O Menino do Dedo Verde

Maurice Druon · Capítulo 20 de 22

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O Menino do Dedo Verde

Capítulo Dezoito

No qual algumas pessoas grandes acabam renunciando às suas idéias estabelecidas

 

O Sr. Papai, com o vocês j á puderam constatar ao longo desta narrativa, era um hom em de rápidas decisões.

Foi-lhe preciso, no entanto, um a sem ana inteira para refletir sobre a situação e enfrentá-la.

Cercado de seus m elhores engenheiros, reuniu vários conselhos de direção, nos quais o Sr. Trovões tom ou parte. Depois fechou-se sozinho no seu escritório e passou horas e horas com a cabeça entre as m ãos. Tom ou um a porção de notas. Mas rasgou tudo.

Em sum a, a situação se resum ia nisto: Tistu tinha polegar verde, usara o polegar verde, e parara, com o polegar verde, a fábrica de Mirapólvora.

Porque, com o era de esperar, os m inistros da guerra e os generais que se abasteciam norm alm ente em Mirapólvora haviam logo retirado seus pedidos:

— É m elhor a gente recorrer a um florista! — diziam eles.

Havia, evidentem ente, um a solução, que ocorreu a m uitas pessoas destituídas de im aginação: trancar Tistu na cadeia, porque ele sem eava a desordem , e com unicar pela im prensa que o m alfeitor j á não estava em condições de agir. Em seguida, depois de substituir por canhões com uns os canhões floridos, com o exigia a j ustiça, rem eter um a circular a todos os generais, inform ando-lhes que a m anufatura retom ava a fabricação de outrora.

Mas o Sr. Trovões... sim , até o Sr. Trovões se opôs a sem elhante solução.

— Não se levanta facilm ente de um a queda com o essa! — disse ele sem gritar. — A desconfiança irá pairar m uito tem po sobre os nossos produtos. E fechar Tistu na cadeia não adianta nada. Fará brotar carvalhos, cuj as raízes derrubarão as paredes, perm itindo-lhe a fuga. A gente não se pode opor às forças da natureza.

Com o o Sr. Trovões m udara! Suas orelhas, desde o dia da queda no salão, haviam em branquecido, e sua voz se acalm ara. E depois (por que não dizê-lo?) o Sr. Trovões não suportava im aginar Tistu em uniform e de forçado, andando em roda, em bora num a cadeia florida. A prisão é dessas coisas que a gente encara tranqüilam ente para as pessoas que não conhecem os. Mas logo que se trate de um m enino de quem a gente gosta, é tudo diferente. Pois está aí um a coisa que ninguém esperava: O Sr. Trovões, apesar das suas arengas, dos seus zeros, da sua bofetada, logo que ouviu falar em prisão, descobriu que gostava de Tistu, que se afeiçoara a ele, que não suportaria deixar de vê-lo. São assim m uitas vezes as pessoas que falam grosso.

Aliás o Sr. Papai ter-se-ia oposto, em qualquer hipótese, à prisão de Tistu. O Sr. Papai era bom , com o j á disse. Era bom e era negociante de canhões. À prim eira vista, isso não parece com patível. Adorava seu filho e fabricava arm as para levar a orfandade aos filhos dos outros. Isso acontece m ais do que se pensa.

— Nós tínham os conseguido dois sucessos — disse ele a Dona Mam ãe. — Fabricávam os os m elhores canhões e fazíam os de Tistu um m enino feliz. Parece que as duas coisas j á não podem coincidir.

Dona Mam ãe era suave, bela e bondosa. Um a pessoa encantadora. Escutava sem pre com o m aior interesse, e m esm o com adm iração, as palavras do m arido. Desde o triste caso da guerra dos Voulás ela se sentia um pouco culpada, sem saber exatam ente por que m otivo. As m ães se j ulgam sem pre um pouco culpadas quando os filhos perturbam a vida das pessoas grandes e correm o risco de sofrer as conseqüências.

— Que fazer, m eu caro, que fazer? — respondeu ela.

— O que m e preocupa é tanto o destino de Tistu quanto o da fábrica — prosseguiu o Sr. Papai. — Nós tínham os um a idéia quanto ao futuro do m enino: im aginávam os que iria suceder-m e na fábrica, com o eu sucedera a m eu pai. Ele tinha todo o seu cam inho traçado, fortuna, consideração...

— Era um a idéia estabelecida — disse Dona Mam ãe.

— Sim , um a idéia estabelecida e bem côm oda. Agora, precisam os estabelecer um a outra. Esse m enino não sente gosto pelas arm as, parece evidente.

— Dir-se-ia que sente inclinação pela horticultura...

O Sr. Papai se lem brou das palavras do Sr. Trovões: "A gente não se pode opor às forças da natureza..."

"É claro que nada podem os contra essas forças, refletia o Sr. Papai; m as podem os pô-las a nosso serviço."

Ele se levantou, deu três passos pela sala, voltou-se, e puxou as pontas do colete.

— Minha cara esposa — disse ele — eis a m inha decisão.

— Tenho a certeza de que é a m elhor — disse Dona Mam ãe com os olhos m arej ados de lágrim as, porque o rosto do Sr. Papai tinha naquele instante algum a coisa de heróico, de com ovente, e seus cabelos brilhavam com o nunca.

— Nós vam os — declarou ele — transform ar a fábrica de canhões em fábrica de flores.

Os grandes hom ens de negócio têm o segredo dessas viravoltas repentinas, desses inesperados arrancos em face de um a situação adversa.

Puseram im ediatam ente m ãos à obra. O sucesso foi fulm inante.

A batalha a tiros de violetas e m iosótis fizera correr m uita tinta pelo m undo. A opinião pública j á estava preparada. Todos os acontecim entos precedentes, as m isteriosas florações e até m esm o o nom e da cidade, Miraflores, tudo concorreu para o rápido desenvolvim ento da nova em presa.

O Sr. Trovões, a quem foi confiada a publicidade, fez estender pelas estradas da redondeza im ensas faixas, onde se lia:

"Plantai flores que crescem numa noite."

Ou então:

"As flores de Miraflores crescem até sobre o aço."

Mas seu m elhor "slogan" foi sem dúvida:

"Dizei não à guerra, mas dizei-o com flores."

Os clientes afluíram , e a Casa-que-Brilha recuperou a antiga prosperidade.