O Carrasco de Victor Hugo José Alves
X Fructa do Brazil
X
FRUCTA DO BRAZIL
Murro, s. m. pancada com a mão
fechada. Soco.
ROQUETE, Dicc. da Lingua Port.
Aqui desapparece o romantico nome de Raul.
Vamos ter a vulgaridade d'um conde. Queixem-se do ministro que dera o titulo em duas vidas ao primeiro. Todavia, entre luveira e conde o relevo dos amores deve dar margem e contrastes mais palpitantes de actualidade, como já se não diz. Amores de luveira...
Não é isto exactamente. A luveira não o amava. Era para elle em rigor o que lhe disse que era.
Distinguia-o do acume d'onde o via em baixo, bem que no seu levantado orgulho{128} houvesse uns brios de magestoso abatimento. Era irreconciliavel o divorcio de sua fidalga pobreza com opulencias provenientes de homem que intentasse offuscal-a com esta cousa sobremaneira desprezivel chamada dois milhoens, ou— mais execravel ainda—tres milhoens!
O conde honrou a memoria de seu pae, encerrando-se por espaço de quinze dias.
Como a saudade filial lhe estivesse pedindo consolaçoens que ninguem sabia dar-lhe, o moço desafogava em cartas enviadas a D. Maria José, nas quaes se carpia como se devesse achar allivio na condolencia da mulher destinada a duplicar-lhe os perdidos affectos de pae em caricias de esposa.
D. Maria José de Portugal respondia compassivamente ás cartas, adoçando-lhe a dôr com a certeza de que lh'a conhecia, porque tambem ella havia perdido sua mãe, e gemêra na dupla orphandade de mulher e mulher pobre. As suas respostas, se alguma vez pareciam dulcificadas por sensibilidade de amiga, nunca tocavam o sentimentalismo amoroso. E, tanto era o desartificio com que naturalmente se expressava, que ninguem veria nas cartas d'ella o esforço da mulher que se disfarça, ou procura colorir com termos delicados a parcimonia de mais affectivos sentimentos. {129}
O conde não escondia o seu despeito de Damião Ravasco. Lia-lhe as cartas que escrevia e as respostas recebidas por intermedio d'elle. E o mulato, pouco dado a interpretaçoens de phrases que se afiguravam reconditas á vaidade do conde, sahia-se ás vezes com umas reflexoens alheias do bom senso que irritavam sobre modo a delicadeza do amo.
Por exemplo, uma vez, andando o conde a passeiar no seu quarto, e a dizer em vozes interrompidas por suspiros que a luveira o havia de matar ou endoudecer, Damião, tomando-lhe o passo, fallou do seguinte theor:
—Ora meu amigo, vamos a isto. Estou farto de palavriado. Obras, obras é que se quer. Seja homem, e attenda lá ao que lhe vou dizer. Se o menino quer morrer ou perder o siso, não quero eu. A mulher ha de ser sua tanto me importa a mim que seja filha do rei como do diabo! Luveira é ella, isso vou eu jural-o, porque ainda hontem lhe comprei umas luvas de camurça. Mas, se fosse filha de rei e morasse no palacio real, antes de V. Ex.ª morrer ou endoudecer, havia eu de fazer mais restolho que dez milhoens de diabos para que ella fosse sua. Se eu pudesse, muito que bem; se não pudesse, quem havia de morrer primeiro que o snr. conde era eu.{130}
—Que fazias tu, Damião?—perguntou entre grave e risonho o conde.
—Que fazia?
—Sim...
—Vamos aqui fallar serio. Sente-se o snr. conde, e, se eu disser alguma parvoice, não se enfade, que perde o tempo. Um homem é um homem, parta d'este principio, como dizia o frade que me queria ensinar logica. Um homem não é uma mulher. As mulheres vencem com choradeiras, os homens vencem com obras: percebe o que eu quero dizer na minha? Um homem sem desembaraço... é mulher. Lá que a gente morre, quando não se desengana a puxar por si, não tem duvida nenhuma. Ha muito tempo que eu andaria ás malvas, se me deixasse estar quieto a conversar com a prudencia. A prudencia é boa nas terras onde não ha marotos...
—Mas a que vem tudo isso, Damião? Bem se vê que o frade não conseguiu ensinar-te logica!... Então que queres tu que eu faça?
Damião Ravasco soltou uns froixos de riso sêcco, esfregou as mãos, deu duas palmadas nas pernas, e respondeu:
—Se o menino me dissesse: «Damião, eu quero aquella mulher, custe o que custar»—a mulher seria sua, ou eu me dava em corpo e alma ao maioral do inferno! Diga-me cá,{131} snr. conde: como foi que se arranjou no Rio aquelle negocio da franceza que estava com o chanceller? O menino contou-me que ella não o queria, e o maltratára diante de outros...
—Cala-te, que me estás irritando!—atalhou o conde.—Não admitto comparaçoens entre a franceza e D. Maria!
—Mas o menino dizia da franceza a mesma alicantina que diz d'esta—observou o mulato, maliciando o sorriso com a velhacaria d'um pratico do coração humano.—Eu fui dar com V. Ex.ª, na chacara de Petropolis, triste, pensativo, a fallar só, a dar uns ais que parecia rebentar de paixão d'alma. Perguntei-lhe que tinha. Disse-me que amava a franceza do chanceller, e que dava um tiro na cabeça, se a não pudesse tirar ao francez. Foi assim, ou não foi?
—Não me atormentes!—insistiu o conde, corrido talvez de confrontação que o mulato equiparava entre as duas situaçoens analogas.
—Mas...—tornou Ravasco.
—Já te disse que me não afflijas... Queres dizer-me que fazes á filha d'um principe o que fizeste á franceza?...
—Sim... eu... acho que...
—Achas que D. Maria póde ser levada n'uma sege á traição, e calar-se depois mediante alguns centos de libras como a outra?... {132}
Damião sacudiu os hombros á feição de quem cynicamente presume que a distancia divisoria entre duas mulheres não é tamanha como os poetas a medem. O conde todavia assanhado pelo tregeito do mulato, ergueu-se de impeto, coriscou-lhe um lance de olhos humilhante, e sahiu, murmurando:
—Instinctos de cocheiro... a final!
O insulto confrangeu a alma forte do filho da negra; mas nem leve assomo de colera se denunciou na mudança d'aquelle aspecto. O amor de Damião ao filho de seu padrinho era tolerante e impassivel até á covardia. Beijal-o-ia, depois da injuria, como as mães beijam os filhinhos que as esbofeteam.
Não obstante, logo que o espanto e a dôr cederam á reacção da dignidade, o mulato procurou o conde, e disse-lhe dissimulando a commoção:
—O cocheiro vem despedir-se. Vou recolher-me á cavalhariça de V. Ex.ª, e sahirei de lá para outra, quando souber que o snr. conde encontrou feitor que me substitua.
O conde deteve-se momentos a contemplar a serenidade do mulato, que o fitava com os olhos turvos de lagrimas a desmentirem a dureza do semblante.
Qualquer que fosse o agastamento do amador da luveira, a offensa feita á filha dos Braganças{133} podia menos no amor do moço que a inveterada gratidão aos extremos do mulato. Demais d'isso, a opinião publica do Rio de Janeiro, quanto á filiação do filho da escrava, não era estranha ao conde; e mais que tudo, seu defunto pae, louvando o sisudo proceder do afilhado, em Lisboa, havia dito ao filho que a sua maior pena era não ter podido elevar Damião á decente independencia que projectára.
Por tanto, ainda que de si mesmo quizesse esconder as proprias suspeitas, o conde não podia esquivar-se á conjectura de que o mulato era seu irmão; e tal desconfiança, penetrante como um sobresalto de subita evidencia, lhe alvorotou o animo no instante em que as lagrimas de Damião, rebeldes á vontade, pareciam a um tempo queixar-se do ingrato e pedir perdão para o desvario d'um doudo enthusiasta que, em serviço das paixoens frequentes de seu amo, não distinguia entre a concubina d'um chanceller e a filha de um rei.
Estas e outras louvaveis reflexoens ponderavam no espirito do conde, quando, approximando-se de Ravasco, lhe abriu os braços, estreitou-o ao peito, e disse:
—Não finjas que me deixas, Damião, porque tu não deves nem podes deixar-me...
E o mulato, rindo e chorando, tartamudeava{134} palavras convulsas, em quanto o conde proseguia:
—Não se deixa um rapaz de quem se é amigo, desde o berço, e a quem se deu protecção quando elle a precisava menos que hoje. Olha que estou só no mundo, Damião. Não tenho ninguem que me estime, senão tu. Dos affectos que me rodearam na infancia e mocidade, vives tu só. Se me faltares, accuso-te de máo e ingrato, e hei de convencer-me que não ha para ti amisade duradoura senão... a dos trens—concluiu jovialmente o conde, já quando o mulato o levantára nos braços como quem afaga no colo uma creança para desamuál-a com meiguices.
D'ahi a pouco estava outra vez o conde confidenciando a Ravasco o seu fatal amor á mulher que lhe não dava mais estimação ás qualidades pessoaes do que á riqueza e ao titulo. O mulato transiu-se de assombrado quando o millionario lhe affirmou que a luveira pobre o rejeitaria, se lhe elle offerecesse a mão de esposa.
—O menino já lh'o disse?!—interrogou Damião.
—Não. Disse-m'o ella para me poupar ao dissabor da pergunta.
—Snr. conde—volveu o sceptico—olhe que ha mulheres finorias!... Olho vivo, menino!{135}
—Damião!—accudiu desabrido o conde em desforço de D. Maria. —Sinto que o teu espirito não saiba respeitar devidamente a mulher que eu escolheria para minha esposa!
—Respeito, sim, senhor. Isto é um modo de fallar. Mas não creio que haja senhora rica ou pobre que rejeite o snr. conde, que é moço, é bem parecido, sabe o que diz, e tem mais do que pensa. A mulher, que o não quizer, tem outro homem, ou é douda. Eu, no seu logar, tratava de averiguar se essa creatura é o que parece, e regula bem da cabeça.
—Damião!... és incorrigivel!—bradou o conde.
—Palavra de honra, que não sei fallar com o menino! Sabe V. Ex.ª que mais, senhor conde? Ha por ahi duzias de amigos que o intendam e o enganem; eu cá por mim, sou d'esta laia. Digo as cousas toscamente como sei. Se a senhora fidalga é boa, não perde nada com a minha opinião; se não é boa, peor para ella. O que eu quero é que V. Ex.ª não soffra, nem seja enganado. Das duas uma, como dizia o meu mestre de logica: se ella o ama, case com ella; se o não ama, de que lhe serve padecer? Eu cá não queria mulher que me quizesse por compaixão.
Apezar da nimia tolerancia com que o escutava,{136} o conde pretextou qualquer motivo para cortar a conversação.
N'esse mesmo dia, Damião Ravasco foi á loja da luveira, com o disfarce de quem passava, e perguntou a D. Maria José se queria alguma cousa para o snr. conde.
—Elle está bom?—perguntou ella.
—Não, minha senhora.
—Não! que tem? está doente?
—Da alma.
—Saudades do pae?
—Tudo se ajunta. Saudades... e paixão....
—Paixão? sim... paixão pelo pae...
—Paixão por V. Ex.ª
D. Maria córou. Não era bem o pejo de tal revelação feita por pessoa de esphera infima. Era febre de mais fidalga enfermidade: era o decoro de princeza, fibra estremecida por nevralgia de orgulho, mas fibra que não é commum de todas as senhoras fibrinosas. É um filamento adelgaçado pelo esmeril do tempo atravéz das raças; cousa que vem das castellans do cyclo feudal; que estremeceu nas mulheres dos baroens da meia edade; que não tem vibração nenhuma nas baronezas d'esta edade recentissima. E vai depois o mulato, como eu vinho contando, foi embargado no seu plano de requerer a mão da luveira para o conde.{137}
É que dous sujeitos, vestidos ao bizarro, e bem talhados de suas pessoas, entraram á loja, e com ademanes farçolas, pediram collarinhos de bretanha.
Expoz no balcão a luveira as bocêtas dos colleirinhos.
Os freguezes, a par e passo que os iam examinando mui devagar, galanteavam a silenciosa senhora com uns dizeres desta casta:
—Mal empregados olhos em almofadas de costura! Quem os tem tão matadores melhor uso lhes daria, se se dignasse olhar para outros que a amam...
Eram negros côr da noite
Uns olhos negros que eu vi...
O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina, calaceiro de damas sertanejas, gallo de aldêa vezado a cacarejar finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante, como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra.
O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo desdenhoso á linguagem do amigo um tanto rançosa das galanices do Clarimundo, fallou d'esta arte:
—Esta menina, aqui onde a vês, tem, segundo{138} consta, sangue real nas veias. Se eu fosse principe, fazia-lhe os meus cumprimentos, e pedia-lhe um osculo.
—E eu dois—ajuntou o deputado dos Arcos ou de Melgaço—(de Melgaço é que era, se bem me lembro); mas, prescindindo dos osculos—continuou mais requebrado—limito as minhas ambiçoens a pedir-lhe que me tome medida do pescoço afim de saber-se quaes colleirinhos hei de comprar. Vou sentir o avelludado das suas alabastrinas mãos, mãos de princeza...
D. Maria José, durante as pungentes facecias dos mal-fadados, não erguêra do balcão os olhos carregados de lagrimas. Mal-fadados lhes chamei; porque Damião Ravasco, em quanto elles fallavam, trincava e cuspia a pedaços um charuto, ao mesmo tempo que, fervendo em ira, e agitando machinalmente os braços, parecia dar-lhes alôr para uma pega mortal.
E os dois faceiras decerto não attentaram nos olhos assanhados do mulato, nem dariam significação funesta áquelles tregeitos, se os vissem.
O deputado, entretanto, como a luveira não respondesse ao pedido, aliás honesto, de lhe medir o pescoço, insistiu abemolando a rogativa com um sorriso de ironica meiguice:
—Então o meu anjo não se humanisa até{139} á humanidade de me tomar a medida do pescoço?
—Meço-lh'o eu—disse Ravasco, abarbando-se com o sujeito.
E, proferido o serviçal offerecimento, recurvou-lhe os dedos da mão direita na garganta, sacudiu-o de encontro á hombreira da porta, e d'ahi, tangido pelo impulso de uma valente pescoçada com um sonoro ponta-pé, tombou-o á rua. Consummado o feito, voltou-se para o outro, que se quedava immovel, fulminado, empedrenido talvez por sua justa indignação, e disse-lhe:
—Vossê tambem ha de ter o beijo que pediu.
E o mesmo foi convidal-o com trez tapa-olhos á mão tente, cascados de tal guisa que, ao terceiro, o sujeito mordia o macadam dos fortes colhidos de sobresalto, resvalando os dous degraus que o separavam do seu infausto amigo.
Cobriu-se de profunda amargura o aspeito de Damião Ravasco, ao ver que os dous freguezes de colleirinhos, depois de se escovarem reciprocamente com os lenços, e de trocarem entre si palavras mysteriosas, calcurriaram-se embora com apparencias de sãos e escorreitos.
Na sua fome de musculo e sede de sangue, o mulato, dando redia á furia, idealisára{140} o deleite de esfaquear e mastigar aquelles homens, porque pensava que elles, repostos na posição vertical, o atacariam façanhosamente.
N'este emtanto, D. Maria não dava signaes de susto, nem d'aquelle nervoso palpitar que vai tão senhorilmente ás compleiçoens feminis, quando um homem esmurraça dois na sua presença. Longe d'isso. A desaffronta dilatara-lhe o coração que o pejo retrahira. Reluzia-lhe o prazer nos olhos. O odio aos insultadores da sua honesta pobreza accendera-lhe no peito, por momentos, a ruim, mas natural paixão da vingança. O sangue de princeza, orgulhosa de raça, refluira ao coração da luveira, humilde por estudo. Sentia-se bem. Não podia nem queria fingir-se descontente do arrojo do mulato. Com a fronte alta e a commoção do prazer dos deuses olympicos na voz, disse a Damião:
—Praticou um acto de generoso valor! Se houver de soffrer por minha causa, não se arrependa de defender a mulher que só tem tido a sua dignidade e paciencia a resguardal-a de peores insultos...
Avisinhou-se então o estrupido de uma carruagem. Damião conhecia o trotar cadenciado dos seus normandos.
—É o patrão...—disse elle, correndo á rua.
E abriu a portinhola da carruagem.{141}
—Estavas cá?—perguntou o conde.—Que faz aqui este povo?
Referia-se ao ajuntamento do rapazio e mulherigo que escutavam das primeiras testemunhas do conflicto o caso dos dois homens afocinhados na rua.
—Que faz aqui esta gente?—instou o conde ao mulato que se occupava distrahidamente em alargar umas fivélas dos arreios.
—Fui eu que sacudi o pó a dous pirangas que...
—Tornas ao fadario antigo?... Que te fizeram?—volveu o conde mal assombrado.
—A mim? nada...
—Então a quem?
—Estavam a rinchar pachuchadas e chalaças á senhora alli da loja como quem derriça por uma mulherinha de pouco mais ou menos. Figurou-se-me que o snr. conde, se cá estivesse, faria o mesmo que eu fiz... Os cavallos estão endiabrados com a mosca! Olha a rédea falsa, rapaz! Vai ahi até ao Rocio, e desanda. Toca!... Não me deixes escarvar o gado que se escabreia... Olha o cavallo da mão... não no vês a arrifar?
—Espera!—disse o conde ao sota.—Eu volto a pé... Damião, salta para a almofada, mette os cavallos á cocheira, e espera-me em casa.
O mulato obedeceu constrangido. Vaticinava-lhe{142} o coração que ausentar-se era perder lanço de desemperrar as articulaçoens dos pulsos.
D. Maria de Portugal referiu o successo, colorindo-o nos promenores improprios da sua narrativa; mas entremostrando, nas hesitaçoens delicadas, que os offensores haviam merecido o castigo recebido.
N'esta conjectura, abeirou-se da porta um dos curiosos, que mantinham na rua o auditorio á espera da explicação da desordem, e disse para dentro que os dois janotas socados pelo mulato vinham do lado da Praça da Figueira com tres municipaes.
—Snr. conde!—disse D. Maria assustada—rogo-lhe que se retire...
—Não me peça V. Ex.ª sacrificios em que a minha dignidade seja violentada. Retirar-me de que perigos? O procurado pelos soldados de certo, não sou eu! Prouvera a Deus que o fosse... N'este momento invejo Damião; e prezo-o mais do que é costume prezar as pessoas que se invejam.
Dito isto, o conde assomou ao limiar da porta, a tempo que os soldados e os dois respeitadores da intervenção judicial defrontavam com a loja.
O conde conheceu o amigo do deputado. Era um dos seus commensaes nas ceas amostardadas{143} por dançarinas, mulheres que dissolviam o coração em champagne, e o espumavam nos labios em beijos acres de tanino. Os quaes beijos, na alma deste contubernal do liberalissimo Raul, haviam deixado contusoens menos duradoiras que os tres bofetoens do selvagem americano nas maçans pizadas da sua cara.
Acercou-se o paralta da porta da loja e perguntou:
—Ó conde, ahi dentro está um preto?
—Não.
—O scelerado fugiu! disse o deputado.
—Não fugiu—emendou o conde.—De quem havia de fugir elle? De VV. Exc. as? Dos soldados de certo não; porque seria injuriar dois cavalheiros dessa laia, suppor que VV. Ex.as, castigados ao mesmo tempo por um só homem, iam invocar a protecção de trez municipaes!
—Que ar é esse teu?—perguntou o lisboeta, estranhando o tom insolentemente ceremonioso do conde.—Que tens tu com o assassino que nos assaltou ahi na loja d'essa notabilidade protegida por sicarios de tal casta?
—Vejo que a protecção da força armada—replicou rindo o conde —lhe permitte á lingua a actividade que lhe falta nos braços!... O homem que lhe bateu, não fugiu.
—Então onde está?{144}
—Quer esclarecimentos para instaurar querella contra elle? Eu lh'os dou. Chama-se Damião Ravasco, e vive na casa de Raul Baldaque, ás Janellas Verdes... Procure-o lá.
—Ah! então o preto é da sua familia brazileira?—atalhou o lisboeta casquinando.—Eu não sabia que a sua nobilissima raça era bicolor! E nós a cuidarmos que o assassino era um bolieiro!— proseguiu o esmurraçado, tregeitando jogralmente para o legislador melancolico.
—Ó camaradas!—disse o conde aos municipaes—a nação portugueza paga-lhes para guardarem as costas a covardes d'esta ralé?
O que parecia mais auctorisado entre os soldados, voltando-se aos dois queixosos, disse que elle e seus camaradas não tinham que fazer alli, visto que o homem que os espancára já lá não estava.
E, como, depois se retirassem, os queixosos seguiram o exercito.
E logo a gentalha, o jury permanente das ruas, usando aquella sarcastica philosophia que lhe dá a independencia dos farrapos, apupou os janotas, socados por um mulato de jaleca.
—Lá vão a mastigar fructa do Brazil! dizia um caiador preto, floreando o pincel com ademanes de vaidoso patriotismo.{145}