O Carrasco de Victor Hugo José Alves
XVI Ressurreição de uma Alma
XVI
RESSURREIÇÃO DE UMA ALMA
Nec sine premio virtutes.
Não ha virtude despremiada.
BOETIUS, da Consolação da
Philosophia, Liv. IV.
A medicina, informada da origem da enfermidade moral da condessa, aconselhou viagens como distracção. O caracter intermittente dos accessos de lagrimas, e a incongruencia das palavras, delirantes sem febre, eram symptomaticas de perturbação de juiso. Todo seu empenho apontava em provar ao marido que as affrontas atiradas á sepultura de sua mãe eram calumniosas. O conde esforçava-se por convencêl-a de estar d'isso bem persuadido; ella, porém, sobrevinha na mesma prova, se despertava apoz um breve espaço de repouso.
Assim que a desfigurada condessa ganhou{214} forças e se docilisou ás carinhosas supplicas do marido, aprestou-se tudo rapidamente para a viagem.
Da casa e direcção dos negocios do conde ficou encarregado Damião Ravasco. O mulato exultou quando o dispensaram de os acompanhar, sem todavia manifestar o intento que o prendia a Lisboa. Toda a sua esperança era descobrir o publicador do folheto, bem que de si para comsigo devia ser um dos dois que elle esmurraçára, sem embargo de lhe dizer Christovão Tavares que suspeitava muito d'um tal Victor Hugo. Queria muito o mulato que lh'o mostrassem a fim de o não procurar longo tempo, se um dia o diabo o atraiçoasse. E, com effeito, chegou a vêl-o á porta do Marrare do Chiado. Contemplou-o com disfarce, e disse entre si: «deve ser este!» Entretanto, as cartas vindas de differentes paragens da Europa, não davam esperanças do restabelecimento da condessa. A monomania da justificação da mãe resistia ás diversoens, aos rogos, ás caricias, e á therapeutica dos banhos, frios da Allemanha.
No outono de 1860, chegaram a Baden, esperançados nas aguas mineraes. Ao mesmo tempo, chegava D. Miguel de Bragança com sua esposa e alguns filhos.
O conde levou alvoroçado a noticia á enferma,{215} que teimava em não sahir do seu quarto. A condessa agitou-se, riu-se, chorou, bateu as palmas, abraçou o marido, beijou a sua amiga Ernestina, e exclamou com febril vertigem:
—Vou vêr meu pae!... vaes vêl-o, Raul!... verás o que elle te diz de minha mãe... verás que é tudo calumnia!...
Mas o conde receiava que o infante desconfiasse da sanidade intellectual de uma senhora que lhe saisse ao encontro a chamar-lhe pae, sem de antemão se haver prevenido para tal apresentação.
Contida no seu enthusiasmo a condessa por considerações de etiqueta indispensaveis com os principes, o conde fallou a um sacerdote da pequena comitiva do infante, e industriou-o sobre a maneira de precaver D. Miguel para ser cumprimentado por uma dama portugueza, a condessa de Baldaque.
O principe alegremente mostrou vivo desejo de conhecer a esposa de um cavalheiro a quem elle e os legitimistas portuguezes deviam relevantes finezas.
Incutia receios o arquejar do peito da condessa, quando apeou da carruagem á porta do infante.
Sahiu D. Miguel de Bragança ao patamar da escada a recebel-os. Quando, com a mais{216} lhana cortezia, o principe offerecia a mão á dama, ella ajoelhou; e, suffocada por soluços, cobriu de lagrimas e beijos a mão que não pôde esquivar-se áquelle estranho transporte.
—Ó minha senhora!—exclamava o infante—por quem é! peço-lhe que se levante...
E olhava para o conde, como a pedir-lhe a explicação da anciedade da dama.
E o conde, com os olhos turvos de lagrimas, disse:
—Vossa magestade comprehenderá a perturbação de minha mulher, sabendo que ella é Maria José de Portugal, filha da snr.ª D. Marianna...
—Ah!—exclamou o infante—já sei... já comprehendo...
E, com maior esforço, inclinando-se até poder levantal-a dos seus pés, abraçou-a, beijou-a na testa, correu-lhe as mãos pelas fontes, e murmurou:
—Vi-a creancinha... de seis mezes...
E, tomando-lhe o braço, conduziu-a á sala, sentou-a na othomana, ao seu lado, lançou-lhe o braço pela cintura, e disse-lhe quasi em segredo:
—Sua mãe... é morta?
—Ha muitos annos...—balbuciou a condessa.
—Porque me não escrevia, quando me{217} enviava...—tornou elle, feita uma longa pausa.
—Oh!—atalhou D. Maria—peço-lhe que não se lembre... vossa magestade...
—Que me não lembre?... Eu não me esqueço senão dos ingratos... minha filha!...—E voltando-se para o conde:—sênte-se, senhor... Como se chama seu marido?—perguntou á condessa.
—Raul—respondeu ella.
—Sênte-se, snr. Raul... Sei que é brazileiro... Agradeço-lhe esta boa hora da minha vida—proseguiu tomando entre as suas a mão de Maria.—Mal diria eu!... Ella aqui está... aquella creança que eu via como um anjo lá ao longe da vida... um ponto branco e luminoso do passado... um sonho!...
D. Miguel alongou os olhos tristes para o horisonte azul que as montanhas recortavam. Que visão! que saudade! que escuridade ia dentro d'aquella alma, purificada na onda das lagrimas, na fragua da indigencia, no cadinho ardente do desesperar!
O conde, embevecido no aspecto respeitavel e triste d'aquellas cans geadas dos invernos de vinte e oito annos, escutava-o tão admirado, quanto em Portugal a opinião da plebe das letras malsinava de ignorancia o principe. D. Miguel interrogava, ora o conde,{218} ora a filha sobre coisas e pessoas da patria, alheando-se da politica, e instando a sua dolorosa curiosidade em miudezas de certos sitios, dourados pelo sol da infancia, e esmaltados de indeleveis côres pelo archanjo da saudade, que lá de longe nos segue até nos entregar ao archanjo da morte.
Quando um criado entrou á sala annunciando que a rainha se recolhera do banho, o infante disse ao conde:
—Minha mulher ha de querer cumprimental-os em occasião mais opportuna.
A condessa levantou-se, dobrou o joelho ao lado do esposo, beijaram as mãos do principe, que deu o braço á dama, até ajudal-a a subir ao estribo da carruagem.
Desde esta hora, raiou luz nova no espirito da condessa. As lagrimas do enthusiasmo filial diluiram a mancha negra que lhe ennoitecia, a intervallos, a razão. Se a causa d'aquelles crepusculos da escuridade da alma tinha sido julgar-se abatida pela calumnia aos olhos do marido, a cura operou-se pelo exalçamento que lhe dera a consideração do pae em presença do conde. Só assim: nenhuma outra ancora salvaria do golpho das trevas aquelle espirito. A ferida escalavrara o orgulho da neta de Affonso VI, por sua mãe e por seu pae.
Demorou n'aquella paragem o conde até{219} que D. Miguel recolheu a Heubach. Depois, deteve-se em Allemanha. Por espaço de anno, raros dias se não viram as duas familias. A felicidade de Maria José era o céo, como raras vezes a virtude n'este mundo o encontra, na consciencia, e nas alegrias inalteraveis da vida exterior.
O conde, adivinhando os discretos silencios da esposa, disse que nunca mais voltaria a Portugal. Projectou, pois, deter-se na Europa mais dois annos, e voltar para o Brazil, onde o chamavam as memorias da infancia, como quem queria continuar as doçuras da vida adulta e lá esperar a quietação da velhice.
N'este proposito ordenou ao seu procurador e mormente a Damião Ravasco a venda de todos os seus haveres em Lisboa, com ordem ao leal amigo de o ir encontrar a Marselha, levando comsigo Christovão Tavares e toda a familia do afortunado velho.
Quando Damião, grandemente desconsolado por ter de sahir de Portugal sem vingar o conde, obedecia ás ordens recebidas, foi colhido de sobresalto por uma noticia que, segundo elle affirmou, por pouco o não matava de prazer.
Christovão Tavares mostrou-lhe uma gazeta liberal em que o articulista, em polemica virolenta com o redactor d'outra gazeta, escrevia{220} estas lisonjas: «... Quem é este sevandija que nos falla em moralidade, em caracter, em firmeza de principios, em dignidade jornalistica? Quem é o gaiato, o fundibulario das esnogas d'Alfama, que nos despede a pedra, sem receio que o recochête lhe vá bater no stigma infamante da testa, onde a lei já não deixa escrever LADRÃO com ferro em braza? Quem é, e donde veio este Victor José Alves, que incravou no nome plebeu o «Hugo» tão honrado no mundo? Quem lhe disse a elle que onde estava o Alves, para memoria de um certo Diogo, devia intervir o sobrenome do primeiro poeta do universo?
«Victor Hugo! elle, o filho da estalajadeira, que ainda tem, como brazão de familia, atraz da porta o cacete do marido, que quiz mercadejar com as costas dos septembristas, como com os coiros de vacca onde se levantou subindo pela tripeça do pae!
«Victor Hugo! elle que imbaiu uma certa luveira a dar a D. Miguel uns tres contos de reis, que o escroc desbaratou em pasteis de camarão e orgias nos bordeis!
«Victor Hugo! elle que depois prefaciava um apontoado de injurias aleivosas que haviam matado a infeliz mãe da luveira roubada, e levaram depois ao cairel do sepulcro moral a razão de certa condessa, que hoje{221} erra foragida da patria em companhia de seu honrado marido!
«Elle, Victor Hugo, que apoz tantas protervias, umas culminantes de infamia, outras de irrisão, exerce hoje um logar de confiança politica, o secretariato d'um governo, e pendura na lapella da casaca, que devia ser blusa de forçado, duas commendas, uma que lhe dá o foro de fidalgo, e outra que o representa benemerito das consideraçoens litterarias!... Elle que...»
Damião Ravasco arrojou o jornal, e atirou-se aos braços de Tavares exclamando:
—É meu o homem! Se alguem lhe põe a mão, arranco-lhe os figados pela bocca!
E parecia jorrar ascuas de forja afogueada por ambos os olhos. {222}
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