O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Camilo Castelo Branco · Capítulo 9 de 18

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O Carrasco de Victor Hugo José Alves

IX Damião Ravasco

IX

DAMIÃO RAVASCO

 

A pelle é feia; mas o sangue que gira

dentro é estimavel.

EURIPEDES, O Cyclope, acto IV.

 

A gravidade fria e desanimadora de D. Maria José de Portugal não vingou despersuadir o filho do conde. As visitas continuaram com a mesma quotidiana assiduidade, bem que menos demoradas. Raul Baldaque, ao reverso do que era natural, em vez de ganhar alento e desembaraço, depois que tão resolutamente se manifestára, tornou áquella timidez de collegial, vencida no impeto da paixão.

Ás vezes, o abatido moço sahia confuso e como corrido de sua tibieza, pedindo aos proprios brios que o salvassem de tão ridicula, senão indecorosa pusillanimidade. Desconfiado,{114} porém, da inefficacia do seu pundonor em assumpto de per si rebelde a razoens de orgulho, formava a só comsigo venerandos juramentos de sacrificar a chimera da luveira á realidade do seu alegre viver de rapaz. N'estes protestos fazia elle entrar a sacratissima memoria de sua mãe; imagem que raramente lhe passava diante dos olhos do espirito sem lhe deixar no coração bons sentimentos e um suavissimo ideal da felicidade humana estreme de dissabores, tedios e remorsos.

Mas a querida imagem, invocada a solemnisar o juramento, não lhe antepunha mulher que offuscasse a filha do infante. A deparar-lh'a, dar-se-hia o unico milagre possivel n'estas conjuncturas, milagre aliás frequente, quando as mulheres queridas não tem comsigo a predestinação da luveira, e o iman tresdobradamente portentoso da formosura, do talento e do espirito, sem fazer menção do mais feiticeiro filtro que ha ahi n'isto de magia amorosa, que vem a ser a esquivança da que é adorada, um não-querer de exempta, uma delicada repellencia que a um tempo vos alanceia coração e amor-proprio.

As conversaçoens de Raul e D. Maria versavam, ás vezes, sobre occorrencias politicas d'onde derivou a guerra civil funesta ao rei absoluto. D. Maria José, sem ousar arguir as{115} imprudencias do pae, lamentava que os seus conselheiros não fossem mais esclarecidos do que elle, cuja educação apoucada o obcecara em meio das alvorejantes idéas do seu seculo. Discorrendo varonilmente ácerca da historia das luctas entre a democracia e o privilegio, concatenou os successos que precederam a revolução de 1820, e justificou as resultas de que seu pae devia ser a victima, em castigo de prestar-se a representante passivo dos ambiciosos estupidos que lhe aconselharam a transgressão do juramento feito.

Baldaque saboreava-se não do tom preleccionador da dama, que não o tinha; mas da feminil suavidade com que ella simplificava, em breves e claros termos, passagens da historia patria, na maior parte ignoradas do brazileiro.

O leitor, que esvoaça em regioens diaphanas onde se não condensam vapores crassos de historia, dispensaria que a inspiradora das suas lyricas lhe referisse chronologicamente os annaes de D. João VI no estylo flatulento de mestra regia bem saturada da philosophia do historiographo snr. Moreira de Sá, ou qualquer Niebuhr da sua estôfa. Quero até persuadir-me que o leitor anemico, e avêsso a iguarias condimentosas, rejeitaria mesmamente a senhora de espiritos assás metricos{116} que lhe leccionasse os fastos lusitanos em estancias do snr. conselheiro Viale, poeta voluptuoso como gondola veneziana, vista da Ponte dos Suspiros, a balouçar-se cheia de... repôlhos.

Dou-lhe razão.

O amor seria divindade indigna das lagrimas que se lhe choram nas aras, se algum peito succubo d'elle podesse acceitar liçoens de historia como flechas do seu carcaz.

A ignorancia, mais ou menos absoluta, é uma das clausulas que nos impõe á nossa servidão o filho da deusa viciosa, cuja illustração não poderia medir-se com a da senhora Dona Canuto, Venus Urania, se é forçoso mitifical-a—ou outra capacidade menos provada.

No adro dos templos do frécheiro não demandemos philosophos eructando azias hegelianas, nem jurisperitos polvilhando a ambula dos perfumes com o vinagrinho que lhes espirita o cerebro resentido da cegueira da justiça. O que lá se nos depara, em redor dos pagodes do deus cego, é gentio a rir e a chorar, que ora se postra supplicante, ora se espoja em desbragada alegria.

Amor spasmodico, amor macabro, amor epileptico. Ha d'estas tres castas d'amor na zona luminosa da mulher peregrina. O spasmodico{117} é o comtemplativo; o macabro é o que salta e se estorce nas vascas voluptuosas do deleite; o epileptico é o que escabuja debaixo da garra da perfidia. Ha uma quarta especie d'amor, do qual ninguem faz livros porque é a mais analphabeta: é o amor de mercearia, o amor sebaceo e rubido como o burril antigo o immortalisou nas cascatas, e no coração de nossas avós. Encontra-se esta reliquia dos tempos honestos no terceiro andar das familias cujos chefes labutam nas suas tendas. Está sentado na travesseirinha do leito nupcial, brincando com os folhos e borlas azues da almofada. Resfolega, por bochechas de cravelina, frouxos de riso á esposa, quando ella, depois da ceia, desaperta os nastros da ceroula conjugal, emquanto elle encarapuça o marido no barrete de dormir. Não temos que entender com algum d'esses amores n'esta chronica, exceptuado o primeiro, o spasmodico. Nem Stendhal creou adjectivo tanto ao ponto. Deixemo-nos de crystallisaçoens. Spasmos, macabrismos e epilepsias—é o que ha. Mais nada.

Raul de Baldaque estava, pois, escutando as narrativas da luveira em arroubos que sobreexcedem os de um alumno de boa fé absorto a escutar o snr. João Felix Pereira, quando arenga ácerca de Herodoto.{118}

Em uma d'essas tardes de innocentissimo prazer, entrou na loja de D. Maria José um mulato offegante, com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou em soffocativas intermitentes, dirigindo-se a Raul:

—Menino, venha depressa a casa... venha depressa... que o snr. conde...

—Que é, Damião?!—interrompeu Raul—que tem meu pae?...

—Cahiu por morto, quando ia a entrar na carroagem... levei-o nos braços para casa... chamou-se o medico; mas já não respirava...

O moço, apertando a mão de D. Maria José, que balbuciava algumas palavras compassivas, sahiu acceleradamente.

Quando entrou no quarto de seu pae, as pessoas que rodeavam o leito, não responderam á interrogação de Raul. O medico apertou-lhe convulsamente a mão e sahiu. Os restantes eram criados, cujos aspeitos exprimiam mais espanto do que dôr.

O filho ajoelhou á beira do leito e beijou a mão do cadaver; depois, encostando a face ao hombro do pae, soluçou palavras inintelligiveis. Do outro lado do leito ajoelhou alguem com os punhos cerrados na fronte e as lagrimas a borbulharem-lhe dos olhos espavoridos no rosto do morto: era o mulato Damião.

Digamos d'este homem que se nos revela{119} sympathicamente em frente d'um filho que chora, e ao lado do velho que lhe expira nos braços.

Damião Ravasco era o seu nome. Gentil corporatura de mestiço. Feiçoens levemente denunciativas da origem indiana de sua mãe. Olhos fulgurantes. Epiderme esmaiada, aquelle esfumado de marfim antigo, que nas raças europêas distingue as bellezas finas, o pallor romantico, a vantagem do espirito sobre a riqueza do sangue.

Damião Ravasco orçava pelos trinta e dous annos. Já sua mãe havia nascido em casa de Antonio Ferreira Baldaque, pae do defunto conde. Ninguem lhe attribuia filiação d'este ou d'aquelle. As escravas eram muitas e fecundas todas. Entretanto, nos traços physionomicos de Damião, realçavam parecenças com o pae de Raul; e, no particular affecto com que o capitalista o estremara desde a primeira infancia, havia o quer que fosse indicativo de virtude não vulgar nos progenitores dos filhos das escravas.

Antonio Ferreira Baldaque deu aso a suspeitarem-no pae do mulato quando o mandou á escóla, trajando-o com decencia incompetente a um servo. Aggravaram-se, porém, as desconfianças, quando, prompto em primeiras lettras, o rapaz seguiu estudos superiores.{120}

Poucos annos antes, havia casado o negociante com a mãe de Raul, a qual, ciosa da consideração que o esposo liberalisava ao filho da escrava, disparou em impertinencias que poderiam resultar a felicidade do mulato, se elle pendesse a engrandecer-se por lettras.

Quiz o prudente esposo restabelecer a paz domestica, enviando Damião a seguir em Portugal a carreira da jurisprudencia ou da medicina na universidade de Coimbra. O rapaz ouviu as ordens do padrinho, e respondeu humilde, mas com firmeza, que não queria ser doutor, nem tinha queda para estudos.

Esta confissão não era vaidade mal rebuçada em modestia. Em Damião Ravasco, ao passo que a esforçada musculatura se alargava com proporçoens agigantadas, parecia que as potencias da alma lhe eram deprimidas pelo pezo da materia. Os condiscipulos não ousavam motejar-lhe a rudêza, desde que elle, em polemicas grammaticaes, abusando dos preceitos mais vulgares da camaradagem litteraria, respondia com sôccos ou marradas aos argumentos dos adversarios: indignidade que ainda não vimos praticada em outra parte, senão no parlamento portuguez.

Os professores haviam já prevenido o protector do mulato, quanto á incapacidade rebelde{121} do estudante; apesar disso, Baldaque desejou illustral-o, até ao momento em que Damião por claros termos se recusou.

Interrogado sobre o modo de vida que melhor quadrava ao seu genio, o rapaz, que então contava dezoito annos, respondeu que o seu gosto era ser boleeiro; e acrescentou que tarde ou cedo o havia de ser, porque ninguem fugia á sua estrella.

Ou porque respeitasse a estrella de cada sujeito, ou receiasse denunciar o que era, ou dar mais fortes suspeitas do que não era, o negociante offerecera alguns contos de reis a Damião Ravasco a fim de que se estabelecesse, consoante sua vontade e vocação.

O mulato rejeitara o dinheiro dizendo entre soluços que não queria deixar o padrinho; e, abraçado ao pequeno Raul, rogava-lhe, debulhado em lagrimas, pedisse ao pae e á mãe que o não mandassem embora.

A esposa do submisso negociante não condescendera. Os rasteiros instinctos de Damião, preferindo a cocheira á universidade, e a sella ás cartas de bacharel, acerbaram o desamor da dama que afiava cortantes chacotas contra a defunta escrava, assacando-lhe que ella arteiramente capacitara da tal paternidade o seu senhor, usurpando direitos de progenitura a algum obscuro lacaio. Antonio Baldaque,{122} posto que não se desse como pae do mulato claramente, devorava em silencio o insulto, deixando-se invilecer e maneatar pelas centenas de contos que a esposa augmentara aos seus haveres.

Não era elle todavia insensivel ao espinho occulto que lhe pungia na vaidade de pae, quando diligenciava demover o afilhado da vil profissão de boleeiro, incitando-o a sair para Portugal, onde lhe segurava recursos para negociar, se não quizesse outra carreira.

Damião Ravasco, soffreando esforçadamente a sua mania, cuidou que poderia conformar-se, e já parecia vencido das indirectas instancias do padrinho. Mas, um dia, como visse annunciada a venda de carroagem e parelha do ministro francez, concorreu ao leilão, licitou por não poder conter-se, e arrematou o trem, obedecendo á espora do instincto que o não deixou reflectir na desobediencia.

Dado tal passo, Damião foi despedir-se do padrinho que o recebeu de máo rosto, improperando-lhe a baixeza das inclinaçoens. O moço, porém, possuido dos fidalgos espiritos de muitos portuguezes coevos, netos de Gamas, Albuquerques, Castros e outros, respondeu que a sua inclinação, não o deshonrando a elle não podia deshonrar ninguem.

A pessoa de quem Damião Ravasco se{123} despediu com muitas lagrimas era o menino Raul. A creança pagava amorosamente os afagos do mulato, defendendo-o como podia, quando a mãe o tratava com desaffecto, e fugindo d'ella para os carinhos do filho da preta, quando a retrincada senhora o appellidava affrontosamente o negro.

Começou o mulato sua vida de alquilador prosperamente, comprando carroagens, e boleando-as elle mesmo. A paixão da almofada e do pingalim não lhe consentia aristocratisar-se na sua esphera de proprietario de nove parelhas normandas e seis aceados trens. Era artista em extremo grau. Entrajava com menos alinho que os seus criados. Todo o seu deliciar-se em luzimento e galhardia de composturas eram os arreios dos cavallos e o brilhante verniz das equipagens.

A propensão do mulato não era das que menos se prestam a irritar as sanhas das indoles brigosas. A parçaria com homens de Cavalhariça, de natural bulhentos, muitas vezes o poz no gume do perigo, e outras tantas lhe deu admiraveis triumphos de pugilato, quando não era a navalha que empurrava os adversarios para o hospital. A policia, inquietada e nem sempre respeitada pelo valentão, quiz prendêl-o em cumprimento d'uma pronuncia por crime de tentativa de morte nas{124} pessoas de dous negros que haviam maltratado na chacara Raul de Baldaque, em occasião que este se comprazia frechando-os com alfinetes desempolgados do arco, sob pretexto de ensaiar-se para Guilherme Tell.

Homisiou-se Damião em Vassouras, recommendado pelo padrinho, a quem cumpria patrocinar o generoso defensor do filho legitimo.

Este caso amolleceu a dura condição da mãe do menino, cujo prazer de assetear negros lhe seria descontado em torcegoens de orelhas, se o filho da escrava não sangrasse a ferro as iras dos offendidos. Quebrou-se, pois, a antipathia da dama, até á condescendencia de permittir que o marido sahisse a publico em abono do afilhado, legalisando as navalhadas como justa defesa.

Damião Ravasco regressou absolvido, mas não emendado, ao Rio de Janeiro. A impunidade alargara-lhe o fôlego das proezas. Cuidar-se-hia que a sua paixão dos quadrupedes ia desandando n'outra menos estranha á super-intendencia do codigo criminal. Quando evitasse o ensejo de provar a mão na cara dos que se lhe arrostavam, vêr-se-hia á sua beira Raul a quem elle obedecia docilmente; mas, como essas occasioens eram menos que os lances em que o provocavam, ou elle se considerava provocado, raro era o dia em que{125} Ravasco não tivesse de explicar á policia a razão por que certos queixosos haviam perdido alguns dentes, ou, com os olhos tapados por contusoens, recorriam á justiça pouco menos cega que elles.

N'este meio tempo, falleceu a esposa do capitalista.

O viuvo apressou a liquidação dos seus grandes bens de fortuna, com o proposito de repatriar-se, e saborear em socego o restante da vida.

Não queria elle trazer para Portugal o mulato, receiando desgostos e sobresaltos, em tempo e terra onde lhe sorriam esperanças de remançosa tranquillidade. Tanto poderam, no emtanto, com elle instancias do filho que não houve recusar-lhe a companhia do amigo.

O conde de Baldaque, em Lisboa, ostentava opulencia ajustada ao titulo. Damião mordomisava a cocheira, com voto deliberativo na escolha das parelhas e carroagens. A paixão recrudecera-lhe a termos de não querer outra posição em casa do padrinho. Pelo que toca ao sestro das valentias, corrigira-se tanto quanto o conde podia ambicionar. Como não tinha inimigos em Lisboa, o mulato, absorvido no deleite de palmear e almofaçar as ancas dos seus cavallos, apenas uma ou outra vez esbofeteava os criados gallegos da cavallariça{126} para exercitar a pujança dos tendoens in anima vili.

Raul de Baldaque, nas estouvices de rapaz, se precisava de um amigo que lhe antepozesse a sua vida aos lances arriscados, aventurava-se aos maiores perigos com Damião ao lado. Confidencias amorosas, particularidades que elle escondia dos seus commensaes, dialogos intimos com damas de primeira plana, tudo revelava a Damião Ravasco. O mulato ria das aventuras do amo, e aconselhava-o a ser rasgado e audacioso com as fidalgas quando elle se prezava de o ser com as môças dos visinhos.

Não lhe era portanto mysterioso o amor de Raul á luveira.

E o seu modo de pensar a respeito d'esses amores, que tão mudado lhe traziam o pensativo menino, o saberemos logo.

Dada em resumo a biographia do mulato, personagem de maxima importancia n'esta historia, temos explicado aquellas lagrimas, que o filho da escrava chorava, beijando a mão fria do homem a quem nunca ousára chamar pae, posto que, no silencio da alma, uma voz mysteriosa lhe dissesse que Raul era seu irmão.{127}