Não Se Humilha, Não
capítulo 3
— E aí, amiga?!
Dou um grito daqueles para que Amanda me escute, pois, neste exato
momento, estou escondida dentro da barraca que vende tequila.
Cada uma, viu?
Hoje mais cedo, quando tive a brilhante ideia de sair com minha sandália
de salto, com certeza não imaginei o papelão que seria me ajoelhar atrás do
barman para me esconder. Também não imaginei como seria difícil andar de
salto em uma festa em que todos jogam suas bebidas para o alto (sério, qual o
problema das pessoas? Só porque a cerveja é liberada tem que jogar para o
alto?). A verdade é que eu não sei mais se estou na festa certa, afinal, muita
gente me falou que esta seria a melhor festa do ano em Juiz de Fora.
Acontece que eu estou na festa certa, sim, a roupa que não está muito de
acordo, mas a gente supera.
Quem nunca saiu de casa com o pijama por baixo do casaco do colégio e
encontrou um solzão de matar esperando lá fora? Pois é. O que fazer numa
situação dessas? Não tem o que fazer! Você finge que está amando o
moletom. Finge que o calor não afeta você... Nossa, calor? Nunca nem vi.
Daí você chega em casa esbaforida, sentindo-se como se estivesse em sua
sauna particular, e a primeira coisa que você pensa é: Nunca mais vou de
pijama para a aula. Mas toda vez que você acorda atrasada e todas as blusas
estão lavando, você vai de pijama.
É isso.
Algumas pessoas erram para aprender a nunca mais errar.
E eu erro porque eu gosto de errar.
É um erro consciente.
É um erro gostosinho.
É um erro de estimação.
É quase como se eu e o erro tivéssemos um combinado: “De vez em
quando você vai errar e se achar uma idiota por isso, mas volta sempre, viu,
docinho? Me promete?”
E eu prometo para os meus erros, uma promessa até cruzando os
dedinhos. Sei que vou me arrepender, mas faço mesmo assim.
Se eu ainda tivesse um Orkut, com certeza esta seria minha biografia.
• • •
É claro que quando cheguei na barraquinha de bebidas, descabelada,
mancando (por causa do salto. Tá vendo? O salto!) e olhando para todos os
lados como quem foge da polícia, o barman me observou com um olhar
curioso. Afinal, estávamos em uma festa da faculdade e geralmente, nessas
festas, as pessoas estão felizes, bêbadas, se divertindo, beijando na boca...
E não se escondendo.
Tenho absoluta certeza de que o ápice da história foi quando ele percebeu
que eu não só estava agindo de modo estranho, como também tinha claras
intenções de me esconder atrás dele.
— Vou me esconder... aqui... tá? — disse enquanto me encaixava entre
um barril de chope e um freezer em que ficava o gelo. — É rapidinho, eu
juro... Não vou te atrapalhar — acrescentei, ao ver o olhar confuso do pobre
barman. — Eu... adoro suas tequilas. Muito boas. Com certeza, quando tudo
passar, tomarei outra... Com muito, hum... limão. Limão e açúcar. Não, não,
limão e sal. Limão e sal, claro, eu adoro tequila. As suas tequilas. As
melhores tequilas da região. — Dei uma piscadinha rápida a fim de esconder
o nervosismo que tomava conta de mim e vinha à tona pelas palavras, como
sempre.
O olhar que o barman me lançou ao me ver de cócoras, encolhida entre as
coisas do bar, falando frases sem sentido, com os bracinhos envolvendo as
pernas... Não sei se consigo definir em palavras esse olhar.
Foi meio que...
Tadinha. É doida.
E diante da impossibilidade de fazer algo diferente, o barman aceitou a
cena grotesca que eu protagonizei, acenou com a cabeça e fez um joinha.
Com isso, presumi que ele não daria com a língua nos dentes a quem quer
que estivesse me procurando. E respirei fundo.
Isso não estava acontecendo.
Não podia.
Era demais até para mim.
• • •
Ok, vamos começar do começo.
Eu queria muito ir à festa da Faculdade de Medicina, muito mesmo. E
tudo bem, sei que não faço medicina, mas o xis da questão é que 80% das
pessoas que iam para a festa também faziam outras coisas da vida. A festa de
Medicina era sempre o evento mais aguardado do ano pelos universitários de
Juiz de Fora, e este ano eu estava muito ansiosa, pois uma das atrações
principais era ninguém mais ninguém menos do que... É o Tchan. QUAL É?!
É o Tchan, sabe? Pau que nasce todo nunca se endireita? O que segura o
Tchan? O que fez a galera passar por debaixo da cordinha? Ahhhh, eu amava.
Todo ano ficava sabendo dessa festa, mas nunca me interessava em ir, pois
sempre eram os mesmos sertanejos... E eu não gosto nem um pouco de
sertanejo. Mas esse ano seria É o Tchan. Meus anos ralando o tchan
finalmente fariam algum sentido.
Seria épico, único, e eu precisava estar ali para passar debaixo da
cordinha com a minha melhor amiga e gritar “essa música é minha” para
qualquer música que tocasse.
O primeiro passo da missão não foi fácil: convencer a Amanda.
— Mandy, eu preciso que você vá a uma festa comigo.
Nós tínhamos acabado de almoçar em um lugarzinho muito gostoso que
vende macarrão barato no centro da cidade, e eu pensei comigo: que hora
poderia ser melhor para pedir algo a alguém? O poder da barriga cheia é
inabalável.
— Como assim, você precisa? Desde quando você precisa ir a festas, Isa?
— Ela ajeitou os óculos, limpou a boca com um guardanapo e me encarou
com os olhinhos pequenos.
— Ué, desde hoje. Qual o problema? — respondi prontamente. — Eu
quero ir à festa da Medicina, vai comigo? — Amanda revira os olhos. — Por
favor, por favor, por favor, por favoooor...
— Quem vai?
— Ué, como assim, quem vai? — Me faço de desentendida.
— O Fábio vai? É por isso que você quer ir?
— Para o seu governo... Fábio e eu terminamos. Ou, pelo menos, acho
que terminamos. — Dou um sorriso de canto. — E desde quando eu vou a
festas por causa de homem? — brinco.
Ela reflete por alguns segundos e concorda comigo em silêncio.
— Então por quê? Você odeia festas desse tipo... As mesmas músicas
sertanejas de sempre... Eu prefiro ficar em casa, sério, amiga. A gente pode pedir algo para comer e assistir àquela série nova que você queria tanto ver...
Reign, sabe? Príncipes e princesas, do jeito que você gosta... Que tal? Estou
doida pra assistir e ver se é isso tudo mesmo.
Esse era o momento de usar minha carta na manga. Tudo bem que eu não
sabia se Mandy gostava de É o Tchan, provavelmente não, pois ela só escuta
rock e mantras espirituais, mas quem acredita sempre alcança, né?
Eu acredito, Isabela. Você consegue.
— Aí é que está! Esse ano não vai ser sertanejo... Vai ser É-O-T-C-H-A-
N!— Exibi um enorme sorriso, mostrando os dentes, esperando que minha
felicidade contagiasse minha amiga.
Alguns segundos de silêncio antecedem a resposta.
Logo percebi que minha melhor amiga não compartilhava da mesma
paixão que eu.
Previsível. Previsível. Eu já esperava por essa.
Difícil mesmo de imaginar a Mandy dançando É o Tchan na Selva.
— Isabela...? — Ela quase perde as palavras. Eu não sei como a Mandy
ainda se surpreende comigo, sério. — É o Tchan...? Que...?
É. Parece que toda amizade tem um limite de coisas estranhas aceitáveis
e nós tínhamos acabado de ultrapassar essa linha quando demonstrei todo o
meu amor por esse grupo incrível.
— É sério, Amanda. É superlegal, poxa... Quando a gente era mais nova
tocava direto nas festinhas e...
— Eu não ia a essas festinhas — retruca ela.
— Amanda! E daí? Eu, hein. Você vai, pronto. Sua melhor amiga está
pedindo. Isso deve valer de alguma coisa. — Levanto as sobrancelhas como
quem pergunta “E aí? Vai encarar?”. A carta de melhor amiga é sempre a que
vence todos os jogos de poder na nossa amizade.
Ela bufou. Sabia que eu tinha razão, afinal, já fui várias vezes com ela ao
cinema assistir a uns filmes superchatos de super-heróis e não morri por
causa disso. Custava alguma coisa sambar comigo e fazer a coreografia da
“Dança da Tomada”? Olha, não custava. Quer dizer, custava o ingresso, né?
Mas vocês entenderam.
— Tá. — Ela se dá por vencida. — Que dia que é?
— Próximo sábado! Eu já estou com os nossos ingressos, você pode se
arrumar lá em casa, a gente vai de táxi, vai ser o máximo!
Nossa, eu estava muito empolgada. Muito mesmo. Essa festa tinha que
corresponder às minhas expectativas, pois elas estavam tão bem-criadas que, mais um pouquinho, já estariam prontas para sair de casa e adentrar o
mercado de trabalho.
— Você já tinha comprado o meu ingresso?! — Mandy fica surpresa.
— Claro que já, você acha que eu vou correr o risco de perdermos essa?
Rá-rá. Jamais, meu amor! Vai ser épico!
Amanda ri. Não sei se da minha cara ou do que eu falei.
— Ai, Isabela... Ser sua amiga é a maior aventura da minha vida...
Sério... É o Tchan... Quando eu imaginei que iria a uma festa só pra ouvir
isso?
E foi assim que eu convenci Amanda a ir comigo na melhor festa de
todas.
Ou, pelo menos, era o que eu achava.
• • •
E finalmente chegou o dia da tão sonhada festa da Medicina especial É o
Tchan. Amanda foi se arrumar lá em casa e passamos o dia reassistindo a The
O.C. (minha série preferida, apesar do que acontece no fim da terceira
temporada, aff), até fizemos a unha uma da outra, como melhores amigas
fazem nos filmes. A festa era só às onze da noite, mas às sete já estávamos
prontas. Eu me vesti com uma calça preta justa e uma blusa ciganinha
também preta, que deixava os ombros à mostra. Me olhei no espelho e achei
que meu look estava básico demais, então, foi aí que tive a belíssima ideia
(agora sabemos que não foi tão boa assim) de colocar uma sandália meia pata
de salto alto. Às onze horas, chamamos um táxi (eu adoro chegar
elegantemente atrasada nos lugares, não que alguém note) e por volta de
meia-noite e meia, depois de uma fila gigantesca, de sermos revistadas de
cima a baixo e de fazer amizade com várias pessoas na porta da festa,
finalmente conseguimos entrar.
Logo de cara percebemos que a cidade inteira estava ali. Literalmente.
Senti como se tivéssemos sido as últimas a chegar e um monte de coisa já
tivesse acontecido. Já havia gente indo embora, gente vomitando no banheiro,
gente vomitando fora do banheiro... Tinha de tudo. A cada cinco passos eu
parava para cumprimentar uma pessoa conhecida, e olha que eu não sou
popular, hein? Naquele momento, eu agradeci pelo fato de o Pedro ter viajado no fim de semana e não poder vir com a gente, senão não
conseguiríamos sair do lugar.
Em menos de dez minutos, contei umas doze garotas que ele já tinha
apresentado para a gente como sua “ficante atual”, sem brincadeira. Uma
delas foi até grossa comigo, insistindo que eu estava mentindo e que o Pedro
estava na festa, sim, eu que não queria contar para ela. Eu hein, tenho mais o
que fazer, pensei.
Depois de cumprimentar umas quarenta pessoas, sem exagero, da tia que
vende bala na frente da faculdade à menina que fez balé comigo anos atrás,
eu e Amanda resolvemos procurar um cantinho da festa para chamar de
nosso.
A festa em si não tinha nada de mais. Algumas bandeirinhas penduradas
com o símbolo da medicina, universitários andando para todos os lados com
suas canecas cheias de cerveja, algumas mesas nas laterais do galpão,
barraquinhas que distribuíam bebidas, dois banheiros, uma área de fumantes,
um camarote que era reservado para quem realmente fazia Medicina e um
palco, onde o É o Tchan iria se apresentar mais tarde, mas que, no momento,
era ocupado por um DJ aleatório tocando as músicas que ouvimos todos os
dias na rádio. E, no meio disso tudo, estão as milhares de pessoas presentes.
De todos os lugares, de todos os jeitos, dançando, gritando, conversando,
chorando, vomitando, se beijando.
Não é difícil adivinhar para onde fomos.
Direto para as mesas laterais, claro.
Posso até ser nova de idade, mas se tem uma coisa que eu tenho é espirito
de velha. Eu meio que precisava dessa mesa para continuar existindo na festa
sem que começasse a reclamar de cinco em cinco minutos sobre as pessoas
esbarrando na gente, derrubando as bebidas etc. Ficamos sabendo que para
conseguir uma mesa era preciso comprar alguma garrafa de bebida. Ok.
Unimos o útil ao agradável e resolvemos comprar uma garrafa de tequila,
pois 1) Amanda amava tequila e 2) eu amava ficar sentada nas mesas. O
carinha fofo que cuidava das mesas, Alex, veio logo falando que “A casa
estava cheia” e que teríamos que sentar em uma mesa que ficava bem na
saída de emergência, vulgo “saída para a área de fumantes”. Se isso era um
problema para a gente? Não, imagina. Ficar em uma mesa em que rola uma
passagem intensa de pessoas o tempo todo era tranquilo, suave, afinal, tudo
pelo É o Tchan.
Confesso que, às vezes, sou antissocial e logo pensei como seria uma droga quando um semiconhecido passasse por ali, pois eu seria obrigada a
cumprimentar sem ter a chance de fingir que não vi. Além disso, por
estarmos em frente à porta do “fumódromo”, o cheiro e a fumaça de cigarro
chegavam na nossa mesa e, frequentemente, umas pessoas aleatórias vinham
nos pedir isqueiro, como se fôssemos as promoters da área de fumantes, que
distribuíam isqueiros em vez de flyers.
Claro.
Tentei não focar no lado negativo do lugar que estávamos e curtir a festa.
Tudo aquilo que incomoda a gente, se falarmos disso o tempo todo, vai
incomodar muito mais. Ao longo dos anos, eu desenvolvi uma “técnica” em
que finjo que aquilo que está me incomodando não me incomoda tanto assim.
Dou uma de louca mesmo, sabe? E funciona. Uma hora a gente deixa pra lá
de verdade e nem precisa mais fingir. Vai por mim, essa técnica serve para
todas as coisas.
Enquanto o show não começa, tomo uma dose de tequila, ao passo que
Mandy bebe umas seis. Dançamos até o limite que meu salto permitia e
fizemos amizade com duas meninas que estavam sem mesa, Paola e Pri,
deixando que elas descansassem um pouquinho na nossa mesa por alguns
minutos antes de voltarem para o “ataque”, como elas mesmas se referiam a
quando iam para a pista procurar caras para beijar. Ai, ai. Essas festas de
faculdade mexem com a cabeça das pessoas mesmo. Quem via as duas
poderia facilmente pensar que elas estavam indo para a guerra. O que não é
muito longe da realidade, né? Porque achar um cara interessante ali estava
meio difícil. Tinha que desbravar mesmo. Os mais interessantes ou já
estavam acompanhados, ou estavam bêbados demais para dar uns beijos sem
compromisso.
Por volta das duas da manhã, ele apareceu.
De casaco vermelho, calça vermelha e um tênis branco. Chamando a
atenção da festa inteira, não só pela beleza que reluzia no meio de todo
mundo, mas também pela roupa completamente chamativa e “nada a ver”
para a ocasião. Confesso que assim que ele entrou no galpão e eu vi um
pontinho vermelho vindo em nossa direção, meu coração acelerou num ritmo
que não consegui segurar. Eu não sei por quê, não me pergunte, mas algumas
vezes nosso corpo nos faz sentir coisas que não sabemos de onde vêm.
Eu não sentia nada pelo Gustavo Ferreira.
Eu nem sequer conhecia o Gustavo.
Eu tinha achado o Gustavo um convencido chato naquele dia na faculdade.
Eu nem tinha me atraído por aquela pose de vendedor de televisão — ou
tinha? Eu tinha?
Eu estava bêbada. Essa era a única possibilidade.
Por que diabos parecia que meu coração sairia do peito se ele chegasse
mais perto?
Peraí, ele estava se aproximando?!?!?!
Da gente?!?!?!
Não, não... Hoje não...
Minha perna bambeou.
Toda vez que minha vida parece um filme e eu realmente fecho os olhos
e falo “Agora eu estou vivendo o Filme da Isabela”, alguma coisa vem e pá,
mostra na minha cara que filmes fofos e românticos só existem nas telas de
cinema, mas que na vida real a mocinha precisa enfrentar do terror ao
romance, tudo isso em apenas alguns minutos, e, no final, ainda precisa se
salvar sozinha, mesmo que ela já esteja sem um braço ou sem uma perna.
É que, às vezes, ficava impossível não se iludir.
— Ei, vocês duas. — Gustavo finalmente chega aonde estávamos e já vai
logo nos abraçando e cumprimentando dando DOIS beijinhos, um em cada
bochecha. — Vim para a festa de última hora porque ganhei um convite, vim
sozinho mesmo, sem saber se encontraria algum conhecido e, em menos de
cinco minutos, percebi que conheço a festa toda. Doideira.
Ele abriu um sorriso perfeito, branquinho, todos os dentes alinhados, e
eu, sendo filha de dentista, quis beijar ele ali, bem naquela hora. Putz. Eu
estava carente mesmo. Qualquer sorriso alinhadinho já me tirava do sério.
Enquanto o cumprimentava, pude sentir um perfume vindo do pescoço dele...
Seria o 212 Vip? Meu Deus, Isabela. Parou, hein? Não se iluda, não. Esse
garoto estava perfeitinho demais para ser verdade. Alguma coisa nele não me
cheirava bem...
Mas ele era tão cheiroso... Puxa vida...
Percebi que eu e Amanda estávamos de boca aberta encarando o garoto,
sem saber o que dizer. O tempo parecia congelado, pois desde que Gustavo
tinha entrado na festa e vindo na nossa direção, eu e Amanda não trocamos
uma palavra sequer. Ficamos as duas paradas, estáticas, esperando os
momentos que viriam em seguida. Por isso somos amigas, a nossa
comunicação é muito afinada, nem precisamos dizer nada. Sei que ela estava
tão em choque quanto eu, pois Gustavo Ferreira poderia ir para qualquer mesa daquela festa, porque obviamente conhecia todo mundo... Mas não,
Gustavo Ferreira preferiu vir até a nossa mesa.
Escolheu ficar junto com a gente.
E o motivo disso nós não sabíamos.
— Vocês já beberam tudo isso? — Ele levantou o tom da voz para que
escutássemos em meio ao som nas alturas, e apontou para a garrafa de tequila
que já estava pela metade.
Cara, será que eu julguei esse menino errado? Ele parecia um doce de
pessoa.
— Talvez. — Me limitei a dizer com um sorriso, que queria que fosse
sexy e um pouco misterioso. Mas a verdade é que eu era péssima em flertar e
provavelmente esses adjetivos não seriam usados para definir o meu sorriso
por quem quer que estivesse observando a cena de longe.
— Estão animadas, então...?
Mais um sorriso de orelha a orelha. MEU DEUS. Esse garoto precisava
parar de sorrir ao meu lado. Não dava para existir eu e o sorriso dele no
mesmo ambiente. Era contagiante. Os olhos acompanhavam aquele sorriso
espetacular. Pessoas que sorriam assim ou eram muito verdadeiras ou muito
falsas. Eu apostava na opção número um para que o sonho do Filme da
Isabela continuasse vivo.
— A Isa é fã do É o Tchan...
Amanda não perde a oportunidade de me deixar mais sem graça ainda.
Essa com certeza era a melhor amiga que eu pedi a Deus.
— Ah, é? Eu também! Vim só por causa disso — responde ele.
Amanda se diverte. Ela parecia saber que isso seria um ponto a meu
favor. Até porque... Quem não gostava de É o Tchan? Só ela mesmo.
— Tocava muito nas festinhas quando eu era mais novo e comecei a
sair... Ganhei esse ingresso hoje e confesso que estava meio desanimado...
Mas quando vi qual seria o tema da festa... Tive que vir! — Ele me abraça
pelos ombros e completa: — Você tem muito bom gosto, Isa... Posso te
chamar de Isa?
Arregalei os olhos pra Mandy, como quem diz “Viu! Eu te falei!”, e ela
sorriu para mim, me encorajando a continuar a conversa.
Respiro fundo.
— Siiim! Total! E claro, pode me chamar de Isa. Todo mundo me chama
de Isa. — Ok. Eu estava nervosa. Mas quem liga? Esse garoto era lindo e
simpático. Qualquer uma ficaria nervosa no meu lugar. — Você não quer ser meu amigo, não? Pois fiquei mais de meia hora para convencer essa aqui a
vir — apontei com a cabeça para Mandy. — Não foi fácil.
Peguei um copo vazio na mesa como se fosse beber e coloquei de volta
antes que alguém percebesse meu nervosismo. Meu santinho do céu. Flertar
não era meu forte, será que a gente podia se beijar logo? Quero dizer, será
que a gente iria se beijar?
Porque eu queria muito.
Como se minha vida dependesse disso no momento.
É. Com certeza eu estava bêbada...
— Ah... seu amigo? — provoca ele. — Quero, não...
Eu sorrio sem nem raciocinar o que ele estava me dizendo. Nosso olhar
dizia muito mais do que realmente estávamos falando. Ele me encarou com
os olhos semicerrados e mordeu os lábios. Não sei se foi a única dose de
tequila que bebi ou se eu realmente tenho toda essa coragem dentro de mim,
mas quando me dei conta já estava me aproximando lentamente dele para
dizer a seguinte frase no seu ouvido:
— E o que você quer ser, então...?
Nossos rostos estavam a centímetros de distância, então confirmei que,
sim, ele usava o perfume 212 Vip. Eu reconheceria aquele cheiro tão familiar
a quilômetros, pois teve uma época em que eu roubava esse perfume do meu
pai todos os dias para ir à aula bem cheirosa.
— Agora? Desculpa se parecer indelicado... Mas eu quero te beijar...
Beijei Gustavo Ferreira e seus dentes perfeitos sem nem pensar duas
vezes. Pode ter sido a emoção da festa, o moletom vermelho, o perfume, a
iminência das músicas do É o Tchan ou o charme dele. Mas sei que, naquele
momento, tudo que eu mais queria era beijar aquele garoto.
A gente tem dessas às vezes, né?
Estamos ali vivendo nossa vidinha, sem nos importarmos muito com o
amor e todas as complicações que ele nos traz, quando de repente, vrá. Surge
um cara nada a ver, que nos traz aquele sentimento de “eu preciso beijar essa
boca nem que seja pelo menos uma vez”. E o Gustavo despertou isso em
mim. Logo eu, que não sou de ficar com ninguém sem antes saber o signo ou
ter conversas profundas sobre a criação do universo.
Quando paramos de nos beijar, ele me abraçou forte, me deu um beijo na
testa e falou sussurrando no meu ouvido:
— Desde que te vi a primeira vez, sabia que você ainda seria minha...
Uau. Que forte dizer que eu sou dele, né? Ah. Mas a essa hora da madrugada, levemente alterada, esperando o show começar, com um gato
desses dizendo umas baboseiras fofinhas, até relevei.
— Até parece... A gente nem se falou direito... — retruco, valorizando
um pouco o meu passe, é claro.
— Mas foi o suficiente, Isa... Você vai ver. A gente tem tudo a ver.
Então ele me deu mais um beijo de tirar o fôlego. Olha, sinceramente,
esse garoto era o teste cardíaco em pessoa. Se eu não tinha infartado naquela
meia hora com ele, eu não enfartaria nunca mais. Cada beijo era uma
provação diferente, em que eu precisava disfarçar que estava tão feliz e tão
ofegante.
Acabamos de nos beijar e, enquanto eu suspirava, com o coração a mil,
ele me disse que iria no banheiro e já voltava. Olhei apreensiva para a Mandy
e, assim que ele saiu do nosso campo de visão, comemoramos dando
pulinhos e gritinhos, como duas crianças que haviam ganhado um brinquedo
novo de última geração.
— Amiga do céu! Eu quase morri por você. Ele está muito na sua.
Socorro — Mandy começa a falar, desesperada, olhando para os lados com
medo de que ele voltasse rápido e nos pegasse no flagra fofocando. — Você
viu o jeito que ele ficou te olhando antes de te beijar? Eu fiquei SEM AR!
— E eu, Mandy? E EU?! Logo eu, que não sei flertar, não sei ser sexy,
morro de vergonha... — desabafei. — Não sei o que deu em mim, mas
quando percebi esse interesse dele, fiquei louca! Parecia que minha vida
dependia de beijá-lo naquele momento. Eu queria muito beijar o Gustavo.
Faz sentido? Socorro?! Eu estou fazendo algum sentido?
Amanda virou mais uma dose de tequila, sem nem fazer careta. Como
essa japa conseguia? Sério? Eu gostaria de entender.
— É a tequila, Isa. Você está levemente alterada, é normal. Tudo fica à
flor da pele. Eu já li um estudo sobre isso, mas acho que esse não é o
momento... — Ela espia por cima dos ombros, para se certificar de que ele
ainda não estava no seu caminho de volta, e continua: — Sério, esse cara é
muito lindo. Não sei se ele presta, ou se é um cara legal, mas na fila da beleza
ele passou um milhão de vezes. Aproveita sua noite, você merece.
— Aiiiii. — Abracei minha amiga. — Eu falei que hoje ia ser épico! A
noite só está começando, ainda vamos ter muita história para contar...
E eu estava certíssima.
Depois de alguns minutos, Gustavo voltou para a nossa mesa e, pelo que
eu entendi, agora éramos um casal. Parecia que ele não tinha a menor intenção de sair dali para achar algum outro grupo para curtir a festa. Nós
éramos o grupo dele.
Ok. Respira.
A sagitariana que habita em mim não gosta muito de grude, verdade,
ainda mais com um cara que eu acabei de beijar, mas eu estava em uma
relação tão ruim com o Fábio até dias atrás que esse grude inicial foi até
gostosinho. Tinha tempo que não me sentia tão querida...
Dançamos juntinhos, ele estava muito carinhoso, me abraçando e
beijando a todo momento, me dizendo como eu era linda, quanto estava feliz
naquela noite com a gente... Parecia coisa de filme mesmo. Ele até estava
sendo bem simpático com a Mandy e virou algumas doses de tequila com ela.
Cheguei a pensar que quem via de fora certamente deveria pensar que éramos
um casal de anos e que a Mandy estava mais do que acostumada a segurar
vela para a gente, de tanto entrosamento que tínhamos.
A noite parecia que ia continuar perfeita, até o momento em que senti
uma mão me puxando dos braços do Gustavo. Quando me virei para ver
quem estava me puxando, tive uma bela de uma surpresa.
Era ninguém mais, ninguém menos do que o Fábio.
Oi?
— Fábio? O que foi? Larga meu braço, você está doido? — começo a
falar, sem me importar se o Gustavo estava escutando ou não, eu hein.
Que garoto doido esse Fábio. Não queria nada comigo, nem sequer
conversava comigo, tenho certeza de que se eu o tivesse chamado para essa
festa ele jamais viria, agora me vê ficando com outro cara e quer vir dar uma
de namorado traído? Para cima de mim, não.
— O que você está fazendo com esse cara?
Ele estava bêbado. Muito bêbado. Pude sentir o hálito podre de longe.
— E te interessa? Nós não temos nada. Me solta, Fábio. — As mãos dele
apertavam meu pulso.
Dei um solavanco para trás e me soltei.
— Cara, por favor, solta a moça... Ela já disse que não tem nada com
você. — Gustavo me abraça e tenta me tirar de perto dele.
Fábio tropeça nos próprios pés e despeja um pouco de cerveja na gente.
Olho para o Gustavo, meio que insinuando que eu consigo lidar com essa
situação. Ele assente, quieto, e espera.
— O que você quer, Fábio? Com quem você veio? Cadê seus amigos? —
Tento resolver a situação de forma madura. Ele claramente precisava de ajuda.
— Você é uma vagabunda mesmo... Suja... Já está ficando com outro...
— Ele me olha com desprezo e, num lapso, cheguei a pensar que ele partiria
para cima de mim.
Aquela palavra ecoou na minha cabeça, “vagabunda”. É tão fácil ficar
bêbado e sair falando merda por aí, né? Vagabunda, eu? Por quê? Por seguir
com a minha vida? Por tentar ser feliz? Por ser dona do meu próprio destino e
não me importar com o que vão falar? Por beijar na boca? Por ser humana?
Por ter desejo? Eu sei muito bem o que eu sou, eu sou dona de mim.
— Olha, Fábio, sai daqui... Sério. Ninguém te quer por perto. — Empurro
Fábio sem muita força, tentando fazer com que ele saísse logo dali, e rezo
para que o Gustavo não tenha escutado o que ele estava falando. Meu Deus...
Que situação desnecessária.
— Você é ridícula, Isabela... Vagabunda... Tenho nojo de você... — Ele
fala um pouco mais alto e olha bem na cara do Gustavo, tomando fôlego para
o que viria em seguida. — Pode comer, cara... Eu já comi mesmo... —
finaliza ele, com um sorriso estampado no rosto.
O que aconteceu em seguida eu não sei definir até agora.
Em uma fração de segundo, Gustavo me pediu desculpas e falou para a
Amanda me tirar dali, pois ele não queria que eu visse o que ia acontecer.
Enquanto corríamos, eu com meus sapatos de salto já na mão, escutei o
barulho alto de um soco e, em seguida, uma multidão começou a gritar
desesperada, correndo para os cantos da festa, fugindo da briga que se
iniciava.
A adrenalina pulsava em minhas veias.
Senti medo, senti pânico, senti vontade de sumir.
As palavras do Fábio não saíam da minha cabeça. Por que ele estava
fazendo isso comigo? A troco de quê? Ele, que nunca quis ter nada sério, que
nunca quis nem ter uma conversa de peito aberto, sincera, então por que me
machucar daquele jeito? O que eu fiz para merecer isso? Eu fiz alguma coisa?
Eu estava errada em beijar o Gustavo tão pouco tempo depois de ter
“terminado” com o Fábio? Mas se não tínhamos nada, isso contava como
término? Ele não tinha concordado em silêncio quando eu disse que “nosso
trabalho” havia acabado? Eu era uma vagabunda? Nojenta? Nossa! Será que
era isso que ele pensava de mim enquanto estávamos juntos?
Poxa vida.
Senti vergonha.
Muita vergonha.
Queria me esconder do mundo e ficar ali por algumas horas até aquele
sentimento sair de dentro de mim.
Há poucos momentos da minha vida em que posso dizer que tive
vergonha de ser quem eu sou, mas naquele momento foi impossível não
sentir. Não porque acreditei nas palavras que saíram da boca dele, porque eu
não acreditei. Sei que não sou nada do que ele falou e que nunca vou ser. Mas
senti vergonha por toda aquela situação constrangedora. Me senti um pouco
culpada, sabe? Talvez fosse melhor ter ficado em casa assistindo a uma série,
como Mandy havia sugerido. Ir às festas não é mesmo para mim. Ficar com
caras bonitos só por uma noite também não. O Gustavo era um cara tão
bacana, e eu acabei estragando a noite dele de tabela.
Tudo isso porque eu simplesmente não sei escolher as pessoas com quem
eu me relaciono.
Parece que meu cupido olha para os meus crushes em potencial e pensa:
“Ela vai sofrer bastante com esse cara? Taí. É esse”, e dispara a flecha.
Quem imaginaria que o Fábio faria isso? Aliás, quem imaginaria que o
Fábio viria a uma festa dessas? Ele era a última pessoa que eu esperava
encontrar por aqui.
Agora você entendeu como eu cheguei ao ponto de pedir para me
esconder dentro de uma barraca de tequila, né?
Enquanto eu esperava um sinal da Amanda para sairmos logo dali, tentei
me acalmar. Estava tão nervosa que parecia que era eu quem tinha dado um
soco em alguém. Tremia da cabeça aos pés. As palavras do Fábio ecoavam
repetidamente na minha cabeça. A cena do Gustavo me pedindo desculpas e
pedindo para que minha amiga me tirasse dali... Tentei refazer essa cena mil
vezes na minha mente, como se, ao refazê-la, o final pudesse ser modificado.
Tentei contar até cinco. Tentei respirar fundo três vezes. Tentei fechar os
olhos e fingir que tudo isso não passava de um sonho.
Mas nada disso diminuía o ritmo do meu coração acelerado. Nada disso
diminuía minha ansiedade, minha respiração ofegante e a minha vontade de
sumir. Eu precisava sair dali. Queria fugir, queria minha cama, minha mãe,
meu pai, meu irmão, meu travesseiro. Queria chorar até que não tivesse mais
nenhuma lágrima dentro de mim... Queria esquecer que esta noite aconteceu.
Eu precisava esquecer.
• • •
— E aí, amiga?
Dou um grito daqueles para que Amanda me escute.
Ela me lança um olhar que eu conhecia muito bem.
Mandy está do lado de fora da barraca de tequila, na ponta dos pés, vendo
se a multidão já havia se dispersado, se o Fábio já tinha sido retirado da festa
pelos seguranças (e se seria, né!), e se o Gustavo estava bem. Mas pelo olhar
dela, as coisas não estavam nada bem. Conheço minha amiga. Ela estava
simplesmente horrorizada, mesmo que tentasse esconder com sorrisos
encorajadores de segundo em segundo. Respiro mais uma vez.
Vai passar, vai passar.
Tudo passa.
— Vem, Isa. Vamos embora agora. — Mandy faz sinal para eu me
levantar rápido e prontamente obedeço, sem nem questionar as ordens da
minha amiga.
Agradeço em silêncio “a ajuda” do barman da barraca de tequila e, me
segurando pelo braço, Amanda faz força para me levantar do buraco onde eu
estava. De mãos dadas, ela vai me guiando por todo o caminho, pois sabia
que eu estava nervosa demais para conseguir andar sozinha. Enquanto
seguimos em direção à porta da festa, tento assimilar o que estava
acontecendo ao meu redor. Algumas pessoas nos olham levando as mãos à
boca, comentando sobre o ocorrido. Outras parecem não saber do que acabara
de acontecer, ou que eu tinha sido o pivô para que a festa tivesse “acabado”
por alguns minutos. A música está tocando ao fundo em volume baixo, e eu
sinceramente não sei dizer se está baixa de verdade ou se eu que estou tão
nervosa a ponto de nem sequer escutar os ruídos ao meu redor. Nem sinal do
Gustavo. Muito menos do Fábio. Quando chegamos à porta da festa, vemos
uma movimentação de seguranças na entrada e, mesmo que eu não quisesse
escutar nada, consegui distinguir um deles falando “O cara saiu daqui direto
para o hospital... Acabaram com ele”, e eles riam com os companheiros de
trabalho, que conversavam sobre a briga que acabara de acontecer, como
quem conversa sobre as notícias do dia enquanto toma um café com a
família.
Uma ânsia toma conta de mim. Acho que vou vomitar.
Apoio-me na minha melhor amiga para não cair ali mesmo.
— Isa, segura aí. Estou aqui com você. Daqui a pouquinho a gente chega
na sua casa, tá? Eu prometo. — Mandy falava isso para mim repetidamente, a
fim de me acalmar, mas eu não conseguia responder. — Vai ficar tudo bem.
Já está tudo bem. Se acalma...
A última coisa de que me lembro foi Amanda, desesperada, pedindo para
que as pessoas que estavam na fila esperando um táxi nos deixassem passar
na frente delas, pois era uma emergência.
Momentos depois disso, tudo ficou preto.