O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Camilo Castelo Branco · Capítulo 8 de 18

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O Carrasco de Victor Hugo José Alves

VIII Raul

VIII

 

RAUL

 

No rosto do anjo que desdem tão

nobre!

DANTE, Inf., c. IX.

 

Relataram-se os casos anteriores ao realisado designio de fazer-se luveira D. Maria José.

Já, ao começo d'esta historia, José Parada, o meu introductor á presença da filha de D. Miguel, nos referiu, mais ou menos hyperbolicamente, a concorrencia de preitos á volta da galante dama. Não foi, certo, encarecido louvaminheiro quando nos relatou as esquivanças da luveira ás propostas de casamento, já com velhos endinheirados, já com rapazes de genio, e até com um rico e elegante môço que podia aspirar ao mais selecto consorcio na melhor sociedade da côrte. Tal era aquelle Raul, filho unico do conde de Baldaque, millionario{92} que entrára em Lisboa com o seu socio e amigo Manoel Pinto da Fonseca, o homem de ouro que as mulheres de carne cognominaram o conde de Monte-Christo.

D. Maria José não estremára o filho do conde entre os frequentadores da sua loja, senão pela timidez tartamuda, e rara infelicidade no acovardar as phrases, tão avêssas da galhardia dos meneios e tom de peralvilho que lhe dava a luneta, e de uma certa dextridade a que devia nos saloens o renome de bom conversador.

Nas suas praticas com a luveira da Rua Nova da Palma mediavam intercadencias de silencio que tanto podia significar amor que absorve a palavra na contemplação, como cansaço de duas almas em spasmos de tedio reciproco.

Raul, porém, amava n'aquelle extremo em que a mulher impõe respeitosa adoração, independente do prestigio do nascimento. Póde ser que elle, desconhecendo a origem real da luveira, se houvesse em presença d'ella com menos resguardos, sem todavia lhe querer menos; mas, em leal verdade, o dizer-se que a gentil menina era filha de um rei, e o porte soberano com que ella, sem arte e genialmente, justificava sua fidalga condição, eram realços á já de si peregrina belleza, os quaes,{93} a meu vêr, insinuaram ao animo enthusiasta do môço brazileiro a idolatria genuflexa que se confunde com a superstição.

Raul de Baldaque, saltando do dog-cart á porta de D. Maria de Portugal, e atirando as guias ao jockei, ia encontrar a luveira pregando botoens em luvas. A gentil senhora correspondia-lhe graciosamente ao cumprimento, passava-lhe uma cadeira, que elle recebia com ademanes de extremada cortezia; e, cumprido o dever de urbanidade como se o exercitasse nas salas opulentas de sua mãe, continuava o seu negocio, tratando os freguezes com semblante prasenteiro e um sorrir de paciencia que ninguem, entendido em dôres recalcadas no fundo da alma, poderia vêr sem pena.

Raul, subtilisado pela paixão que adelgaça os temperamentos mais espêssos, adivinhou um dia que o sorriso da luveira em resposta aos desabrimentos de certa mulher que lhe regeitava umas luvas esgarçadas ao vestir, era a expressão ironica do infortunio que se irritava, ou acaso a serena alegria da voluntaria martyr.

Desatou-se-lhe então da alma ao concentrado môço um dizer que o engrandeceu no conceito de D. Maria:{94}

—Quantos sorrisos d'esses terá tido o snr. D. Miguel de Bragança!...

A senhora fitou-o com os olhos já nubelosos de lagrimas, e respondeu:

—Não ha comparação, snr. Baldaque. O snr. D. Miguel não póde sorrir. O que póde haver egual entre o principe e a luveira é o chorar... Mas que differença no travôr das lagrimas! Eu choro por elle, e elle... chora por si mesmo. Eu vejo a tortura, e compadeço-me: elle é o torturado. E essa mesma piedade que lá chega em escassos beneficios deve ser-lhe fél coado ás feridas do pundonor... Ha infelizes que se estorcem em sêdes abrasadoras; os amigos querem apagar-lh'as, e dão-lhes veneno... Não sei se para esses, que tudo perderam, a mais relevante caridade seria deixal-os morrer...

Não seria facil a Raul atar as idéas descozidas e interceptadas por silencios; mas o que elle percebeu animou-o a proferir uma expansiva bondade que soou asperamente nos ouvidos da luveira:

—Se eu não fosse rico, as suas palavras, minha senhora, seriam tambem para mim uma tortura...

—Não me comprehendeu—murmurou ella, abaixando o rosto sobre o engenho das luvas.{95}

—Creio que entendi;—replicou Baldaque—mas, se a magoei, perdôe-me...

—Que entendeu?—disse ella, sem levantar os olhos.—Que eu lhe pedia uma esmola para o snr. D. Miguel?

—Não, minha senhora, eu entendi que... balbuciou o môço grandemente embaraçado.

—Então que foi que entendeu?

—Que V. Ex.ª lamentava que seu pae não tivesse morrido, antes de acceitar os donativos dos seus partidarios.

—Se assim é, que importa que V. Ex.ª seja rico?

—Tenho medo de lhe responder—disse Raul, erguendo-se de golpe, e sacudindo com a mão os longos cabellos que lhe afogueavam as faces.

—Mêdo!... que poderá dizer-me que o intimide?

—Tem razão, minha senhora. Eu preciso ser franco... preciso ser mais feliz do que sou... quero abrir-lhe a minha alma... quero, emfim...

Susteve-se algum espaço; e maior seria a detença se D. Maria José o não desfitasse d'aquella penetrativa interrogação que parecia recommendar-lhe summa prudencia nas palavras que ia proferir.{96}

E proseguiu, tirando brios propriamente da necessidade que tinha de se justificar:

—Se eu ainda lhe não disse que a adoro, é porque, na sua presença, todas as minhas resoluções fraqueam. Sou ainda novo; mas conheço o mundo. As almas infelizes envelhecem cedo. Eu não amei nunca; mas sei as palavras com que se pintam as grandes paixoens. Depois de aqui vir repetidas vezes, disposto a dizer-lhe que a amo, e não o fiz, deliberei escrever-lhe. A mesma timidez me acanhava em lhe entregar a carta. Cheguei a ter pejo de mim proprio; porque vi o desassombro com que certos homens, sem lhe faltarem ao respeito, ousavam dizer-lhe palavras que me feriam o coração e o amor proprio, ao mesmo tempo. Restava-me, ao menos, em meio de minhas amarguras uma consolação: e era que, dado que V. Ex.ª me não visse a alma atravéz do silencio, me não julgaria um frivolo namorador, sempre a ponto em dizer palavras banaes. E ainda outra consolação mais me lisongeava: era ver que V. Ex.ª, se me desprezava, ou me não via, não prestava maior attenção ás pessoas que a cortejavam, sabendo eu que o proposito de algumas era tão honesto quanto eu quizera que minhas irmans, se as eu tivesse, o merecessem.{97}

—Eu nunca dei occasião a que me fizessem propostas de natureza nenhuma—interrompeu a luveira.—Digo-lhe isto, snr. Baldaque, para o despersuadir de que tenho a vaidade de haver rejeitado propostas que o mundo chama partidos vantajosos.

—Sei isso...—acudiu Raul, algum tanto abatido da coragem com que ia discorrendo, por inferir da interrupção assomado orgulho.— Sei isso...; e, porque o sabia, contive-me, aconselhado pelo desengano dos outros. Mas, apezar de tudo, talvez me illudisse a vaidade de me suppor mais digno do que elles, porque eu sentia por V. Ex.ª a veneração, que não impediu que os outros se declarassem. É isto a unica distincção que me deve singularisar; pois, sendo natural que todos amem uma senhora bella no semblante, no coração e no espirito, nem sempre succede que a paixão se deixe abafar pelo acatamento. Agora, porém, minha senhora, já não haverá nada que me empeça de lhe revelar em poucas palavras todas as minhas meditaçoens de seis mezes; mas, se V. Ex.ª me está ouvindo constrangida... se me confunde com os homens que a importunaram com phrases mais ou menos similhantes ás minhas, então diga-me que me escuta por mera delicadeza... {98}

—Por mera delicadeza o estou ouvindo—disse serenamente D. Maria José.

—Pois bem...—tartamudeou o moço empallidecendo—calar-me-hei... Mas...—volveu elle, passados instantes em que o rubor succedeu á pallidez.—Mas... V. Ex.ª perguntou-me ha pouco:—que importava que eu fosse rico?—E eu disse-lhe que tinha medo de responder. A snr.ª D. Maria José animou-me a explicar-me; e antes que eu chegasse á justificação, emmudece-me, declarando que me está ouvindo, porque é delicada! Se fosse tão boa de coração quanto é melindrosa, não m'o dizia tão seccamente... antes havia de permittir que eu me desculpasse d'umas palavras innocentes que lhe deram de mim conceito injusto e máo.

—Máo conceito, não, senhor—emendou D. Maria—pareceram-me apenas uma impertinente phrase que só violentada podia entrar na nossa conversação. Eu dizia-lhe que o snr. D. Miguel é infeliz; e V. Ex.ª respondeu-me que era rico. Figurou-se-me que me considerou medianeira nas esmolas que se pedem para elle...

—Errou, minha senhora—retorquiu Raul, fortalecido pela pureza nobilissima das suas tençoens.{99}

—Então, seja generoso em me desculpar, e creia que por interesse, e não por civilidade desejo ouvil-o.

Baldaque, após uma longa pausa, em que denotou no rosto penosa inquietação do animo, disse verdadeiramente conturbado:

—Já não posso...

—Não póde!?—sobreveio a luveira com ares de incrédula.— Então não póde? porquê? Isso faz-me desconfiar que...

—Desconfiar?...

—Sim, desconfiar que V. Ex.ª, em sua hesitação, me dá a perceber a difficuldade de combinar o respeito, que me tem, com a explicação que me ia dar da sua riqueza. Se assim é, agradeço-lhe mais o silencio que a explicação... Deixemos no escuro o seu segredo e esqueçamos o que houve de mais nas suas revelaçoens. Entretanto, snr. Baldaque, não lhe direi que vou ser com V. Ex.ª mais sincera do que fui com outras pessoas de quem me não aggravo nem me orgulho. Com essas pessoas a minha evasiva foi o silencio, sem desdem nem menos preço. Com V. Ex.ª não será assim. Serei verdadeira, porque vou responder ao que me disse e talvez até ao que formou tenção de me dizer. No dia em que abri esta loja de luvas, estabeleci com a sociedade as unicas relaçoens compativeis com{100} este modo de vida. Não escolhi esta posição, calculando outra melhor. Não pensei puerilmente em prender admiraçoens de espiritos extraordinarios que folgam de matizar os actos vulgares da vida com o ouropel da poesia. Esta loja, com uma pobre mulher que tira d'aqui o seu parco sustento, não é romance, é occupação ajustada ás minhas faculdades e aos meus recursos. Eu poderia optar por encargo mais senhoril e lucrativo; poderia ensinar nos collegios as linguas que estudei, e algumas prendas que vou deixando esquecer como inuteis; poderia; mas o contacto com a sociedade assustava-me; a convivencia de mestra com as discipulas privar-me-hia dos confortos da alma que esperava achar e achei neste viver obscuro: é a soledade, o estar sósinha o maior numero das minhas horas, o desprendimento de cuidados que me forçariam a sahir de mim mesma, se eu quizesse dar boa conta do meu prestimo salariado á educação de meninas. Sei que me desempenharia mal por não poder, com este espirito que tenho egoista de sua tristeza, prestar attenção aos sagrados deveres de quem educa...

—Mas V. Ex.ª...—interrompeu Baldaque.—Perdão!... receio ser indiscreto, fazendo-lhe uma pergunta...

—Queira dizer.{101}

—Se ouso perguntar, é porque muita gente diz que V. Ex.ª herdou...

—Esta casa e nove contos de reis em inscripçoens.

—Nove contos de reis em inscripçoens...—volveu receioso o filho do millionario—não bastam para quem tiver aspiraçoens menos modestas que V. Ex.ª; mas... o rendimento d'elles, creio eu, dispensariam a snr.ª D. Maria José de dirigir este negocio tão pouco lucrativo; e, se me concede dizer mais, bem podéra V. Ex.ª, afastando-se inteiramente da sociedade, gosar as suas horas todas de solidão, poupando-se ás lagrimas que ha pouco vi explicarem o seu sorriso... Peço outra vez perdão, se me excedi nestas observaçoens á sua vida intima.

—As observaçoens são justas—respondeu tranquillamente D. Maria—mas eu não tenho hoje de meu senão esta casa e o valor dos objectos desta loja. A indagação de V. Ex.ª deve satisfazer-se com saber isto, e nada mais. Se mais alguem o sabe, não ha razão para que eu esconda a minha pobreza d'uma pessoa já convencida de que eu desejo ser pobre.

—Ó minha senhora!... nem mais palavra hei de proferir a tal respeito...

—A minha pobreza é voluntaria, reflectida e aprazivel—continuou a filha de D. Miguel.{102} Quem tiver pena de mim, usurpa a sua commiseração a quem a merece e necessita... Ha pouco me disse V. Ex.ª que eu não dei valor ás generosas propostas de cavalheiros abastados que me pretendiam com honrosos intentos. Não dei valor á opulencia que me offereciam; mas ao sentimento que os moveu a favorecer-me sou muito grata. Eu desejava que para cada mulher mal-afortunada sorrisse a ventura dos casamentos ricos. Deve ser muito cubiçada similhante felicidade, porque tenho visto o espanto, e talvez o despeito, no rosto das pessoas cuja riqueza eu me dispensei de apreciar. E a mim, ao mesmo tempo, parecia-me indiscrição e mediania de polidez vir aqui alguem obrigar-me a ser indelicada para evitar exposiçoens de affectos, que só então me faziam pensar na inconveniencia de ser luveira.

Dona Maria sorriu, passou a mão alvissima pela fronte, deteve n'ella a cabeça como quem revoca idéas fugitivas, e proseguiu:

—Snr. Baldaque, cheguei ao fim do que deve saber de mim propria. Escolhi esta posição. Se sahisse d'ella, attrahida por bens de fortuna, a minha alma teria pejo de sua baixa indole. Ha sacrificios que tem glorificaçoens intimas e ineffaveis. São dôres que os pacientes não querem consoladas; são as rozetas{103} dos cilicios que as creaturas delirantes de amor divino apertam mais, quando é maior a angustia. Ha penitencias moraes muito parecidas com as voluntarias macerações das santas. Nem a penitente acceitaria os supremos regalos deste mundo a trôco das suas disciplinas, nem eu trocaria a minha independencia, nesta solitaria e obscura distancia de theatros e bailes, pelo brilho que meus olhos cançados de chorar não supportariam.

—Comprehendi, minha senhora... disse Raul, revelando a magua no tremor da voz.—A palavra coração nem uma só vez appareceu entre as phrases glaciaes com que me repelle. Ha poesia sublime e santa no mysterio que lhe nortêa a existencia; mas, nas suas estrellas, no céo das suas visoens, estrella de amor não brilha nenhuma... Como havia de V. Ex.ª comprehender-me, se eu, articulando em soluços as minhas confissoens, seria como o infeliz que exhora uma divindade de marmore, e não a alma apaixonada que pretende communicar o seu ardor a outra alma?... As minhas confidencias não poderiam ser ouvidas no alto ponto d'um sentimento incomprehensivel em que V. Ex.ª me esconde as suas phantasias. Eu sabia que tinha posto os olhos da face e os da alma na mulher virtuosa; mas tambem cuidava que as excellencias{104} do espirito não matam de esterilidade as flores, do coração. Na sua edade, snr.ª D. Maria José, ha almas devastadas, que, desde o baixo positivismo do descrer, vingaram, por effeito da fé ou da graça divina, desferir nas azas da piedade altos vôos até pousarem no seio de Deus; essas, porém, sei eu que lá mesmo do céo devem chorar sobre as illusoens perdidas da terra. Sei que ha almas assim cahidas e resgatadas; mas sobre as cinzas de minha mãe irei jurar que na pureza do rosto, na serenidade do olhar, na virtuosa altivez de suas palavras, minha senhora, lhe transluz a vida inteira, sem nodoa, sem laivo escuro que ahi deixasse o anjo maldito do desengano. Nenhuma esperança lhe foi mentida, nenhum desejo lhe foi malogrado. V. Ex.ª não desejou nem esperou as felicidades que espera e deseja a mulher na flor dos annos. Se alguma hora sentiu estremecimentos de amor, soffreou-os com a violencia da sua justa vaidade...

—Vaidade!—interrompeu D. Maria—Vaidade!

—A palavra não é esta;—insistiu Raul com firmeza—ha outra mais bem cabida, mais senhoril; mas tambem menos desculpavel em nossos dias de luz, de expansão e de guerra victoriosa aos preconceitos...{105}

—Diga a palavra... Não se constranja...

—Orgulho do seu nascimento—obedeceu elle receioso.

—Louvo-lhe o coragem, snr. Baldaque. Se disfarçasse a idéa, não conseguiria enganar-me. Agradeço-lhe a franqueza. Tenho orgulho, é verdade, tenho muito orgulho de ser filha do principe pobre, do principe desterrado; e, cortejada á beira do throno de meu pae, talvez o não tivesse. Tenho orgulho de me ver abatida, e tenho pezar de não haver compartido das amarguras do grande infeliz. Quando elle soffreu extremas necessidades nos primeiros annos do seu desterro, ainda eu via nas salas e guarda-roupa de minha mãe valiosas reliquias de uma opulencia que não havia sido d'elle, nem do estado, nem da casa do infantado, nem das extorsoens feitas a uma nação arruinada. Se essa opulencia subsistisse áquella hora em que fiquei orfan, eu venderia até o leito de minha mãe para o soccorrer, e ajoelharia á divina Providencia, exhorando-lhe que me deixasse ganhar o pão de cada dia, e permittisse que a miseria se abraçasse com a dignidade, e as lagrimas, se era precizo choral-as, me não sahissem impuras do coração. O meu orgulho já vê, snr. Raul, que principiou assim: principiou como começa a humildade de muita gente desafortunada. Filhas de{106} reis haverá muitas que se julgariam aviltadas pelo trabalho; e eu soccorri-me do trabalho humilde para sustentar o meu orgulho de filha d'um rei. A mulher que se dá a fidalga distincção de igualar-se á plebe, reservando para si a superioridade de agradecer com um sorriso as offensas inevitaveis nas posiçoens humildes, não se lembra que é neta de reis para ter orgulho. Mas esta palavra é aspera, é negativa da virtude, sôa rispidamente aos ouvidos da moral christan. Tambem aos meus. Se a consciencia me não dissesse que ella exprime innocentemente o conceito que de mim fórmo, pediria a V. Ex.ª que antes lhe chamasse energica hombridade, vigor de caracter, condição excentrica e singular, se quizer, mas defeito de coração seria injustiça attribuir-m'o. Orgulho de pobreza, sim; mas sem as irritaçoens do orgulho plebeu; sem a cupidez infernada na alma. Tenho uma ambição, mortificante mas inoffensiva, uma ancia, que, se é peccaminosa, as lagrimas, que ella me faz chorar, de certo me tem lavado a alma das suas impurezas. Esta ambição é um desvario de enfermo que se estorce no ardor da febre; mas é peor ainda;... que as minhas agonias não devem revelar-se, são profundas, abafo-as, escondo-as de todos; porque estou sósinha n'este mundo; e tão desgraçada{107} que não acharia allivio algum em confidencial-as... Expliquei-lhe o meu orgulho—concluiu D. Maria José, sorrindo e bebendo as lagrimas ao mesmo tempo.

E, volvidos alguns segundos, como Raul, embebecido na contemplação d'aquella mulher, em que duas formosuras pareciam deslumbrar-se, não proferisse um monosyllabo, disse ella, amaciando a aspereza da pergunta, com a brandura do tom:

—Chamou-me orgulhosa do meu nascimento, snr. Baldaque. Eu confessei que sou; e, olhe, tenho uma qualidade mais reprehensivel ainda... quer que lh'a diga?

—Outra virtude?

—Outro defeito... Sou soberba.

—Soberba!...

—Sim, disto que vê: d'aquellas luvas, d'aquellas camisas, d'estas farraparias que me rendem as preciosas galas que eu preciso para sustentar a minha soberba.

E terminou por um frouxo de riso indescriptivel, talvez um gemido convulso, um regolfo de lagrimas que se retrahiu ao coração.

N'este lance, entrava uma criadinha com duas latas, de feição de marmitas, nas quaes ia o jantar da luveira, comprado em uma taverna das portas de Santo Antão.

Raul, com olhos turvos e voz tremente,{108} apertou a mão de D. Maria José de Portugal, murmurando estas palavras de modo que a criada as não ouvisse:

—Eu não a mereço... mas hei de amal-a como um escravo, que eu tive, me quer e ama ainda hoje. E assim como o amor do escravo me faz bem á alma, póde ser que o meu amor seja na vida de V. Ex.ª um sentimento suave.

E sahiu.

José Parada, e os convivas de Raul de Baldaque e eu não duvidamos assacar ao amador da luveira os estimaveis defeitos que dão quilate superior a quem faz praça d'elles com a invulneravel petulancia da riqueza. Julguei-o mal á primeira vez que o vi galhardear-se com tregeitos e garridices incompetentes de rapaz sisudo. Além de que, na altania do seu olhar, no sobrecenho arrogante com que mediu as minhas modestas dimensoens, emfim n'aquelle hirto aprumo da sua catadura, eu, illudido pela experiencia de dezenas de exemplares de tolos que me trazem desconfiado, conjecturei que Raul hão tinha dotes que podessem inliçar o affecto da filha de D. Miguel, a não ser a sua pessoa tafulamente vestida, o urco do seu phaeton, e o alardo de uns presumptivos mil e tantos contos.

Este rapaz escolhêra o peor expediente para se fazer acceitar na estima dos seus conhecidos{109} em Lisboa. Deu-lhes jantares cuja magnificencia inculcava proposito de ostentação; e, não contente da vangloria de ser rico, desvanecia-se em exceder nas graças de espirito os seus contubernaes. A reputação de nescio crearam-lhe estes. Havia na calumnia o ignobil intuito de se arranjarem com a consciencia que os arguia de parasitas; e o accôrdo, que elles faziam com a sua dignidade beliscada, era imaginarem-se «disfructadores» do parvena.

Póde ser que o filho do conde de Baldaque, alguma vez ou todas as vezes que presidiu ás suas ceias irritantes e escandecentes no Matta, quer inflammado pelo ardor natural da sua compleição, quer exagitado pela perfidia dos licores, se demasiasse em basofias de galan, relatando com indiscreta jactancia proezas fameaes, mais ou menos phantasmagoricas. Os seus commensaes, mordidos no orgulho nacional, de mate forçoso deviam trocar-se aquelle geito de olhar de soslaio com que o despeito convencionalmente se dá a mascara de disfructe. Não sei até que ponto o sensato idolatra da luveira havia direito á fatuidade de afortunado em jerarchias somenos da filha de um Bragança, mas tanto ou quanto aparentadas com a sua real amada. Como quer que fosse, os seus amigos apregoavam-no{110} petisco infinitamente brazileiro; e as suas amigas, com aquelle fino faro de que são prendadas as damas menos candidas, por tal arte o haviam conceituado que todas as aventuras contadas, em estylo de roué, vinham a ser o mais desgraçadamente exactas que é possivel;—desgraçadamente, digo, porque eu desejo que no seio das familias, que respeito, não sejam sómente conhecidas as tres virtudes theologaes.

Se as entranhas d'aquelle rapaz de vinte e seis annos estavam canceradas; se as suas victimas lhe resvalavam do seio de gêlo á sepultura levadas em lagrimas torrenciaes, não sei, nem o diria quando o soubesse; que este livro não é obituario. Contra quem me levanto, é contra mim proprio, porque, á primeira intuição, o aquilatei no vulgar dos rapazes ricos, libertinos, e cansados.

Não fundamento esta retratação e protesto unicamente na sensibilidade, polidez, e atilado accento de suas palavras á luveira, por tanta maneira louvaveis que, sendo apaixonadas, não desatremam da prudencia, e podem ser dadas como exemplar de colloquios do paço dos nossos reis e senhores.

O meu protesto cimenta em bases que não podem dar de si. É o estylo. Quem falla d'aquelle feitio a linguagem portugueza,— quem{111} ama com todas as partes da oração em concordancia irreprehensivel, poderá, por inveja ou injustiça grave, não ser mencionado nos Logares selectos; mas tolo é que não pode ser.

Ora agora, se amar luveiras regiamente phantasticas, com tamanho siso e tão desusada reverencia, é hoje em dia argumento contra a sanidade intellectual de um homem que representa mais de dois milhoens, isso é outra questão que ha de ventilar-se opportunamente.{112}{113}