O Menino do Dedo Verde
Capítulo Quatro
CAPÍTULO Q UATRO
No qual Tistu é mandado à escola, onde não fica.
Até os oito anos, Tistu não soube o que era escola. Dona Mam ãe, com efeito, tinha preferido com eçar em casa a instrução do filho, ensinando-lhe os rudim entos da leitura, da escrita e do cálculo. Os resultados, é preciso reconhecer, não eram m aus. Graças a belas figuras com pradas especialm ente, a letra A se instalara na cabeça de Tistu sob a aparência de um Asno, depois de um a Andorinha, depois de um a Águia. A letra B, sob a form a de um a Bota, de um a Bola, de um Balão etc. Quanto às contas, serviam -se de andorinhas pousadas nos fios dos postes. Tistu aprendera não som ente a som ar e a subtrair, m as chegava m esm o a dividir, digam os, sete andorinhas por dois fios... o que dava três andorinhas e m eia para cada fio. Com o' essa m eia andorinha podia equilibrar-se num fio, eis um outro problem a que todos os cálculos do m undo j am ais poderão explicar!
Quando Tistu atingiu os oito anos, Dona Mam ãe considerou sua tarefa term inada. Era necessário confiar Tistu a um professor de verdade.
Com praram pois para Tistu um belo avental de xadrez, botinas novas que lhe m achucavam os pés, um a pasta, um tinteiro preto com figuras j aponesas, um caderno de um a linha e outro de duas, e m andaram -no, acom panhado pelo criado Carolo, à escola de Mirapólvora, que gozava de excelente reputação.
Todo m undo esperava que um m enino tão bem vestido, com pais tão belos e ricos, e que sabia dividir e esquartej ar andorinhas, realizasse prodígios nas aulas.
Mas que decepção! A escola produziu em Tistu um resultado im previsível e lam entável.
Quando com eçava o lento desfile das letras que cam inham a passo pelo quadro-negro, quando com eçava a se desenrolar a m onótona corrente dos três--vezes-três, dos cinco-vezes-cinco, dos sete-vezes-sete, Tistu sentia um a coceira no olho esquerdo e logo caía no m ais profundo sono.
Não é que ele fosse burro ou preguiçoso, nem que estivesse cansado. Estava cheio da m aior boa vontade.
"Eu não quero dorm ir, eu não quero dorm ir", repetia Tistu consigo m esm o.
Pregava os olhos no quadro e colava os ouvidos à voz do professor. Mas sentia que a coceirinha estava chegando... Tentava, por todos os m eios, lutar contra o sono. Cantava bem baixinho um a bela canção que inventara:
Um quarto de andorinha...
Será a sua pata
ou será uma asinha?
Se fosse uma empada,
eu comia todinha!
Não adiantava. A voz do professor ia se transform ando num a canção de ninar; a noite descia sobre o quadro-negro; Tistu ouvia o teto cochichar: "Por aqui, por aqui, belos sonhos!", e a aula se- transform ava em aula de sonhar.
— Tistu! — gritava de repente o professor.
— Não foi de propósito, Professor — respondia Tistu, acordando num sobressalto.
— Isso não interessa. Repita o que acabo de dizer.
— Seis em padas... divididas por duas andorinhas ...
— Zero!
No prim eiro dia de aula Tistu voltou para casa com o bolso repleto de zeros.
No segundo dia, ficou de castigo por m ais duas horas, isto é, ficou m ais duas horas a dorm ir na aula.
Na tarde do terceiro dia, o professor entregou a Tistu um a carta para seu pai.
Na dita carta o Sr. Papai teve a desdita de ler estas palavras:
"Prezado Senhor, o seu filho não é com o todo m undo. Não é possível conservá-lo na escola."
A escola devolvia Tistu a seus pais.