O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Camilo Castelo Branco · Capítulo 7 de 18

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O Carrasco de Victor Hugo José Alves

VII os Tres Contos de Reis

VII

 

OS TRES CONTOS DE REIS

 

Por entre o labio torpe e podres dentes,

D'aquelle abysmo esqualido, que póde

Sahir que não tresande!?

GOETH., Fausto Segundo—côro.

 

E n'aquelle tempo reinava em Portugal D. Pedro V—cidadão portuguez, que morreu honrado e sinceramente carpido.

Aquelle rei era triste, porque o sol ardente do espirito, o ardor da sciencia lhe crestaram o viço da juventude.

O conde da Carreira e outros pedagogos, que trajavam ainda calção e rabicho na alma, intouriram o animo do principe com iguarias indigestas, introvertendo-lhe para o viver intimo, em florescencias sem aroma, os gomos da mocidade que nunca desabrocharam perfumes de contentamento. {74}

E, porque era triste, era bom, compadecido, esquivo a vanglorias, como quem sabia, que, nas naçoens livres e pobres, nenhumas ostentaçoens sobredouram o manto real senão as da reportada parcimonia e abstenção de soberanias extemporaneas.

Um regimen de governação, que facultasse ao rei amplas prerogativas, demonstraria que o primogenito da snr.ª D. Maria II era especulativo de mais para deliberar n'esta rasa missão de governar homens. O polyglotto snr. Viale inoculara-lhe empólas academicas, uns arrôbos já bastantemente serodios em glossas de mysterios dantescos, pelos quaes o principe, absorto entre o enigma da meia-edade e o enigma peior dos mestres, revelou predilecção impertinente.

Que farte sabia o previsto alumno dos pingues sabios que lhe não montaria ganancia alguma o estudo da sciencia de governar este manso povo, que lhe havia apedrejado o avô e rossado a injuria desbragada pela sombra da mãe impolluta. Nas angustias da snr.ª D. Maria da Gloria se lhe revelou a condição acerba de quem ha de ver homens e factos atravéz do prisma dos validos. Desde o padre Marcos até ao senhor do castello de Gualdim Paes, encadearam-se successos que mostraram ao meditativo principe o indeclinavel calix{75} em que sua mãe lhe legara—para saudades e exemplo—o travo de suas lagrimas.

Por isso aquelle moço não provára as alegrias e regalos de sua edade e jerarchia.

Ao saír do sereno ambiente do gabinete de estudo para as borrascas da vida pratica, retrahia-se aos braços da chimera luzentissima que esvoaçava ás regioens sombrias da Divina Comedia—semsaboria immortal!—ou se librava nas nevoas de Macpherson,—immortal semsaboria!

O ar do paço tresandava ás prêas que os escaravêlhos rolavam pelas alcatifas. Da camarilha das mulheres ainda vaporavam as caçoletas encontradas nas recamaras da Bemposta. Na camarilha dos homens mal podia o principe sincero extremar entre respeito e adulação, e entre silencio estupido e sisudeza discreta. Se os mestres, preleccionando-lhe o reinado de seu tio-avô, bosquejassem o caracter dos validos que o derrancaram, o rei, nas suas salas, cuidaria achar redivivos, em cada cortezão, o Vadre, o barbeiro viscondisado, e o Sedvem, mais seriamente vestidos com as librés de 1857.

Uma vez, D. Pedro V, obedecendo a impulsos de bonissima indole, ordenou que as lastimas dos queixosos de iniquidades pudessem chegar á quasi soledade onde se amiserava{76} um rei. Inaugurou-se a celebrada caixa onde os requerimentos eram lançados. A chave d'esse cofre de lagrimas, que já haviam sido acalcanhadas no peito dos repulsos, era el-rei que a tinha. Confluiram a centenares os appêllos da injustiça dos ministros para o simulacro do braço soberano; mas as reparaçoens eram baldas, porque D. Pedro V o mais que podia dar em beneficio dos queixosos era a esmola aos que lh'a mendigavam, e commiseração aos que se deploravam, pedindo justiça ao rei e não esmola ao abastado. O alvitre do imperante denotára alma egregia; mas o infortunio vingára apenas fazer-se conhecido no gabinete real. E mais nada. As virtudes do rei não podiam ser mais fecundantes que as do cidadão, primeiro na jerarchia, mas não decerto o primeiro em bens de fortuna. Era rei, consoante a pauta constitucional; e os accusados no seu tribunal fantastico eram os pennachos, as togas, os arminhos e os argentarios a quem os éphoros pediam de usurario emprestimo as mezadas da lista civil.

Os aulicos de quem o principe se rodeava, forçado pela pragmatica, nunca lhe referiram com certeza as penurias que esmaltavam as cans de D. Miguel de Bragança. Não era respeito á legitima soberania, nem temor do real desagrado que os amordaçava. Elles sabiam{77} que na alma do rei não negrejavam odios ao irmão do seu avô, nem se quer á sequéla legitimista que explorava nas franquias do codigo liberal a liberdade de injuriar o throno, vendendo a injuria impressa. Enfreava-os o receio de espertar em a liberalidade do coração dadivoso, defraudando-se dest'arte do quinhão que repartiam, pondo o almoxarife á porta das mercearias insoffridas a pedir-lhes que não denegassem ao refeitorio do rei de Portugal as massas e os paios fiados com desconfiança.

Não obstante, D. Pedro V soube que D. Miguel, levado pela providencia applacada aos braços da espôsa, que lhe tapetava de flores tardias o breve caminho da sepultura, e o rodeava de alegres berços, povoados de ridentissimas creanças—uma senhora, no mais vicejante dos annos, e no esplendor da belleza, immaculada, neta de reis—espectaculo que dulcifica lagrimas!—offerecia o seio para reclinatorio de um velho expatriado e pobre!

No regaço d'aquella dama alguns portugueses, ajoelhados, não á rainha, mas ao anjo, depunham o producto das esmolas colhidas em Portugal.

O Senhor D. Pedro V apreciára a virtude dos que, sem esperança de galardão, mantinham no exilio a mediania do infante. Quiz,{78} pois, egualar-se no sentimento da caridade aos que se devotavam ao homem esbulhado de todas as grandezas, e até privado da gloria posthuma com que a historia fartas vezes honra a lapide dos que resvalaram do throno ao sepulcro pela rampa do exilio.

E, depois, o magnanimo monarcha, arrobado no resplendor de uma estrella que lhe levára para Deus a luz ephemera dos seus jubilos, alou-se no raio celestial, e gosou-se de lá na contemplação das mais sinceras lagrimas que ainda alguma nação chorou sobre a mortalha do seu principe.

E então somente em um secreto livrinho de lances, que o rei deixára escriptos de sua vida intima, se encontrou a verba mensal de trezentos mil reis votada a D. Miguel de Bragança.

Ora haveis de saber que o irmão do snr. D. Pedro IV nunca recebeu a mezada do rei de Portugal, nem os tres contos de reis de D. Maria José.

Posto isto, leitor attento e sobre tudo philosopho, diga-me V. Ex.ª, se dado o exemplo da fraude em tão altas regioens, é muito de espantar que Victor Hugo José Alves enriquecesse o seu sangue depauperado com a substancia metallica dos tres contos de reis que a obscura D. Maria José enviara ao pae!{79}

É d'este modo que se esclarecem as melhorias tão depressa feitas na pessoa espiritual e corporea do filho de D. Rozenda Picôa.

O procedimento d'este escriptor não seria, talvez, digno da commenda de S. Thiago da Espada, nem tambem me consta que elle a pedisse; todavia, não se me figura irreprehensivel equidade alcunhar de ladrão qualquer sujeito, porque não foi agraciado. Se não teem sido muitos os exemplos d'este descuido em Portugal, as excepçoens não devem menoscabar os creditos de Victor Hugo. Os reis não podem, sobraçando a cornucopia das mercês, espreitar todos os latibulos onde se forjam malfeitorias. Não é da attribuição dos cabos de policia enviarem a sua magestade um mappa mensal dos malandrins mais conspicuos da sua esquadra. Por via de regra, o poder executivo não leva todas as quintas feiras á munificencia regia pessoas de quem o leitor costuma acautelar o seu relogio, ou receia encontrar em ruas não patrulhadas.

Quando um ministro do reino apresentava, ha poucos annos, ao senhor D. Luiz I, que Deus guarde, o decreto que laureava com a corôa de barão de S. Diniz um proprietario de bordeis no Rio de Janeiro, seria indecoroso para o alcouceiro agraciado ajoujarem-no a um biltre ordinario. O rei sabia que tambem Catão{80} ministrava em Roma collarejas de alquilaria das quaes cobrava percentagem. Qual rei denegaria um baronato a Catão censorino?

Victor Hugo José Alves que espere. Mais tarde será regalardoado na proporção da injustiça ou da inveja que lhe atabafou os meritos. Deixe o bem estreiado cidadão germinar a semente que fiou do uberrimo torrão da sua patria. A arvore ha de bracejar vergonteas afestoadas de grinaldas que algum dia lhe hão de juncar a escarpa do capitolio.

Entretanto, a conversão de tres contos de reis em objectos attinentes á reformação physica e moral do poeta, seria acto digno de moderados elogios, se o sujeito não precedesse de calculos e consideraçoens politicamente transcendentes a consubstanciação do metal com a sua pessoa. Dotado de vistas perfurantes nas nuvens pardas do futuro, Victor Hugo, estribando-se nos correligionarios, e mais ainda na efficacia dos seus proprios artigos e instinctos amotinadores, previu que o principe proscripto seria cêdo ou tarde redintegrado no throno. Não era base menos fundamental de seus propheticos raciocinios a depravação das doutrinas liberaes, desde que a classe media corrompida gafára de sua lepra a gentalha, de quem se divorciou, pensando que o irmanar-se com fidalgos desbragados{81} era desencanalhar-se da ralé onde havia nascido.

O severo snr. Alexandre Herculano, no prologo Da Origem e estabelecimento da Inquisição, tinha escripto umas phrases biliosas de que Victor Alves inferiu a provavel restauração do rei legitimo. O vidente historiador, no conceito do cavalleiro da Ala, não podia illudir-se, quando vaticinava a restituição do absolutismo pelos proprios esforços da burguezia, sua triumphante inimiga, a qual, já temerosa das sanhas da plebe desafrontada do cabrêsto religioso, se colligaria com reaccionarios para repor rei absoluto que lhe caucionasse os haveres, cortando com a espada dos dragoens de Chaves as cubiças dos proletarios.

Prenhe d'estes grandes palpites sociologicos, Victor impoz-se o dever civico de jurar bandeiras na vanguarda do trôço mais aguerrido, metter a cabeça aventureira á brecha mais bombardeada, e lampejar claroens onde a noite dos espiritos fosse mais caliginosa —claroens de eloquencia nos clubs, nos botequins, e até nas salas das Aspazias vetustas, que, desde 1834, anafavam as barbas de todos os Pericles—como elles vingam n'este paiz—mais ou menos similhantes em esthetica e plastica ao chorado Elias de D. Rozenda.

Á mais vivida luz do entendimento se mostra{82} que Victor Hugo não conseguiria relacionar-se na sociedade, onde lhe cumpria fecundar com o verbo as convicçoens legitimistas, se não se entrajasse com o asseio e galanice que hoje em dia realçam as clausulas do bom orador. Decerto lhe seria atravancado o accesso aos saloens, se na sua guarda-roupa tivesse sómente a quinzena de panno pilôto com que mediocremente se distinguia nas cêas do Collete-Encarnado; e com a qual se escondia na penumbra de um «caffé» da rua de S. Roque, aquecendo a grogs fiados a fantasia. Tempos calamitosos eram esses em que o deputado Elias o brindava com um paletó no fio, e um collete de mozaico desbotado, relançando á mãe um olhar que requeria gratidão, fidelidade, e talvez a renuncia completa ás caricias do conego Antunes!

Victor Hugo tinha presenciado das galerias da camara baixa que os homens, em cuja testa latejava a inspiração estuosa dos Izocrates e Hortencios, primavam na casquilhice do trajo, no adamado da penteadura lustrosa, no azeviche brunido dos bigodes. Viu que o involtorio engrandecia mais que muito as posturas sculpturaes e antigas da gesticulação, bem que a clamyde grega ondularia mais imponente nas omoplatas do snr. José de Moraes, do que em verdade as abas do fraque um tanto{83} canhestras para as attitudes largas e arrojadas. Reparou em particular o embellesado Victor Hugo José Alves no aprumo estatuario do snr. Carlos Bento; e, com quanto o fino gosto dos Phidias inéditos estivesse cubiçando uma toga cahida com romana magestade sobre aquella confirmação de myologia classica, o bem posto da pessoa entre as costuras da vestimenta não prejudicava de todo os raptos de eloquencia que lhe phosphoreciam no aspeito grávido de idéas. Ia n'estes effeitos, desconhecidos a Longino, o segredo da arte de vestir bem.

Não lhe fez menor impressão o snr. Arrobas, que sorria de esconso para o collete listrado do já hoje defuntissimo snr. João Elias; nem pôde esquivar-se a imaginar que o snr. Mártens Ferrão, sem o primor das suas casacas, e o compassado pendulo do braço direito á competencia com o pendulo compassado do braço esquerdo, apenas vingaria com os seus discursos retirar das pharmacias o láudanum, e constituir a camara em permanente jardim das Oliveiras, onde os discipulos de Jesus dormiam de tristesa, como S. João refere. Dormir de tristeza!—é o mais curial e justificado somno que pode narcotisar uma assemblêa de legisladores, quando a providencia das naçoens não encarrega alguns deputados bem penteados e vestidos de manterem o{84} auditorio em alegres insomnias, salvante o snr. duque de Loulé para quem o proprio snr. padre Antonio Ayres do Porto seria uma amendoada.

Destas contemplaçoens sahiu o filho de D. Rozenda Picôa bastante inquieto sobre a proveniencia dos recursos precisos a quem por força, privado d'elles, havia de abdicar dos destinos apontados fatidicamente pelo genio.

Se elle enviasse ao snr. D. Miguel de Bragança os tres contos de reis, e assim se exonerasse de ser o motor da restauração, á mingua de fato digno d'um restaurador, não seria isto damnificar o paiz, a trôco de ser honrado com um homem? Que montaria mais ao proscripto—o ouro da filha, ou a restituição da corôa? E, se alguns punhados de ouro, em mãos alheias, lhe estavam logrando juros de patria e corôa, não era obra para tres vezes bemdita aquella santa ladroagem que habilitava o revolucionario a acercar-se, depois, do solio do rei restituido, com a ufania de outros bandoleiros que elle via assentados á orla do solio usurpado?

Tres contos de reis nas algibeiras de Victor Hugo, estavam germinando casos e transformaçoens de magnitude incalculavel, ao passo que, enviados a Heubach, seriam ingloriamente{85} consummidos em comestiveis e outras ridiculezas de todo ponto inuteis á reivindicação da lei fundamental de Lamego.

Ao proposito da legislação patria, derogada pelo direito da força, muniu-se Victor Hugo de copiosa livraria; mas tanta era a confiança que pozera na espontaneidade original dos seus syllogismos, que lia quasi nada, contentando-se com o substractum extrahido dos escriptos do padre José Agostinho de Macedo e fr. Fortunato de S. Boaventura. Um livro que elle preferia ao Punhal dos Corcundas era Les talismans de lá biauté, obra até certo ponto estranha ás estudiosas vigilias d'um conspirador; mas conducente aos seus intuitos de coadjuvar a beldade dos actos do espirito com a compostura esmerada do corpo.

A limpeza da sua pessoa, longos annos suja, não se fez rapida nem superficialmente. O talento, que o infuriava hydróphobo contra os banhos do doutor Nilo, impunha-lhe agora a necessidade de, todas as manhans, se retoiçar voluptuariamente n'um banho aromatisado com Lait d'amande douce, friccionando-se com saboens de Thridace e da la reine des abeilles, ou Crème froid mousseuse. Depois, no amanho dos espessos e oleentos cabellos, que em outro tempo fariam recuar um javali assanhado, enfileirava os cosmeticos numerados desde o{86} Baume des violettes d'Italie e crèmes duchesses até á Eau redivive de Nangavaki e á Diamantine lustrale. N'esta operação capillar, em frente d'um espelho de Veneza ladeado de columnas com arandelas de bronze, formadas por Leda com o cysne e Europa com o boi, ia Victor Hugo ensaiando as prégas da fronte e os vincos do sobrôlho, significativos de cerebro causticado pela cantharida do genio: ensaio previo que elle imaginava contribuir assás para os triumphos oratorios do snr. Sá Vargas.

Involto em robe de chambre azul-ferrete de brocatel, cingido á cinta por cordoens de sêda e borlas escarlates, Victor encaracolava as favoritas do bigode, encerando-o e lustrando-o com Pommade hongroisse; depois ungia a epiderme com crème Pompadour, e operava o quarto lavatorio da untuosa cara com agua saturada de rosée des abeilles. Finalmente, seguia-se o polimento das unhas escovadas e alfanadas com poudre oriental. Todo o requinte n'este ponto lhe parecia baldo, figurando-se-lhe que as suas mãos não accusavam na delgadeza e transparencia a aristocracia dos Marialvas ou Vimiosos.

Feito isto, alli se quedava largo espaço narcizando-se diante do vidro com o languor mulheril de um Bathylo ou Juvencio. Requebrava{87} o colo em dengosas flexuras de cysne preto, e entre-abria sorrisos de donzel, deixando apenas descerrar os labios. Risos francos e abertos não os confiava sequer do espelho. Eram-lhe dôr, desaire e violencia enormes não poder rir.

E porque não ria este homem tão alvoroçado de alegrias intimas? Seria para simular profundeza de juizo, e cuidados de conspirador que lhe traziam os miolos amartellados? Não, senhores. É que tinha os dentes lurados de cavernas cariadas e chumbadas, e as gengives tábidas d'um gluten verdoengo. Era uma podridão de caveira, um arcaboiço de mandibulas a vaporar febres perniciosas.

Tirante os dentes, o alinho complexo do poeta, visto a vulto, recendia a olorosa elegancia que lhe perfumava o ambiente, mitigando-lhe o halito paludoso, e temperando sadiamente o ar a favor dos circumvisinhos.

Não assevero que Victor Hugo ensaiasse com alguma felicidade, nos saloens da aristocracia herdada, a influencia anachreontica dos seus dotes physicos; antes pendo a suspeitar que lá se sentisse mais a corrupção dos seus dentes que a da sua alma.

As finas bellezas das raças historicas olhavam-no de soslaio, e trocavam entre si tregeitos indicativos de espanto e mofa. O inculcado{88} talento do poeta não obteria sequer, na sociedade frivola das damas illustres, aquella attenção convencional e contrafeita que a sociedade burgueza dispensa aos litteratos, sob condição de que o poeta escreva o soneto em dia de annos, ou a necrologia nos obitos da familia.

Rosnava-se, porém, que uma marqueza, já bem esfolinhada de teias de aranha de preconceitos em 1820, não o fizera esperar, como Ninon a um certo abbade, o anniversario natalicio dos seus annos ultra-canonicos, para o convencer de que a lira do bardo hodierno podia, sem profanar o culto antigo, desferir endeixas accommodadas á magestade de uma cathedral gothica. Outro sim constava que o filho do Alves dos couros, morto em odor de caceteiro cabralista, cultivára aquelles amores como quem escarda, no estylo do seculo XVI, archaismos para os lardear, com presumpção de entendido, nas modernas formulas litterarias.

Queriam dizer, ou dizia elle que a marqueza, reliquia das antigas usanças de palacio, collectora de anecdotas attinentes ao viver intimo da fidalguia, e refinadamente polida de maneiras exclusivas da sua casta, pagava generosa as fumigações do nardo, dando ao seu poeta uma demão de verniz de bom-tom,{89} que elle decerto não dispensaria para escodear as crustas da educação, na convivencia do capitão da carta e nas cêas de figado frito na tasca da Rua das Pretas com os clowns do Price.

Como quer que fosse, n'estes amores transitorios e meramente acceites como appendice de policiamento, Victor Hugo José Alves guardava intemerata e sem nodoa a poesia do seu peito. D. Maria não se lhe despintava da idéa apaixonada.

A conversão do dinheiro em beneficio da causa de D. Miguel era incentivo a maior para que elle, mais ao diante, na liquidação de suas contas com D. Maria José de Portugal, descontasse a verba empalmada, incendrando-lhe em ternuras o mais fino ouro do seu amor.

Entretanto, o causidico da legitimidade ganhava entre os seus confrades o nivel dos mais esperançosos talentos da restauração. Ensejo de fallar melodramaticamente não perdia um. Ageitava a occasião de exhibir troços de discursos que compunha no seu escriptorio, declamando-os á tia Euphemia, que se mostrava accessivel ás descargas electricas da metaphora, resultado da sua diuturna familiaridade com um auctor dramatico, que a denominava a sua Laforêt, e a beijava com{90} delirio, se ella lhe cantava, com as mãos no peito bambo, as chacaras dos seus dramas. Com os olhos suados de saudoso liquido, D. Euphemia, attenta ás oraçoens do sobrinho, cuidava estar ouvindo o dramaturgo, que se fôra d'este mundo com os ouvidos ainda atroados das ovaçoens do Salitre, e o coração alanceado de invejas roazes aos Dous Renegados do snr. Mendes Leal.{91}