O Carrasco de Victor Hugo José Alves
V o Coração de D. Rozenda
V
O CORAÇÃO DE D. ROZENDA
Agnosco veteris vestigia flammæ.
Ca sinto 'inda o calor da antiga brasa.
VIRGILIO, Eneida, Liv. IV, V. 23.
Estava um dia D. Maria José de Portugal lendo a Nação, e de subito as lagrimas lhe turvaram os olhos. Acabava de ler a piedosa senhora uma invocação aos esmoleres amigos do principe desterrado, tanto mais compungente quanto o tragico articulista historiava as penurias do filho de D. João VI, desde o dia em que D. Miguel, conforme o testimunho do visconde de Arlincourt, não tivera em Roma com que comprar o leite para o almoço.
Da concentração lagrimosa passou D. Maria, de repente, a uns transportes de alegria desacostumada, exclamando de golpe:
—Como é bom ser rica!{50}
E, feita breve pausa, acrescentou já menos expansiva:
—Rica!... eu não sou rica!... mas em comparação de meu pae, tão pobre, tão infeliz, tenho muito!
Em seguida, escreveu a D. Rozenda Picôa, annunciando-lhe a primeira radiação de jubilo em sua vida, e a ancia em que ficava de lhe revelar os seus anhelos.
A mãe de Victor, lendo a carta, disse alvoroçada á irman:
—Tenho nora!
—Tens nora? exclamou Euphemia—Então diz-t'o? ella quer?
—Não se explica bem; mas eu já lhe entendo o palavriado. Ouve lá, mana.
E releu a carta, accentuando cada palavra com intimativa perspicaz para emfim interpretar complexamente que D. Maria José de Portugal se achára de salto possuida do amor que ella, em sua linguagem perlicteta, chamava anhelos.
—Essa palavra anhelos—observou D. Euphemia, arregaçando o beiço de baixo, com o dedo indicador—parece-me que é isso mesmo que tu dizes, mana Rozenda... Não te lembras... ora pucha pela memoria... não te lembras das cartas que te escrevia aquelle furriel{51} de lanceiros quando ficaste viuva? Chamava-te meu anhelo.
—Não era o furriel—corrigiu Rozenda.—Quem me chamava seu anhelo era o Peixoto.
—O capitão da carta? Tens razão; era esse... Pois dizes bem; o que ella quer dizer é isso. Anhelo é amor. Ora espera, mana... Eu tambem agora me estou a recordar de não sei quem que me dizia que eu era os seus anhelos, ou anhelitos... Não sei se era aquelle tenente de marinha que nos deu de almoçar na barcaça dos banhos, se era o Januario da rua dos Fanqueiros...
E, reparando na melancolia da irman, disse adocicando o tom:
—Estás triste, mana! Já sei o que é... Lembrei-te o Peixoto... Se eu soubesse...
—Ai!—suspirou Rozenda pondo a mão no lado esquerdo do peito —Ainda aqui me palpita por esse ingrato! Quando o encontro ainda não sou senhora de mim! Se amei alguem n'este mundo, foi elle! Dizias-me tu, quando o perfido se casou, que o melhor systema era o teu:—amar outro até esquecer aquella pessoa. Bem quiz... mas vou-te agora confessar que nem o deputado Elias me fez esquecer o Peixoto!...
—Não é tanto assim, mana...—emendou Euphemia.—Já depois andaste muito apaixonada{52} pelo conego Antunes, pois não andaste?
—Gostei d'elle—respondeu Rozenda langorosamente requebrada.—Não desgostei... mas amar de paixão foi só uma vez... Ai! o Peixoto! o Peixoto! não sei que feitiços me fez!...
Concentrou-se largo espaço com os olhos vidrados de lagrimas, e exclamou por fim com abrupta cólera:
—Canalhas! O Elias, quando depois foi ministro, pedi-lhe que me arranjasse uma pensão já que o meu defunto Alves perdeu tudo na politica dos Cabraes, e nada me fez o patife! O conego Antunes, quando foi despachado bispo para o ultramar, pedi-lhe que fallasse aos ministros na minha pretenção, e safou-se sem me dar cavaco! Corja de tratantes! que tornem para cá!...
Não pareça caricatura a vaidosa precaução com que a snr.ª Picôa se resguarda ou finge acautelar-se das tentaçoens, escarmentada por varios casos funestos. As decepçoens experimentadas podem ainda aproveitar-lhe, se ella esconjurar os embellécos de um major reformado que protestou induzil-a a trahir certo professor de bellas-artes, cuja ternura, como se viu, não tapa os lacrymaes sempre gottejantes da saudosa Rozenda, quando lhe punge na{53} lembrança a imagem do capitão da carta—aquelle Peixoto que lhe desfibrinou o melhor sangue do coração.
D. Rozenda não pôde ainda atravessar despercebida a corrupção do seculo. Tem quarenta e sete annos remoçados pelas madeixas postiças que lhe inquadram o rosto besuntado de posturas. Piza ainda com a firmeza e garbo de meneios que hoje em dia deshonestam o decoro de quem os usa; mas que, n'aquelle tempo, era o estylo das damas que haviam já florecido em 1834, e não mostravam desesperado empenho em ser citadas como exemplares de castidade. Favorecida pela magrêza que, no lapso de trinta annos, desilludira os enfeitiçados de sua elegancia, desde o seu defunto Alves até ao conego, desde o lyrico amador, que lhe chamava anhelo, até ao major reformado que lhe chamava o osso do seu osso, D. Rozenda estofava e boleava os musculos, mantendo a flexibilidade e donaire que muitas damas ainda viçosas perderam logo que os tecidos espessos refegaram e descahiram placidamente.
Lisboa, como todas as capitaes das naçoens que tem civilisação, gaz e ostras, encerra bastas mulheres da tempera de Rozenda, pomos menos prohibidos que sorvados, creaturas observantissimas, em demasia talvez, d'aquelle{54} preceito colonisador com que Moysés justifica Rozenda e as outras philogynias dadas ás contemplaçoens geneticas.
Isto de acabar cedo para o erotismo, o esfriar do sangue, o atrophiar dos nervos, é triste condão das mulheres provincianas.
As que viveram cinco annos da mocidade, curvadas sobre o berço dos filhos, estillaram no seio d'elles todo o seu coração, bafejaram-lh'o nos beijos; o namorado brilho dos olhos desluziram-lh'o as lagrimas de uma noite desvelada á cabeceira de creancinha enferma; sorrisos de amor ou desdem perderam a doçura ou o agro, —já a ninguem enlouquecem de jubilo ou desesperação: é um sorrir para filhos e para Deus que lh'os ha-de manter e guiar. Isto é formoso e santo; mas as mães assim envelhecem cedo; as cores do rosto esmaia-lh'as o gear interno; não lhes esmalta a vida uma restea do sol da alma, não as desperta o alvoroço de sonho apaixonado, nem a esperança lhes enxuga nas palpebras cerradas uma lagrima de saudade. Ninguem as vê, ninguem as ama; porque, na voluntaria abdicação da mulher esquecida de si, e toda absorvida nas graças das vidas que estremece, ha uma glacial repulsão que não deixa aquecer em peito de homem desejo impuro. Os filhos, que a rodeam, são uns como que baluartes sagrados.{55} Primeiro amor e ultimo, maternidade, insulação, muitas maguas, raras alegrias, uma primavera com flores abertas, e logo fenecidas; e depois, memorias sacratissimas, e a posteridade que attribue a sua honra á benção da alma digna do céo.
Ó Lisboa, que vantagem levaria a tua civilisação á das provincias, se lá houvesse duas d'estas mulheres, além d'uma que é decerto a esposa do leitor!{56}
{57}