O Carrasco de Victor Hugo José Alves
XII Explosão de Amor
XII
EXPLOSÃO DE AMOR
Deus, ecce Deus!
VIRGILIO, Eneida, L. VI, V. 46.
Um dia, corridos poucos mezes depois dos successos relatados, entrou na loja da luveira um ancião com tres senhoras pobremente vestidas de luto e quatro meninos pallidos, magros, com os olhos grandes e socavados da fome.
Descobriram-se o velho e as crianças. D. Maria José levantou-se e respondeu á cortezia profunda das tres mulheres, que a cortejaram como a desgraça corteja o valimento.
O homem, que parecia engulir as lagrimas para poder fallar, disse com o chapéo em uma das mãos e a outra no peito:
—Está na presença de V. Ex.ª um brigadeiro{158} que em Evora-monte entregou a espada aos vencedores. Em vez de entregal-a, se eu não tivesse mulher e quatro filhas, ter-me-hia inclinado para a ponta da espada, e cahiria vingado da sorte, já que as balas do inimigo me pouparam para tão longa e desmerecida infelicidade. Estas tres mulheres são minhas filhas, A mãe morreu esgotada de forças, porque teve fome quando creava a ultima menina, que não está aqui, porque tambem morreu ha seis mezes. Era já viuva: foi descançar na sepultura, e deixou-me quatro netos que são estas crianças. Somos oito pessoas de familia. As minhas filhas trabalham quanto podem e em tudo que sabem. Mas pouco sabem, porque a si devem tudo. As duas mais velhas ainda estiveram dois annos em collegio; porém, aprendiam linguas, como cumpria que aprendessem as filhas d'um official-general, com appellidos tradicionaes e serviços á patria mais valiosos que os appellidos. Tirei-as do collegio, logo que principiei a vender as joias de minha mulher. As duas meninas, voltando a casa, fallaram em francez á mãe, que tinha sido educada no estrangeiro; e eu disse então ás innocentes mal entendidas na desgraça de seu pae: «Filhas, aprendei a pedir esmola em portuguez.» Ellas estremeceram e choraram,{159} como se adivinhassem a fóme e a nudez.
D. Maria José, com as palpebras trementes e as lagrimas a borbulharem, atalhou o brigadeiro:
—Deve ser muito penoso a V. S.ª contar-me a sua desgraça, e a mim ouvil-a. Se me julga nas circumstancias de soccorrer as suas mais urgentes precisoens, e se quer servir-se do meu pouco, espere V. S.ª que eu vou buscar algum dinheiro...
—Não, minha senhora—tornou o velho.—É certo que venho pedir a V. Ex.ª uma esmola, mas esmola muito avultada: nada menos que o pão, a educação e o futuro destes meus netinhos...
—Oh! se eu pudesse...—atalhou D. Maria—V. S.ª provavelmente está enganado com os meus recursos...
—Eu não me valho dos recursos da fortuna; mas sim dos da alma de V. Ex,ª. Receio estar roubando-lhe tempo, minha senhora, e portanto serei succinto quanto possa, até para me não parecer com todos os desgraçados que são geralmente diffusos. Ha um mancebo poderoso em Lisboa, do qual muitas familias realistas, de seis mezes a esta parte, recebem mezadas abundantes. Este caritativo senhor não é legitimista; não sei o{160} que é politicamente: sei que é bom; é dos que professam a divina legitimidade de Jesus Christo. Chama-se elle o snr. conde de Baldaque...
D. Maria José corou: eram o nome, a surpreza, e o jubilo, tudo simultaneamente.
O ancião proseguiu:
—Eu tambem sou dos favorecidos pela bem-fazeja mão do snr. conde, que me não conhece, nem recebe á sua presença as pessoas que o buscam para lhe agradecerem a esmola: recebe apenas as que vão pedir-lh'a. Eu já o procurei. Annunciei-me como portador das lagrimas reconhecidas de meus filhos e netos. O benigno mancebo mandou-me dizer que voltasse eu a pedir á minha familia que lhe mandasse sorrisos em vez de lagrimas. Delicado coração! Como é possivel haver no peito de um rapaz afortunado, que nunca soffreu, esta sciencia da desgraça, este respeito ao pêjo com que um velho, outr'ora feliz e affagado de ricas esperanças, se dobra a beijar a mão que lhe reparte o pão de cada dia pela sua familia! Diga-me V. Ex.ª minha senhora, como tão cedo se formou na alma do snr. conde de Baldaque a virtude que é costume retemperar-se na fragua das dores!... Teria elle, em annos tão verdes, experimentado desenganos, perdas de nobres{161} affectos, dissabores grandes que antecipam a velhice moral e influem a precoce piedade dos anciãos como eu, e das familias angustiadas como esta minha?
—Não posso responder-lhe...—disse a luveira—conheço o snr. conde ha pouco mais de um anno... Não sei de alguma dôr grande na sua vida, senão da morte do pae...
—Um cavalheiro que o conhecia não me disse mais do que V. Ex.ª—continuou o velho.—A este cavalheiro, que priva muito com os meus correligionarios e se chama Victor Hugo José Alves, perguntei se as relaçoens, que tem com o snr. conde, o auctorisariam a pedir-lhe um favor para o desvalido brigadeiro Tavares. Respondeu-me o snr. Victor Hugo que não; mas ajuntou que me diria pessoa idonea, e logo me nomeou a snr.ª D. Maria José de Portugal. Hesitei se devia acceitar a informação seriamente, porque havia no tom das palavras e no gesto d'elle certo azedume ou ironia que me fez desconfiar. Contei isto a minhas filhas, e ellas, principalmente as duas mais velhas, quando eu proferi o nome de V. Ex.ª, disseram logo que tinham conhecido uma filha do snr. D. Miguel, no collegio onde algumas vezes foram visitar as suas antigas mestras; e uma{162} d'ellas, se bem se lembra, ainda deu liçoens de francez a V. Ex.ª...
—É aquella!—exclamou com alvoroço D. Maria José, saindo fóra do balcão para abraçal-a.—É a snr.ª D. Ernestina Tavares... Eu entrevia no seu rosto uma pessoa conhecida...
—É esta velha que aqui vê de cabellos todos brancos aos trinta e cinco annos... disse Ernestina.
E D. Maria, com mais familiar sorriso:
—Eu tenho uma saleta, onde posso receber senhoras minhas amigas e de mais a mais pobres...—E, subiu a escada, correu um reposteiro de chita, e esperou que as oito pessoas entrassem.
Depois, mandou para a loja a criada, e pediu ao brigadeiro Tavares que lhe desse a satisfação de ser util á sua familia.
—Eu não sei que futuro hei de dar a estes quatro meninos...
N'este acto, parou um cabriolet defronte da casa. A luveira chegou á vidraça, e disse serenamente ao brigadeiro:
—É o snr. conde de Baldaque... Eu digo-lhe que suba, e V. S.ª tem excellente occasião de dispensar o meu patrocinio, pedindo directamente o que pretende.{163}
Levantaram-se todos com alvoroto e certa inquietação como de medo. Mil e duzentos contos representados por um homem é coisa capaz de assustar um ministerio, quanto mais uma familia pobre!
O conde ficou maravilhado quando D. Maria José, descendo até ao ultimo degrau da escada, lhe pediu que subisse á salinha.
Era o primeiro convite que recebia.
Entrou, e deu logo de rosto com o velho inclinado, quasi ajoelhado que lhe tomára a mão, e a levára aos labios.
—Eu não conheço...—tartamudeou o conde no maior enleio.
—Sou um brigadeiro do exercito do snr. D. Miguel, sou Christovão de Pina Tavares, a quem V. Ex.ª ha seis mezes dá o pão d'esta numerosa familia que aqui está.
—Mas...—balbuciou o conde, voltando-se para D. Maria José.—V. Ex.ª não me disse que conhecia esta familia...
—Não conhecia—respondeu a luveira—; mas reconheci agora esta senhora que algum tempo me leccionou em francez, no mesmo collegio onde ella foi educada. Alguem disse ao snr. Tavares que V. Ex.ª me honrava com a sua amisade; e este senhor, carecendo d'um empenho para o snr. conde, procurou-me, e agora mesmo começava a expor a sua pretenção.{164} Estava dizendo o snr. brigadeiro que não sabia que destino havia de dar áquelles quatro meninos, seus netos... Queira continuar, snr. Tavares...
O ancião, tomado de sobresalto, acanhou-se na presença do millionario. O pejo e a dignidade empéciam-lhe a eloquencia da palavra, realçando-lhe a do silencio. O conde olhou na face das creanças uma por uma, chamou-as para si, e disse brandamente:— É necessario fazermos homens estes pequerruchos... Então que querem ser? Provavelmente generaes. Quasi todas as creanças querem ser generaes...
—Seduzidos talvez pela fortuna militar do avô...—interrompeu Tavares; e continuou animado pela communicativa lhaneza do millionario.—O que eu muito desejo obter do valimento de V. Ex.ª, mediante a protecção d'esta senhora que bondosamente nos recebeu, é que os meus quatro netos sejam recebidos em algum azilo de infancia desvalida. Eu já requeri ao actual governo, documentando o requerimento com os meus serviços de soldado, desde 1801 até ao anno em que eu devia ter desertado da bandeira jurada, para estar hoje na alta posição onde subiram os meus camaradas desertores. Escravo da obediencia e da disciplina, segui os meus generaes{165} e acabei a minha carreira onde a honra me fez parar. Ora, se a extrema da honra foi ao mesmo tempo para mim o começo da penuria, isso é questão que não vem ao ponto, nem que viesse eu importunaria V. Ex.ª com queixumes e lastimas. Requeri, pois, pedindo a admissão de meus netos no collegio militar. A absurdeza do pedido era pelos modos tamanha que o meu requerimento nem sequer mereceu a consideração de ser indeferido. Fechadas as portas da justiça, bati ás da caridade. É V. Ex.ª, snr. conde, o bom anjo que sahiu a escutar os meus rogos, e...
—Muito bem...—obstou o conde, amargurado pelas lagrimas do velho.—Tenho entendido que V. S.ª deseja que os seus netos sejam recebidos em algum estabelecimento de educação... Ámanhan, á hora da tarde que lhe convier, queira enviar-m'os a minha casa...
O conde affagou as faces dos meninos, que lhe beijaram as mãos, sorrindo para elle com a graça do infantil amor que vem do coração das creancinhas aos labios que ainda não sabem agradecer. Depois, ergueu-se; apertou francamente a mão do venerando veterano; cumprimentou-lhe as filhas, que o contemplavam com os olhos anuviados de lagrimas;{166} e despediu-se de D. Maria José, que o fitava com estranho e amoravel olhar.
Ao entardecer do dia seguinte, Christovão Tavares entrou na loja da luveira impando de cançasso e exultação. Contou que o snr. conde o mandára entrar com os meninos para a sala, onde elle estava com um sujeito, a quem dissera:—Aqui estão os seus alumnos.
—Era o director d'um collegio de primeira ordem—ajuntou o velho.—O snr. conde enviou os meus netos a um collegio, minha senhora, com ordem de os proverem de roupas abundantes, de todo o enxoval prescripto aos meninos ricos. Depois, os pequenos e mais eu e o mestre entramos na caleche do snr. conde, e fomos a minha casa despedil-os das tias que choravam de contentamento. O generoso moço disse-me á sahida que fosse todos os mezes ao escriptorio d'um cambista á rua dos Retrozeiros, e que hoje mesmo lhe apresentasse um bilhete que me deu. Eu estava por tal maneira aturdido e embriagado de felicidade, que nem sei se lhe agradeci... Os desgraçados, minha senhora, quando de repente se acham a respirar uma atmosphera que não é a sua, suffocam, ouram, e não se acham em si mesmos, no seu habitual viver de escura cerração!... Fui á rua dos Retrozeiros, apresentei o bilhete, e recebi cem{167} mil reis! Eil-os aqui, snr.ª D. Maria! Cem mil reis para cada mez! E quatro netos no collegio a expensas d'aquelle anjo que a Providencia divina mandou travar a roda da minha desfortuna! Veja isto, minha querida senhora! Se eu me não affizer a esta luz que me alumia o fim da existencia, receio enlouquecer de alegria! Mas tanta felicidade é a V. Ex.ª que a devo...
—A mim, snr. Tavares?! pois que fiz eu?
—Que fez, meu Deus?! Recebeu-me na sua casa; olhou compassivamente para minhas filhas, disse palavras amorosas aos meus netos, e quiz que o snr. conde nos visse atravez do seu coração... Oh! eu creio que este milagre o fez a piedade abraçada ao amor... Quem nos deu o pão abundantissimo, o vestir, a casa com ar e sol, o acordar alegre sem o fantasma da fome diante, o futuro das creanças... quem foi senão a... futura condessa de Baldaque?
Ao proferir as ultimas palavras, o velho pegára convulsante da mão de D. Maria José e collára n'ella os labios tremulos.
A filha de D. Miguel sentira n'esse lance mui deliciosa commoção, um alvorecer de luz em cheio na alma, a revelação subita d'um amor, o primeiro, com as santas alegrias da pureza, e a confiança profunda nas virtudes{168} do homem amado. A revelação, em tom prophetico, feita por aquelle velho de barbas brancas orvalhadas de lagrimas, soou-lhe na alma com religiosa suavidade.
O instante foi solemne. A poesia pode engrinaldar o quadro com as suas flores e a moral regosijar-se, como é justo, de um caso de amor nascido em condiçoens tão honestas.
Eu, de mim, menos attreito que o leitor á idealisação de coisas naturalmente explicaveis, penso que ella já o amava tão devéras e de dentro da consciencia, que, se o conde descorçoado por desdens, se vingasse esquecendo-a, teria levado pela mão da saudade a filha do principe á sepultura; mas ás fragilidades das amorosas mais celebradas, não.
Isto é o que me parece; mas não afirmo que assim houvesse de acontecer. Sei historias de amores tão bem começadas como esta e acabadas nas enfermarias das loucas. Os personagens masculinos d'algumas andam ahi ao flaino ainda com a sua velhice tingida e sadia. Creio que o castigo d'elles é andarem pintados; mas o diabo conhece-os, apezar do fluido. Elles lá irão cair-te nas prezas, ó horrendo Minos!{169}