O Menino do Dedo Verde
Capítulo Doze
No qual o nome de Mirapólvora se transforma.
Vocês pensam talvez que as pessoas grandes j á com eçassem a desconfiar de algum a coisa, fazendo este raciocínio tão sim ples: "É sem pre nos lugares em que Tistu passou na véspera que as flores m isteriosas aparecem . Logo, deve ser Tistu. Vam os vigiá-lo!"
Mas vocês pensam isso porque sabem que Tistu tinha polegar verde. As pessoas grandes, com o j á disse, têm idéias preestabelecidas e nunca im aginam que possa existir outra coisa além daquilo que j á sabem .
De vez em quando surge um cavalheiro que revela um pedaço do desconhecido. Com eçam por lhe rir na cara. Algum as vezes levam -no para a cadeia, porque ele perturba a ordem do Sr. Trovões. Mais tarde, quando descobrem que tinha razão e j á está m orto, erguem -lhe um a estátua. É o que se cham a um gênio.
Não havia em Mirapólvora aquele ano nenhum gênio que pudesse explicar o inexplicável. E a Câm ara Municipal se achava desatinada.
A Câm ara Municipal é com o a criada de um a cidade. Deve cuidar da lim peza das calçadas, determ inar os locais onde as crianças podem brincar, os m endigos pedir esm ola e os ônibus recolherem -se durante a noite. Nada de desordem . Sobretudo isso: nada de desordem .
Mas a desordem se instalara em Mirapólvora. Já não era possível prever, da noite para o dia, o local de um quarteirão ou de um j ardim . As flores subiam pela cadeia, escondiam as favelas, alastravam -se no interior de um hospital! Se um a Câm ara Municipal fosse inclinar-se diante de um a fantasia destas, um a cidade deixaria de ser um a cidade. Um a bela m anhã a catedral cism aria de transportar-se para outra praça, e os ônibus m udariam de percurso para respirar o perfum e dos cam pos, ou desceriam até o rio para refrescar-se um pouco...
Não, não e não! gritavam os vereadores de Mirapólvora, reunidos em sessão extraordinária.
Falava-se até em arrancar todas as flores.
O Sr. Papai pediu a palavra. O Sr. Papai era m uito ouvido na Câm ara. E deu provas, m ais um a vez, de decisão e energia.
— Meus senhores — disse ele — fazeis m al em zangar-vos. Aliás é sem pre perigoso zangar-se com aquilo que não se com preende. Nenhum de nós conhece as causas dessas florações repentinas. Arrancar as flores? Quem pode garantir que não brotem de novo? Por outro lado, som os forçados a reconhecer que essas florações são m ais úteis que nocivas. Já nenhum prisioneiro tenta fugir da cadeia. As favelas se transform aram num próspero bairro. As crianças do hospital estão todas sarando. Por que nos irritarm os? Coloquem os as flores na nossa j ogada e procedam os de m odo a com andar os acontecim entos em vez de irm os a reboque dos m esm os.
— Isso m esm o, isso m esm o, isso m esm o! — gritaram os vereadores. — Mas com o fazê-lo?
O Sr. Papai prosseguiu seu discurso:
— Eu vos proponho um a solução ousada. É preciso m udarm os o nom e da nossa cidade e passarm os a cham á-la, de agora em diante, em vez de Mirapólvora, Miraflores. Com sem elhante nom e, quem poderá se espantar com o fato de brotar flor por toda parte? E se am anhã o cam panário da igrej a se transform ar num a corbeille de antúrios, darem os a im pressão de ter previsto esse em belezam ento há m uito tem po em nossos planos de obra.
— Perfeito, bárbaro, genial! — urraram os vereadores, saudando o Sr. Papai com estrondosa salva' de palm as.
Assim , no dia seguinte, pois não havia tem po a perder, organizou-se um soberbo cortej o com todos os m em bros da Câm ara Municipal, precedidos pela banda de m úsica, por m eninos endom ingados conduzidos por dois padres, por um a delegação de avós que representavam a sabedoria, pelo Dr. Milm ales representando a ciência, por um j uiz representando a lei, por dois professores representando a literatura e por um oficial da reserva, uniform izado, representando o exército. Foram até à estação. Ali, sob as aclam ações da m ultidão em j úbilo, inauguraram a nova tabuleta, onde se lia em letras douradas: MIRAFLORES. Foi um grande dia.