O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Camilo Castelo Branco · Capítulo 11 de 18

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O Carrasco de Victor Hugo José Alves

XI Solemnia Verba

XI

 

SOLEMNIA VERBA

 

Allons, de l'égoisme, de l'esprit, et de

l'impudence, e tu seras bientôt dans les

grandeurs.

BALZAC.

 

Elle rugiu de indignação, e metteu na algibeira um rewolver de seis tiros, quando soube que D. Maria José de Portugal tinha sido ultrajada. Elle quem?

Victor Hugo José Alves—pois quem havia de ser?

D. Maria, n'aquella tarde da sova subministrada por Damião Ravasco, nutava indecisa se deveria fechar o estabelecimento e obstar a novo insulto, se affrontar animosamente as contingencias da sua posição.

N'esta penosa alternativa, em que de um lado preponderava a inflexivel necessidade, e{146} do outro lado o medo da zombaria, a encontrou Victor Hugo.

O ingresso precipitado, que elle fez na loja esbofando, alvorotou a dama.

—Acabo de saber—disse elle, com intercadencias de asphyxia— que dois biltres ousaram aggraval-a, minha senhora! Eu antevi sempre que V. Ex.ª, baixando á plana onde se acha, seria alvo de taes vilipendios. O sentimento de excelsa virtude, que lhe aconselhou tal passo, não podia ser entendido n'este javardeiro de Lisboa. Ha dedicaçoens santas que se não permittem ás mulheres formosas. É prohibido aos anjos avoejarem por este inferno sem crestarem as azas. Eu avisei-a, snr.ª D. Maria José. Contava com isto. Sei o que é esta sociedade. Esperava que a sua innocente alma provasse o fel do intransitivo calix que está sempre emborcado aos labios puros. Mas... não venho arguil-a... Venho saber os nomes dos bigorrilhas que a offenderam!

—Não conheço as pessoas que me offenderam, snr. Victor— respondeu D. Maria José, abafando o despeito que lhe causara o tom pretencioso da censura.

—Mas aqui—volveu o cavalleiro da Ala, arejando-se com o chapéo e chibatando a perna direita com a badine de caoutchouc— aqui{147} estava alguem que sabia os nomes dos dois birbantes!...

—Estava, sim. O conde de Baldaque sabe quem são: eu não sei.

—N'esse caso, vou procurar... sua excellencia... o snr. conde de Baldaque.

Victor Hugo pausou em cada syllaba uma accentuação ironica, deixando vêr nos dentes caninos o azedume e a podridão.

—Procural-o...—acudiu D. Maria, mais receiosa da tolice que da braveza—Procural-o!...

—Sim..., minha senhora.

—Para quê?

—Para que me diga o nome dos dois sujeitos que enxovalharam V. Ex.ª, se é que o snr. conde não reserva para si a honra de a desaggravar.

—O favor do desaggravo já o recebi de um criado do conde; entretanto, agradeço ao snr. Victor a resolução com que veio aqui.

—Mas eu, minha senhora!—replicou o filho de Rozenda, enroscando a badine, e fazendo resaltar a ponta de uma para outra mão—eu lamento profundamente que V. Ex.ª fosse desaggravada por um criado de quem quer que seja. As senhoras, nascidas em degraus inferiores da escala social, recusariam tão ordinario paladim; salvo se o conde de{148} Baldaque pode armar cavalleiros os seus criados.

D. Maria José encarou soberanamente no poeta, e disse:

—A final, que ares são esses que se está dando, snr. Victor? Depois das zombarias dos homens que não conheço, vem V. S.ª com os seus motejos? Estou em lhe dizer que os insultos dos estranhos não me ferem tanto como as ironias das pessoas que me conhecem.

—Eu não a motejo, snr.ª D. Maria—acudiu Victor Hugo, compondo a cara de visagens melodramaticas.—Queixo-me, deploro-me, appéllo do seu orgulho para o seu coração. Uns peitos recalcados dão lagrimas; outros dão sangue; e os mais infelizes são os que não podem desafogar chorando, nem succumbem ao gume da ingratidão que os sangra e retalha... Os mais dignos de lastima são os que a si mesmos se despedaçam com os gryphos do escarneo. Mas eu queixo-me, senhora, sem accusar. Accusar a filha d'um principe não ousa o vérme, o plebeu, a fronte onde a mão de Deus pode ser que esculpisse a palavra GENIO...

(Em parenthesis: Victor Hugo, quando pronunciou a palavra «genio», não fez algum signal indicativo que me auctorisasse a escrevêl-a{149} em lettras maiusculas, a não ser o tom, a pancada com que elle a proferiu, batendo na testa).

—GENIO,—repetiu elle—só genio; corôa de conde, não: as corôas não as dá Deus; compram-se cá. Vinte negros, vendidos depois de azorragados, dão uma corôa de conde, snr.ª D. Maria José de Portugal. O sangue de vinte negros n'um prato da balança; e no outro prato a corôa de conde. Aqui tem como hoje na monarchia de seu pae se forjam os grandes do reino, os senhores do novo feudo, os castellãos dos armazens de molhados, os ricos-homens que conquistaram pendão e caldeira nas arrancadas de Africa, nas costas de Guiné, pelos sertoens dentro, á montaria das rezes negras, que se acurralam nos poroens dos açougues, e se infeiram nos atrios dos palacios d'estes condes, d'estes Baldaques, d'estes...

D. Maria, que o estivera escutando com os olhos baixos, relançou-lhe um olhar de frecha, e disse:

—Está-me incommodando, senhor Victor! Lembro-lhe o dever de não insultar uma pessoa ausente, que me tem tratado com a maior delicadeza, e de quem V. S.ª não tem razão de se queixar.{150}

—Estou-a incommodando!—replicou elle com espanto.—Onde foi V. Ex.ª escavar palavra tão aviltante, tão despresadora!?... Diga-me antes que a injurio. Incommodar! Isso diz-se a um mendigo importuno, a um miseravel que nos enoja, a uma lama que nos salpica o verniz das botas! Incommodar! V. Ex.ª perdeu a magnanimidade com que tratava os humildes, antes de viver com os condes? A mim, senhora, devêra incommodar-me o carcere onde estive por amor de V. Ex.ª, e não me incommodou! Deviam incommodar-me as vaias, as zombarias dos correligionarios que deixei por amor de V. Ex.ª, e não me incommodaram! Devia incommodar-me o aprumo realengo das suas vozes sentenciosas quando me falla, e não me incommodam; porque as ingratidoens de V. Ex.ª não incommodam, dilaceram; não são fastidiosas como a impertinencia; são percucientes como a ponta hervada d'um punhal!...

—Tanta palavra, meu Deus!—exclamou D. Maria José, rebuçando a ironia no tregeito da admiração.—Todo esse excesso de sentimentalismo seria bom de perceber, se algum acto da minha vida me obrigasse a dar conta dos outros ao snr. Victor Hugo... Mas eu creio que não... A amisade não explica o zelo{151} de V. S.ª nem me força a respeitar a censura que me faz. Se me avalía injustamente, sinto; mas não sei que lhe faça...

—Quer dizer—sobreveio o poeta—que ama o conde de Baldaque?

—Não, senhor; quero dizer que amo a minha liberdade.

—E nega que ama o filho do negreiro?

—Quem é o negreiro?

—O negreiro era o pae do roué, cujo escravo despicou V. Ex.ª. Vai bem á filha do snr. D. Miguel de Bragança deixar-se requestar de um homem a quem seu augusto pae daria como escudo um tagante sobre as costas negras d'um ethiope a ressumbrarem sangue? Senhora D. Maria José de Portugal, não responda: medite, e, depois dir-me-ha se eu devo noticiar aos fidalgos portuguezes, com quem me dou, que V. Ex.ª fez d'este balcão uma especie de altar baixo, ao réz da rua, bem baixo, para que algum ignobil transeunte pudesse levantar até aqui o braço humilde e depôr o vóto. Só assim, minha senhora, o arlequim, trajado de conde, ousaria defrontar-se com V. Ex.ª. Emfim, começo a ler no seu rosto o fastio que avilta. Eu retiro-me... Saiba, porém, que a amo, snr.ª D. Maria José... Note bem... que a amo! E os homens da minha tempera, quando são indignamente menoscabados,{152} morrem, ou fazem guerra mortal a quem os despreza! Note bem isto! palavras solemnes!...

E sahiu.

Victor Hugo José Alves era assim! Amava e bramia d'aquelle feitio; mas era homem—como já poucos havia, e não ha hoje nenhuns—capaz de desfechar valentes rhetoricas á face de uma senhora. Não lhe afeminavam os olhos as lagrimas da pieguice. Em vez de suspiros ciciosos como auras entre moitas de rosmaninho e trevo, trovejava urros, quando o ôdre da paixão lhe rebentava dentro. Fizeram-no assim a natureza e o theatro, o sangue do dom abbade de Cistér misturado ao sangue do Alves da sóla, caceteiro defunto; e, além d'estes sangues, a arte, os dramas do snr. Mendes Leal, cheios de judeus ciosos, e outros facinoras metaphoricos.

Na noite d'esse dia funesto, o amador aviltado pediu a D. Rozenda que lhe mostrasse um folheto publicado em 1840 contra a mãe de D. Maria José de Portugal.

D. Rozenda, receiosa de alguma imprudencia intempestiva, quiz saber que destino o filho tencionava dar ao folheto.

—Nenhum,—disse elle, coando um riso feroz por entre as luras croozothicas de tres dentes incisivos.{153}

—Vê lá, Victor!... Não faças mal á rapariga...—instou a mãe.—Se ella doidejar, deixal-a... Olha que este folheto mente que tem diabo... Lá que ella é filha de D. Miguel, isso é tão certo como tu seres meu filho... O que tu tens sei eu... É ferro... soubeste que ella namora um conde... Isso já eu desconfiava... E então que se lhe ha de fazer?...

—Que pergunta!—replicou sacudindo a juba o equivoco neto do ferrador de Povolide.—Que se lhe ha de fazer!... Ignobil pergunta! Ó mãe, mãe, que é dos instinctos nobres da sua origem? Como pode consentir que seu filho seja acalcanhado por um villão, que se diz conde? Conde! Nós, os legitimistas, não reconhecemos titulos outhorgados pelo governo usurpador. Baldaque é o negreiro, é o chatim, é o plebeu reféce. Maria José de Portugal, a luveira, é filha de um rei. Nós, os que defendemos o prestigio dos nomes historicos, não consentimos que um bandalho, vestido de conde na guarda-roupa d'esta tramoia que se chama o systema liberal, se atreva a mercadejar com o producto das negras uma senhora que teve o pae no throno...

—Pois se sabes que ella teve o pae no throno—replicou a mãe sensata—que queres fazer ao folheto?

—O que quero? Vêr se posso convencer-me{154} de que esta mulher não é filha do snr. D. Miguel, casando ella com o plebeu, arraiado dos xaireis de conde, percebe?

—Mas, ó rapaz, se esse conde tem dois ou tres milhoens...

—Ahi vem a senhora com as baixezas do costume!... É o que eu lhe tenho dito muitas vezes... Está contaminada...

—O quê?—interrompeu D. Rozenda funestando a cara com uma ruim visagem.—Estou contaminada?!

—Sim, senhora! está contaminada da peste do dinheiro; está gafa da podridão dos costumes. Creio sinceramente que nasceu nobre; mas a convivencia com um homem de negocio abastardou-lhe o sangue...

—Olha que esse homem era teu pae, Victor! Vê lá como fallas do auctor dos teus dias; que eu não admitto atrevimentos, ouviste? Já uma vez te puz as mãos na cara, por me dizeres que bem se via que eu era fidalga por ser burra; agora, dizes que estou contaminada dos costumes, porque acho que a luveira não andaria mal, se se fizesse condessa... Ora queira Deus que as tuas faltas de respeito me não obriguem a quebrar-te a cara, percebes?

Victor Hugo, voltando o dorso ás ameaças maternas, ia retirar-se, quando ella, retendo-o pelas abas do fraque, exclamou:{155}

—Já p'r'aqui, malcriado! Você volta as costas a sua mãe! Olhe que o espatifo, ouviu?

N'isto, acudiu aos brados da mulher de rija tempera a irmã Euphemia, cuja brandura de alma se operara debaixo das emollientes meiguices e trechos litterarios do finado dramaturgo e d'outros homens sensiveis dados ás lettras. As duas irmans altercaram largo tempo ácêrca da materia sujeita. Rozenda opinava que o filho era um bréjeiro. Euphemia desculpava-o, porque todos os poetas eram assim esquentados da idéa:—these que ella poderia provar com o snr. conselheiro Viale, se o conhecesse tão de perto e á lareira como devem ser apalpados os poetas grandes.

Assistiu Victor Hugo, impando de tedio, á discussão das manas. Aquelle espirito, dilatado ao calorico das salas da côrte, não cabia na área burgueza onde outr'ora Elias e Antunes couberam com as suas almas fadadas para a pasta e para a mitra. O rival do conde pejava-se de ter estado no seio de Rozenda por espaço de nove luas. Dizia-lhe a philosophia que o talento é emancipação quando a tutela é bruta, e que as mães de natural bronco, bem que sejam respeitaveis como machinas productoras, devera ser desviadas{156} do caminho do genio, se lh'o atravessam com babozeiras e outras coisas chatas. Encabrestado por estas idéas, Victor, ainda então bastante adinheirado d'aquelles tres contos das inscripçoens da luveira, sahiu da casa da mãe, e foi morar no Hotel de Bragança. {157}