O Carrasco de Victor Hugo José Alves
Conclusão
É immolado um porco á terra.
HORACIO, Epist. I, Livro II.
Corria o mez de agosto de 1862.
Na estação de seges de praça, que descorrem pela cidade baixa, notaram os boleeiros a concorrencia de um mulato, que elles tinham visto, adestrando as soberbas parelhas do conde de Baldaque, ou aderençando pôtros rebelloens e alfarios com a galhardia de consummado picador. Reputavam-no mordomo do millionario; porém, quando o viram na praça, boleando uma sege numerada, inquiriram d'elle mesmo se deixára o serviço do conde. E elle respondeu:
—O conde foi-se embora para França, e eu, que me dou bem por cá, empreguei as minhas soldadas n'este trem, e vou vivendo.{224}
O serviço de Damião agradava sobre modo aos rapazes do Chiado. O mulato era já conhecido da mocidade de pechisbeque, versão genialmente portugueza da jeunesse dorée lá d'álem. Em dia de toirada era ditoso quem o emprazava de vespera.
Victor Hugo rara vez sahia de sua caza na Travessa do Estevão Galhardo—aonde voltára reconciliado com a mãe e um tanto fallido ao dinheiro—que não visse o mulato convidando-o a acceitar-lhe o seu serviço.
Uma vez, entrou na sege, e disse:
—Ás camaras!
A sege voou. Victor, apeando, disse:
—Isso é que é andar, rapaz! Como te chamas?
—O mulato.
—Mas como é o teu nome?
—Mulato.
—Mulato não é nome, é côr. Tu deves ser Simão ou André ou Belchior...
—Sou mulato.
—Pois então, mulato—voltou sorrindo o commendador da Conceição—queres ir amanhã levar-me a Cascaes?
—É longe, meu amo. Faz muito calor. Estafo os cavallos á torreira do sol; e eu não sei andar a passo. É para lá! bem vê V. Ex.ª... Eu não poupo o gado...{225}
—Pois vamos de noite, queres?
—De noite? A que horas?
—Ás tres.
—Isso é de dia.
—Ás duas, serve-te?
—Convem. Chegamos lá ás sete.
—Sabes onde moro?
—Parece-me que sei... é...
—No Hotel da Travessa...
—Do Estevam? já sei... Lá estou ás duas em ponto.
—Sem falta? palavra?
—De mulato. Quer que espere?
—Não. Pega lá...
E deu-lhe, com fidalga bizarria, dez tostoens. Damião recebeu-os na luva de algodão. Subiu á almofada, largou para a rua de S. Bento, e deixou caír as duas corôas no regaço de uma mendiga cega.
Á uma hora da manhã Victor Hugo recolheu do Gremio, e sevou o seu rewolver de seis tiros. Depois trajou-se á campezina, fato inteiro azul anil, luva amarella, chapéo de palha, uma gravata de muitas pontas com muitas flores e muitas borboletas. O espelho lisongeava-o, occultos os dentes, o vestibulo infecto d'aquella caverna do peito, as navalhas podres do javali que esfoçava lá dentro.
Victor Hugo ia a Cascaes á cata d'uma grega{226} que, por aquelles dias, alvorotára os galans enfrascados em damarias d'aquella casta. Farto de amores peninsulares, o poeta Alves almejava um amor grego, perfumado das auras do Bosphoro, coisa que lhe désse uma vez ao menos as morbidezas do oriente na Travessa do Estevam Galhardo.
A grega perseguida dos caens vadios de Lisboa, que se lhe penduravam de cauda de murzêlo, fugira para Cascaes, no intuito outro sim de traduzir o Alkorão para uso dos seus cathecumenos.
Victor Hugo ia procurar a grega, fugida do serralho de Bysancium, e disposto a enrodilhar o turbante na cabeça, mahometanizar-se, restaurar a Grecia por amor d'ella, dar a casca em Missolonghi, e almoçar com ella, se pudesse.
Ás duas horas rodou a sege na calçada e parou. D. Rozenda, quando o filho passava no corredor, disse lá de dentro da alcôva:
—Onde vaes tão cedo, Victor?
—Vou a Cascaes.
—Que vaes fazer a Cascaes, homem?!
—Respirar as brizas do mar.
—Forte asno!—murmurou a mãe, e adormeceu. A sege abalou velocissima.
Ahi por Paço d'Arcos, Victor perguntou ao boleeiro, quando a sege ia muito a passo:{227}
—A quem compraste esta boa parelha?
—No leilão do conde de Baldaque. V. Ex.ª conhece-os?
—Conheço o conde, os cavallos não.
—Não me saberá dizer porque é que o conde se foi embora?
—Sei: casou com uma aventureira...
—Que vendia luvas...
—Isso...
—E depois?—tornou o mulato.
—A opinião publica fez-lhe troça e elles safaram-se.
—Ah!... então a troça como foi?... Acho que havia de ser um folheto que ouvi ler, a dizer o diabo da mãe da tal condessa...
—É isso...
—E aqui, ha de haver um mez, leram-me um jornal onde se dizia que o folheto fôra publicado por um snr. Victor Hugo, que tinha roubado grande chelpa á tal luveira. Sempre ha cada malandro! O senhor conhece-o?
—Quanto déste pela parelha?—perguntou Victor, como se a pergunta fosse feita a um pavão, que berrava no arvorêdo dos Palhas.
—Cincoenta libras—respondeu o mulato, muito mais delicado que o seu interlocutor.
—Não foi cara.
—Todo o trem do conde se vendeu ao desbarato. Contou-me um criado d'elle, meu patricio,{228} quero dizer, tambem mulato, que a condessa fôra de Lisboa doida, por causa do tal folheto, publicado pelo larapio que a roubou. Veja V. Ex.ª que patife aquelle! O mulato é levadinho de dez milhoens de diabos, e disse-me que não se vae embora de Portugal sem cortar a cabeça ao tal Victor Hugo!
—Quem, o preto?—perguntou sorrindo o commendador.
—Sim, o preto...
—Ha de ser um que dava sôcos nos namoros da luveira...
—Hade ser esse, provavelmente...
—Pois, se o vires, dize-lhe que o tal Victor Hugo só deixa cortar o pescoço depois que mette seis balas na cabeça de quem lh'o quer cortar.
—Então o homem pelos modos é têzo?
—É: fia-te em mim.
—Não duvido, patrão; mas a valentia não tira que elle seja um ladrão; e um malvado que roubou a alegria e o juizo a uma senhora que lhe não fez mal nenhum, que eu saiba.
—Elle lá teve as suas rasoens... Olha lá, não deixes adormecer os cavallos... Ainda agora vamos em Oeiras...
—Temos muito tempo, patrão... V. Ex.ª não conhece um caminho por onde se atalha uma legua boa?{229}
—Não.
—Quando chegarmos ao fim do muro da quinta do marquez, eu lh'o mostrarei.
Damião chicotou os cavallos com frenezi. Era a onda de sangue que já lhe girava como meandro de vitriolo por entre os seios do cerebro. As chicotadas eram uma maneira de se desafogar d'aquella congestão.
Chegados á extrema do muro, o mulato metteu por uma vereda estreita, desterroada e pedregosa.
—Não é por ahi!—disse Victor—por onde diabo vaes?
—Por aqui é o atalho—respondeu Ravasco.
—Deixemo-nos de atalhos agora de noite!
—Não tenha medo, patrão. O snr. não traz rewolver?—dizia e affoitava a parelha.
—Trago rewolver; mas...
—Então que medo tem?
—Não é medo de ladroens; é medo que esbarrondes a sege! Olha que o caminho vae já bater ahi n'uma charneca fechada, não vês? Volta para traz, bruto!
Damião Ravasco não respondeu. Levou impetuosamente os cavallos aos sacoens até entestal-os com um comoro eriçado de piteiras e socavado nas margens resvaladias, e saltou de golpe da almofada, quando as bestas se escabravam trepando á valla.{230}
Este abrupto salto, depois da pertinacia do cocheiro em fustigar os cavallos contra o vallado, incutiu em Victor Hugo a suspeita de estar em perigo de ser roubado pelo mulato. Instinctivamente arrancara do rewolver, quando o boleeiro saltou. E, no conflicto em que Damião arremettendo á sege, puchava de repellão pelas cortinas embreadas, Victor desfechou-lhe um tiro na face, e o segundo no respaldo da sege, porque o pulso lhe estalou e revirou-se na mão do mulato como se os ossos se deslocassem dos ligamentos estorcidos por uma tenaz.
E do mesmo impeto fincou-lhe na garganta a garra esquerda, e empuchou-o para fóra da sege.
Victor, escabujando de encontro aos raios da roda, rugia gritos de soccorro, luctando em balde para arrancar a mão ainda armada á torquez que lhe desarticulava o pulso.
O mulato remessou-lhe um joelho ao ventre, e disse-lhe n'um rouquejar de voz, mudada em bramido pela ferocidade da ira:
—Hasde saber quem sou, perverso ladrão! Sou o preto do conde de Baldaque. Dá-me seis tiros na cabeça antes que eu te corte a tua. Um já cá o tenho no rosto; se morrer delle, perdoo-te.
Á ultima palavra vociferou elle um rispido{231} regougo, coisa parecida ao soturno urrar da féra; e, no mesmo acto, arrancou da navalha espanhola já aberta entre a manga da jaleca e o braço, e cravou-lh'a através da garganta.
Era cadaver o insultador da condessa de Baldaque; mas o leão não desenterrára os gryphos aduncos das carnes do tigre morto.
A cólera recrudescia ao compasso da dôr atroz que lhe sangrava na cara. Levou a mão ao olho direito, e retirou-a empapada em sangue e humores. Receiou morrer, e este mêdo dava-lhe vertigens, e um raivar de demonio, cada vez que o sangue barbotando lhe tolhia a vista.
Talvez que a vingança ficasse áquem das raias da barbaridade, se Victor o não houvesse ferido mortalmente, como elle suppunha. Travou dos cabellos ao cadaver, e correu-lhe á volta do pescoço repetidos golpes até o degolar. Atirou para dentro da sege a cabeça, e deixou o restante no chão ensopado da sangueira.
Antes de repontar o sol, sege e cavallos estavam na cocheira do conde.
A cabeça de Victor Hugo foi submersa em álcool n'uma vasilha negra. E Damião Ravasco, entregue aos cuidados de Chistovão Tavares e d'um cirurgião, soffria a dolorosa anatomia{232} da extracção do olho direito e esquirolas da orbita correspondente.
Ai! elle não poderia mais vêr a cabeça de Victor Hugo José Alves senão com um olho!
Do apparecimento do cadaver descabeçado na Azinhaga das Cobras deve lembrar-se perfeitamente o leitor de Lisboa. Primeiro, disse-se que era uma victima das vinganças clandestinas dos carbonarios. Alguem pensou que fosse o administrador do concelho de Oeiras, que n'esse dia estava sadio e incolume em Cascaes namorando a grega. Outros, os mais sensatos, pediam a cabeça do sujeito para fazerem o seu juiso ácêrca da identidade da pessoa. A final soube-se quem era, por causa d'umas cartas de namoro que lhe encontraram na algibeira, dirigidas a Victor Hugo; mas tambem isto foi motivo a conjecturar-se que o auctor do Napoleon—Le petit, viera incognito a Lisboa, e o imperador dos francezes o mandára assassinar, decapitar, etc., etc. O que é certo é que muita gente, quando se disse que o descabeçado era o Victor, filho do Alves dos coiros, respondeu brutalmente: Foi bem feito.
Sarado da ferida, mas cego do olho, e esburacado no bordo inferior da orbita, Damião Ravasco, liquidado o trem da homicida façanha, fez-se ao mar e mais o official realista e{233} as filhas e os netos. Marselha era o itinerario prescripto pelo conde. Dirigiram-se á rua Camebiere, hotel des Empereurs.
Entraram juntos á sala privativa do conde. Damião ia na frente, sobraçando uma caixa de estanho, com argolas lateraes. Quando se defrontou com o conde e a condessa, ambos exclamaram espantados da tão differente cara de Ravasco:
—Que é isso!?—bradou o conde—Vens cego de um olho, Damião?
—E que profunda cicatriz elle tem na face!—disse a condessa.
—Que foi isso?—tornou o irmão.
—Este olho que me falta—respondeu Ravasco pousando o caixote sobre uma banca; e repetiu:—Este olho, que me falta, tirou-m'o um sujeito chamado Victor Hugo José Alves.
—Porque, meu Deus?—disse a condessa.
—É possivel!?—exclamou o conde—E tu...
—Eu sempre ouvi dizer ao meu mestre de latim: «olho por olho, dente por dente»—respondeu Ravasco;—mas, a fallar a verdade, não me accommodo com esta lei. Quem me tira um olho a mim ha de ficar sem dois, pelo menos.
E, dizendo, destapava a caixa de estanho. A condessa tremia convulsamente. O conde encarava-o estupefacto. O ex-brigadeiro e as{234} filhas e netos agrupavam-se á volta da condessa. E Damião continuou:
—Ora eu que não tinha vagar, nem a occasião era a melhor, para tirar os dois olhos ao sujeito que me tirou um, achei que o mais summario e seguro era cortar-lhe a cabeça. Eil-a aqui! Vejam se a conhecem!—disse o mulato, mostrando a cabeça tragica, mergulhada em espirito de vinho, no amplo frasco extraído da caixa.
A condessa parecia desmaiar nos braços do marido, exclamando em extrema afflicção:
—Jesus! que horror! que barbaridade!...
—Horror, sim, minha filha!—disse o conde—mas barbaridade... Não culpes Damião sem o escutar.
E Ravasco, aproximando-se da condessa, fallou serenamente:
—Eu tenho pouco que dizer em minha defesa, snr.ª condessa. Em Lisboa sahiu um folheto no qual se dizia que sua mãe roubava padeiros de quem era amazia...
—Silencio!—bradou o conde.
—Deixe defender-se o barbaro, snr. conde!—volveu Damião— N'esse folheto havia uma nota em que se dizia que o conde de Baldaque casára com uma aventureira. Se o snr. conde casasse com uma mulher perdida, eu não o vingaria, por entender que era justo{235} o castigo; mas como eu sei que V. Ex.ª era uma senhora honesta, entendi que devia cortar a cabeça d'onde sahiram os insultos a V. Ex.ª e a um homem que me chamou irmão. Não tenho mais que dizer. Cá levo a cabeça para lhe dar honrosa sepultura nos esgotos de Marselha.
E sahiu com o caixote debaixo do braço. Na sala era tetrico e profundo o silencio. Nem que aquillo fosse a cabeça de Holofernes, ou de Pompeu! E as lagrimas derivavam copiosas no rosto de Maria José.
Ó egregia alma, como essas lagrimas deviam ser abençoadas do soberano e inexprimivel Espirito que tão perfeita scintilla de sua divindade te bafejou no berço!{236}{237}