O Menino do Dedo Verde
Capítulo Dezessete
No qual Tistu corajosamente denuncia a si próprio.
Há silêncios que despertam . Tistu saltou da cam a aquela m anhã porque a grande sirene não tocou. Foi à j anela. A fábrica de Mirapólvora estava parada; as nove cham inés não fum egavam .
Tistu correu ao j ardim . Sentado em seu carrinho de m ão Bigode lia o j ornal, coisa que raram ente acontecia.
— Ah, você está aqui! — exclam ou ele. — Em m atéria de trabalho bem feito, não podia ter sido m elhor. Nunca teria im aginado que fosse tão bem sucedido!
Bigode irradiava alegria. Ele beij ou Tistu, isto é, envolveu-lhe a cabeça com seus bigodes.
Depois, com a ligeira m elancolia dos hom ens que term inaram sua tarefa, Bigode acrescentou:
— Já não tenho m ais nada a lhe ensinar. Você sabe m ais do que eu, e anda m ais rápido.
Vindo de um m estre com o Bigode, esse elogio aqueceu o coração de Tistu.
Do lado das cavalariças, Tistu encontrou Ginástico.
— Que m aravilha! — soprou-lhe Tistu na orelha bege. — Fiz parar, com flores, um a guerra...
O pônei não pareceu nada surpreso.
— Por falar nisso — respondeu ele — gostaria m uito de um feixe de trevo branco. É o que prefiro para alm oço, e cada vez há m enos pêlo cam po. Pense nisso, Tistu, quando houver tem po.
Essas palavras m ergulharam Tistu num a grande estupefação. Não porque o pônei tivesse falado... isso j á o percebera há m uito... m as porque o pônei m ostrava saber que ele tinha o polegar verde.
"Felizm ente Ginástico não fala com ninguém , além de m im ", disse Tistu consigo m esm o.
E voltou, pensativo, para casa. Aquele pônei, via-se bem , sabia m uita coisa.
Na Casa-que-Brilha as coisas não iam com o de costum e. Prim eiro, fato indiscutível, os vidros j á não brilhavam tanto. Am élia não cantava m ais diante do forno: "Tu não te lembras da casinha pequenina...", sua canção predileta. O criado Carolo j á não polia o corrim ão.
Dona Mam ãe estava de pé desde as sete horas, com o nos dias de viagem . Tom ava o café com leite na sala de j antar; ou m elhor, o café com leite estava diante dela, e ela não tocava na xícara. Mal viu Tistu atravessar a sala.
O Sr. Papai não fora ao escritório. Achava-se na sala de visitas em com panhia do Sr. Trovões, e am bos andavam a passos largos, de m odo descontrolado, tanto que às vezes esbarravam um no outro e às vezes davam -se as costas. Sua conversa rugia com o se fosse um a tem pestade.
— Um a ruína! Um a desonra! Só resta fechar! Quanto desem prego! exclam ava o Sr. Papai.
E o Sr. Trovões respondia com o o eco de um trovão rolando pelas nuvens:
— Conspiração... Sabotagem ... Atentado pacifista...
— Ah, m eus canhões, m eus lindos canhões! — prosseguia o Sr. Papai.
Tistu, no lim iar da porta entreaberta, não ousava interrom pê-los.
"Eis com o são as pessoas grandes, dizia consigo m esm o. O Sr. Trovões m e afirm ava que todo m undo era contra a guerra, m as que era um m al inevitável, contra o qual não se podia fazer coisa algum a. Eu acabo de im pedir um a guerra. Eles deviam estar contentes, em vez de se zangarem !"
O Sr. Papai, esbarrando de novo no om bro do Sr. Trovões, gritou, fora de si:
— Ah, se eu apanhasse o m iserável que foi sem ear flores nos m eus canhões!
— Ah, se eu tam bém o agarrasse! — respondia o Sr. Trovões.
— Mas talvez não haj a nenhum responsável... Forças superiores...
— É preciso abrir um inquérito. É um caso de alta traição!
Tistu, vocês j á sabem , era um m enino coraj oso. Abriu a porta, e colocou-se debaixo do grande lustre de cristal, no centro do tapete de guirlandas, defronte ao retrato do Sr. Avô. Tom ou respiração, e disse:
— Fui eu que sem eei flores nos canhões!
Em seguida, fechou os olhos, esperando o tapa. Com o o tapa não veio, abriu de novo as pálpebras.
O Sr. Papai tinha estacado num canto do salão e o Sr. Trovões no outro. Eles olhavam Tistu, m as parecia que não o estavam vendo. Seria o caso até de perguntar se tinham ouvido e com preendido.
"Não estão acreditando", pensou Tistu. E, para confirm ar sua confissão, enum erou suas proezas, com o quem dá a solução de um a charada:
— Os volúbeis na favela, fui eu! A cadeia, fui eu! O edredom de pervincas para a m enina doente, fui eu! E o baobá na j aula do leão, fui eu tam bém !
O Sr. Papai e o Sr. Trovões continuavam a brincar de estátuas. A idéia de Tistu florista a dom icílio não lhes podia entrar na cabeça. Tinham j ustam ente a cara de que iam abrir a boca para declarar: "Pára de dizer tolices e deixa as pessoas grandes em paz!"
"Pensam que estou m e gabando, pensou Tistu. É preciso que lhes prove a verdade."
Aproxim ou-se então do retrato do Sr. Avô. Sobre o canhão que servia de apoio ao venerando fundador da Manufatura de Mirapólvora, encostou o polegar e o m anteve ali alguns segundos.
A tela estrem eceu ligeiram ente, e viu-se brotar da boca do canhão um a haste de j unquilho, que deu prim eiro um a folha, depois outra, e em seguida as cam pânulas brancas.
— Pronto! — disse Tistu. — Eu tenho polegar verde.
Ele esperava que o Sr. Trovões ficasse escarlate e o Sr. Papai todo branco. Mas foi o contrário.
O Sr. Papai deixou-se cair num a poltrona, com o rosto cor de púrpura, enquanto o Sr. Trovões, pálido com o cera, tom bava no tapete.
Diante deste duplo espetáculo Tistu com preendeu que fazer brotar flores dentro dos canhões perturbava profundam ente a vida das pessoas grandes.
Saiu do salão com o rosto intacto, o que prova que a coragem é sem pre recom pensada.