O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Camilo Castelo Branco · Capítulo 13 de 18

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O Carrasco de Victor Hugo José Alves

XIII Desastre do Gatuno

XIII

 

DESASTRE DO GATUNO

 

Vem agora aqui o casar.

D. FRAC. M. DE MELLO, Carta de

Guia de Casados

 

Aquelle rapaz abrazado de cara, a refulgurar uns olhos vertiginosos á feição dos ebrios, cercado de gente, que o escuta, á mesa redonda do Hotel Bragança, é Victor Hugo José Alves.

O energumeno vocifera contra certa mulher que o trahiu. Conta que lhe immolou as convicçoens politicas, a juventude e a liberdade. Diz que por amor d'ella apostatára do socialismo, renegára das crenças republicanas, furtára ao edificio do futuro as achêgas do seu talento, e puzera o seu nome illustre debaixo das maldiçoens da posteridade.

Alguns convivas riem de esguêlha, em quanto outros lhe vão solicitamente reparando{170} o destroço que elle faz no kumel, acinte pedido para afogar a hydra que lhe roe as fêveras da alma.

Disse elle mais que essa perfida havia casado no dia anterior com o filho de um negreiro que morrera conde, transmittindo ao herdeiro, com a herança ignominiosa de tres milhoens, o titulo, o pergaminho onde o ministro fizera assignar ao rei a abdicação da sua moralidade. Acrescentou que o segundo conde de Baldaque se deixára embair do ardil de uma luveira, que se dava ares de princeza bastarda, tendo sido sua mãe uma famosa aventureira que não poderia com exactidão apontar o pae aos filhos que tivera. Disse mais... Não disse mais nada, porque n'este comenos estalava-lhe em cada face uma bofetada das que entupem os jorros da mais caudal eloquencia.

O que dera aquellas provas muito equivocas da sua admiração á objurgatoria do poeta era um velho barbaçudo, de espessos bigodes brancos, alto, gravemente vestido, magestoso aspeito de soldado da guerra peninsular. Era o ex-brigadeiro Christovão de Pina Tavares.

Victor Hugo, estupefacto da injuria e talvez atordoado do choque, encarou fremente, mas silencioso, o veterano que elle perfeitamente conhecia.{171}

—Villão!—rugia o velho com os olhos brilhantes da chamma dos vinte annos—Torpissimo gaiato que insultas a senhora que roubaste! Bandido, que comes no Hotel Bragança os tres contos de reis de...

Tavares susteve-se, reprimido pela mão da caridade. O homem, que havia bebido o fel da injustiça, receiou ultrapassar o direito do castigo. Conteve-se, vendo o quebranto do miseravel, e o fundo abysmo a que podia tombal-o com o pé.

Outro militar, general das fileiras da liberdade, antigo camarada de Chistovão Tavares, e seu convidante n'aquelle jantar, tirou-lhe com força pelo braço, e levou-o.

Os galhofeiros ouvintes de Victor sahiram de espaço, sem sequer averiguarem da injustiça do insulto. Elle, porém, restaurado da pancada moral, recolheu-se ao seu quarto, atirou-se contra o estofo d'uma voltaire, fincou os dedos na testa, e resmuneou cabeceando entre as sacudidelas da colera e dos gazes da indigestão:

—Ó minha vingança!... Ó minha vingança!...

Terribilissimo, formidando e medonho pela cara que fez então!

Quando, passados minutos, o criado lhe{172} entrou ao quarto com os castiçaes, Victor Hugo remetteu contra elle, bramindo:

—Que queres?

E cambaleava como se as luzes lhe inflammassem o alcool.

—Que queres?—tornou elle de murros apontados á cara innocente do gallego.

—Trago as luzes, snr. Victor Hugo...—tartamudeou o moço assombrado.

—Vai-te!... Deixa-me!... Negro, negro, quero tudo negro, como a vingança!

O criado sahiu, e disse á criada, que espreitava o poeta:

—Safa-te, que elle está borracho!...

Safemo-nos tambem nós: deixemol-o gizar a traça da vingança; não assistamos áquella alchimia diabolica; que o kumel e o cognac se lhe destillem em peçonha escorrida da fornalha do cerebro ao coração.

Mas quem disse a Christovão Tavares que o seu correligionario consumia em golodices francezas, no famigerado hotel, as inscripçoens da condessa de Baldaque?

Não foi ella.

Acontecera, como era natural, contar a luveira ao conde o destino que dera aos seus apoucados haveres. Esta confidencia—bem se lembra o leitor—denegada n'outra occasião,{173} fêl-a espontaneamente depois que, sem rodeios nem contrafeito pudor, disse ao conde que o amava. Similhante revelação realçou-lhe a virtude no conceito do noivo. Nada mais formoso, mais para se adorar que a pobreza tão de vontade, o despojar-se a magnanima senhora em beneficio d'um pae que lhe não enviára sequer palavra de agradecimento! Esta magua tocara-lhe o coração; mas sem queixar-se.

Entretanto, o conde, quando soube quem tinha sido o medianeiro da remessa do dinheiro, suspeitou da fraude, sem todavia insinuar ao animo de D. Maria as suas desconfianças.

Neste tempo, o brigadeiro Tavares era muito da casa do conde, e estimado como amigo com todas as excellencias de leal caracter, ao passo que D. Maria José solicitára a familiaridade das filhas a quem communicava as delicias do seu amor.

Contou o conde a Tavares o lance admiravel da remessa do dinheiro; mas, duvidando que o principe proscripto o recebesse, encarregou o velho de averiguar dos maioraes do partido legitimista, se alguem, auctorisado por D. Maria José de Portugal, remettera tal quantia ao snr. D. Miguel de Bragança. O indagador{174} levava instrucçoens para não citar o nome do medianeiro, talvez com o proposito de lhe não ferir o pundonor, se elle houvesse honradamente cumprido o encargo.

A commissão de soccorros respondeu que nenhuma quantia lhe fôra entregue de ordem de tal dama; posto que muitas vezes, nas reunioens onde concorria Victor Hugo José Alves, se houvesse mencionado tal senhora como filha d'el-rei o snr. D. Miguel—filiação aliás duvidosa para elles membros da commissão de soccorros.

No dia immediato, Christovão Tavares entregava tres contos de reis aos encarregados de remetter para Heubach os donativos, e pedia que se fizesse chegar ao conhecimento de D. Maria José de Portugal qualquer palavra que o snr. D. Miguel escrevesse a tal respeito.

Antes de volvidas tres semanas, a commissão de soccorros enviava, por via do ex-brigadeiro, á luveira da Rua Nova da Palma, uma carta do principe proscripto ao vice-rei, perguntando-lhe se a senhora que tão generosa o visitava no seu desterro era filha de Marianna Franchiosi Rolim de Portugal.

O conde, disfarçando a parte que tinha no jubilo da sua amiga, assistiu ao mavioso espectaculo{175} da ternura com que ella beijava a carta do pae.

Dizia então D. Maria, para aliviar escrupulos de ter sido injusta:

—Olhe, Raul, eu nunca lhe disse isto; mas digo-lh'o agora como quem se alivia de um peccado, confessando-o. Cheguei a desconfiar que Victor Hugo não mandasse o dinheiro. Nunca ousei perguntar-lhe por nada, receiando que elle me adivinhasse a suspeita... Pobre rapaz!...

E o conde sorria, sem lhe entre-mostrar uns longes da verdade.

Tavares, por sua parte, obedecia ás ordens do conde, guardando, com superior esforço e dolorosa violencia, o segredo do roubo. Quando, ainda assim, encontrava o ladrão entre os homens de bem do partido absolutista, o velho descorava, torcia-se, gaguejava monologos, resfolegava fumaradas de colera, e fugia com o segredo, que lhe pezava, como se levasse sobre a alma um enorme remorso—remorso de não avisar os seus correligionarios.

Uma vez pediu com as mãos erguidas ao conde que o deixasse expulsar d'entre os realistas aquelle hediondo larapio. E o conde respondeu:

—Isso é de justiça; mas deixe-me casar e saír de Portugal; depois, quando minha mulher{176} estiver longe, fará o que entender. Não lhe roubemos á feliz menina o prazer de ter sido d'ella o dinheiro que D. Miguel recebeu. Se o snr. Tavares denuncia o furto, o escandalo andará tão fallado por essa Lisboa que D. Maria será das primeiras pessoas que o saibam.

N'este bom proposito, esperava o velho, quando concorreu áquelle jantar, a convite do antigo camarada, que solemnisava n'esse dia, com duas garrafas do Porto, a sua reforma em marechal de campo. A garrafa correspondente ao ex-brigadeiro, a gratidão e a honra cooperaram n'aquelle impeto das duas bofetadas. Mas, graças ao sentimento de commiseração que o reteve, os circumstantes não perceberam senão que Victor Hugo insultava uma senhora a quem havia roubado tres contos de reis.

No dia seguinte, contava-se o caso no Chiado. Uns diziam que Victor havia sido amante da luveira casada agora com o conde, e lhe gatunára a herança que ella tivera d'um agiota. Esta era a opinião dos sugeitos contusos por Damião Ravasco. Outros, rejeitando a tradição mais corrente, asseveravam que a roubada tinha sido uma marqueza velha, e que o official realista, que bofeteara o litterato, era amante da marqueza desde 1801—ou 1789,{177} acrescentava o meu amigo José Parada para quem todos os infortunios eram cornucopias de chalaça.

O conde, recolhido á dôce intimidade do noivado por muitos dias, ignorou o successo; e, quando saíu, não houve indiscreto que lh'o referisse.

No emtanto, Victor Hugo dava que scismar aos seus partidarios, não comparecendo nas reunioens onde innocentemente conspiravam os letrados da causa; nem sequer nos saráos somnolentos, onde a idéa velha passava as noites cabeceando acalentada nos braços do snr. padre Beirão e d'outros.

Naturalmente se explica o desvio do cavalleiro da Ala pelo justo receio de ser interrogado ácêrca dos tres contos de reis, sabido já o roubo pelo ex-brigadeiro, que tinha accesso ás casas principaes, e reputação de homem honesto.

E mais depressa ainda se esclarece a conversão d'este desgarrado bode ao seu rebanho antigo,—á seita dos carbonarios, reorganisada em 1848, com elementos combustiveis de tanta força, que todos se vaporaram, deixando as fezes ahi por essas secretarias do Terreiro do Paço, encrustadas nas pastas dos ministros que foram, que são, e hão de ser. Diziam os{178} seus confederados na loja: que Victor Hugo, restituido á bandeira que desertára por amor d'uma ingrata Dalila, nunca fôra tão Samsão na força do verbo, tão Hugo na energia das figuras, tão republicano na medula dos seus ossos. O seu auditorio destampava em gargalhadas quando o Fuas Roupinho da esquadra naufragada, zombando do seu proprio appellido de guerra, chacoteava da ordem de S. Miguel, que elle denominava a cavallaria desferrada do archanjo.

É justo que não se esqueça, na correnteza d'estes casos, a familia d'esta pessoa.

D. Rozenda Picôa, assim que viu annunciado o casamento de D. Maria José de Portugal, deliberou visital-a e manter boas relaçoens com a sua hospeda, visto que a fortuna caprichosa a collocara na posse pouco vulgar de uma corôa de condessa com tres milhoens.

Annunciou-se ao guarda-portão do palacio. Tangeu-se uma campainha. Desceu um escudeiro que recebeu o nome da visita. E com demora de alguns minutos, voltou o escudeiro dizendo que a snr.ª condessa não recebia.

—Então porque?!—perguntou D. Rozenda abespinhada.{179}

—Porque não quer... É boa a pergunta!—respondeu o escudeiro com altivez.

—Não quer?!—redarguiu a mãe de Victor.

—Então a snr.ª luveira já não conhece as amigas velhas?... Não?... Ella me conhecerá!...

E saíu enfurecida em busca do filho, deliberada a conciliar-se com elle para collaborarem na vingança.

Em abono do benigno coração da condessa cumpre saber-se que ella receberia com alegre sombra a visita de D. Rozenda, se o conde, ao ouvir proferir o nome da mãe de Victor Hugo, não pedisse brandamente á esposa que se abstivesse de receber tal senhora.

Perguntou ella que razão havia para não a receber. O conde respondeu:

—Deve ser muito forte a causa que me faz contrariar-te pela primeira vez, minha filha. Tu a saberás. Por em quanto, basta que eu te diga que esta mulher é mãe de um homem que os meus lacaios recusariam acceitar nas suas assemblêas de taverna. Sabes de mais que eu não defendo minha casa aos pobres; as tuas amigas e os meus amigos são todos pobres. Se essa senhora está necessitada, soccorre-a; mas não a recebas, porque é mãe de um homem que está hoje escarnecendo os amigos de teu pae. {180}

A condessa ficou sabendo que Victor Hugo renegara da sua quarta ou quinta religião politica, e mais nada. Observava ella porém:

—O que a mim me admira, Raul, é ter elle entregado os tres contos de reis! É uma honra que não se entende bem a d'este homem!...{181}