Não Se Humilha, Não

Isabela Freitas · Capítulo 13 de 15

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Não Se Humilha, Não

capítulo 11

É aí que tá: eu não esperava um empurrão.

Esperava o de sempre: palavras horríveis, humilhações, gritos e até

alguns socos no ar...

Mas um empurrão foi realmente um choque.

Eu nunca achei que o Gustavo fosse capaz disso.

Quantas vezes eu não repassei as cenas das nossas brigas e justifiquei

com um “mas ele nunca me bateu”? Inúmeras. Parece que isso aconteceu

justamente para me mostrar o que eu já deveria saber: ele não precisa me

bater para que eu me dê conta de que esse relacionamento é tóxico e não

deveria fazer parte da minha vida. Um relacionamento não precisa de uma

agressão para que seja abusivo. O abuso existe nas “pequenas” coisas do dia

a dia. Coisas que vão destruindo tudo que você já foi um dia, para te

transformar em uma pessoa sem brilho nos olhos, sem esperança de um dia

ser feliz novamente.

No meu relacionamento, o abuso aconteceu o tempo todo, todinho.

Apesar das juras de amor, das promessas feitas, das declarações na internet...

Nada disso foi real. Às vezes me lembro de Melina, prima do Gustavo, que

tentou me alertar na primeira vez que fui à casa do tio dele. Todos deviam

saber da personalidade do Gustavo, é claro. Esse não é o tipo de coisa que

você consegue esconder totalmente da família e das pessoas que convivem

muito com você. Sempre há algum sinal, mesmo que pequeno. Me perguntei

se ele tratava a prima assim também. E apesar de saber que seria muito

melhor se eu simplesmente tivesse dado ouvidos a ela, e virado as costas para

ele naquele dia... Como eu poderia saber? A gente só aprende com os erros.

E, convenhamos, nem nas histórias mais loucas eu imaginei que meu

relacionamento fosse acabar desse jeito...

Ele nunca me bateu, mas destruiu todos os meus sonhos, um a um, com

suas palavras de desprezo. Ele nunca me bateu, mas fez com que eu

desacreditasse de mim, pensando que ele era meu salvador, a única pessoa no

mundo que seria capaz de aguentar uma pessoa tão ruim quanto eu. Ele nunca

me bateu, mas por diversas vezes, me fez ajoelhar no chão gelado do

banheiro, chorando, quase tendo um ataque de pânico, enquanto ele gritava

como eu era culpada por fazer com que ele se descontrolasse assim. Ele

nunca me bateu, mas fez questão de me afastar dos meus amigos, da minha

família, de mim mesma. Ele nunca me bateu, mas me fez sentir culpada por

todos os erros dele. Ele nunca me bateu, mas calou a minha voz, minhas vontades, minhas opiniões. Ele nunca me bateu, mas gritava tão alto que meu

corpo ainda dá pequenos sinais de proteção só de lembrar dos descontroles.

Ele nunca me bateu, mas me culpou por sua raiva, suas ações destemperadas,

suas palavras de ódio. Ele nunca me bateu, mas, ao me ver chorando, não me

consolou. Pelo contrário, disse que eu estava me fazendo de vítima, que eu

era um bebê chorão mimado pela minha família. Ele nunca me bateu, mas

tratou mal todas as pessoas que estavam à minha volta, como se, por ter um

laço comigo, a pessoa automaticamente não valesse nada. Ele nunca me

bateu, mas quis me prender em uma jaula, para que eu nunca pudesse ter o

prazer de voar. O amor deve ser livre, sabia? Ele nunca me bateu, mas em um

ano conseguiu transformar meus sorrisos em lágrimas. Ele nunca me bateu,

mas “em nome do amor”, foi destruindo todo o amor que eu sentia por mim e

pela minha vida. Ele nunca me bateu, mas fez com que eu emagrecesse,

perdesse o sentido da vida e deixasse que ele me guiasse e controlasse, pois

me faltava forças. Ele nunca me bateu, mas amar é fazer o outro se sentir

vivo. E ele me fazia morrer um pouquinho a cada dia.

Isso não é amor.

Mesmo que ele diga que é em nome do amor.

As palavras não valem de nada quando contradizem suas ações.

 

• • •

 

Sinto alguém me levantando e, quando vejo, Bernardo, Gael, Pedro, Amanda

e um monte de pessoas que não consigo identificar estão em cima de mim

para verificar se estava tudo bem comigo. Faço um joinha com os dedos, tô

bem galera, levanto e abraço meu irmão pelo pescoço, um pouco assustada

com o que estava acontecendo. O tempo parece ter congelado de repente, e

tudo passa a acontecer com a rapidez da velocidade da luz. Olho de relance

para o Pedro e vejo os olhos azuis em chamas. Ele ajeita a camisa preta,

respira fundo, e parte para cima do Gustavo. Meu coração devia estar a 160

batimentos por minuto, sem brincadeiras.

— VOCÊ É MALUCO?????? O QUE DEU EM VOCÊ, CARA? ACHA

QUE PODE ENCOSTAR EM ALGUÉM ASSIM?

Pedro Miller berra na cara do Gustavo, a apenas alguns centímetros de

distância. Gael, Amanda, amigos meus de faculdade e mais alguns desconhecidos se posicionam ao lado de Pedro e formam um cerco em volta

do Gustavo. Me escondo atrás do Bernardo, envergonhada com a cena que se

forma... por minha causa.

Caramba.

Ainda bem que eu não tenho o sonho de ser popular, viu? Porque é cada

uma que eu passo... Respiro fundo. Conto até dez. Vai passar. Esse inferno

vai passar. Sei disso. Pontos finais não são fáceis. E hoje eu daria um ponto

final de vez nessa loucura. Estava decidida.

Gustavo Ferreira se mantinha impassível, pasmem. Ele inclina a cabeça

para trás, levanta o queixo e empina o nariz, todo cheio de marra. Pelo que eu

conhecia do Gustavo, ele queria que o Pedro batesse nele. Ele adora uma

confusão. Porém, conhecendo o Pê, sabia que ele não encostaria um dedo no

Gustavo.

Pedro não precisava disso para acabar com ele.

Não mesmo.

— Ela é minha namorada, acho que ela pode muito bem conversar

comigo sem ninguém se intrometendo... Foi só um empurrãozinho. Ela nem

se machucou, olha ali. — Ele aponta para mim.

Alguns dos caras ameaçam ir para cima do Gustavo. E Pedro pede para

que todos fiquem onde estão.

— DESDE QUANDO ISSO É UMA CONVERSA? ELA NÃO SE

MACHUCOU? VOCÊ É LOUCO, MERMÃO? — Ok, Pedro usou mesmo o

termo “mermão”. Definitivamente seus chacras não estão alinhados. —

BATER NAS PESSOAS NÃO É NORMAL E VOCÊ NÃO TEM ESSE

DIREITO. QUER QUE EU CHAME A POLÍCIA AQUI PRA TE

CONFIRMAR ESSA INFORMAÇÃO? TALVEZ VOCÊ TENHA

PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM.

Pedro Miller está descontrolado. Acho que nunca vi o Pedro assim.

Parecia outra pessoa, surreal. Ele passa as mãos nos cabelos negros e

bagunçados, incrédulo com o que vê. Ai, ai. Se ele soubesse de metade do

que passei no meu relacionamento... Já tinha jogado os chacras para o alto e

batido na cara do Gustavo ali mesmo.

— Seguinte... Qual seu nome mesmo? — Gustavo chega mais perto com

os olhos semicerrados, desafiando Pedro e claramente debochando da

situação. — Pablo? Pedro? Ah, é. Pedro... — Ele dá um tapinha teatral na

testa. — Eu e minha namorada vamos nos entender, como sempre fazemos.

— Ele olha para mim. Desvio o olhar. — E você vai continuar sendo o amiguinho dela, que ela nem lembra que existe na maior parte do tempo... —

Pedro me olha por um segundo. — Já pode parar o showzinho de bom moço.

Ela não se machucou, está tudo bem com a gente... — Gustavo me olha

novamente com a cara mais lavada do mundo, e então continua: — Não é,

amor?

Todas as cabeças se viram para mim.

Neste momento, tenho três opções: 1) deixar que o medo me domine

(sim, eu estou com muito medo), concordar com o Gustavo e permitir que ele

continue a exercer esse domínio maluco sobre mim; 2) passar por cima desse

medo, respirar fundo e dizer o que realmente penso disso tudo; 3) correr para

bem longe dali.

Nem preciso dizer que eu queria correr, né? Pois é.

Mas todos sabemos que eu preciso amadurecer e tomar uma decisão.

Fugir dos nossos problemas é como correr em círculos. Uma hora você vai se

cansar, parar para respirar e seus problemas te atropelarão como um

caminhão desgovernado. É preciso parar e enfrentar de cabeça erguida o que

quer que esteja atormentando você. Mesmo que saia machucado, mesmo que

algumas cicatrizes permaneçam com o passar do tempo, mesmo que seja uma

experiência horrível e que você queira apagá-la da sua mente... É

aprendizado.

Vamos lá.

— Não, Gustavo. Inclusive, antes de você me empurrar eu estava dizendo

que me arrependo amargamente de um dia ter me relacionado com você.

Ele abre a boca para me interromper, surpreso com minha ousadia. Pedro

Miller faz sinal para ele se calar e me deixar falar. Ufa. Finalmente eu posso

falar. Finalmente eu consigo falar.

— Você não quer ouvir o resto, né? Sabe muito bem o que vem em

seguida — prossigo. Ele continua de boca aberta, incrédulo. — Acabou,

Gustavo. Eu não quero mais e não há nada que você possa fazer.

Na mesma hora, Bernardo segura meu braço, me encorajando e me

apoiando.

— Ah, e mais uma coisa... — Tomo fôlego e continuo: — O Pedro não é

um amiguinho que eu nem lembro que existe... Muito pelo contrário. Ele é

meu melhor amigo, e também é melhor que mais uma coisa, sabe o quê?

Você. Ele sabe como tratar uma mulher. Vê se aprende. Você é horrível,

simplesmente horrível. Não sabe o quanto me sentia infeliz ao seu lado. E é

isso, Gustavo, eu não aguento mais — digo com a voz firme. Meu coração bate mais que uma bateria de escola de samba desenfreada. — Não vou

denunciar essa agressão e em troca disso eu quero PAZ... Sério. Me esquece.

Mesmo. — Foi a última coisa que eu disse, olhando bem nos olhos dele.

Ele precisava entender que eu tenho voz e, mais do que isso, tenho

vontades. E essa é a minha vontade. Depois de tanto tempo sem conseguir

dizer o que eu penso... Sinto como se tivesse tirado um pano seco de dentro

da minha garganta.

— Ouviu o que ela disse, moleque? — Pedro encosta na jaqueta vermelha

de Gustavo com o indicador. Ousado. Eu não chegaria tão perto. — Esquece

que a Isabela existiu um dia e toma seu rumo, bem longe daqui. Se você

chegar perto dela mais uma vez, uma vez só... — Pedro se abaixa um pouco

para falar a última frase bem perto do ouvido do Gustavo. — A gente não vai

ser tão pacífico, não... Eu tenho um amigo promotor que adoraria te colocar

no xadrez...

Gustavo arregala os olhos, demonstrando medo pela primeira vez. A

família Ferreira não poderia suportar um escândalo desses. A reputação deles

valia mais do que a fortuna que tinham, pode apostar.

— Não, pô... Que isso... Eu não tive a intenção, foi sem querer... Eu... —

Gustavo tropeça nas palavras e dá alguns passos para trás... intimidado. Uau.

Boa, Pedro Miller. — Isabela, me desculpa, de verdade... Eu não quis te

agredir, nem machucar... Eu só estava com medo de te perder... Eu te amo

muito... Poxa, Isa... Desculpa mesmo...

Engulo em seco diante dessas últimas palavras. Até quando ele vai dizer

que faz tudo em nome do amor? Meu Deus! Gustavo precisava de um

psicólogo para ontem.

— Sério, cara... CALA A BOCA. — Bernardo fala pela primeira vez,

quebrando o silêncio da multidão que aguardava ansiosa por um desfecho.

Olho espantada para o meu irmão. — Espero que você não chegue mais perto

dela. Estamos todos de prova sobre o que você fez com ela hoje, e sabe-se lá

o que mais você fez com ela durante todo esse tempo de namoro. Sei que ela

quer te perdoar e ficar em paz — ele lança um olhar piedoso para mim —,

mas o certo seria ir na delegacia e denunciar a sua agressão. Vou respeitar a

vontade da minha irmã, mas você fica ligado, cara. Fique longe da minha

irmã, longe da minha família, longe de todos nós... E, por favor, sai da minha

frente e para de falar merda. Porque quanto mais eu vejo sua cara de palhaço,

mais tenho vontade de perder toda a minha razão e te quebrar em mil

pedaços. Sai daqui. SAI!

Eu disse que meu irmão era pacífico, sei disso. Mas se tem algo que tira

ele do sério era mexer com sua irmã mais nova, no caso, euzinha aqui. Nós,

os Freitas, nos defendíamos com unhas e dentes.

Gustavo engole em seco suas desculpas, vira de costas e se prepara para

sair de cena, quando Pedro diz as últimas palavras:

— E mais uma coisinha... Você disse que estava com medo de perder a

Isa, não é? — Gustavo se vira e assente com a cabeça. Meio sem entender o

que viria depois dessa pergunta. — Mas a Isa não é posse sua nem de

ninguém. Talvez seja esse seu erro, Gustavo. Você tem que cativar as pessoas

para que elas fiquem ao seu lado, e não obrigá-las a ficar. — A multidão que

se juntou para ver a cena urra com essas palavras. Alguns batem até palmas.

— Ah, e que você nunca mais encoste o dedo em uma mulher. Na verdade,

não encoste o dedo em qualquer pessoa. Aprenda a amar de verdade.

Pedro Miller se vira e, sem falar comigo nem com mais ninguém, sai

andando sem direção. Desnorteado.

A galera vai à loucura e, então, algo inesperado acontece. As pessoas que

tinham se juntado para acompanhar a briga começam a gritar as mais diversas

ofensas direcionadas ao Gustavo. Algumas delas jogam copos de plástico

nele. Consigo distinguir algumas frases: “Sai daqui, seu merda”, “Bate em

mulher, a gente vai bater em você pra ver o que é bom”, “Agressor, covarde”,

“Filhinho de papai mimado”. As outras pessoas da festa, que até então não

tinham visto o empurrão, começam a perceber que alguma coisa estranha está

acontecendo e, de repente, todos estão comentando sobre o Gustavo. Uns

colocam a mão na frente da boca para cochichar, chocados com o fato de que

Gustavo Ferreira, “o namorado perfeito”, fora capaz de me agredir, outros

partem para cima dele para dar uma lição aos socos e pontapés. A confusão

ganha proporções gigantescas e a organização da festa perde totalmente o

controle. O DJ para a música e tenta entender o que está acontecendo na pista

de dança. Vejo Guta, a representante da nossa sala, correndo para chamar os

seguranças para conterem as pessoas. Os seguranças chegam e convidam

Gustavo a se retirar da festa. Ele sai escoltado por três homens e, à medida

que ele passa pelas pessoas, ouve mais ofensas.

Respira, Isabela, respira.

Você não é culpada por isso.

Você não é culpada por nada.

Acabou.

Difícil se livrar do sentimento de culpa quando ele fez parte da nossa vida por tanto tempo... Que loucura isso. Tirar as algemas e ainda assim sentir o

peso delas nos nossos pulsos. Mover os pés e lembrar das pesadas correntes

que me mantinham presa. Respirar sem o nó na garganta e sentir o ar invadir

meus pulmões depois de tanto tempo sufocada.

No fundo, acho certo que o Gustavo seja retirado da festa, até porque eu

não acredito que as coisas devam ser resolvidas na porrada. O que é um

pouco irônico, porque lááá no início do nosso relacionamento, quando

Gustavo partiu para cima do Fábio (lembram? O cara do inglês?), eu deveria

ter percebido que ele é uma pessoa agressiva e que acha que tudo se resolve

com socos. Mas eu não percebi. E tudo bem, a gente se ilude até com filme,

por que não vai se iludir na vida real também, né? Interpretei os fatos da

forma que minha mente que adora contos de fada achou melhor: ele era meu

salvador e estava lá para me salvar.

Uau.

E tudo termina exatamente do jeito que começou.

Que poético.

Me viro para o meu irmão, que continua de mãos dadas comigo.

— Bê, obrigada por tudo. Sério. — Dou um beijo no rosto dele e o abraço

forte.

— Tô aqui com você pra tudo, pequena. Homem nenhum no mundo vai

te diminuir, ouviu? Você é pequenininha de tamanho, mas é gigante aqui. —

Ele aponta para o meu coração. Dou um sorrisinho. — Nunca vou me cansar

de dizer isso. Eu te amo muito. Curte sua festa agora com seus amigos, ou se

você quiser ir embora... Você que manda. Só me dizer.

— Acho que quero aproveitar... Tem tanto tempo que eu não sei o que é

me sentir leve, livre, sem qualquer coisa pra me prender, me cobrar... Como

eu pude... Poxa... Fico até envergonhada por isso tudo — digo.

— Não se sinta assim... Isso é viver! A gente erra, Isa. E vão errar com a

gente. Mas temos que levantar a cabeça e continuar vivendo. Essa é nossa

missão. — Bernardo dá um sorriso para me encorajar. — Cadê minha irmã

destemida que quando era pequena disse que me defenderia da Fera da Bela e

a Fera? Hein? Hein?

Dou uma gargalhada. Meu irmão morria de medo da Fera. Pois é. E uma

das memórias mais engraçadas da nossa infância (ok, só nós dois achávamos

engraçado) é que no auge dos meus 6 anos eu falava que ia defender o

Bernardo da Fera. E toda vez que ele chorava (tipo, toda mesmo), eu achava

que era por causa da Fera. Uma vez, ele caiu e teve que tomar ponto no queixo, e eu jurei que tinha sido a Fera que havia feito aquilo com ele. Desde

então, sempre que acontecia algo ruim com meu irmão eu falava: “Relaxa, eu

te defendo da Fera.” Nós sempre ríamos lembrando disso, porque a Fera

acabou se tornando uma metáfora para tudo de errado que acontece em

nossas vidas.

— Posso só te pedir uma coisa? — começo. — Não conta pra mamãe e

pro papai ainda. Por favor. — Bernardo concorda com a cabeça. — Eu

preciso estar 100% para poder contar isso a eles. Não tô afim de falar sobre

isso no momento...

— Relaxa, mana browwww — ele me chama pelo nosso apelido

carinhoso de irmãos. — Eu jamais contaria pra eles, isso cabe a você e só a

você. Vai aproveitar sua festa, vai. Esquece isso. — Ele olha para a Amanda,

que está à minha espera a alguns metros dali, encostada em uma árvore. —

Sua amiga está preocupada com você. Pode ir curtir. E, quando quiser ir

embora, só me chamar.

Me aproximo da Amanda, ela segura um copo de plástico todo amassado

e picotado. Conhecendo minha melhor amiga, sei que ela está ansiosa e

nervosa com tudo que tinha acontecido e estava descontando no pobre copo.

— Isa... Você está bem? Deus! O que foi isso? Eu estou tremendo até

agora... — Ela me mostra suas mãos tremendo um pouco.

Dou um abraço nela e mostro as minhas.

— Eu também estou tremendo, ó... — Ela ri de mim, nervosa. —

Desculpa por não ter te escutado lá no início. Você sempre me alertou, você

sabia que isso ia acontecer... Eu... — o choro vem na garganta — Eu te amo,

amiga. Obrigada por continuar ao meu lado no momento em que mais

precisei. Você é a melhor amiga de todas.

Ela me encara com seus olhinhos puxados. Eles brilhavam, Amanda

queria chorar, sei disso.

— Não sou... Eu te abandonei por tanto tempo... Eu tinha que ter ficado

ao seu lado, como Pedro ficou... Eu falhei com você, Isa. Falhei — ela segura

as minhas mãos com força —, mas não vou falhar novamente. Te prometo.

— Mandy, relaxa. Eu tenho certeza disso. A gente falha, ora, afinal

somos seres humanos. Eu falhei com você, você falhou comigo. Mas o que

temos — dou tapinhas no peito dela — é de verdade, é de coração. Eu sei

disso. Esse tempo que ficamos afastadas só nos fortaleceu. Nunca mais vai

acontecer.

Estendo o dedo mindinho para ela.

— Dedinho? — Ela sorri, limpando as lágrimas que caíam sem pedir

licença.

— Dedinho.

Demos os nossos dedinhos.

— Cadê o Pedro? — pergunto.

— Eu o vi descendo o caminho para o lago da Fazenda. — Ela dá de

ombros.

— Mas pode ir pra lá? Digo, geralmente, quando rola essas festas, eles

não deixam que ninguém vá para o lado de lá... Tem até um segurança ali na

frente do caminho que desce para o laguinho. — Indico o cara alto de terno

preto que está parado no caminho sinuoso que dá no lago.

— A gente só vai saber se tentar.

Amanda me puxa pelo braço e me arrasta até o tal segurança.

Estranhamente, ao notar nossa aproximação, ele sorri para nós duas e diz:

— A japonesinha e a loirinha... Sim, sim... O Pedro já acertou comigo —

diz ele, mal mexendo a boca e sem olhar para nós. — Podem descer. Só

esperem um pouco para que ninguém veja que vocês estão descendo.

O segurança continua olhando para a frente como se a nossa conversa

nunca tivesse existido. E não, não me surpreendo muito, porque é óbvio que

o Pedro já devia ter feito isso antes com as garotas que ele ficava, quero

dizer, toda vez que ele sumia, a gente ficava se perguntando onde é que ele

tinha ido... Agora, sabemos onde ele se escondia. Esperamos alguns

minutinhos e o DJ, para nos ajudar (ok, foi só uma coincidência, mas me

deixa sonhar), coloca um funk que faz a pista explodir. É o momento. Olho

para Mandy, ela assente. Ninguém está olhando para nós. E, então, nos

enfiamos na trilha estreita no meio das árvores e começamos a descida.

— Imagine só a Dafne, lembra dela? Ela saía de salto fino todas as vezes

que ia encontrar com o Pedro. Imagina, Mandy, ela descendo essa trilha. —

Quebro o silêncio, depois de já estarmos afastadas do movimento da festa.

Amanda vai na frente, pisando em alguns galhos que estavam no caminho

e me avisando dos troncos de árvore que aparecem no chão hora ou outra,

porque é a minha cara cair com a fuça no chão e fechar a festa com chave de

ouro, dentro do Samu.

— Sério! É inacreditável pensar que o Pedro traz as garotas pra cá. Essa

trilha não é nada romântica. — Mandy se diverte com minha suposição sobre

Dafne.

— Mas o Pedro não é nada romântico — constato.

— Ah, quando ele quer, é sim... — rebate Mandy.

— Euzinha, Isabela, nunca vi.

— É porque você é cega. — Ela ri de mim.

Não entendo a graça e, sinceramente, estou preocupada demais em chegar

viva até o fim dessa trilha para entender.

Tudo bem que quando eu era mais nova, eu fazia altas trilhas perigosas

de Jeep com o meu pai e minha família. Mas é aquela coisa, criança não tem

noção do perigo. Agora tenho um pouquinho mais de noção, pelo menos é o

que eu acho. E se uma cobra aparecer? Um jacaré, céus, um jacaré. Já era.

Adiós. Não sobra ninguém para contar a história. E se aparecer uma onça?

Nossa, pode aparecer uma onça.

Começo a rezar.

Rezo em silêncio até o fim da trilha e, quando chegamos ao final,

deparamos com uma linda visão do lago da Fazenda Azul.

Uau. É lindo.

Se valia a pena passar pela trilha do horror para chegar aqui? Com

certeza, não.

Mas que é lindo, é.

Aqui a natureza está em completa harmonia. O lago de águas escuras,

devido ao breu da noite, reflete a luz da lua e os eucaliptos que cercam toda a

fazenda. Escuto o coaxar de muitos sapos, em coro. E tenho certeza de que as

luzes que sobrevoam as margens do lago são vaga-lumes. As luzes vão e

vêm, nos hipnotizando de uma forma sutil. Eu nunca tinha visto um vaga-

lume na minha vida e, pela cara da Amanda, ela também não.

Talvez a descida do terror tenha, sim, valido a pena. Dafne, eu te entendo,

amiga.

Procuro algum sinal do Pedro e não vejo nada. O lago tem um deque de

madeira com uma casinha bem pequena na ponta, que provavelmente é uma

espécie de bangalô para as pessoas se sentarem e admirarem a vista. Mas

como Juiz de Fora é bem fria na maior parte do ano (ô, se é!), é impossível

ficar em um bangalô em dias de muito vento (por ser aberto, né?). Talvez por

isso a ideia da casinha.

Vemos uma luz vindo lá de dentro, e Mandy assente com a cabeça. Pedro

está ali nos esperando, sentado em um sofá. Abrimos a porta da casinha e

deparamos com a seguinte cena: Pedro Miller está sentado em frente a três

garrafas de tequila, o rosto enfiado nas mãos, olhando para baixo. Ele não

percebe que estamos ali.

— Pê? — chamo, com a voz baixa.

Ele levanta a cabeça, os olhos azuis estão vermelhos e úmidos. Pedro

Miller está chorando?

— Pedro... Que isso...

Eu sento em um lado do sofá e Amanda do outro. Ela abraça Pedro pelos

ombros e eu pego sua mão esquerda.

— Calma, Pê. Já passou. A Isa está bem, olha só. — Mandy me olha,

encorajando que eu desse algum sinal de que estava tudo bem.

— É! Eu tô, olha só. — Dou um sorriso e balanço meus cabelos loiros. —

Já estou até jogando o cabelo pro alto.

Ele respira fundo e continua com o olhar vago.

— Isso me matou, Isa — diz ele, com a voz seca e surpreendentemente

embargada.

Me encolho. A culpa. Ela não iria me abandonar? Ele percebe meu

sobressalto e se vira para olhar dentro dos meus olhos.

— Você não tem culpa de nada, tá? — Ele se apressa em dizer. Os olhos

azuis reluzem na luz amarela fraca, vinda de uma lâmpada pendurada por um

fio na casinha do lago. — É só que... ver o jeito que aquele cara te tratou...

Caramba, Isa... doeu tanto que parecia que estavam tirando um pedaço de

mim.

— Desculpa, eu... você não sabe como me envergonho disso tudo que

aconteceu... — As lágrimas começam a cair. Claro. Quando elas não caem?

— Eu só queria amar e ser amada, não é isso que todos queremos? Então, eu

tentei de tudo para o relacionamento dar certo e, por um tempo, eu achava

que estava, sim, dando certo. Mas o que é certo e errado, não é mesmo? O

que importa é a forma como nos sentimos... Eu demorei pra perceber isso. Eu

sei! Demorei! Eu me sentia horrível todos os dias. O tempo todo. Eu engolia

tantas coisas que não sobrou espaço para mais nada. E eu afastei todos que

gostavam de mim, você foi a pessoa que eu menos afastei. — Ele assente. —

Mas, mesmo assim, precisei me afastar. Só assim eu poderia viver minha

loucura sem ninguém pra me dizer que eu só poderia estar louca. E eu estava.

Vivi minha loucura e, no fim, tive que ser sã para perceber isso. Como diria

Júlio Cesar... — Pedro e Amanda arregalam os olhos, certamente não

entendendo aonde eu queria chegar. — O imperador romano, sabem? — Eles

concordam com a cabeça. — Bem, ele disse: “Vim, vivi e venci.”

— Na verdade, Isa, é “Vim, vi e venci” — corrige Mandy. É mais forte

do que ela. Sei bem. Amanda Akira sabe que eu erro todas essas frases famosas, mas o que ela não esperava é que dessa vez eu havia errado de

propósito.

— Eu sei, mas eu vivi. Eu não só vi e venci. Eu precisei viver, me

quebrar em mil pedaços, para no final, vencer. Agora eu estou aqui, com

meus caquinhos na mão, envergonhada de ter feito vocês dois passarem por

isso... Mas também estou pedindo um pouquinho de cola, de ajuda para

conseguir juntar todas as minhas partes... Não vai ser fácil, mas eu vou voltar

a ser quem eu era, só que melhor ainda... Quero dizer, não sei se vou ser

melhor, melhor... Mas eu juro que... O que eu estava falando mesmo?

Pedro sorri para mim, enxuga os olhos ainda úmidos, e consigo sentir seu

perfume amadeirado exalando da camisa preta.

— Não precisa mais se justificar, branquela. Não pra gente. Estamos aqui

pra colar seus caquinhos quantas vezes for preciso. Me desculpa o

descontrole, me desculpa por chorar na sua frente... Mas é que me doeu

muito. Vim pra cá porque não saberia como continuar na festa. Minha cabeça

está explodindo.

— Ah, Pedro... para, né? Você é o herói da noite — provoca Mandy,

empurrando Pedro para cima de mim.

Entro na brincadeira, falando com uma voz que eu imagino ser sexy.

— Meu herói! Tem melhor do que esse? Fiquei esperando que ele

rasgasse a camisa ali mesmo, tipo o Jacob de Crepúsculo. — Finjo que estou

sentindo calor, me abanando com as duas mãos.

— Duas bobas... Eu mereço vocês, né? — Ele me olha com um meio

sorriso, convencido.

— Merece e merece muito. — Mandy puxa uma das garrafas de tequila,

abre e toma um gole sem nem fazer careta. — Pois somos as melhores

amigas do mundo.

Pedro e eu olhamos para ela, assustados.

— O que foi, gente? Essas garrafas não vão acabar sozinhas — justifica

ela, dando de ombros.

— Amanda, você sabe que elas já estavam aqui quando eu cheguei, né?

Ela arregala os olhinhos com a garrafa ainda em mãos.

— Não são minhas. Alguém deve ter deixado aí... — explica Pedro, em

meio a uma gargalhada. — Mas, ah, e daí? Passa isso pra cá. Hoje todos nós

podemos beber umas doses.

Ele vira um gole da garrafa de José Cuervo. No gargalo. Sem limão, sem

sal, sem nada. Olho de um para o outro, ainda sem acreditar.

— Gente... Essas bebidas não são nossas, vocês nunca escutaram que não

se deve beber bebidas de estranhos? Pois é. Tem um motivo pra isso. É

perigoso.

Pedro Miller estende a garrafa para mim.

— A gente abriu agora. Estava lacrada. Vai querer? Se não quiser, tudo

bem. A gente pode ficar aqui só conversando também. — Ele tira o maço de

cigarro do bolso e acende o primeiro da noite.

Olho para o Pedro, depois para Mandy. Os dois me observam e aguardam

em silêncio. Querendo ou não, a garrafa em minhas mãos representa muito

mais do que “ficar alegre” ou “bêbada” com meus amigos. Representa a

minha liberdade. Do lado do Gustavo, eu não podia beber nenhum tipo de

bebida alcoólica, simplesmente porque “mulher bêbada é feio demais”. E

olha que eu nem gosto de bebidas alcoólicas, hein? Mas até nisso ele tinha

que mandar. De vez em quando, ele permitia que eu bebesse um copo ou dois

de prosecco com a família dele (afinal, como ele explicaria para a mãe que

não me deixava tomar decisões por conta própria?), mas tudo, claro, sob

supervisão dele. Depois, eu ainda tinha que aguentar provocações do tipo “Tá

falando merda assim porque tá bêbada, viu? Por isso que não gosto que você

beba”. Mas ele podia beber sempre que quisesse. E eu tinha que aceitar,

porque eu era a louca descontrolada, e ele o lorde que estava me ensinando os

bons modos que uma garota deveria ter.

Viro um gole da garrafa.

Era muito ruim. Muito. Ruim do tipo eu-queria-arrancar-meu-estômago-

fora-só-pra-não-sentir-isso-dentro-de-mim. E aí me lembrei da última vez que

bebi tequila, há quase dois anos, na fatídica festa do É o Tchan. No dia que

dei o primeiro beijo no Gustavo. Mais uma vez, poético. Tudo acabando

como tinha começado. Depois dizem que minha vida não é um filme.

Viro mais um gole, e entrego a garrafa para o Pedro.

— Uau. Vai com calma, princesa. Você é fraquinha, sabe disso.

Pedro Miller aperta minha bochecha, dá mais um gole e passa a garrafa

para Mandy.

— Hoje a Isa pode tudo. — Mandy pisca para mim. — Que tal se a gente

brincar de Verdade ou Desafio? Hein? Hein? Vamos?!

Pedro me encara, procurando uma resposta. Faço que sim com a cabeça.

Amanda se empolga e já se posiciona no chão, em volta da mesinha de

centro, que era o único móvel da casinha do lago além do sofá em que

estávamos sentados.

— Vem, senta aqui, gente. No chão é bem mais legal. Vamos relembrar

as regras, como somos três, eu pergunto para o Pedro, Pedro pra Isa, Isa pra

mim. Depois invertemos. Eu pergunto pra Isa, Isa para o Pedro, Pedro pra

mim. Fechou?

— Aí se eu não quiser responder à pergunta... — questiona Pedro,

enquanto ajeita os cabelos negros. — Eu bebo um gole da garrafa. É isso?

— Isso mesmo — concorda Mandy.

— E se eu responder não preciso beber, né? — pergunto.

— Certo — concorda ela mais uma vez.

— E onde entra o desafio? — indaga Pedro.

— Ah, me esqueci! — Ela dá um tapinha na testa. — Se você não estiver

aguentando beber mais, você tem que cumprir um desafio. Vamos lá?

Amanda Akira começa a brincadeira.

— Pedro, é verdade que durante as festas da faculdade você trazia suas

ficantes para esta casinha?

Pedro sorri, a cicatriz na bochecha esquerda se mexe. Sei que ele se

diverte quando demonstramos curiosidade por sua vida amorosa. Não que ele

não nos contasse sobre seus casos, ele até contava. O problema é que tudo é

movimentado demais e, ah, a gente não precisava de tantos detalhes, não é?

Ele olha para mim, então para a Mandy, olha para a garrafa e, então,

responde:

— É verdade. — Ele se dá por vencido. — Já trouxe várias garotas aqui.

É bem melhor do que a festa, vai dizer?

— A Dafne já veio aqui? — pergunto sem pensar duas vezes.

Eu quero saber, eu preciso saber se a Dafne tinha descido aquela trilha de

salto. Não sei por que isso importa tanto agora, mas fazer o quê. Nem sempre

entendo meus sentimentos.

Pedro se vira para me olhar mais de perto. Então ele se inclina sobre a

mesinha e se aproxima do meu ouvido. Sinto sua respiração quente

quebrando o frio da noite gélida.

— Na sua vez, você poderá me perguntar, branquela.

Droga. Eu não gastaria uma pergunta com a Dafne. Sabe-se lá quantas

rodadas eu duraria nesse jogo, afinal, quando junta tequila e Isabela na

mesma frase, sabemos que uma das duas perderá feio.

E sempre sou eu.

Pedro me analisa da cabeça aos pés. Acho que está pensando no que me

perguntar.

— Você já mentiu pra mim? — dispara.

Me lembrei do dia do parque de diversões, quando menti sobre uma coisa

besta, sim, mas menti. E tinha sido a primeira vez em anos de amizade que eu

menti para o meu melhor amigo. Pareceu besta, foi besta, mas doeu. Em mim

e nele. Porque, eu sei, ele tinha percebido no ato e devia estar preocupado

com o que eu estava me tornando “em nome do amor”.

Então eu bebo um gole da garrafa.

Não estava a fim de falar sobre isso.

Ele belisca minha barriga com a ponta dos dedos e diz baixinho só para

eu ouvir:

— Eu sei, eu sei.

Me viro para a Amanda.

— Você se apaixonou esse ano, Amanda Akira?

Ela bebe, com um sorriso misterioso no ar.

— POR QUEM? AMANDA! — Eu dou um gritinho.

Ela continua a sorrir misteriosa e desconversa.

— Isa, se você tivesse que namorar alguém da nossa sala da faculdade...

Com quem você namoraria? — pergunta ela.

— Com o Pedro, ué — respondo sem nem pensar.

Pedro me olha surpreso, as sobrancelhas arqueadas, a boca aberta. Mandy

abre um sorriso e balança a cabeça em sinal de afirmação, claramente

satisfeita com a resposta.

— Fico honrado, branquela. Sinceramente, eu achava que você me

achava mulherengo demais pra você...

— E eu acho. Mas eu não tinha lá opções muito boas na nossa sala, né?

— provoco.

Ele morde os lábios e sorri.

— Pedro, você já se apaixonou? — finalmente pergunto.

Eu sempre quis perguntar isso para o Pedro. Na verdade, acho que já

perguntei algumas vezes, mas ele nunca chegou a me responder de verdade.

Ele puxa a garrafa e dá um gole demorado.

Entendi isso como um “sim”.

Poxa vida, por quem?

— Amanda, qual foi a coisa mais desprezível que você já fez? —

questiona Pedro.

— Acho que pegar meu próprio cocô com a mão e jogar pela janela,

quando estava na casa de um amigo. A descarga estava quebrada. E não, não foi na casa de vocês.

— Hummm, seria esse amigo a pessoa por quem você se apaixonou esse

ano? — interrompo.

— Claramente a Isa não sabe brincar de Verdade ou Desafio, acho que

ela se daria melhor com o jogo Detetive. O que você acha, Mandy? — brinca

Pedro, e então acende mais um cigarro.

Reviro os olhos. Droga. Eu só estava curiosa, será que uma garota não

tem esse direito?

— Minha vez — recomeça Amanda. — Pedro, onde foi o lugar mais

inusitado que você já transou?

Ele para por alguns segundos, traga o cigarro, expira a fumaça.

— Na escada do meu prédio.

Amanda e eu ficamos boquiabertas. Na escada do prédio? Sério? Não,

não. Forcei meu cérebro a não tentar imaginar essa cena em hipótese alguma.

Pedro nu. Dafne joga os saltos pelos degraus da escada. O sutiã dela deve ser

de renda vermelha. Pedro a puxa pelos cabelos e... NÃO!

Balanço a cabeça algumas vezes e sinto a tequila fazer meu mundo girar.

— E foi com a Dafne — completa Pedro Miller, com um sorriso sacana

no rosto.

Balanço de novo a cabeça, na tentativa de fazer a cena grotesca

desaparecer dos meus pensamentos.

Pedro se vira para mim, decidido.

— Você realmente não recebeu a mensagem que eu te enviei quando

estava no Canadá? — Ele estreita os olhos e espera minha resposta.

Eu paro por alguns segundos, tentando entender que tipo de pergunta é

essa. Mensagem? Canadá? Peraí... Nas férias do ano passado Pedro foi para o

Canadá, sim, sim, eu lembro. E ele havia me dito que tinha me enviado uma

mensagem, mas que não havia chegado, é isso? Por que agora? Por que gastar

uma pergunta da brincadeira com isso? Por que isso tem tanta importância?

— Não, não recebi — respondo, e dou de ombros, ainda sem entender a

pergunta.

Quero perguntar o porquê disso tudo, mas eu sairia da regra da

brincadeira mais uma vez. Esperaria a minha vez e, aí, perguntaria.

— Amanda, quem é o cara misterioso? — pergunto.

— Aquele Victor... Lembra? O intercambista que passou um mês na casa

da minha tia e que a gente tipo, odiava. — Ela solta uma gargalhada e toma

um gole de tequila apenas por beber, já que tinha respondido à pergunta que fiz. — Ele voltou para Juiz de Fora apenas por algumas semanas, veio visitar

minha tia, meu tio, matar a saudade da família que o recebeu de braços

abertos... E a gente acabou se aproximando. Tipo, muito. — Ela sorri e joga o

cabelo liso para trás. — Ai, foi perfeito, sério. Queria que ele não morasse tão

longe... Quem sabe isso não muda?

Victor mora em Portugal. Lembro muito bem quando ele chegou falando

várias coisas em português de Portugal e passou dias nos obrigando a ensiná-

lo a falar palavrões no português do Brasil. Em troca, ele nos ensinou a falar

“ônibus”, que é “autocarro”. Na época do intercâmbio dele, eu e Amanda

éramos molecas, acho que nenhuma de nós duas nunca o enxergou como

homem. Ele era um garoto chato que a tia da Mandy tinha adotado por um

tempo. Era isso que achávamos.

— Caraca, Mandy. O Victor! Eu nunca ia imaginar — digo, surpresa —,

mas fico tão feliz por você, sério.

— Eu também nunca imaginaria. Pensa só nisso, ele saiu daqui do Brasil

um jovem espinhento e sem graça, voltou um homem lindo de morrer. É

inacreditável. — Os olhos de apaixonada a entregam.

— Vocês ainda conversam? — Olho para o Pedro, que havia ficado

calado todo esse tempo. Como se isso não fosse novidade. — E você, Pê?

Não vai falar nada, não?

Ele me olha surpreso e sorri, sem graça.

— Isa, eu já sabia...

Engulo em seco. Claro. O tempo que eu fiquei sem conversar com a

Amanda me fez perder tanta coisa, tanta! Até da vida do Pedro eu estou

desatualizada. Fiquei tão imersa no Gustavo e nos nossos problemas que

abstraí tudo que estava à minha volta.

— Ah, claro — desconverso —, mas me responde, Mandy. Vocês ainda

estão conversando?

— Estamos. Mas sem me iludir muito. Vamos ver o que rola.

— Ai, ai. Às vezes eu queria ser como você. Se fosse comigo, eu já

estaria procurando passagem para Portugal nas próximas férias.

Amanda se diverte com meu comentário e continua a brincadeira.

— Isa, você já se apaixonou por um melhor amigo?

Pedro para o que estava fazendo e fica estático, como se estivesse do lado

de uma bomba-relógio e precisasse de muita cautela para saber o que deveria

fazer em seguida. Pego a garrafa de tequila da mesa e penso em beber, afinal,

eu não me lembro se já me apaixonei ou não por um melhor amigo. Será que o garoto que eu gostava quando estava no maternal conta? Ou o meu crush de

adolescência? Penso mais um pouco. Melhor amigo era mais do que isso, né?

Era algo mais como... Pedro Miller e eu.

Olho para o Pedro.

Ele me encara com os olhos reluzindo, esperando uma resposta. Penso

em dizer “não”, até porque, eu nunca havia me apaixonado pelo Pedro e isso

é um fato. Mas será que eu nunca me apaixonaria por ele? Nunca diga nunca,

é o que minha mãe sempre diz.

Então, eu bebo.

A tensão na casinha cresce e eu consigo sentir.

Pedro está imerso em pensamentos e Amanda me olhava com cara de

“UOU”.

— Vamos pra próxima pergunta? Já aviso que está tudo girando e eu não

sei se consigo beber mais uma dose. Então peguem leve nas perguntas. —

Coloco a garrafa de volta na mesa. — Pedro, o que tinha na mensagem que

você me enviou do Canadá? — disparo.

Ele respira fundo e abre um botão da camisa preta. Em seguida, abre a

boca para me responder e fecha outra vez. Então, olha para a Amanda,

pedindo ajuda. Fico sem entender o joguinho dos dois, sinceramente.

— E aí? Vai responder ou vai beber? — questiono, impaciente.

— Vou beber, branquela... — E, então, ele pega a garrafa e bebe um gole,

olhando no fundo dos meus olhos.

— Amanda — começa Pedro —, qual foi o pior beijo da sua vida?

— Com certeza, o beijo que dei em um garoto da minha turma, no nono

ano. Nós dois usávamos aparelho. Ficamos batendo “a lataria” alguns

minutos e, no final, ele me falou: “É assim que você beija? Odiei.” — Todos

nós rimos juntos imaginando a situação. — Eu dou risada agora, mas, na

época, foi triste. Fiquei me sentindo a pior pessoa do mundo. Ou o pior beijo

do mundo. — Ela para e pensa por alguns segundos. Vira mais um gole de

tequila (sem precisar, devo ressaltar). — Agora eu pergunto para o Pedro, não

é?

Faço que sim com a cabeça e sinto o mundo girar de novo.

Definitivamente eu não aguentaria mais nenhuma dose.

— Pedro, você já se apaixonou por alguma melhor amiga?

Abro a boca para contestar e Mandy é mais rápida do que eu.

— Eu perguntei pra você, Isa, não pra ele.

Ah, é. Achei que a pergunta tinha sido para ele. Eu estava bêbada? Era isso?

— Confesso que não aguento mais beber tequila... Não sei como você

gosta disso, Amanda. — Pedro se justifica.

Então ele sorri e faz um sinal com as mãos de “pode vir”.

— Manda um desafio, vai.

Amanda olha para nós dois, como se fôssemos cachorrinhos fofos numa

feira de adoção. Ela bate palminhas e finalmente diz com a voz embargada de

felicidade:

— Então dá um beijo na Isa. — Pedro abre a boca como se fosse

protestar, e ela continua: — Ah, gente... Qual o problema? Só um beijinho,

vai. Vocês são melhores amigos, só isso. Problema nenhum. — Pedro cede e

se inclina na minha direção para darmos o beijo, então Amanda

complementa: — É de língua, tá? Selinho eu dava quando tinha doze anos,

faz o favor.

Pedro para no meio do caminho e me encara. As mãos no meu pescoço, a

respiração pesada e quente perto demais da minha boca. Prendo a respiração

por alguns segundos na tentativa de desacelerar meus batimentos cardíacos,

pois meu coração bate tão forte que acho que Pedro Miller pode escutar. De

onde eu estou, consigo ver tudo o que tem por baixo da sua camisa preta de

botões. Sinto seu perfume tão conhecido, mas que eu havia ficado tanto

tempo sem sentir. Sou invadida por uma onda de felicidade sem fim.

Definitivamente, o cheirinho do Pedro é um dos meus cheiros preferidos no

mundo todo. A proximidade das mãos dele esquenta cada músculo do meu

corpo. Coloco minhas mãos nos cabelos pretos, lisos e bagunçados, e olho

fundo nos olhos intensos dele. Mordo meus lábios, nervosa. Me sinto uma

máquina há anos desligada, finalmente encontrando a eletricidade. Ela

percorre cada veia, cada pedaço de mim. Me sinto viva. Ele chega mais perto,

e percebo que eu quero, sim, dar um beijo no meu melhor amigo. Céus, isso

está mesmo acontecendo ou era efeito da tequila? Eu estou sonhando? Só

posso estar sonhando.

— Isa, se você não quiser, tudo bem... É só uma brincadeira — diz ele,

baixinho, de modo que só eu escute. Sua voz soa mais doce do que o normal.

Eu me aproximo um pouco mais e puxo o corpo dele para perto de mim.

Ele estremece todo e passa as mãos pela minha nuca, fazendo carinho no meu

cabelo. Pedro Miller também quer esse beijo. Eu consigo ver o desejo

ardendo no fundo dos olhos dele. Estranhamente, algo dentro de mim

também queima com força, como se estivesse esperando a vida toda por esse momento.

Então puxo Pedro Miller pela gola da camisa e dou eu mesma o beijo que

ele estava hesitando em me dar.