O Carrasco de Victor Hugo José Alves
IV o Estomago de Victor Hugo
IV
O ESTOMAGO DE VICTOR HUGO
Da vara de Epicuro idoneo porco.
HORACIO, Epist., Liv. 1.
E o litterato, como a filha do infante lhe não contradissesse a linhagem realenga, nem lhe nevasse desdens sobre o coração ardente, pediu explicaçoens á mãe, que lh'as deu, senão lisonjeiras, inoffensivas do seu orgulho.
Era muito para lastimas vêr aquelle rapaz tão soberbo dos desaforados brazoens que lhe procediam da deshonestidade da avó! Tolejando chimeras da sua mascavada jerarchia, cachoava-lhe o sangue como no empenho que, mezes antes, desvelára em nivelar-se com a plebe, no intento de lhe trepar aos hombros sordidos para de lá ser visto. E ahi, no atascadeiro da escumalha social, era elle mais nauseativo,{42} porque toda a gente limpa se arreda do cerdo que sahe d'um esgoto, sacudindo-se.
Operou-se, todavia, notavel mudança no genio e costumes de Victor Hugo, restituido á liberdade. Os mais aristocratas fautores do grupo absolutista acarearam-no ao seu gremio, ás suas assemblêas clandestinas, ás suas novenas secretas, e á sua maçonaria, se tal nome quadra á ordem de S. Miguel da Ala, na qual o adepto foi armado cavalleiro, chamando-se Fuas Roupinho—nome de guerra.
Entretanto, a menina revelava-lhe candidamente sentimentos de affectiva gratidão, e folgava que elle se nobilitasse na convivencia de pessoas distinctas e amigas de seu real progenitor, as quaes lhe confiavam cartas do principe para que a filha as visse, e por ellas lhe repontasse aurora de esperança na longa noite da sua saudade filial.
Mas, na correnteza d'estes successos, Victor, por muito que melindrosamente escrutasse o coração de D. Maria José, não se via lá. Sem embargo, o cavalleiro de S. Miguel da Ala, cobrando alentos, prudencia e heroismo do seu patrono Fuas, confiára-se aos lances do acaso, ás transformaçoens do tempo, á versatilidade femeal, e, em fim, a um imprevisto rapto de amor, não raro em peitos sensiveis das senhoras.{43}
Outra coisa agora.
Não é vulgar contarem romancistas de que vivem os poetas das suas novellas. Provavelmente, como os desenham mais em espirito que em substancia adiposa, esgalgados, esbatidos, fumarentos, na vigesima dynamisação de fibrina, mais ethereos que azotados, o publico incauto cuida que elles não comem, e se nutrem das brisas lusitanas, pelo mesmo systema physiologico das eguas portuguezas que concebiam das mesmas brisas, segundo assevera algures frei Bernardo de Brito e eu tambem.
Muitos annos ha que escrevo biographias de poetas e outras pessoas phantasticas, sem descurar o capitalissimo predicado da sua maneira de se alimentarem.
Bem sei que vae n'isto prosaismo plebeu, e por isso me hão de malsinar de immortalisador de bagatellas com egual razão da que apódam Camoens por entremetter na vida epica de Vasco da Gama o tacanho caso de não se ter podido vender de prompto a pimenta que o heroe ia negociando nas feitorias asiaticas. Ora os criticas fingem não saber que a pimenta, o cravo e a canella explicam melhor que todo o restante poema o patriotismo de D. Vasco; e que, na mesma razão explicativa, está para Victor Hugo{44} José Alves o bife do Mata, a dobrada do Penim, o pato da Praça da Alegria, e o linguado da Taverna ingleza.
Não me dispenso, por tanto, de espreitar com um olho o coração, e com o outro a cozinha d'este sujeito, e tambem o guarda-roupa, desde que elle se nos estadêa vestido com apontado primor, e nutrido nos mais selectos restaurantes da capital. Não era elle assim quando esbombardeava contra o altar e o throno. Parecia querer então inculcar que se vestia na «feira da ladra» e que ao abysmo profundo do seu desprezo das frioleiras humanas atirára os figurinos do Keill e do Catarro, juntamente com a carta constitucional, com o codigo do bom-tom, e com os tratadistas hygienicos, quanto a lavagem de cara, orelhas e dentes. Haviam-lhe dito ao sordido que Cabet e Proudhon andavam sujos; e devéras lhe doia desconfiar que o Victor Hugo francez se lavava todos os dias. Este requinte de limpeza tinha para elle o fortum burguez improprio do genio.
A sua alimentação predominante era alface, espinafre, e a fava em grande cópia no tempo. Rejeitava carnes vermelhas e brancas, porque o azote era elemento infesto ao cerebro e por tanto obnoxio ás funcçoens do intellecto. Em compensação, comia á tripa{45} fôrra pescadinhas marmotas em razão de abundar no peixe o phósphoro que é grande parte na estructura do cerebêllo.
Afóra as indicaçoens da sciencia, este regimen era-lhe aconselhado por intuitos de ordem assás psycologica e social. Como o seu proposito fôsse caldear e refundir o genero humano, recuando-o á simplicidade dos costumes patriarchaes, estudava em si mesmo o retrocesso do fillet-aux-trouffes á bolota crua, affrontando com selvatica heroicidade os appetites, as cubiças, as fomes, as tantalisaçoens que separam Apicio de Epicuro.
Esta lucta do eu-abdomen com o eu-psyche trazia-o magro e esgrouvinhado. Da cabeça revolta, onde toda a vitalidade se lhe congestionára, estourava-lhe a idéa com umas fulguraçoens indicativas de excesso de phósphoro, extrahido do goraz e do carapau. O seu rancor ás praxes triviaes da arte commum de fallar da rhetorica mercieira—como elle dizia—manifestava-o em discursos e escriptos com argumentos ad odium contra quem comia bons bocados. Os preceitos da grammatica e os canones da logica —coisas crassas e sandias—asseverava elle que tinham sido ideadas por monges atoicinhados em alma e corpo pelo pingue refeitorio da orelheira afeijoada. {46}
Além da injuria que Victor Hugo José Alves irrogava á grammatica, aos frades e ás vitualhas saborosas, acrescia que esfusiava tempestades de phrases horridas contra as ucharias reaes, inventariando as vitelas e bois que semanalmente eram espostejados nos paços, depois de haverem atravessado as ruas de Lisboa amortalhados em xareis com as armas brigantinas. O disparate da censura faria rir á desgarrada os ouvintes, se a cara do orador não estivesse pregoando ao mesmo tempo quanto é para sagrados horrores a eloquencia dyspeptica da fome, e as refulguraçoens acendidas pela superabundancia do phósphoro. Segundo elle, a sanguinea lubricidade dos sujeitos gordos procede da demasia dos globulos rubros do sangue enriquecido pelas carnes esmoídas nos vinhos seculares.
Depois, na ladeira destas supremas semsaborias, esbarrava na lista civil. Era então o remontar-se a raptos propheticos em toada biblica, e assomos de Ezequiel, e conclusoens tanto a frisar que eu, uma vez, assim admirado quanto aterrado, lhe ouvi dizer que elle, sonhador da felicidade do povo, tinha visto uma visão de sete vaccas magras escornarem sete vaccas gordas, e derrubal-as. O meu terror não seria escorreito, se elle depois não{47} acrescentasse que as vaccas magras eram a republica, e as vaccas gordas a monarchia!
Tal era o discolo nos seus dias de gloria, de fome civica, de quinzena cossada, e do phósphoro dos safios e caçoens.
Como se fez por fóra a transfiguração que mal pode explicar-se pelo reviramento do espirito?
A nediez da epiderme, os caracoes da cabelleira, os camapheus da abotoadura, a phantasia das gravatas que pareciam aves do Amazonas, a luneta de ouro, o bigode encalamistrado, o lemiste do fraque, a bota do Sthelpflugg, a badine de unicornio, o galhardear das attitudes, e, sobre tudo, a nutrição—quem lhe deu tudo aquillo ao filho de Rozenda?
O chamar-se Fuas Roupinho politicamente, o afivelar a espora de cavalleiro da Ala, não nos auctorisa a decidir que elle, em arrancadas contra sarracenos, se apossasse christãmente do thesouro de algum rei mauritano. Conjecturar que os partidarios da realeza se fintassem para arraçoarem no presepio o futuro continuador da Besta esfolada, tambem não é racional, attendendo á pleiada de talentos que lá reluzem com habilidade para mais.
Então que era?{48}
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