O Menino do Dedo Verde
Capítulo Oito
No qual Tistu tem um sonho horroroso, e o resultado disso
Não há a m enor dúvida. Tistu fazia a si m esm o m uitas perguntas. Até m esm o dorm indo.
Na noite da lição de ordem ele teve um terrível pesadelo. É claro que sonho é sonho, e não devem os dar aos m esm os um a im portância exagerada. Mas ninguém pode evitar os sonhos.
Ora, Tistu quando estava dorm indo, viu seu pônei Ginástico inteiram ente raspado e andando em roda entre altas paredes escuras. E, atrás dele, os puros-sangue groselha, tam bém de cabeça raspada, vestidos com roupas de listras e os pés enfiados em ridículas botinas, rodavam sem parar. De repente o pônei Ginástico, olhando à direita e à esquerda para verificar que ninguém o estava observando, tom ou um im pulso e deu um salto para transpor a grade, m as foi cair j ustam ente em cim a das pontas de ferro. Plantado lá em cim a, esperneava com seus quatro sapatos e relinchava de dor...
Tistu acordou sobressaltado, com a fronte banhada em suor e o coração aos pulos.
"Felizm ente isso não passa de um sonho, disse logo consigo m esm o. Ginástico está na cavalariça e os puros-sangue tam bém ."
Mas não conseguiu adorm ecer de novo.
"O que seria tão triste para cavalo deve ser ainda pior para gente, pensou ele. Por que tornarem tão feios aqueles pobres prisioneiros? Isso não pode aj udá-los a m elhorar... Tenho certeza de que, se m e fechassem ali, m esm o sem ter feito nada de ruim , eu acabaria m uito m au. Que será que a gente podia fazer para que eles sofressem m enos?"
Ele ouviu bater onze horas e depois m eia-noite, no cam panário de Mirapólvora.
E, de repente, um a ideiazinha com eçou a fazer--lhe cócegas bem no fundo da cabeça.
"E se a gente fizesse nascer flores para eles? A ordem ficaria m enos feia e os prisioneiros talvez se tornassem m ais com portados. Bem que eu podia usar m eu polegar verde! Vou falar com o Sr. Trovões..." Mas logo se lem brou que o Sr. Trovões ficaria todo verm elho. E lem brou-se tam bém do conselho de Bigode: não falar a ninguém do seu polegar verde.
"É preciso que eu faça isso tudo sozinho, sem ninguém saber."
Um a idéia que se instala em um a cabeça em breve se torna um a resolução. E um a resolução só nos deixa em paz quando a pom os em prática. Tistu percebeu que não poderia m ais dorm ir antes de executar o seu plano.
Saltou da cam a e procurou os chinelos. Um deles se escondera debaixo da côm oda, e o outro... o outro parecia rir-se dele, pendurado na m açaneta da j anela. Eis no que dá espalhar e j ogar os chinelos para o alto!
Tistu deslizou para fora do quarto; os espessos tapetes abafavam seus passos. Encam inhou-se devagarinho para o corrim ão e deixou-se escorregar pela barriga. Lá fora a lua estava cheia. Tinha as bochechas repletas de vento.
A lua gosta das pessoas que passeiam de noite. Logo que viu Tistu de cam isola branca no m eio do gram ado, aproveitou um a nuvem que passava perto para um a vasta polidela em seu rosto de prata.
"Se eu não tom ar conta deste garoto, pensou ela, vai acabar caindo num buraco!"
Reapareceu m ais brilhante que nunca, e dirigiu ainda um apelo a todas as estrelas da Via-Láctea, para que colaborassem com seus m ilhares de raios.
Assim protegido pela lua e as estrelas, Tistu, ora andando, ora correndo pelas ruas geladas, chegou sem obstáculo até a cadeia.
Ele não estava m uito tranqüilo, é claro, pois era a sua prim eira experiência.
"Queira. Deus que m eu polegar verde funcione direitinho! E que o Bigode não se tenha enganado!"
Tistu foi aplicando o seu polegar por toda parte que podia: no chão, no ponto em que a parede se encontrava com a calçada, nos buracos entre as pedras, ao pé de cada haste das grades. Fez um trabalho consciencioso. Não esqueceu nem m esm o as fechaduras do portão de entrada e a guarita onde o guarda dorm ia.
Quando acabou, voltou para casa, e logo ferrou no sono.
O criado teve até dificuldade para acordá-lo, no dia seguinte:
— Tistu precisar levantar!
O criado Carolo, creio que j á dissem os, falava com forte sotaque estrangeiro.
Tistu tinha um a pergunta na ponta da língua, m as faltou-lhe coragem para fazê-la. Felizm ente, não precisou esperar m uito tem po para conhecer o resultado do seu em preendim ento noturno.
Porque a cadeia... m eu Deus do céu! Um tiro de canhão dado pelo Sr. Trovões na praça central de Mirapólvora não teria feito m ais barulho. Im aginem o alvoroço de toda um a cidade diante de um acontecim ento igual! Im aginem o estupor dos m irapolvorenses (era assim que se cham avam os habitantes de Mirapólvora), ao descobrirem que a cadeia da cidade se transform ara em castelo de flores, palácio de m aravilhas!
Antes das dez horas j á a cidade inteira estava a par da fabulosa notícia. Ao m eio-dia, toda a população se encontrava reunida ante o grande m uro coberto de rosas e das grades transform adas em latadas.
Nem um a só j anela da cadeia, nem um a só grade que não houvesse recebido sua ração de flores! As trepadeiras subiam , enroscavam -se, e caíam de novo; os cactos, na parte superior dos m uros, substituíam por toda a volta as terríveis pontas de ferro.
O m ais curioso era talvez a guarita: a m adres-silva crescera tão depressa que o guarda ficara preso lá dentro. As plantas tinham tom ado o seu fuzil por estaca e bloqueavam a entrada. A m ultidão, boquiaberta, contem plava o guarda, resignado e pacífico, fum ando calm am ente o seu cachim bo, dentro de um verdadeiro caram anchão.
Ninguém podia explicar o m ilagre... Ninguém , salvo o j ardineiro Bigode, que tam bém veio espiar, m as voltou de bico calado.
Porém no dia seguinte, quando Tistu, de chapéu de palha, vinha ao seu encontro para a segunda aula de j ardim , Bigode o recebeu com estas palavras:
— Ah, você está chegando! Nada m au o golpe da cadeia... Para com eçar, até que é um belo com eço...
Tistu sentiu-se um pouco constrangido.
— Se não fosse o senhor eu nunca ia saber que tinha polegar verde — disse Tistu num a espécie de agradecim ento.
Mas Bigode não gostava de transbordam entos.
— Muito bem , m uito bem — replicou ele. — Mas você abusou da m adressilva. É preciso ter em m ente a aristolóquia. É um a trepadeira que dá bem , m as de folha escura. Na próxim a vez, insista m ais nos volúbeis, que dão um a nota de alegria.
Assim Bigode tornou-se "o conselheiro secreto de Tistu".