Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 4 de 15

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Não Se Humilha, Não

capítulo 2

Droga. Eu sabia que não deveria ter contado do Fábio para a Amanda.

Porque agora, enquanto beijo essa boca carnuda — uma boquinha que beijei

muito durante as férias —, eu só consigo pensar em Amanda Akira revirando

os pequeninos olhos e falando mais uma vez que eu estou me enrolando com

uma pessoa que não tem nada a ver comigo — ou seja, que estou perdendo

meu tempo. Qual era o meu problema? Sério. Além de estar pensando na

minha melhor amiga enquanto beijo o meu possível namoradinho, claro... O

que está acontecendo?

Sabe, eu acho que está tudo bem a gente ficar com uma pessoa nada a ver

às vezes. Nem todas as relações são feitas para serem fortes, duradouras ou

extremamente encantadoras... Em alguns momentos, só queremos nos

divertir, dar uns beijos na boca, sentir algo mais... carnal. Sei lá. Ter alguém

ao nosso lado para ficar em silêncio ou ouvindo uma música, sabe?

O problema do meu lance com o Fábio é que esse silêncio não acontecia

só enquanto ouvíamos música.

É, é verdade que eu e o Fábio não conversávamos muito, mas acreditem,

eu tentei. De todos os jeitos, de todas as formas. Afinal, AMO conversar. Se

tem uma coisa que eu gosto é de tagarelar. De chorar as pitangas. De

desabafar com uma pessoa aleatória no ponto de ônibus. De transformar

taxista em melhor amigo. De conhecer alguém na balada, e já choramingar

contando da minha última decepção. Eu sou expert nisso. Ou, pelo menos,

me considero expert nisso.

Até o Fábio aparecer na minha vida.

E eu não acho que o problema seja apenas meu, afinal, ele não conversa

com ninguém. De início, eu e a galera da turma de inglês achávamos que ele

era apenas tímido. Com o tempo, a timidez acabou virando charme. O garoto

charmoso e quietinho do inglês. E um dia o garoto charmoso e quietinho do

inglês olhou para mim. No outro, me deu um sorrisinho. Então, me pediu um

lápis. Eu estava me sentindo a própria adolescente quando puxava papo com

o crush por bilhetinho. A diferença é que não tinha bilhetinho nenhum. Mas

quem liga, né? Quando a gente quer, logo arruma motivos para se apaixonar.

Um “boa noite” vira declaração de amor e a falta de um “boa noite”, uma dor

no coração.

De lápis em lápis, de olhar em olhar, um belo dia a garota que fazia dupla

comigo faltou à aula de inglês, e então eu e Fábio tivemos que fazer um

trabalho juntos. Finalmente! Nossa, como sonhei com aquele dia. Eu armava diálogos imaginários para o dia em que trocaríamos as nossas primeiras

palavras... Mas, lembrem-se do que eu disse sobre expectativas: não as crie.

Pois, naquele dia em que fizemos o trabalho juntos, falamos apenas o

necessário, fizemos apenas o que tinha que ser feito, e eu já estava até tirando

da minha cabeça esse romance impossível, porque durante a tarefa ele nem

sequer tinha rido de uma piadinha que eu fiz para descontrair. Poxa, sou

sagitariana, sabe? O que custa rir das minhas piadas para me fazer feliz?

Fiquei fazendo beicinho e ele nem tchum. Pensei: “Esse não é pra mim.” E aí

uma pergunta me atingiu como um tiro:

— Quer terminar isso lá em casa? — Então essa era a voz dele. Rouca.

Abafada.

Nossa. Certamente não era a voz que eu imaginava. Mas dava para o

gasto no meu conto de fadas que já estava indo de mal a pior.

— Terminar...?

“Mas a gente já não terminou?”, me perguntei mentalmente. Olhei para o

trabalho, conferindo as páginas de perguntas, e sim, estava tudo finalizado.

Olhei outra vez para ele.

— É. Terminar, pô. — Ele sorriu pela primeira vez, e isso foi o suficiente

para me convencer.

Poxa, assim ficava difícil resistir. Eu aqui doida para me apaixonar,

achando que ele me amava pelo simples fato de me pedir um lápis, então, ele

sorri para mim? Não consegui resistir. Um sorriso para mim, bem naquele

momento, foi como um “te-amo-para-sempre-meu-amor-vamos-ao-encontro-

do-arco-íris”.

O que aconteceu em seguida não é difícil de imaginar. Obviamente, eu

perdi toda a dignidade ali. Queria muito ir para a casa dele “terminar o

trabalho”. Seja lá o que isso signifique. Eu estava preparada.

E aí nós fomos terminar o trabalho.

E terminamos.

Uau.

Que término, viu?

E, desde então, todos os dias depois do inglês, nós terminávamos o

trabalho.

Se é que vocês me entendem.

Ah, não me julga, vai? Eu estava supercarente. O que eu mais queria era

algo que me tirasse da realidade um pouquinho, que alimentasse as

borboletas que já estavam mortas e secas no meu estômago. Elas estavam famintas. Sou uma menina sonhadora. Qual é? Sabe como é difícil sonhar nos

dias de hoje? A gente tenta dar um jeito. Sonha do jeito que dá. Mesmo que

esse sonho não seja tão colorido assim. Mesmo que esse sonho nem seja tão

sonho assim...

 

• • •

 

Desisto de beijá-lo, afasto suas mãos do meu corpo e olho para ele. Não é

possível, sério! Estamos juntos há dois meses. Eu já tinha decorado todas as

pintinhas do rosto dele e já sabia o horário em que ele tomava seus remédios

para ansiedade. Tenho que ser capaz de manter uma conversa com ele.

Eu devo isso a mim.

Eu vou conseguir, sei que vou.

Hoje é o dia.

No fim, sei que ele vai me dizer que foi apenas um trauma de infância

que tirou sua voz, que por isso ela é rouca. E ele fala tão pouco porque suas

cordas vocais foram afetadas, e, quando ele fala, dói. Pobrezinho. Faz todo o

sentido. Eu tenho certeza de que é isso. Só preciso confirmar, vamos lá,

Fábio. Me diga o que eu quero ouvir.

(E depois eu venho aqui dizer para vocês não criarem expectativas. Pff.

Como é difícil, viu?)

— Fábio... Me diz uma coisa, você já namorou alguma vez? — Puxo o

assunto.

— Nem, pô. Eu já te falei — retruca ele.

Droga. Eu tinha que começar logo com uma pergunta que eu já havia

feito? Pensa rápido. Pensa rápido.

— Ahn, é. Esqueci.

Odeio como eu oscilo de pessoa extrovertida para introvertida em

segundos quando estou perto de pessoas que são bastante introvertidas,

pessoas como o Fábio. Fico muito sem graça, parece que estou incomodando.

Odeio me sentir assim. Mas preciso insistir mais um pouco. Eu acredito que

esse diálogo vai sair.

— E por quê? — continuo.

— Porque não.

— “Porque não” não é resposta. — Quando vi, já tinha falado. Infantil, eu sei, porém necessário.

— É, sim.

— Só pra você.

— Uhum.

Silêncio. Como sempre.

— Qual é o seu signo mesmo?

— Nem sei.

— Você é de março, né? Acho que é de peixes. Uma pessoa bem

sensível, deve ser ligado à arte, sonha acordado. Talvez um pouco

manipulador... — Ele me olha com cara de poucos amigos. Definitivamente é

pisciano. Finjo que nem vejo e continuo: — Confesso que até hoje nunca

havia me relacionado com um pisciano. Não sei se a gente combina... Deixa

eu fazer seu mapa astral? É só você me passar a data em que nasceu, o dia, o

mês e o ano, a cidade e... Ah! Como pude me esquecer? Preciso também da

hora exata! — Já fui abrindo meu celular para consultar o site que eu usava

para fazer o mapa astral das pessoas que conhecia.

— Nem curto essas coisas... Vem cá. — Ele tira o celular da minha mão e

tenta me beijar de novo...

“Nem curto essas coisas?” Quem responde isso? É um mapa astral, sabe?

Eu não estou pedindo o garoto em casamento.

Credo.

Ele devia usar um repelente de mulheres.

Talvez funcionasse melhor.

— Você faz o quê? Digo, da vida mesmo. Coisas como trabalho,

estudos... — pergunto e o afasto novamente, bem devagar, claro. Também

não queria que ele pensasse que eu odiava aqueles beijos, porque, poxa vida,

eu adorava. Se tem algo que o Fábio faz bem é beijar. — Aquele dia você

disse que me explicaria, acho que esqueceu... Nunca mais falou sobre isso.

— Trabalho com TI. — Ele revira os olhos. Estava nitidamente

incomodado com o fato de eu querer conversar e não “terminar o trabalho”.

— Não faz faculdade?

— Não.

— Nunca fez? Não pretende fazer? Só pra entender melhor, não estou

julgando, claro.

— Não e não.

— Trabalha com o que exatamente em TI? — pergunto.

— Ah, você não vai entender...

Agora quem revira os olhos sou eu.

Estou tentando aqui, viu?

— E sua família? Você mora aqui com alguém, né? Eu vi um quarto que

fica sempre fechado no final do corredor. Não que eu estivesse bisbilhotando,

ou algo parecido, é só que fui tentar achar o banheiro da primeira vez e pensei

que era naquela porta. Bem, de quem é o quarto? — Tento mais uma vez ter

um diálogo.

— É.

— É o quê?

— Gata, para de me confundir. Você quer fazer algo ou só vai ficar aí

falando? — Ele se senta na cama, ajeitando a calça para cima novamente.

— Eu não estou confundindo você, estou apenas perguntando quem mora

aqui com você.

Silêncio mais uma vez. Agora, ele olha para a televisão, como se eu nem

estivesse no mesmo cômodo que ele.

— Fábio?

— Oi?!

— De quem é o quarto atrás daquela porta?

— Ah, a porta.

— É, a porta.

— Ninguém.

— Ah, tá. Ninguém?

— Uhum. — Ele continua a assistir a um programa de reforma de

caminhão.

Silêncio mais uma vez.

Olha, pra mim já deu.

Visto minha blusa e começo a calçar os sapatos... Pego minha bolsa e

digo, decidida:

— Ah, aqui, está ficando tarde, viu? Eu vou indo. Estou com uma dor de

cabeça daquelas.

Era assim que a gente funcionava, eu sempre tentando elevar nossa

relação para um nível a mais, para algo além do físico, e ele sempre se

esquivando. No final, eu acabo cedendo aos desejos da carne e depois vou

embora. Ou então invento uma dor de cabeça para esconder a tristeza no meu

semblante. Mas, hoje, eu estou decidida a não voltar mais.

— Tá.

Tá. TÁ.

É assim que o garoto que eu estou ficando se despede de mim.

Então era assim que os contos de fada da vida real funcionavam...

 

• • •

 

Chego em casa e encontro minha mãe jantando. Ela me observa curiosa,

enquanto jogo a mochila na cadeira. O cabelo dela está penteado para trás,

preso com uma presilha, sem um fio fora do lugar. A roupa sem nem um

amarrotadinho. Empresária, mãe e coach da minha vida nas horas vagas. Ela

sempre sabe quando eu estou fazendo alguma coisa de que poderia me

arrepender.

Algo dentro de mim se encolhe um pouco, como uma tartaruga entrando

em sua casca. Espero que ela não tenha notado.

— E aí, mãe?! Boa noite. — Puxo uma cadeira e me sento ao seu lado. —

O que tem para comer? Estou com uma fome de leão...

— Onde você estava? — pergunta ela, sem rodeios, me olhando com seus

enormes olhos de jabuticaba.

— Na casa do Fábio — digo, sem hesitar. Eu já havia falado do garoto do

inglês para ela. — Lembra? O menino do meu inglês.

— E isso é um namoro? O que é? — continua ela, ávida para saber de

mim algo que sua intuição de mãe com certeza desconfiava.

— Não, mãe. A gente só tá ficando mesmo — respondo. — Isso é normal

hoje em dia, você sabe. Não é da sua época, mas nos dias de hoje é comum,

inclusive a Mandy também tá ficando com um menino aí... O... — Droga. O

que eu estava falando? O que a Amanda tinha a ver com isso? Deus, dai-me

força, dai-me luz e controle a minha boca, que não sabe o que diz.

— Minha filha... Não estou te julgando... Nunca faria isso — ela se

apressa em dizer —, eu entendo — acrescenta. — Só estou perguntando

como uma amiga... Se ele é alguém que você quer namorar.

— Não mesmo — respondo sem nem pensar.

— Ah, é? E por quê? Ele não é legal?

Penso se devo contar ou não que eu e Fábio não conversamos direito.

Que nossas conversas se restringem a “vamos?”, “vamos!”, alguns beijos e

alguns amassos. E toda vez, toda vez mesmo, que eu tento conversar com ele,

acabo estragando o clima. Se é que existe algum clima.

— Ele é, sim — digo, sem acrescentar nenhum comentário.

— É mesmo?

— Na verdade, a gente não conversa muito.

— Eu já tive um namoradinho assim.

Isso é real? Minha mãe está contando dos seus namoradinhos para mim?

Isso estava mesmo acontecendo? Será que chegou o dia de sentar do lado da

minha mãe, abrir uma garrafa de vinho e falar dos namoradinhos da

juventude? Alô, vida adulta, pode vir! Estou amando.

— E como era? Vocês conseguiram conversar um dia? Namoraram

depois? Teve um final feliz? Conta, mãããe...

Eu amava escutar histórias de quando meus pais eram jovens. Talvez por

só conseguir enxergá-los como adultos cheios de responsabilidades, era

incrível imaginar que um dia foram jovens, assim como eu, pessoas que só

queriam curtir a vida e tinham muitas inseguranças... Isso é algo que me dá

um quentinho no coração. Consigo ver a menina por trás dos olhos da mulher

decidida que minha mãe se tornou. Consigo ver o rapaz rebelde no sorriso

confortante do meu pai. E me identifico com eles. Sou um espelho deles.

— Bem, não. Nunca consegui saber nem onde ele morava!!! — Ela deu

uma gargalhada gostosa.

Eu quase nunca via minha mãe sorrir com tanta vontade.

— Mentira! Então ele era pior do que o Fábio! Não creio! — Sorrio de

volta.

— Imagino que de fato tenha sido muito pior, filha... Nós só podíamos

nos encontrar no dia que a mãe dele ia para a igreja, isso era aos domingos.

Eu encontrava ele nos fundos do pátio da igreja, e a gente se beijava o tempo

todo enquanto a missa rolava. Trocávamos no máximo três palavras por

semana e olhe lá. Tentei de tudo para estabelecer uma conexão com ele,

afinal, nosso beijo combinava muito. Mas acho que algumas pessoas

simplesmente não falam a mesma língua. A gente não encaixava de forma

alguma. Quando percebi isso, parei de ir nas missas de domingo, passou um

mês, conheci seu pai. De cara, eu senti aquela conexão profunda,

conversávamos por horas sem fazer esforço. Só beijo, corpo a corpo, não

mantém duas pessoas juntas. Precisa de algo a mais, entende, filha? E por

isso alguns relacionamentos não funcionam, porque não tem esse elemento de

conexão. E está tudo bem se isso acontecer, meu amor. Está tudo bem se algo

não der certo com alguém. — Ela dá um sorriso reconfortante. — Isso ainda

vai acontecer muitas vezes na sua vida...

• • •

 

É isso. Minha mãe é uma gênia.

Ela conseguiu definir em poucas palavras esse sentimento engasgado, que

habitava dentro de mim. O que era isso? Um beijo tão bom, mas uma

conexão tão fraca... E por que eu me importava tanto assim em me conectar

com as pessoas? Eu juro que tentei, nesses dois meses, ser um pouco mais

carne. Um pouco mais humana. Relaxar e só curtir o momento. Sem planejar

o nome dos filhos ou a música que vai tocar no casamento.

Mas, nessas minhas tentativas de ser quem não sou, acabo me irritando

com uma situação que eu mesma crio.

Não sou essa garota descolada que dá uns amassos com o garoto do

inglês porque ele é bonitinho, porque ele é gatinho. Convenhamos. Quem eu

quero enganar? Isso me incomodava pra caramba. Talvez a Marina fizesse

algo do tipo, afinal, ela adorava falar das festas sertanejas em que havia

beijado mais de dez caras em uma noite.

Eu queria ligar menos para isso. Juro que queria. Porque, quando a

carência batesse, não me importaria em passar dois meses ao lado de alguém

que não se importa comigo.

Mas eu não sou assim.

O fato de ele não se interessar pela minha vida, de não me ver como

alguém digna dos sentimentos dele... Quantas vezes encontramos pessoas

assim no nosso caminho? Machuca. Machuca demais. Começamos a nos

perguntar se não somos o suficiente para nós mesmas, sabe?

Eu não sou boa o suficiente para saber o seu mapa astral? Não sou boa o

suficiente para que você queira andar comigo de mãos dadas no shopping?

Não sou boa o suficiente para você me apresentar aos seus pais? Preciso

sempre sair pela porta dos fundos? Não sou digna de saber um pouco mais

sobre a sua vida? Não sou boa o suficiente para que você me mostre para os

amigos e jure que “pessoalmente sou melhor que nas fotos”? Não sou

suficiente para ser convidada para um jantar, para um show, uma peça de

teatro, o que seja... Não sou suficiente para receber algo mais do que apenas

um carinho físico? Eu não mereço ter a chance de mergulhar nem um

pouquinho dentro de você? Não sou boa o suficiente para tocar a sua alma?

É.

Quando entramos em relacionamentos com pessoas que nos fazem sentir essa sensação de insuficiência, é como se jogar em um poço escuro, sem fim.

Porque você está constantemente tentando ser algo que... não é. Então você

chega ao fundo do poço e pede uma pá, porque precisa cavar um pouco mais

fundo, já que humilhação nunca é demais, né?

Você começa a se questionar se é bonita o suficiente, interessante o

suficiente, inteligente o suficiente para o outro, sendo que o problema não

está em você. Está no outro. Ele não é suficiente. Por isso não se entrega.

Porque ele não tem nada a oferecer. Apenas isso. E você aí, que está se

sentindo insegura e insuficiente, precisa se lembrar de você mesma. Não

deixe de se olhar. Você gosta do que vê? Pois então, vou lhe dizer uma

coisinha: você não precisa preencher requisitos inventados pela outra pessoa

para se sentir bem e completa. Isso não existe!

É como minha mãe disse, e eu complemento. Algumas pessoas

simplesmente não falam a mesma língua. Não se encaixam. Não foram feitas

para durar. São passageiras, nos ensinam algo e vão embora. Ou nem

ensinam nada e isso também é um ensinamento, acredite.

Então o problema não está em você que não conseguiu se encaixar no

outro; o problema está em achar que podemos nos encaixar em qualquer um.

Ou o problema está em você que quer de todas as formas se encaixar em

alguém.

A gente tem que se encaixar na gente. Ser um quebra-cabeça completo.

Daqueles de três mil peças bem complexos, mas que quando terminamos de

montar, são de se admirar. Não adianta tentar cobrir nossos buracos com as

peças de outra pessoa. Tem gente que não tem peça suficiente nem para

formar sua própria imagem, que dirá para nos emprestar alguma peça... Não

somos metades, sabe? Somos inteiros.

A gente só se esquece disso.

Porque é muito mais fácil ser só metade.

Sei que quando tentamos várias vezes e não dá certo vem o sentimento de

insuficiência. De frustração. De que o problema deve ser mesmo você, e não

os outros. Pois te digo, o problema não é de ninguém. Vai dar errado

inúmeras vezes, mais do que você consiga contar nos dedos... E não é culpa

sua.

Bem-vindo à vida. Temos que aprender a enxergar erros e situações sem

sucesso como algo normal e corriqueiro, pois só assim conseguiremos manter

o coração leve para algo melhor que vem lá na frente.

Bem melhor...

• • •

 

Na sexta-feira seguinte, dia do meu inglês, depois que nossa aula havia

acabado, arrumo meu material e percebo que Fábio caminha na minha

direção. Ele me pergunta se eu quero terminar o trabalho na casa dele, como

sempre. Respiro fundo, ensaio as palavras na minha mente e digo sem pensar

duas vezes, que é para não desistir no meio do caminho:

— Acho que acabamos de fazer o trabalho, Fábio.

— Acabamos? — pergunta ele, incrédulo, franzindo as sobrancelhas

finas.

Observo-o pela última vez. Os cabelos enrolados, que iam até os ombros.

Os olhos claros, cor de mel. A barba por fazer, que eu tinha certeza que era

sempre feita de um modo para parecer “desleixado”... Ele era realmente

lindo. Um gatinho, como diria Marina.

Uma pena.

— Uhum — digo, e então me viro para sair da sala.

Espio por cima dos ombros e aceno com a cabeça. Ele acena de volta.

Quem dera se todas as pessoas fossem como o Fábio.

Silêncio até na hora de terminar.

Terminar um trabalho, é claro.