O Menino do Dedo Verde

Maurice Druon · Capítulo 8 de 22

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O Menino do Dedo Verde

Capítulo Seis

Onde Tistu recebe uma lição de jardim e descobre, ao mesmo tempo, que possui polegar verde.

 

Tistu pôs chapéu de palha para ir à aula de j ardim .

Era a prim eira experiência do novo sistem a. O Sr. Papai havia j ulgado m elhor com eçar por aí. Um a lição de j ardim , afinal de contas, é um a lição de terra, essa terra em que cam inham os, que produz os legum es que com em os e o capim com que os anim ais se alim entam , até ficarem bastante gordos para serem com idos...

A terra, tinha declarado o Sr. Papai, está na origem de tudo.

"Tom ara que o sono não venha!" — dizia Tistu consigo m esm o, a cam inho da aula.

O j ardineiro Bigode, prevenido pelo Sr. Papai, j á esperava o aluno na estufa.

O j ardineiro Bigode era um velho m acam búzio, de pouca conversa, e não lá m uito am ável. Um a extraordinária floresta, cor de neve, brotava-lhe entre o nariz e a boca.

Com o descrever os bigodes de Bigode? Um a das m aravilhas da natureza. Nos dias de vento, quando o j ardineiro passava de pá ao om bro, era um verdadeiro espetáculo: pareciam duas cham as que lhe saíssem do nariz para queim ar-lhe as orelhas.

Tistu bem que gostava do velho j ardineiro, m as tinha um pouco de m edo.

— Bom dia, Sr. Bigode — disse Tistu, tirando o chapéu.

— Ah! Você j á chegou... Vam os ver do que é capaz. Está vendo este m onte de terra e estes vasos? Você vai encher os vasos de terra e enfiar o polegar bem no m eio, para fazer um buraco. Depois ponha tudo em fila, ao longo do m uro. Então a gente coloca nos buracos as sem entes que quiser.

As estufas do Sr. Papai eram adm iráveis e dignas, em tudo, do resto da casa. Sob a proteção dos vidros cintilantes, m antinha-se, graças a um aquecedor, um ar úm ido e quente. Ali m im osas floresciam em pleno inverno, cresciam palm eiras im portadas da África, e cultivavam -se lírios pela sua beleza e j asm ins pelo seu perfum e. E até orquídeas, que não são belas nem cheiram , por um m otivo inteiram ente inútil para um a flor: a raridade.

Bigode era o senhor daquele recinto. Quando Dona Mam ãe, aos dom ingos, trazia as am igas para ver a estufa, ele postava-se à porta, de avental novo, tão am ável e falante quanto um cabo de enxada.

À m enor tentativa de acender um cigarro ou tocarem num a flor, Bigode saltava sobre a im prudente:

— Era o que faltava! Será que as senhoras querem sufocar e estrangular m inhas flores?

Tistu, ao realizar o trabalho que Bigode lhe confiara, teve um a agradável surpresa: esse trabalho não lhe dava sono. Ao contrário, dava-lhe um grande prazer. Ele achava que a terra tinha um cheiro gostoso. Um vaso vazio, um a pá de terra, um buraco com o dedo, e o serviço estava pronto. Passava-se logo ao seguinte. Os vasos iam -se alinhando rente ao m uro.

Enquanto Tistu prosseguia o trabalho com afinco, Bigode dava lentam ente um a volta pelo j ardim . E Tistu descobriu aquele dia por que é que o velho j ardineiro falava tão pouco com as pessoas: ele conversava com as flores.

Vocês com preendem facilm ente que depois de cum prim entar cada rosa de um ram o, cada cravo de um a touceira, j á não há voz que chegue para distribuir "Boa noite, m eu senhor!" ou "Bom apetite, m inha senhora!" ou "Saúde!" quando alguém espirra, — todas essas coisas, enfim , que fazem os outros dizerem : "Com o ele é bem educado!"

Bigode ia de um a flor a outra, preocupando-se com a saúde de cada um a.

— Então, rosa-chá, sem pre fazendo das suas! Guarda os botões escondido para fazê-los abrir quando ninguém espera... E você, trepadeira, está pensando que é a rainha da m ontanha, querendo fugir pelo alto dos caixilhos... Vej a se isso são m odos!

Em seguida, virou-se para Tistu e gritou-lhe de longe:

— Então, é para hoj e ou para am anhã?

— Um pouco de paciência, professor! Só faltam três vasos — respondeu Tistu.

Apressou-se em term inar e foi ao encontro de Bigode, na outra ponta do j ardim .

— Pronto, acabei.

— Bom , vam os ver — resm ungou o j ardineiro.

Voltaram devagarinho, porque Bigode aproveitava, ora para cum prim entar um a grande peônia pelo seu belo aspecto, ora para encoraj ar um a hortênsia a se tornar m ais azul... De repente, eles pararam im óveis, boquiabertos, estupefatos, fora de si.

— Será que eu estou sonhando? — disse Bigode, esfregando os olhos. — Você está vendo o m esm o que eu?

— Estou, Sr. Bigode.

Ao longo do m uro, ali m esm o, a poucos passos, todos os vasos que Tistu enchera haviam florescido em m enos de cinco m inutos!

Mas é preciso explicar: não se tratava de um a tím ida floração, hastes pálidas e hesitantes. Nada disso! Em cada vaso se avolum avam as m ais soberbas begônias. E todas form avam , alinhadas, um a espessa sebe verm elha.

— É inacreditável! — dizia Bigode. — É preciso pelo m enos dois m eses para begônias assim !

Um prodígio é um prodígio. Prim eiro, a gente o constata. Depois, procura explicá-lo. Tistu perguntou:

— Mas, se não se havia posto sem ente, Sr. Bigode, de onde é que saíram estas flores?

— Mistério, m istério... — respondeu Bigode.

Em seguida, tom ou bruscam ente nas suas m ãos calej adas a m ãozinha de Tistu.

— Deixe ver o polegar!

Exam inou atentam ente o dedo do m enino, em cim a e em baixo, na som bra e na luz.

— Meu filho — disse enfim , após m adura reflexão — ocorre com você um a coisa extraordinária, surpreendente! Você tem polegar verde...

— Verde! — exclam ou Tistu m uito espantado. — Acho que é cor-de-rosa, e até que está bem suj o! Verde coisa algum a!

Olhou seu polegar, m uito norm al.

— É claro, é claro que você não pode ver — replicou Bigode,. — O polegar verde é invisível. A coisa se passa por dentro da pele: é o que se cham a um talento oculto. Só um especialista é que descobre. Ora, eu sou um especialista. Garanto que você tem polegar verde.

— E para que serve isto de polegar verde?

— Ah! é um a qualidade m aravilhosa — respondeu o j ardineiro. — Um verdadeiro dom do céu! Você sabe: há sem entes por toda parte. Não só no chão, m as nos telhados das casas, no parapeito das j anelas, nas calçadas das ruas, nas cercas e nos m uros. Milhares e m ilhares de sem entes que não servem para nada. Estão ali esperando que um vento as carregue para um j ardim ou para um cam po. Muitas vezes elas m orrem entre duas pedras, sem ter podido transform ar-se em flor. Mas, se um polegar verde encosta num a, estej a onde estiver, a flor brota no m esm o instante. Aliás, a prova está aí, diante de você! Seu polegar encontrou na terra sem entes de begônia, e olhe o resultado! Que invej a que eu tenho! Com o seria bom para m im , j ardineiro de profissão, um polegar verde com o o seu!

Tistu não pareceu m uito entusiasm ado com a descoberta.

— Já vão dizer de novo que eu não sou com o todo m undo — resm ungou.

— O m elhor — replicou-lhe Bigode — é não falar nada com ninguém . Que adianta despertar curiosidade ou invej a? Os talentos ocultos, em geral, trazem aborrecim entos. Você tem o polegar verde, está acabado. Mas guarde para você, e fique em segredo entre nós.

E no caderninho de notas, entregue pelo Sr. Papai e que Tistu devia fazer assinar no fim de cada aula, o j ardineiro Bigode escreveu apenas:

"Este m enino revela boas disposições para a j ardinagem ."