

encontro da nossa japa preferida, Amanda Akira, que nos espera ansiosa com

sua câmera nova em mãos.

— Deixa eu tirar uma foto de vocês dois em frente à roda-gigante. A

iluminação está incrível. Isso. Para do lado da Isa, assim, Pê. Mais perto,

senão minha câmera não pega... Ela não é full frame, eu já disse pra vocês. —

Como se soubéssemos o que era uma câmera full frame. Pedro passa os

braços por cima dos meus ombros e fazemos uma pose abraçados. Clique. —

Ficou ótima! Você ficou linda com o casaco do Pedro, Isa. Deveria usar mais

vezes. Se quiser eu faço mais fotos suas com ele pelo parque. Vamos? O que

vocês estão esperando? Eu estou doida para ir no trem fantasma. Vamos,

vamos.

Antes que Pedro fosse atrás dela, me volto para ele.

— Pedro... Eu... Obrigada. Vou ler as mensagens agora e seja o que Deus

quiser. Eu nem sei o que faria sem você, sério mesmo.

— Eu sei, branquela... Eu sei. Não precisa agradecer. — Ele me dá um

sorriso sincero, os olhos brilhando.

— E só pra te dizer, eu acho que você daria um ótimo namorado. — Ele

fecha a cara e revira os olhos. — É sério. Você devia tentar um dia, Pedro.

Ele me dá um empurrãozinho de brincadeira.

— Esquece isso, branquela... Já disse que essa coisa de amor não é pra

mim...

Então, ele se distancia, seguindo os passos da Mandy com as mãos nos

bolsos da calça largada.

Vai entender, né?

 

• • •

 

Pedro resolveu acompanhar Amanda no trem fantasma e eu fiquei aqui do

lado de fora esperando por eles. Porque, Deus me livre, eu morro de medo.

Sei que o trem fantasma aqui do parque consiste ape-nas em alguns bonecos

sem graça e uns caras fazendo bico, com fantasias de múmia, zumbis,

vampiros, fantasmas e o que mais eles considerem assustador. A questão é

que eu levo susto com tudo. Tudo mesmo. Mesmo eles não sendo nem um

pouco assustadores. A última vez que estive aqui, o moço que estava

fantasiado de vampiro chegou a me agradecer por ser a única pessoa a ter se

assustado com ele naquele dia. Sério. Ninguém nem reconhecia que aquele

senhor era um vampiro. Já eu, gritei tanto que as pessoas da fila do lado de

fora me olharam assustadas quando saí, se questionando se deveriam mesmo

encarar esse brinquedo tão amedrontador.

Enquanto eu aguardava, aproveitei para olhar o celular.

Não adiantava fugir.

Dez mensagens não lidas.

 

Gustavo Ferreira :

Oi, linda. Que vc tenha um bom passeio com os cachorrinhos. Tenho

muito orgulho de vc, toda trabalhadora. Vai lá e mostra pra eles quem é a

melhor passeadora de cães da cidade.

19:01

 

Gustavo Ferreira :

Vc disse que iria às 19:30, né, amor? Pq eu tô aqui esperando uma

resposta sua. Poxa vida. Lembra de mimmmmmmmmm!! Haha :D

19:10

Gustavo Ferreira :

Não sei se já deveria dizer isso... Mas fico louco quando vc some. Isso

nunca aconteceu cmg... Voltaaaaaaa

19:13

 

Gustavo Ferreira :

Ok. Minha bbzinha não tá afim de conversa. Quando voltar me manda

msg. Não esquece.

19:20

 

Gustavo Ferreira :

19:30. Hora do passeio dos cachorrinhos. Saudades.

19:30

 

Gustavo Ferreira :

Abandonado, mas ainda pensando em vc.

19:40

 

Gustavo Ferreira :

Passeio demorado :( auau

20:10

 

Gustavo Ferreira :

Isabela???????????

20:30

 

Gustavo Ferreira :

ISA???????????? ONDE VC TÁ???????

20:40

 

Gustavo Ferreira :

Espero que esteja se divertindo no parque :)

21:00

Ai, não. Ele sabe que eu estou aqui. Merda. Merda. Mil vezes merda.

O que o Pedro me disse mesmo? Ser melhor amiga dele. Ok. O que uma

melhor amiga diria numa situação dessas? “Haha. Pois é! Te enganei! Na

verdade eu menti sobre estar passeando com os cachorros do meu vizinho,

que por acaso nem existem, só pra poder ter um tempo com os meus

melhores amigos a sós, sem você.”

Péssimo.

Sério.

Ele nunca entenderia. Tipo... Nunca.

 

Isabela Freitas:

amor... desculpa. eu realmente vim ao parque e acabei desmarcando

o lance dos cachorrinhos... eu ia te avisar, mas foi muito de última

hora. desculpa mesmo :(

21:12

 

Ok.

Cá estou eu mentindo de novo. Mas algo me diz que eu não posso ser

100% sincera com ele. Sei lá. Eu ainda não sentia essa confiança, não me

sentia segura para falar a verdade, pois não sei se me sentiria acolhida. Tenho

certeza de que se eu falasse que Roy, Troy, Joy e Nala foram uma invenção

da minha cabeça, ele surtaria. É sério. E eu simplesmente não estou a fim de

mais problemas agora.

Eu já tinha criado uns bons problemas para resolver, obrigada.

 

Gustavo Ferreira :

Digitando...

21:14

 

Gustavo Ferreira :

Podia ter me avisado, né? Vc fica com o celular na mão o tempo todo e

não pode nem responder uma mensagem? Tô tentando falar com vc desde

às 19 hrs, Isabela.

21:14

 

Ok. Ele me chamou de Isabela. A situação estava nitidamente crítica.

Isabela Freitas:

sei disso... mas às vezes quando tô com meus amigos eu me desligo

do mundo e eu tinha um monte de coisas pra contar pra eles... da

gente, do nosso fim de semana, de tudo incrível que vem

acontecendo... eu realmente deixei o celular pra lá e esqueci de

avisar vc. desculpa :( sério...

21:14

 

Gustavo Ferreira :

Digitando...

21:15

 

Gustavo Ferreira :

Td bem. Só não faz isso de novo. Fiquei preocupado. Podia ter acontecido

alguma coisa com vc, sei lá. Vc tem que me avisar aonde vai, com quem

vai... Somos namorados, Isa. Não sei se vc reparou.

21:15

 

Meu estômago gelou. Então nós somos namorados? MESMO? Aiiiii.

 

Isabela Freitas:

aii. somos? *_*

21:16

 

Isabela Freitas:

mesmo???

21:16

 

Gustavo Ferreira :

Somos, linda. Você chegou de repente e acabou comigo... Me deixou

louco. Sou louco por vc. Não reparou? rs.

21:17

 

Isabela Freitas:

lindo. tb sou louca por vc.

21:17

Gustavo Ferreira :

Quando quiser me chamar pro parque... Vou adorar. Quem mais tá aí? Tá

legal? Deve estar muito divertido, já que vc se esqueceu até do celular...

21:18

 

Isabela Freitas:

só eu, Pedro e Amanda. como sempre. fui na roda-gigante com o

Pedro e quase tive um ataque cardíaco, mas passo bem. sua

namorada sobreviveu, pra sua sorte. agora eles foram no trem

fantasma e eu tô aqui do lado de fora conversando com vc.

21:19

 

Gustavo Ferreira :

Hmmm. Deve estar ótimo. Aproveita, linda. Quando chegar em casa me

avisa, tá? Vou parar de te encher o saco...

21:20

 

Isabela Freitas:

eles chegaram. vou lá! quando chegar em casa te mando

mensagem... e mais uma vez, desculpa, amor. não foi minha

intenção deixar de te avisar... eu realmente esqueci na correria...

21:20

 

Gustavo Ferreira :

Td bem, linda. Eu entendo...

21:21

 

Isabela Freitas:

ah! só uma curiosidade, amor... quem te falou que eu estava no

parque? ou vc tem olheiros por todos os lados da cidade?

21:22

 

Gustavo Ferreira :

A Marthinha me mandou uma mensagem perguntando pq eu não estava

no parque com vc. Acho que ela te viu por aí.

21:23

 

Ah, a Marthinha. Eu disse que se ela tivesse oportunidade de me dedurar,

ela deduraria.

Eu disse. Intuição de mulher nunca falha.

 

Isabela Freitas:

entendi... vou lá amor! depois eu volto!

beijo!

21:24

 

Gustavo Ferreira :

Vai lá, linda... Tô aqui te esperando... <3

21:24

 

Pedro e Amanda saem do trem fantasma e caminham na minha direção.

— Isa... Você tinha que ter visto a cara do Pedro quando o vampiro

apareceu querendo morder a gente. Rá-rá-rá. Ele pulou em cima de mim, eu

juro! — Pedro desconversa e os olhinhos pequenos da Mandy mostram que

ela está mesmo se divertindo com isso.

Minha amiga está com a câmera pendurada no pescoço, a postos para o

caso de algum take perfeito surgir. Amanda sempre usa camisas de banda, e

hoje ela está com uma do Guns N’ Roses muito linda. Só agora reparo.

— Então, Pedro Miller tem medo de vampiros? — provoco, dando um

sorriso. — Relaxa, eles são mesmo assustadores... Eu também tenho.

— Eu não tenho medo de vampiros... — Ele sorri de volta, com

cumplicidade. — A Amanda tá inventando, Isa. Você acha mesmo que eu ia

pular em cima dela? Eu?

Amanda coloca os bracinhos na cintura, toda revoltada.

— Ah, você pulou, sim. Só não pulou no meu colo porque sou

pequenininha e provavelmente você me esmagaria com seus 1,80m e pouco...

Rá-rá. — Ela me dá os braços e me arrasta em direção às barraquinhas de

tiro. — Vamos tentar ganhar um ursinho pra você se animar? O Pedro me

contou sobre o Gustavo... Tá tudo bem entre vocês? O que rolou?

Respiro fundo e conto para eles sobre as mensagens.

Tudinho.

Quero dizer, quase tudinho. Confesso que omiti a parte em que eu menti

novamente para o meu namorado, porque eu não queria decepcionar meu

melhor amigo. Afinal, eu tinha prometido que seguiria os conselhos dele... E

eu estava seguindo, eu seguiria... Só que não hoje. Quando me sentir

confiante, talvez.

É. Quando eu me sentir confiante, poderei ser a melhor amiga de que

meu namorado precisa. No momento, eu ainda sou a garota que ele conheceu

recentemente e que precisa conquistar a confiança dele.

Certo?

Certo.

Eles ouviram atentamente o meu relato. Amanda ficou muito feliz por eu

ter conseguido resolver a situação da melhor forma. Pedro escutou tudo sem

expressar qualquer emoção quando disse que nós dois estávamos bem, que

não tinha sido nada de mais no fim das contas.

Então, depois de eu ter contado a eles o que deu para contar, Pedro

comenta:

— Viu, eu disse, branquela... Ficou tudo bem...

Ele parece um pouquinho decepcionado. Não por eu estar feliz com o

desfecho da história, não é isso. Acho que é outra coisa que o está

incomodando.

— E mais o quê? — insisto, querendo arrancar algo dele.

— É, Pedro... Seja direto — pede Mandy.

— Nada. Eu só acho esse cara estranho. — Ele dá de ombros, finalmente

permitindo que a boca falasse o que se passava em seus pensamentos.

— Por que estranho? — Arregalo os olhos.

Afinal, nós dois resolvemos nossos problemas e tudo ficou bem. Tinha

algo de estranho nisso?

— Não sei... Posso estar viajando... Às vezes minha intuição tenta me

alertar de algumas coisas, não sei explicar direito. Deixa pra lá. — Ele

balança a cabeça. — Esquece.

Mandy intervém rapidamente.

— Todo amigo fica preocupado com o outro... Eu também me preocupo,

Isa. As coisas estão muito rápidas. Eu entendo o que o Pê está tentando dizer.

De verdade, entendo mesmo. A gente te ama e se preocupa com você. — Ela

liga a câmera e começa a fotografar as coisas ao nosso redor. Amanda

definitivamente estava no paraíso. Cores, luzes e uma câmera semiprofissional nova. Teríamos fotos incríveis do dia de hoje. — Eu já

volto. Vou só tirar umas fotos desse carrossel aqui. Quero testar a câmera,

vocês sabem. — Ela sumiu das nossas vistas.

Pedro pega um cigarro da carteira e acende, ele está pensativo. Me

aproximo mais, em silêncio, e ficamos alguns minutos assim, só existindo um

ao lado do outro.

— Você contou pra ele? — Ele quebra o silêncio.

— O quê?

— Que você tinha mentido antes porque teve medo de como ele

reagiria...

Será que isso nunca vai acabar? Comecei mentindo para o Gustavo,

depois tive que mentir de novo para acobertar a primeira mentira, e agora eu

teria que mentir para o meu melhor amigo, Pedro, só para encobrir o fato de

que sim, eu tinha dado continuidade à mentira. Era a única maneira de eu ter

um pouco de paz.

Pedro olha bem nos meus olhos de mentirosa. Desvio, finjo que estou

observando a Mandy tirar fotos a alguns metros de nós, então digo:

— Sim, eu disse.

— E ele? — A voz rouca e arrastada duvida de mim.

Ele sabe a verdade. Tenho certeza.

— Ele... Ué... Ficou de boa. O que ele poderia fazer? Não tinha muito o

que fazer. Pediu para que eu não fizesse de novo, né? — Olha, onde quer que

Pinóquio estivesse, ele estaria orgulhoso de mim. Hoje eu honrei o seu

legado. Nunca na vida eu havia mentido tanto em um só dia.

— A-ham... Assim, fácil? — Ele dá um trago demorado no cigarro, me

olhando de canto de olho. — Ele é mesmo um príncipe, então. Você estava

certa.

Droga, droga. Ele estava sendo irônico, eu tenho cer-te-za.

— Ele é.

— Se você tá dizendo... Eu confio em você, Isa. — Ele jogou fora o

cigarro pela metade, afagou meu cabelo, deu um beijo na minha testa e foi

pra perto da Mandy posar em frente ao carrossel.

Eu confio em você... Pedro Miller tinha que dizer logo essa frase? Não

poderia dizer “Você é demais” ou “Tô com fome, vamos comer?”...?

Mas nããão. Ele tinha que dizer que confia em mim.

Logo hoje, que não sou digna da confiança de ninguém.

Com a cara mais lavada que eu tenho, ajeito meus cabelos, guardo o celular no bolso e me aproximo dos meus melhores amigos.

— Vamos tirar uma foto de nós três? — sugiro.

— Vamos! — Amanda ama a ideia, claro. — Eu já vi um lugar ótimo que

podemos usar de tripé. Um minutinho. Vou posicionar a câmera lá.

Amanda vai em direção a uma grade que cerca um brinquedo desligado e

fica um tempão tentando posicionar a câmera. Pedro Miller permanece em

silêncio ao meu lado, esperando para tirarmos a foto.

Meu coração estava muito acelerado.

Tento me acalmar.

Vai ficar tudo bem.

Vai, sim.

— Vamos lá, digam xiiis. — Amanda volta correndo para dar o tempo

certo do timer disparar e fazermos a nossa pose.

Nos abraçamos, sorrimos, e...

CLIQUE.

Tempos depois, eu tentaria voltar para este dia só de olhar a foto.

Pena que essas coisas só acontecem nos filmes.

O passado não pode ser modificado.

Por mais que a gente queira muito. Com todas as forças.

Infelizmente.