Não Se Humilha, Não
capítulo 11
É aí que tá: eu não esperava um empurrão.
Esperava o de sempre: palavras horríveis, humilhações, gritos e até
alguns socos no ar...
Mas um empurrão foi realmente um choque.
Eu nunca achei que o Gustavo fosse capaz disso.
Quantas vezes eu não repassei as cenas das nossas brigas e justifiquei
com um “mas ele nunca me bateu”? Inúmeras. Parece que isso aconteceu
justamente para me mostrar o que eu já deveria saber: ele não precisa me
bater para que eu me dê conta de que esse relacionamento é tóxico e não
deveria fazer parte da minha vida. Um relacionamento não precisa de uma
agressão para que seja abusivo. O abuso existe nas “pequenas” coisas do dia
a dia. Coisas que vão destruindo tudo que você já foi um dia, para te
transformar em uma pessoa sem brilho nos olhos, sem esperança de um dia
ser feliz novamente.
No meu relacionamento, o abuso aconteceu o tempo todo, todinho.
Apesar das juras de amor, das promessas feitas, das declarações na internet...
Nada disso foi real. Às vezes me lembro de Melina, prima do Gustavo, que
tentou me alertar na primeira vez que fui à casa do tio dele. Todos deviam
saber da personalidade do Gustavo, é claro. Esse não é o tipo de coisa que
você consegue esconder totalmente da família e das pessoas que convivem
muito com você. Sempre há algum sinal, mesmo que pequeno. Me perguntei
se ele tratava a prima assim também. E apesar de saber que seria muito
melhor se eu simplesmente tivesse dado ouvidos a ela, e virado as costas para
ele naquele dia... Como eu poderia saber? A gente só aprende com os erros.
E, convenhamos, nem nas histórias mais loucas eu imaginei que meu
relacionamento fosse acabar desse jeito...
Ele nunca me bateu, mas destruiu todos os meus sonhos, um a um, com
suas palavras de desprezo. Ele nunca me bateu, mas fez com que eu
desacreditasse de mim, pensando que ele era meu salvador, a única pessoa no
mundo que seria capaz de aguentar uma pessoa tão ruim quanto eu. Ele nunca
me bateu, mas por diversas vezes, me fez ajoelhar no chão gelado do
banheiro, chorando, quase tendo um ataque de pânico, enquanto ele gritava
como eu era culpada por fazer com que ele se descontrolasse assim. Ele
nunca me bateu, mas fez questão de me afastar dos meus amigos, da minha
família, de mim mesma. Ele nunca me bateu, mas me fez sentir culpada por
todos os erros dele. Ele nunca me bateu, mas calou a minha voz, minhas vontades, minhas opiniões. Ele nunca me bateu, mas gritava tão alto que meu
corpo ainda dá pequenos sinais de proteção só de lembrar dos descontroles.
Ele nunca me bateu, mas me culpou por sua raiva, suas ações destemperadas,
suas palavras de ódio. Ele nunca me bateu, mas, ao me ver chorando, não me
consolou. Pelo contrário, disse que eu estava me fazendo de vítima, que eu
era um bebê chorão mimado pela minha família. Ele nunca me bateu, mas
tratou mal todas as pessoas que estavam à minha volta, como se, por ter um
laço comigo, a pessoa automaticamente não valesse nada. Ele nunca me
bateu, mas quis me prender em uma jaula, para que eu nunca pudesse ter o
prazer de voar. O amor deve ser livre, sabia? Ele nunca me bateu, mas em um
ano conseguiu transformar meus sorrisos em lágrimas. Ele nunca me bateu,
mas “em nome do amor”, foi destruindo todo o amor que eu sentia por mim e
pela minha vida. Ele nunca me bateu, mas fez com que eu emagrecesse,
perdesse o sentido da vida e deixasse que ele me guiasse e controlasse, pois
me faltava forças. Ele nunca me bateu, mas amar é fazer o outro se sentir
vivo. E ele me fazia morrer um pouquinho a cada dia.
Isso não é amor.
Mesmo que ele diga que é em nome do amor.
As palavras não valem de nada quando contradizem suas ações.
• • •
Sinto alguém me levantando e, quando vejo, Bernardo, Gael, Pedro, Amanda
e um monte de pessoas que não consigo identificar estão em cima de mim
para verificar se estava tudo bem comigo. Faço um joinha com os dedos, tô
bem galera, levanto e abraço meu irmão pelo pescoço, um pouco assustada
com o que estava acontecendo. O tempo parece ter congelado de repente, e
tudo passa a acontecer com a rapidez da velocidade da luz. Olho de relance
para o Pedro e vejo os olhos azuis em chamas. Ele ajeita a camisa preta,
respira fundo, e parte para cima do Gustavo. Meu coração devia estar a 160
batimentos por minuto, sem brincadeiras.
— VOCÊ É MALUCO?????? O QUE DEU EM VOCÊ, CARA? ACHA
QUE PODE ENCOSTAR EM ALGUÉM ASSIM?
Pedro Miller berra na cara do Gustavo, a apenas alguns centímetros de
distância. Gael, Amanda, amigos meus de faculdade e mais alguns desconhecidos se posicionam ao lado de Pedro e formam um cerco em volta
do Gustavo. Me escondo atrás do Bernardo, envergonhada com a cena que se
forma... por minha causa.
Caramba.
Ainda bem que eu não tenho o sonho de ser popular, viu? Porque é cada
uma que eu passo... Respiro fundo. Conto até dez. Vai passar. Esse inferno
vai passar. Sei disso. Pontos finais não são fáceis. E hoje eu daria um ponto
final de vez nessa loucura. Estava decidida.
Gustavo Ferreira se mantinha impassível, pasmem. Ele inclina a cabeça
para trás, levanta o queixo e empina o nariz, todo cheio de marra. Pelo que eu
conhecia do Gustavo, ele queria que o Pedro batesse nele. Ele adora uma
confusão. Porém, conhecendo o Pê, sabia que ele não encostaria um dedo no
Gustavo.
Pedro não precisava disso para acabar com ele.
Não mesmo.
— Ela é minha namorada, acho que ela pode muito bem conversar
comigo sem ninguém se intrometendo... Foi só um empurrãozinho. Ela nem
se machucou, olha ali. — Ele aponta para mim.
Alguns dos caras ameaçam ir para cima do Gustavo. E Pedro pede para
que todos fiquem onde estão.
— DESDE QUANDO ISSO É UMA CONVERSA? ELA NÃO SE
MACHUCOU? VOCÊ É LOUCO, MERMÃO? — Ok, Pedro usou mesmo o
termo “mermão”. Definitivamente seus chacras não estão alinhados. —
BATER NAS PESSOAS NÃO É NORMAL E VOCÊ NÃO TEM ESSE
DIREITO. QUER QUE EU CHAME A POLÍCIA AQUI PRA TE
CONFIRMAR ESSA INFORMAÇÃO? TALVEZ VOCÊ TENHA
PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM.
Pedro Miller está descontrolado. Acho que nunca vi o Pedro assim.
Parecia outra pessoa, surreal. Ele passa as mãos nos cabelos negros e
bagunçados, incrédulo com o que vê. Ai, ai. Se ele soubesse de metade do
que passei no meu relacionamento... Já tinha jogado os chacras para o alto e
batido na cara do Gustavo ali mesmo.
— Seguinte... Qual seu nome mesmo? — Gustavo chega mais perto com
os olhos semicerrados, desafiando Pedro e claramente debochando da
situação. — Pablo? Pedro? Ah, é. Pedro... — Ele dá um tapinha teatral na
testa. — Eu e minha namorada vamos nos entender, como sempre fazemos.
— Ele olha para mim. Desvio o olhar. — E você vai continuar sendo o amiguinho dela, que ela nem lembra que existe na maior parte do tempo... —
Pedro me olha por um segundo. — Já pode parar o showzinho de bom moço.
Ela não se machucou, está tudo bem com a gente... — Gustavo me olha
novamente com a cara mais lavada do mundo, e então continua: — Não é,
amor?
Todas as cabeças se viram para mim.
Neste momento, tenho três opções: 1) deixar que o medo me domine
(sim, eu estou com muito medo), concordar com o Gustavo e permitir que ele
continue a exercer esse domínio maluco sobre mim; 2) passar por cima desse
medo, respirar fundo e dizer o que realmente penso disso tudo; 3) correr para
bem longe dali.
Nem preciso dizer que eu queria correr, né? Pois é.
Mas todos sabemos que eu preciso amadurecer e tomar uma decisão.
Fugir dos nossos problemas é como correr em círculos. Uma hora você vai se
cansar, parar para respirar e seus problemas te atropelarão como um
caminhão desgovernado. É preciso parar e enfrentar de cabeça erguida o que
quer que esteja atormentando você. Mesmo que saia machucado, mesmo que
algumas cicatrizes permaneçam com o passar do tempo, mesmo que seja uma
experiência horrível e que você queira apagá-la da sua mente... É
aprendizado.
Vamos lá.
— Não, Gustavo. Inclusive, antes de você me empurrar eu estava dizendo
que me arrependo amargamente de um dia ter me relacionado com você.
Ele abre a boca para me interromper, surpreso com minha ousadia. Pedro
Miller faz sinal para ele se calar e me deixar falar. Ufa. Finalmente eu posso
falar. Finalmente eu consigo falar.
— Você não quer ouvir o resto, né? Sabe muito bem o que vem em
seguida — prossigo. Ele continua de boca aberta, incrédulo. — Acabou,
Gustavo. Eu não quero mais e não há nada que você possa fazer.
Na mesma hora, Bernardo segura meu braço, me encorajando e me
apoiando.
— Ah, e mais uma coisa... — Tomo fôlego e continuo: — O Pedro não é
um amiguinho que eu nem lembro que existe... Muito pelo contrário. Ele é
meu melhor amigo, e também é melhor que mais uma coisa, sabe o quê?
Você. Ele sabe como tratar uma mulher. Vê se aprende. Você é horrível,
simplesmente horrível. Não sabe o quanto me sentia infeliz ao seu lado. E é
isso, Gustavo, eu não aguento mais — digo com a voz firme. Meu coração bate mais que uma bateria de escola de samba desenfreada. — Não vou
denunciar essa agressão e em troca disso eu quero PAZ... Sério. Me esquece.
Mesmo. — Foi a última coisa que eu disse, olhando bem nos olhos dele.
Ele precisava entender que eu tenho voz e, mais do que isso, tenho
vontades. E essa é a minha vontade. Depois de tanto tempo sem conseguir
dizer o que eu penso... Sinto como se tivesse tirado um pano seco de dentro
da minha garganta.
— Ouviu o que ela disse, moleque? — Pedro encosta na jaqueta vermelha
de Gustavo com o indicador. Ousado. Eu não chegaria tão perto. — Esquece
que a Isabela existiu um dia e toma seu rumo, bem longe daqui. Se você
chegar perto dela mais uma vez, uma vez só... — Pedro se abaixa um pouco
para falar a última frase bem perto do ouvido do Gustavo. — A gente não vai
ser tão pacífico, não... Eu tenho um amigo promotor que adoraria te colocar
no xadrez...
Gustavo arregala os olhos, demonstrando medo pela primeira vez. A
família Ferreira não poderia suportar um escândalo desses. A reputação deles
valia mais do que a fortuna que tinham, pode apostar.
— Não, pô... Que isso... Eu não tive a intenção, foi sem querer... Eu... —
Gustavo tropeça nas palavras e dá alguns passos para trás... intimidado. Uau.
Boa, Pedro Miller. — Isabela, me desculpa, de verdade... Eu não quis te
agredir, nem machucar... Eu só estava com medo de te perder... Eu te amo
muito... Poxa, Isa... Desculpa mesmo...
Engulo em seco diante dessas últimas palavras. Até quando ele vai dizer
que faz tudo em nome do amor? Meu Deus! Gustavo precisava de um
psicólogo para ontem.
— Sério, cara... CALA A BOCA. — Bernardo fala pela primeira vez,
quebrando o silêncio da multidão que aguardava ansiosa por um desfecho.
Olho espantada para o meu irmão. — Espero que você não chegue mais perto
dela. Estamos todos de prova sobre o que você fez com ela hoje, e sabe-se lá
o que mais você fez com ela durante todo esse tempo de namoro. Sei que ela
quer te perdoar e ficar em paz — ele lança um olhar piedoso para mim —,
mas o certo seria ir na delegacia e denunciar a sua agressão. Vou respeitar a
vontade da minha irmã, mas você fica ligado, cara. Fique longe da minha
irmã, longe da minha família, longe de todos nós... E, por favor, sai da minha
frente e para de falar merda. Porque quanto mais eu vejo sua cara de palhaço,
mais tenho vontade de perder toda a minha razão e te quebrar em mil
pedaços. Sai daqui. SAI!
Eu disse que meu irmão era pacífico, sei disso. Mas se tem algo que tira
ele do sério era mexer com sua irmã mais nova, no caso, euzinha aqui. Nós,
os Freitas, nos defendíamos com unhas e dentes.
Gustavo engole em seco suas desculpas, vira de costas e se prepara para
sair de cena, quando Pedro diz as últimas palavras:
— E mais uma coisinha... Você disse que estava com medo de perder a
Isa, não é? — Gustavo se vira e assente com a cabeça. Meio sem entender o
que viria depois dessa pergunta. — Mas a Isa não é posse sua nem de
ninguém. Talvez seja esse seu erro, Gustavo. Você tem que cativar as pessoas
para que elas fiquem ao seu lado, e não obrigá-las a ficar. — A multidão que
se juntou para ver a cena urra com essas palavras. Alguns batem até palmas.
— Ah, e que você nunca mais encoste o dedo em uma mulher. Na verdade,
não encoste o dedo em qualquer pessoa. Aprenda a amar de verdade.
Pedro Miller se vira e, sem falar comigo nem com mais ninguém, sai
andando sem direção. Desnorteado.
A galera vai à loucura e, então, algo inesperado acontece. As pessoas que
tinham se juntado para acompanhar a briga começam a gritar as mais diversas
ofensas direcionadas ao Gustavo. Algumas delas jogam copos de plástico
nele. Consigo distinguir algumas frases: “Sai daqui, seu merda”, “Bate em
mulher, a gente vai bater em você pra ver o que é bom”, “Agressor, covarde”,
“Filhinho de papai mimado”. As outras pessoas da festa, que até então não
tinham visto o empurrão, começam a perceber que alguma coisa estranha está
acontecendo e, de repente, todos estão comentando sobre o Gustavo. Uns
colocam a mão na frente da boca para cochichar, chocados com o fato de que
Gustavo Ferreira, “o namorado perfeito”, fora capaz de me agredir, outros
partem para cima dele para dar uma lição aos socos e pontapés. A confusão
ganha proporções gigantescas e a organização da festa perde totalmente o
controle. O DJ para a música e tenta entender o que está acontecendo na pista
de dança. Vejo Guta, a representante da nossa sala, correndo para chamar os
seguranças para conterem as pessoas. Os seguranças chegam e convidam
Gustavo a se retirar da festa. Ele sai escoltado por três homens e, à medida
que ele passa pelas pessoas, ouve mais ofensas.
Respira, Isabela, respira.
Você não é culpada por isso.
Você não é culpada por nada.
Acabou.
Difícil se livrar do sentimento de culpa quando ele fez parte da nossa vida por tanto tempo... Que loucura isso. Tirar as algemas e ainda assim sentir o
peso delas nos nossos pulsos. Mover os pés e lembrar das pesadas correntes
que me mantinham presa. Respirar sem o nó na garganta e sentir o ar invadir
meus pulmões depois de tanto tempo sufocada.
No fundo, acho certo que o Gustavo seja retirado da festa, até porque eu
não acredito que as coisas devam ser resolvidas na porrada. O que é um
pouco irônico, porque lááá no início do nosso relacionamento, quando
Gustavo partiu para cima do Fábio (lembram? O cara do inglês?), eu deveria
ter percebido que ele é uma pessoa agressiva e que acha que tudo se resolve
com socos. Mas eu não percebi. E tudo bem, a gente se ilude até com filme,
por que não vai se iludir na vida real também, né? Interpretei os fatos da
forma que minha mente que adora contos de fada achou melhor: ele era meu
salvador e estava lá para me salvar.
Uau.
E tudo termina exatamente do jeito que começou.
Que poético.
Me viro para o meu irmão, que continua de mãos dadas comigo.
— Bê, obrigada por tudo. Sério. — Dou um beijo no rosto dele e o abraço
forte.
— Tô aqui com você pra tudo, pequena. Homem nenhum no mundo vai
te diminuir, ouviu? Você é pequenininha de tamanho, mas é gigante aqui. —
Ele aponta para o meu coração. Dou um sorrisinho. — Nunca vou me cansar
de dizer isso. Eu te amo muito. Curte sua festa agora com seus amigos, ou se
você quiser ir embora... Você que manda. Só me dizer.
— Acho que quero aproveitar... Tem tanto tempo que eu não sei o que é
me sentir leve, livre, sem qualquer coisa pra me prender, me cobrar... Como
eu pude... Poxa... Fico até envergonhada por isso tudo — digo.
— Não se sinta assim... Isso é viver! A gente erra, Isa. E vão errar com a
gente. Mas temos que levantar a cabeça e continuar vivendo. Essa é nossa
missão. — Bernardo dá um sorriso para me encorajar. — Cadê minha irmã
destemida que quando era pequena disse que me defenderia da Fera da Bela e
a Fera? Hein? Hein?
Dou uma gargalhada. Meu irmão morria de medo da Fera. Pois é. E uma
das memórias mais engraçadas da nossa infância (ok, só nós dois achávamos
engraçado) é que no auge dos meus 6 anos eu falava que ia defender o
Bernardo da Fera. E toda vez que ele chorava (tipo, toda mesmo), eu achava
que era por causa da Fera. Uma vez, ele caiu e teve que tomar ponto no queixo, e eu jurei que tinha sido a Fera que havia feito aquilo com ele. Desde
então, sempre que acontecia algo ruim com meu irmão eu falava: “Relaxa, eu
te defendo da Fera.” Nós sempre ríamos lembrando disso, porque a Fera
acabou se tornando uma metáfora para tudo de errado que acontece em
nossas vidas.
— Posso só te pedir uma coisa? — começo. — Não conta pra mamãe e
pro papai ainda. Por favor. — Bernardo concorda com a cabeça. — Eu
preciso estar 100% para poder contar isso a eles. Não tô afim de falar sobre
isso no momento...
— Relaxa, mana browwww — ele me chama pelo nosso apelido
carinhoso de irmãos. — Eu jamais contaria pra eles, isso cabe a você e só a
você. Vai aproveitar sua festa, vai. Esquece isso. — Ele olha para a Amanda,
que está à minha espera a alguns metros dali, encostada em uma árvore. —
Sua amiga está preocupada com você. Pode ir curtir. E, quando quiser ir
embora, só me chamar.
Me aproximo da Amanda, ela segura um copo de plástico todo amassado
e picotado. Conhecendo minha melhor amiga, sei que ela está ansiosa e
nervosa com tudo que tinha acontecido e estava descontando no pobre copo.
— Isa... Você está bem? Deus! O que foi isso? Eu estou tremendo até
agora... — Ela me mostra suas mãos tremendo um pouco.
Dou um abraço nela e mostro as minhas.
— Eu também estou tremendo, ó... — Ela ri de mim, nervosa. —
Desculpa por não ter te escutado lá no início. Você sempre me alertou, você
sabia que isso ia acontecer... Eu... — o choro vem na garganta — Eu te amo,
amiga. Obrigada por continuar ao meu lado no momento em que mais
precisei. Você é a melhor amiga de todas.
Ela me encara com seus olhinhos puxados. Eles brilhavam, Amanda
queria chorar, sei disso.
— Não sou... Eu te abandonei por tanto tempo... Eu tinha que ter ficado
ao seu lado, como Pedro ficou... Eu falhei com você, Isa. Falhei — ela segura
as minhas mãos com força —, mas não vou falhar novamente. Te prometo.
— Mandy, relaxa. Eu tenho certeza disso. A gente falha, ora, afinal
somos seres humanos. Eu falhei com você, você falhou comigo. Mas o que
temos — dou tapinhas no peito dela — é de verdade, é de coração. Eu sei
disso. Esse tempo que ficamos afastadas só nos fortaleceu. Nunca mais vai
acontecer.
Estendo o dedo mindinho para ela.
— Dedinho? — Ela sorri, limpando as lágrimas que caíam sem pedir
licença.
— Dedinho.
Demos os nossos dedinhos.
— Cadê o Pedro? — pergunto.
— Eu o vi descendo o caminho para o lago da Fazenda. — Ela dá de
ombros.
— Mas pode ir pra lá? Digo, geralmente, quando rola essas festas, eles
não deixam que ninguém vá para o lado de lá... Tem até um segurança ali na
frente do caminho que desce para o laguinho. — Indico o cara alto de terno
preto que está parado no caminho sinuoso que dá no lago.
— A gente só vai saber se tentar.
Amanda me puxa pelo braço e me arrasta até o tal segurança.
Estranhamente, ao notar nossa aproximação, ele sorri para nós duas e diz:
— A japonesinha e a loirinha... Sim, sim... O Pedro já acertou comigo —
diz ele, mal mexendo a boca e sem olhar para nós. — Podem descer. Só
esperem um pouco para que ninguém veja que vocês estão descendo.
O segurança continua olhando para a frente como se a nossa conversa
nunca tivesse existido. E não, não me surpreendo muito, porque é óbvio que
o Pedro já devia ter feito isso antes com as garotas que ele ficava, quero
dizer, toda vez que ele sumia, a gente ficava se perguntando onde é que ele
tinha ido... Agora, sabemos onde ele se escondia. Esperamos alguns
minutinhos e o DJ, para nos ajudar (ok, foi só uma coincidência, mas me
deixa sonhar), coloca um funk que faz a pista explodir. É o momento. Olho
para Mandy, ela assente. Ninguém está olhando para nós. E, então, nos
enfiamos na trilha estreita no meio das árvores e começamos a descida.
— Imagine só a Dafne, lembra dela? Ela saía de salto fino todas as vezes
que ia encontrar com o Pedro. Imagina, Mandy, ela descendo essa trilha. —
Quebro o silêncio, depois de já estarmos afastadas do movimento da festa.
Amanda vai na frente, pisando em alguns galhos que estavam no caminho
e me avisando dos troncos de árvore que aparecem no chão hora ou outra,
porque é a minha cara cair com a fuça no chão e fechar a festa com chave de
ouro, dentro do Samu.
— Sério! É inacreditável pensar que o Pedro traz as garotas pra cá. Essa
trilha não é nada romântica. — Mandy se diverte com minha suposição sobre
Dafne.
— Mas o Pedro não é nada romântico — constato.
— Ah, quando ele quer, é sim... — rebate Mandy.
— Euzinha, Isabela, nunca vi.
— É porque você é cega. — Ela ri de mim.
Não entendo a graça e, sinceramente, estou preocupada demais em chegar
viva até o fim dessa trilha para entender.
Tudo bem que quando eu era mais nova, eu fazia altas trilhas perigosas
de Jeep com o meu pai e minha família. Mas é aquela coisa, criança não tem
noção do perigo. Agora tenho um pouquinho mais de noção, pelo menos é o
que eu acho. E se uma cobra aparecer? Um jacaré, céus, um jacaré. Já era.
Adiós. Não sobra ninguém para contar a história. E se aparecer uma onça?
Nossa, pode aparecer uma onça.
Começo a rezar.
Rezo em silêncio até o fim da trilha e, quando chegamos ao final,
deparamos com uma linda visão do lago da Fazenda Azul.
Uau. É lindo.
Se valia a pena passar pela trilha do horror para chegar aqui? Com
certeza, não.
Mas que é lindo, é.
Aqui a natureza está em completa harmonia. O lago de águas escuras,
devido ao breu da noite, reflete a luz da lua e os eucaliptos que cercam toda a
fazenda. Escuto o coaxar de muitos sapos, em coro. E tenho certeza de que as
luzes que sobrevoam as margens do lago são vaga-lumes. As luzes vão e
vêm, nos hipnotizando de uma forma sutil. Eu nunca tinha visto um vaga-
lume na minha vida e, pela cara da Amanda, ela também não.
Talvez a descida do terror tenha, sim, valido a pena. Dafne, eu te entendo,
amiga.
Procuro algum sinal do Pedro e não vejo nada. O lago tem um deque de
madeira com uma casinha bem pequena na ponta, que provavelmente é uma
espécie de bangalô para as pessoas se sentarem e admirarem a vista. Mas
como Juiz de Fora é bem fria na maior parte do ano (ô, se é!), é impossível
ficar em um bangalô em dias de muito vento (por ser aberto, né?). Talvez por
isso a ideia da casinha.
Vemos uma luz vindo lá de dentro, e Mandy assente com a cabeça. Pedro
está ali nos esperando, sentado em um sofá. Abrimos a porta da casinha e
deparamos com a seguinte cena: Pedro Miller está sentado em frente a três
garrafas de tequila, o rosto enfiado nas mãos, olhando para baixo. Ele não
percebe que estamos ali.
— Pê? — chamo, com a voz baixa.
Ele levanta a cabeça, os olhos azuis estão vermelhos e úmidos. Pedro
Miller está chorando?
— Pedro... Que isso...
Eu sento em um lado do sofá e Amanda do outro. Ela abraça Pedro pelos
ombros e eu pego sua mão esquerda.
— Calma, Pê. Já passou. A Isa está bem, olha só. — Mandy me olha,
encorajando que eu desse algum sinal de que estava tudo bem.
— É! Eu tô, olha só. — Dou um sorriso e balanço meus cabelos loiros. —
Já estou até jogando o cabelo pro alto.
Ele respira fundo e continua com o olhar vago.
— Isso me matou, Isa — diz ele, com a voz seca e surpreendentemente
embargada.
Me encolho. A culpa. Ela não iria me abandonar? Ele percebe meu
sobressalto e se vira para olhar dentro dos meus olhos.
— Você não tem culpa de nada, tá? — Ele se apressa em dizer. Os olhos
azuis reluzem na luz amarela fraca, vinda de uma lâmpada pendurada por um
fio na casinha do lago. — É só que... ver o jeito que aquele cara te tratou...
Caramba, Isa... doeu tanto que parecia que estavam tirando um pedaço de
mim.
— Desculpa, eu... você não sabe como me envergonho disso tudo que
aconteceu... — As lágrimas começam a cair. Claro. Quando elas não caem?
— Eu só queria amar e ser amada, não é isso que todos queremos? Então, eu
tentei de tudo para o relacionamento dar certo e, por um tempo, eu achava
que estava, sim, dando certo. Mas o que é certo e errado, não é mesmo? O
que importa é a forma como nos sentimos... Eu demorei pra perceber isso. Eu
sei! Demorei! Eu me sentia horrível todos os dias. O tempo todo. Eu engolia
tantas coisas que não sobrou espaço para mais nada. E eu afastei todos que
gostavam de mim, você foi a pessoa que eu menos afastei. — Ele assente. —
Mas, mesmo assim, precisei me afastar. Só assim eu poderia viver minha
loucura sem ninguém pra me dizer que eu só poderia estar louca. E eu estava.
Vivi minha loucura e, no fim, tive que ser sã para perceber isso. Como diria
Júlio Cesar... — Pedro e Amanda arregalam os olhos, certamente não
entendendo aonde eu queria chegar. — O imperador romano, sabem? — Eles
concordam com a cabeça. — Bem, ele disse: “Vim, vivi e venci.”
— Na verdade, Isa, é “Vim, vi e venci” — corrige Mandy. É mais forte
do que ela. Sei bem. Amanda Akira sabe que eu erro todas essas frases famosas, mas o que ela não esperava é que dessa vez eu havia errado de
propósito.
— Eu sei, mas eu vivi. Eu não só vi e venci. Eu precisei viver, me
quebrar em mil pedaços, para no final, vencer. Agora eu estou aqui, com
meus caquinhos na mão, envergonhada de ter feito vocês dois passarem por
isso... Mas também estou pedindo um pouquinho de cola, de ajuda para
conseguir juntar todas as minhas partes... Não vai ser fácil, mas eu vou voltar
a ser quem eu era, só que melhor ainda... Quero dizer, não sei se vou ser
melhor, melhor... Mas eu juro que... O que eu estava falando mesmo?
Pedro sorri para mim, enxuga os olhos ainda úmidos, e consigo sentir seu
perfume amadeirado exalando da camisa preta.
— Não precisa mais se justificar, branquela. Não pra gente. Estamos aqui
pra colar seus caquinhos quantas vezes for preciso. Me desculpa o
descontrole, me desculpa por chorar na sua frente... Mas é que me doeu
muito. Vim pra cá porque não saberia como continuar na festa. Minha cabeça
está explodindo.
— Ah, Pedro... para, né? Você é o herói da noite — provoca Mandy,
empurrando Pedro para cima de mim.
Entro na brincadeira, falando com uma voz que eu imagino ser sexy.
— Meu herói! Tem melhor do que esse? Fiquei esperando que ele
rasgasse a camisa ali mesmo, tipo o Jacob de Crepúsculo. — Finjo que estou
sentindo calor, me abanando com as duas mãos.
— Duas bobas... Eu mereço vocês, né? — Ele me olha com um meio
sorriso, convencido.
— Merece e merece muito. — Mandy puxa uma das garrafas de tequila,
abre e toma um gole sem nem fazer careta. — Pois somos as melhores
amigas do mundo.
Pedro e eu olhamos para ela, assustados.
— O que foi, gente? Essas garrafas não vão acabar sozinhas — justifica
ela, dando de ombros.
— Amanda, você sabe que elas já estavam aqui quando eu cheguei, né?
Ela arregala os olhinhos com a garrafa ainda em mãos.
— Não são minhas. Alguém deve ter deixado aí... — explica Pedro, em
meio a uma gargalhada. — Mas, ah, e daí? Passa isso pra cá. Hoje todos nós
podemos beber umas doses.
Ele vira um gole da garrafa de José Cuervo. No gargalo. Sem limão, sem
sal, sem nada. Olho de um para o outro, ainda sem acreditar.
— Gente... Essas bebidas não são nossas, vocês nunca escutaram que não
se deve beber bebidas de estranhos? Pois é. Tem um motivo pra isso. É
perigoso.
Pedro Miller estende a garrafa para mim.
— A gente abriu agora. Estava lacrada. Vai querer? Se não quiser, tudo
bem. A gente pode ficar aqui só conversando também. — Ele tira o maço de
cigarro do bolso e acende o primeiro da noite.
Olho para o Pedro, depois para Mandy. Os dois me observam e aguardam
em silêncio. Querendo ou não, a garrafa em minhas mãos representa muito
mais do que “ficar alegre” ou “bêbada” com meus amigos. Representa a
minha liberdade. Do lado do Gustavo, eu não podia beber nenhum tipo de
bebida alcoólica, simplesmente porque “mulher bêbada é feio demais”. E
olha que eu nem gosto de bebidas alcoólicas, hein? Mas até nisso ele tinha
que mandar. De vez em quando, ele permitia que eu bebesse um copo ou dois
de prosecco com a família dele (afinal, como ele explicaria para a mãe que
não me deixava tomar decisões por conta própria?), mas tudo, claro, sob
supervisão dele. Depois, eu ainda tinha que aguentar provocações do tipo “Tá
falando merda assim porque tá bêbada, viu? Por isso que não gosto que você
beba”. Mas ele podia beber sempre que quisesse. E eu tinha que aceitar,
porque eu era a louca descontrolada, e ele o lorde que estava me ensinando os
bons modos que uma garota deveria ter.
Viro um gole da garrafa.
Era muito ruim. Muito. Ruim do tipo eu-queria-arrancar-meu-estômago-
fora-só-pra-não-sentir-isso-dentro-de-mim. E aí me lembrei da última vez que
bebi tequila, há quase dois anos, na fatídica festa do É o Tchan. No dia que
dei o primeiro beijo no Gustavo. Mais uma vez, poético. Tudo acabando
como tinha começado. Depois dizem que minha vida não é um filme.
Viro mais um gole, e entrego a garrafa para o Pedro.
— Uau. Vai com calma, princesa. Você é fraquinha, sabe disso.
Pedro Miller aperta minha bochecha, dá mais um gole e passa a garrafa
para Mandy.
— Hoje a Isa pode tudo. — Mandy pisca para mim. — Que tal se a gente
brincar de Verdade ou Desafio? Hein? Hein? Vamos?!
Pedro me encara, procurando uma resposta. Faço que sim com a cabeça.
Amanda se empolga e já se posiciona no chão, em volta da mesinha de
centro, que era o único móvel da casinha do lago além do sofá em que
estávamos sentados.
— Vem, senta aqui, gente. No chão é bem mais legal. Vamos relembrar
as regras, como somos três, eu pergunto para o Pedro, Pedro pra Isa, Isa pra
mim. Depois invertemos. Eu pergunto pra Isa, Isa para o Pedro, Pedro pra
mim. Fechou?
— Aí se eu não quiser responder à pergunta... — questiona Pedro,
enquanto ajeita os cabelos negros. — Eu bebo um gole da garrafa. É isso?
— Isso mesmo — concorda Mandy.
— E se eu responder não preciso beber, né? — pergunto.
— Certo — concorda ela mais uma vez.
— E onde entra o desafio? — indaga Pedro.
— Ah, me esqueci! — Ela dá um tapinha na testa. — Se você não estiver
aguentando beber mais, você tem que cumprir um desafio. Vamos lá?
Amanda Akira começa a brincadeira.
— Pedro, é verdade que durante as festas da faculdade você trazia suas
ficantes para esta casinha?
Pedro sorri, a cicatriz na bochecha esquerda se mexe. Sei que ele se
diverte quando demonstramos curiosidade por sua vida amorosa. Não que ele
não nos contasse sobre seus casos, ele até contava. O problema é que tudo é
movimentado demais e, ah, a gente não precisava de tantos detalhes, não é?
Ele olha para mim, então para a Mandy, olha para a garrafa e, então,
responde:
— É verdade. — Ele se dá por vencido. — Já trouxe várias garotas aqui.
É bem melhor do que a festa, vai dizer?
— A Dafne já veio aqui? — pergunto sem pensar duas vezes.
Eu quero saber, eu preciso saber se a Dafne tinha descido aquela trilha de
salto. Não sei por que isso importa tanto agora, mas fazer o quê. Nem sempre
entendo meus sentimentos.
Pedro se vira para me olhar mais de perto. Então ele se inclina sobre a
mesinha e se aproxima do meu ouvido. Sinto sua respiração quente
quebrando o frio da noite gélida.
— Na sua vez, você poderá me perguntar, branquela.
Droga. Eu não gastaria uma pergunta com a Dafne. Sabe-se lá quantas
rodadas eu duraria nesse jogo, afinal, quando junta tequila e Isabela na
mesma frase, sabemos que uma das duas perderá feio.
E sempre sou eu.
Pedro me analisa da cabeça aos pés. Acho que está pensando no que me
perguntar.
— Você já mentiu pra mim? — dispara.
Me lembrei do dia do parque de diversões, quando menti sobre uma coisa
besta, sim, mas menti. E tinha sido a primeira vez em anos de amizade que eu
menti para o meu melhor amigo. Pareceu besta, foi besta, mas doeu. Em mim
e nele. Porque, eu sei, ele tinha percebido no ato e devia estar preocupado
com o que eu estava me tornando “em nome do amor”.
Então eu bebo um gole da garrafa.
Não estava a fim de falar sobre isso.
Ele belisca minha barriga com a ponta dos dedos e diz baixinho só para
eu ouvir:
— Eu sei, eu sei.
Me viro para a Amanda.
— Você se apaixonou esse ano, Amanda Akira?
Ela bebe, com um sorriso misterioso no ar.
— POR QUEM? AMANDA! — Eu dou um gritinho.
Ela continua a sorrir misteriosa e desconversa.
— Isa, se você tivesse que namorar alguém da nossa sala da faculdade...
Com quem você namoraria? — pergunta ela.
— Com o Pedro, ué — respondo sem nem pensar.
Pedro me olha surpreso, as sobrancelhas arqueadas, a boca aberta. Mandy
abre um sorriso e balança a cabeça em sinal de afirmação, claramente
satisfeita com a resposta.
— Fico honrado, branquela. Sinceramente, eu achava que você me
achava mulherengo demais pra você...
— E eu acho. Mas eu não tinha lá opções muito boas na nossa sala, né?
— provoco.
Ele morde os lábios e sorri.
— Pedro, você já se apaixonou? — finalmente pergunto.
Eu sempre quis perguntar isso para o Pedro. Na verdade, acho que já
perguntei algumas vezes, mas ele nunca chegou a me responder de verdade.
Ele puxa a garrafa e dá um gole demorado.
Entendi isso como um “sim”.
Poxa vida, por quem?
— Amanda, qual foi a coisa mais desprezível que você já fez? —
questiona Pedro.
— Acho que pegar meu próprio cocô com a mão e jogar pela janela,
quando estava na casa de um amigo. A descarga estava quebrada. E não, não foi na casa de vocês.
— Hummm, seria esse amigo a pessoa por quem você se apaixonou esse
ano? — interrompo.
— Claramente a Isa não sabe brincar de Verdade ou Desafio, acho que
ela se daria melhor com o jogo Detetive. O que você acha, Mandy? — brinca
Pedro, e então acende mais um cigarro.
Reviro os olhos. Droga. Eu só estava curiosa, será que uma garota não
tem esse direito?
— Minha vez — recomeça Amanda. — Pedro, onde foi o lugar mais
inusitado que você já transou?
Ele para por alguns segundos, traga o cigarro, expira a fumaça.
— Na escada do meu prédio.
Amanda e eu ficamos boquiabertas. Na escada do prédio? Sério? Não,
não. Forcei meu cérebro a não tentar imaginar essa cena em hipótese alguma.
Pedro nu. Dafne joga os saltos pelos degraus da escada. O sutiã dela deve ser
de renda vermelha. Pedro a puxa pelos cabelos e... NÃO!
Balanço a cabeça algumas vezes e sinto a tequila fazer meu mundo girar.
— E foi com a Dafne — completa Pedro Miller, com um sorriso sacana
no rosto.
Balanço de novo a cabeça, na tentativa de fazer a cena grotesca
desaparecer dos meus pensamentos.
Pedro se vira para mim, decidido.
— Você realmente não recebeu a mensagem que eu te enviei quando
estava no Canadá? — Ele estreita os olhos e espera minha resposta.
Eu paro por alguns segundos, tentando entender que tipo de pergunta é
essa. Mensagem? Canadá? Peraí... Nas férias do ano passado Pedro foi para o
Canadá, sim, sim, eu lembro. E ele havia me dito que tinha me enviado uma
mensagem, mas que não havia chegado, é isso? Por que agora? Por que gastar
uma pergunta da brincadeira com isso? Por que isso tem tanta importância?
— Não, não recebi — respondo, e dou de ombros, ainda sem entender a
pergunta.
Quero perguntar o porquê disso tudo, mas eu sairia da regra da
brincadeira mais uma vez. Esperaria a minha vez e, aí, perguntaria.
— Amanda, quem é o cara misterioso? — pergunto.
— Aquele Victor... Lembra? O intercambista que passou um mês na casa
da minha tia e que a gente tipo, odiava. — Ela solta uma gargalhada e toma
um gole de tequila apenas por beber, já que tinha respondido à pergunta que fiz. — Ele voltou para Juiz de Fora apenas por algumas semanas, veio visitar
minha tia, meu tio, matar a saudade da família que o recebeu de braços
abertos... E a gente acabou se aproximando. Tipo, muito. — Ela sorri e joga o
cabelo liso para trás. — Ai, foi perfeito, sério. Queria que ele não morasse tão
longe... Quem sabe isso não muda?
Victor mora em Portugal. Lembro muito bem quando ele chegou falando
várias coisas em português de Portugal e passou dias nos obrigando a ensiná-
lo a falar palavrões no português do Brasil. Em troca, ele nos ensinou a falar
“ônibus”, que é “autocarro”. Na época do intercâmbio dele, eu e Amanda
éramos molecas, acho que nenhuma de nós duas nunca o enxergou como
homem. Ele era um garoto chato que a tia da Mandy tinha adotado por um
tempo. Era isso que achávamos.
— Caraca, Mandy. O Victor! Eu nunca ia imaginar — digo, surpresa —,
mas fico tão feliz por você, sério.
— Eu também nunca imaginaria. Pensa só nisso, ele saiu daqui do Brasil
um jovem espinhento e sem graça, voltou um homem lindo de morrer. É
inacreditável. — Os olhos de apaixonada a entregam.
— Vocês ainda conversam? — Olho para o Pedro, que havia ficado
calado todo esse tempo. Como se isso não fosse novidade. — E você, Pê?
Não vai falar nada, não?
Ele me olha surpreso e sorri, sem graça.
— Isa, eu já sabia...
Engulo em seco. Claro. O tempo que eu fiquei sem conversar com a
Amanda me fez perder tanta coisa, tanta! Até da vida do Pedro eu estou
desatualizada. Fiquei tão imersa no Gustavo e nos nossos problemas que
abstraí tudo que estava à minha volta.
— Ah, claro — desconverso —, mas me responde, Mandy. Vocês ainda
estão conversando?
— Estamos. Mas sem me iludir muito. Vamos ver o que rola.
— Ai, ai. Às vezes eu queria ser como você. Se fosse comigo, eu já
estaria procurando passagem para Portugal nas próximas férias.
Amanda se diverte com meu comentário e continua a brincadeira.
— Isa, você já se apaixonou por um melhor amigo?
Pedro para o que estava fazendo e fica estático, como se estivesse do lado
de uma bomba-relógio e precisasse de muita cautela para saber o que deveria
fazer em seguida. Pego a garrafa de tequila da mesa e penso em beber, afinal,
eu não me lembro se já me apaixonei ou não por um melhor amigo. Será que o garoto que eu gostava quando estava no maternal conta? Ou o meu crush de
adolescência? Penso mais um pouco. Melhor amigo era mais do que isso, né?
Era algo mais como... Pedro Miller e eu.
Olho para o Pedro.
Ele me encara com os olhos reluzindo, esperando uma resposta. Penso
em dizer “não”, até porque, eu nunca havia me apaixonado pelo Pedro e isso
é um fato. Mas será que eu nunca me apaixonaria por ele? Nunca diga nunca,
é o que minha mãe sempre diz.
Então, eu bebo.
A tensão na casinha cresce e eu consigo sentir.
Pedro está imerso em pensamentos e Amanda me olhava com cara de
“UOU”.
— Vamos pra próxima pergunta? Já aviso que está tudo girando e eu não
sei se consigo beber mais uma dose. Então peguem leve nas perguntas. —
Coloco a garrafa de volta na mesa. — Pedro, o que tinha na mensagem que
você me enviou do Canadá? — disparo.
Ele respira fundo e abre um botão da camisa preta. Em seguida, abre a
boca para me responder e fecha outra vez. Então, olha para a Amanda,
pedindo ajuda. Fico sem entender o joguinho dos dois, sinceramente.
— E aí? Vai responder ou vai beber? — questiono, impaciente.
— Vou beber, branquela... — E, então, ele pega a garrafa e bebe um gole,
olhando no fundo dos meus olhos.
— Amanda — começa Pedro —, qual foi o pior beijo da sua vida?
— Com certeza, o beijo que dei em um garoto da minha turma, no nono
ano. Nós dois usávamos aparelho. Ficamos batendo “a lataria” alguns
minutos e, no final, ele me falou: “É assim que você beija? Odiei.” — Todos
nós rimos juntos imaginando a situação. — Eu dou risada agora, mas, na
época, foi triste. Fiquei me sentindo a pior pessoa do mundo. Ou o pior beijo
do mundo. — Ela para e pensa por alguns segundos. Vira mais um gole de
tequila (sem precisar, devo ressaltar). — Agora eu pergunto para o Pedro, não
é?
Faço que sim com a cabeça e sinto o mundo girar de novo.
Definitivamente eu não aguentaria mais nenhuma dose.
— Pedro, você já se apaixonou por alguma melhor amiga?
Abro a boca para contestar e Mandy é mais rápida do que eu.
— Eu perguntei pra você, Isa, não pra ele.
Ah, é. Achei que a pergunta tinha sido para ele. Eu estava bêbada? Era isso?
— Confesso que não aguento mais beber tequila... Não sei como você
gosta disso, Amanda. — Pedro se justifica.
Então ele sorri e faz um sinal com as mãos de “pode vir”.
— Manda um desafio, vai.
Amanda olha para nós dois, como se fôssemos cachorrinhos fofos numa
feira de adoção. Ela bate palminhas e finalmente diz com a voz embargada de
felicidade:
— Então dá um beijo na Isa. — Pedro abre a boca como se fosse
protestar, e ela continua: — Ah, gente... Qual o problema? Só um beijinho,
vai. Vocês são melhores amigos, só isso. Problema nenhum. — Pedro cede e
se inclina na minha direção para darmos o beijo, então Amanda
complementa: — É de língua, tá? Selinho eu dava quando tinha doze anos,
faz o favor.
Pedro para no meio do caminho e me encara. As mãos no meu pescoço, a
respiração pesada e quente perto demais da minha boca. Prendo a respiração
por alguns segundos na tentativa de desacelerar meus batimentos cardíacos,
pois meu coração bate tão forte que acho que Pedro Miller pode escutar. De
onde eu estou, consigo ver tudo o que tem por baixo da sua camisa preta de
botões. Sinto seu perfume tão conhecido, mas que eu havia ficado tanto
tempo sem sentir. Sou invadida por uma onda de felicidade sem fim.
Definitivamente, o cheirinho do Pedro é um dos meus cheiros preferidos no
mundo todo. A proximidade das mãos dele esquenta cada músculo do meu
corpo. Coloco minhas mãos nos cabelos pretos, lisos e bagunçados, e olho
fundo nos olhos intensos dele. Mordo meus lábios, nervosa. Me sinto uma
máquina há anos desligada, finalmente encontrando a eletricidade. Ela
percorre cada veia, cada pedaço de mim. Me sinto viva. Ele chega mais perto,
e percebo que eu quero, sim, dar um beijo no meu melhor amigo. Céus, isso
está mesmo acontecendo ou era efeito da tequila? Eu estou sonhando? Só
posso estar sonhando.
— Isa, se você não quiser, tudo bem... É só uma brincadeira — diz ele,
baixinho, de modo que só eu escute. Sua voz soa mais doce do que o normal.
Eu me aproximo um pouco mais e puxo o corpo dele para perto de mim.
Ele estremece todo e passa as mãos pela minha nuca, fazendo carinho no meu
cabelo. Pedro Miller também quer esse beijo. Eu consigo ver o desejo
ardendo no fundo dos olhos dele. Estranhamente, algo dentro de mim
também queima com força, como se estivesse esperando a vida toda por esse momento.
Então puxo Pedro Miller pela gola da camisa e dou eu mesma o beijo que
ele estava hesitando em me dar.